
Batemos um papo com o vocalista Flávio Gonçalves, vocalista da banda Dark Tower, que está promovendo seu segundo álbum, “Eight Spears”. O grupo carioca demonstra profissionalismo fora do comum, força de vencer e o mais importante, que ainda tem muita lenha para queimar. Confira!
Por William Ribas
Fotos gentilmente cedidas pela banda
Metal Na Lata: Como surgiu a banda e como foram os primeiros anos?
Flávio Gonçalves: Saudações, William e leitores do Metal na Lata! Agradecemos muito ao seu espaço, e parabéns pelo trabalho! O Dark Tower surgiu como um projeto, depois de R. Ferreira ter saído de nossa antiga banda, o Belial War. Ele começou a compor este material e trabalhar estas ideias. Quando ele me apresentou parte do trabalho, eu aprovei e aceitei o convite, de ingressar na empreitada. Os primeiros dois anos, foram somente de composição. Fechamos um line-up para ensaio, mas ainda algo com pouca consistência. Ter banda é algo que exige dedicação, assim como todas as coisas sérias da vida. Infelizmente, muitas pessoas não entendem muito bem esta parte. Somente em 2008, chegamos a uma fórmula consistente. Entramos em estúdio e gravamos nosso primeiro EP, “Specters’ Arrival”, que obteve uma excelente resposta e nos alavancou ao status de banda revelação, onde fizemos vários shows locais e até fora do nosso Estado, o que acabou rendendo a convocação para o cast do Wacken Metal Battle de 2009, onde fomos escolhidos pela seletiva do RJ, para a final nacional. Resumindo, os primeiros anos da banda, depois do fechamento de uma formação estável, foi um momento que proporcionou muito crescimento ao Dark Tower, e fez com que o nosso nome ficasse conhecido no país inteiro.
Metal Na Lata: Qual o significado por trás do nome da banda?
Flávio Gonçalves: Este nome foi uma sugestão minha. É um nome de fácil assimilação, que representa bem a nossa proposta artística e sonora. Assim, nomeamos a nossa banda. Ainda que muitas pessoas perguntem, o nome não é inspirado nas obras de Stephen King, ainda que sejamos apreciadores da bibliografia do autor.
Metal Na Lata: “Eight Spears” traz consigo, peso e brutalidade, algo mais Death/Black Metal, trazendo o caos primordial para o estilo e colocando a melodia “de lado”. Foi algo proposital ou apenas aconteceu no momento que estavam compondo?
Flávio Gonçalves: Foi um processo natural. Nós apreciamos muito a música com um aspecto brutal, e foi algo que reflete exatamente o momento em que compusemos o álbum. Porém, sobre a melodia, não considero que ela tenha ficado em segundo plano. E sim, que notoriamente “Eight Spears” é mais cru, em essência, do que “…of Chaos and Ascension”, mas mantém uma identidade DarkTower de ser. Os ingredientes de nossa Música estão todos nele, por assim dizer.
Metal Na Lata: O final do primeiro álbum, com a faixa título “…Of Chaos and Ascension”, é de um verdadeiro primor de qualidade. Esse fechamento de forma calma e cheio de melodia deixa em aberto o prosseguimento a ser concluído com “Eight Spears”, que veio mais brutal, mas que assim como o seu antecessor, termina de maneira mais serena. Como é ter dois trabalhos distintos, mas que se completam ouvindo um na sequência do outro?
Flávio Gonçalves: O trabalho é uma continuidade. Você captou a ideia que passamos, ainda que tenha sido feito de forma subjetiva. Visualizar as coisas atrás do véu é a nossa maior descoberta e objetivo.
Metal Na Lata: Como anda a repercussão de “Eight Spears”, perante aos fãs e a mídia especializada?

Flávio Gonçalves: A repercussão está sendo muito boa, a exemplo dos nossos outros trabalhos. Tivemos várias resenhas bem positivas, rádios mundo afora solicitando permissão para executar músicas nossas em programas especializados e muitos compradores solicitando material. Nós ficamos muito satisfeitos com toda esta repercussão. Agradecemos muito a todo este apoio cedido ao nosso trabalho.
Metal Na Lata: A divulgação de “Eight Spears” anda a todo vapor, com shows em várias partes do Brasil e mesmo não sendo algo corriqueiro, estão conseguindo cair na estrada. É possível um dia que possamos sonhar em ver as nossas bandas excursionando todos os dias e não apenas esporadicamente?
Flávio Gonçalves: Nós podemos dizer que fazemos parte de uma esfera privilegiada do Underground, que são as bandas que conseguem, ainda que com todas as adversidades que o nosso gênero contempla, viajar e divulgar o nosso trabalho. Somos muito gratos, por este motivo. Sobre a possibilidade das bandas se apresentarem durante a semana, isto parece fazer parte de um universo intangível, mas não deveria. Tudo é muito simples. A partir do dia que o Headbanger brasileiro entender que a presença nos eventos, a compra de merchandising e outros fatores são determinantes para fazer acontecer o nosso estilo de vida, a passar a ser um fator de aquecimento da economia, seremos vistos com outros olhos. A grande verdade é que estamos envelhecendo, e não estamos dando continuidade a este legado da forma que a nossa Cultura merece. Não há um oxigênio, um respiro jovial, tanto no que tange o surgimento de novos baluartes do estilo ou o próprio apreciador do estilo. O que considero uma pena, pois com esta linha de pensamento, o Rock/Metal ficará cada vez mais à margem da sociedade, pois não tem população suficiente para manter o estilo vívido e aquecido. De fato, somos sobreviventes, e precisamos fazer algo a respeito, para revertermos este fatídico quadro. Ao meu ver, infelizmente, estamos respirando com a ajuda de aparelhos.
Metal Na Lata: Algo inesperado aconteceu com a banda em um dos seus shows nesse ano. O baixista Rodolfo Ferreira tocou bateria no lugar do Jean Secca, o que houve?
Flávio Gonçalves: J. Secca não faz mais parte do Dark Tower. Infelizmente, ele é alguém que diverge muito do que se diz respeito às diretrizes do nosso trabalho, musical e administrativamente falando. É mandatório, para todos os integrantes da banda, que ela seja levada com seriedade e afinco. Nossa visão de banda diz que ele ficava aquém do esforço individual e coletivo dos demais membros. Tínhamos um compromisso firmado em Nova Friburgo, na época. Optamos por cumprir nossa agenda com esta formação (R. Ferreira na bateria e R. Pirozzi no baixo). Não importa o que aconteça. Sempre teremos a motivação necessária para honrarmos nossos compromissos, não importando o esforço que tenhamos que fazer. Quanto à vaga deixada, prontamente recrutamos, Rômulo Grilo, para completar a nossa equipe. Estamos muito satisfeitos e orgulhosos do trabalho que ele vem apresentando, desde então!
Metal Na Lata: Como conheceram o Rômulo?
Flávio Gonçalves: Ele é recomendação de um velho conhecido, o baterista Marvin Tabosa. Logo após o cargo ter vagado, entramos em contato com o Rômulo, explicamos as demandas do nosso trabalho e fizemos o convite para o teste. Desde então, com as conversas que se desenvolveram, já sabíamos que ele seria o músico ideal para integrar o nosso time.
Metal Na Lata: É complicado e infelizmente estar numa banda é como estar num casamento com seus momentos altos e baixos, e para funcionar tem que estar 100% disposto.
Flávio Gonçalves: Na verdade, eu acredito que exista uma fórmula muito simples, para o bom funcionamento do projeto. Temos cronograma, metas, funções e responsabilidades pontuais que cada um deve prestar contas. O trabalho aqui não para. Não pensamos na banda apenas na hora do ensaio, ou de composição. Os momentos bons serão a equação de todo o esmero que se imprime a isso. É preciso ter muita paixão envolvida, pois vivemos num país que o Rock/Metal não recebem a devida atenção, por diversos fatores. Se esta vontade não for inabalável, a desistência é certa!
Metal Na Lata: Hoje vivemos em um mundo caótico cercado de corrupção e, de certo modo, bastante individualista cheios de massacres diários e intolerâncias. Tudo isso acaba virando inspiração para escrever músicas. Como é passar toda essa realidade para a música? Olhar e ver que cada vez mais cavamos nossa própria cova.
Flávio Gonçalves: Para nós é algo bem espontâneo. Costumamos canalizar nossa ira em formato de música. É dessa forma que fazemos.
Metal Na Lata: Saindo um pouco da música, a banda tem sua própria marca de cerveja. Quando surgiu a ideia de expandir para esse ramo?
Flávio Gonçalves: Entendemos que os nossos apoiadores nos perguntavam bastante, quando iríamos fazer uma cerveja do Dark Tower. Visto que existia uma procura, decidimos, no ano passado, fechar uma produção com a Metal Beer, do Davi Hermsdorff, e lançamos dois tipos com ele: Blood Harvest (Red Ale). Fizemos um lançamento oficial num show, e foi um sucesso. Esgotamos nossa produção em poucos minutos. Depois, fizemos a Eight Spears (Pale Ale), que veio para ter uma produção sazonal. Mais recentemente, assumimos a parceria com a Mamute Malte, do Emmanuel Ivan, e lançamos uma Ruby Weiss (Lord ov the Weiss Lands).

Metal Na Lata: E tendo em vista que hoje as vendas de cds caíram bastante, ter esse diferencial ajuda muito a banda.
Flávio Gonçalves: Nós temos um merchandising bem variado! O fã sempre acaba levando algo, e contribuindo com o nosso projeto. Isso é muito gratificante para nós!
Metal Na Lata: O Rio de Janeiro vem novamente se tornando rota obrigatória para shows de médio e grande porte e com isso colocando novamente um bom público nas apresentações, fora o crescimento da cena local com novas bandas trazendo renovação. O que se deve essa virada de jogo?
Flávio Gonçalves: Não é de hoje que o Rio de Janeiro se apresenta bastante prolífico, no que se diz respeito a ser um poderoso celeiro de surgimento de novas bandas. Porém, vale ressaltar que isso não é restrito apenas ao nosso Estado. Dia após dia, surgem bandas com trabalhos relevantes, em qualquer lugar do nosso país. Quanto à questão dos eventos, trabalhamos com afinco para que o cenário respire. Apesar de sermos céticos em se tratando de união, de uma forma bem mais abrangente, procuramos, como banda, ter uma consciência individual baseada na coletividade. Tentamos ser a mudança que precisamos, em nosso cenário. Atitudes valem muito mais do que palavras, e acredito que muitas pessoas estejam enxergando isso. Talvez, está reviravolta que você citou, ainda que para mim seja aquém do que deveria ser, esteja diretamente relacionada a estas atitudes. Consequentemente, alguns produtores voltaram a ver o Rio de Janeiro como era antigamente, investindo novamente no potencial do público carioca.
Metal Na Lata: Em abril passado, o Dark Tower tocou com a lenda do Death Metal, Pestilence e com os belgas do Carnation. Como foi o show e qual é a importância de tocar com uma lenda do estilo?
Flávio Gonçalves: Estávamos todos um pouco ansiosos, dias antes. Foi o show de estreia do nosso novo baterista, R. Grilo. Mas tudo deu muito certo. Agradecemos demais à nossa equipe, que deu todo o suporte para que fizéssemos o melhor, em cima do palco. Sobre a abertura, foi uma ótima experiência. O público foi muito receptivo e os gringos curtiram muito o nosso trabalho, elogiaram muito a nossa apresentação. Com toda essa equação listada, verificamos que estamos no caminho certo, e isso nos deixa ainda com mais sangue nos olhos, para o cumprimento dos nossos objetivos!
Metal Na Lata: Agora em 2018, a banda completa 10 anos de sua fundação. Alguma chance de termos a Demo “Specters Arrival” e os EP’s “Lord ov the Vastlands” e “Retaliation”, relançados em um pacote especial para os fãs? Ou há alguma outra surpresa para comemorar essa primeira década?
Flávio Gonçalves: Não é fora de cogitação. Porém, estamos com alguns planos bem concretos para este ano e precisamos trabalhar com este foco.
Metal Na Lata: Para quando podemos esperar o sucessor do “Eight Spears”?
Flávio Gonçalves: Se tudo der certo, segundo semestre de 2019.
Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista e espaço final é todo seu.
Flávio Gonçalves: Agradeço a você William e a toda a equipe do Metal na Lata pelo espaço cedido, e um grande abraço aos leitores! A gente se vê na estrada!
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