Entrevista exclusiva com Kamala (Thrash Metal)

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Como se não bastasse tocar um Thrash Metal de qualidade, o Kamala ainda resolveu trazer elementos orientais, mantras e temáticas otimistas em suas letras. Partindo para a quinta turnê europeia, a banda acaba de lançar seu quinto disco, recebendo críticas positivas mundo afora e arrancando euforia de alguns fãs. Conversamos com o trio de Campinas (SP) sobre a sonoridade que a banda vem executando, o processo de criação do novo álbum e um pouco da história dessa banda tão consagrada no cenário nacional.

Por Victor Augusto
Fotos gentilmente cedidas pela banda

Metal na Lata: O novo disco, ”Eyes of Creation”, aparenta tratar de letras que nos fazem entender um pouco mais sobre nossa existência diante do mundo em que vivemos. Qual a mensagem que vocês quiseram repassar?

Raphael: É um álbum com uma visão muito positiva, onde hoje em dia muitas pessoas vivem reclamando demais, sempre arrumando desculpas/justificativas, e a vida é mais simples do que essas pessoas fazem parecer. Acredito que estamos aqui para aprender e evoluir!

Allan: O mundo está tão caótico e dividido ultimamente. Acreditamos que precisamos passar uma mensagem positiva por trás de tudo isso, o metal sempre foi sobre união das pessoas, ajudar o camarada a se levantar quando ele cai.

Metal na Lata: Como foi o processo de composição de “Eyes of Creation”?

Raphael: Foi extremamente fluido, natural e até por isso, é uma das justificativas do nome do álbum. Quando estamos criativos, é um sinal que o nosso chakra do terceiro olho está equilibrado.

Metal na Lata: De “Mantra” (2015) pra cá, a banda conta somente com um guitarrista na formação, fato que deu uma sonoridade nova a banda. Como foi adaptar o som a uma guitarra só tanto no estúdio, quanto ao vivo?

Raphael: Falando a princípio do “Mantra” e do “Eyes Of Creation”, foi super tranquilo e um belo de um exercício, pois nas composições e gravações, não existem harmonias e arranjos de duas guitarras, se terá somente uma ao vivo, terá somente uma linha de guitarra no álbum. Claro que eu gravo mais de uma guitarra para tudo, para deixar o som mais cheio, mas nunca fazendo arranjos, com isso a composição de baixo e batera fica mais rica também, pois não podemos deixar o som ficar “vazio” ou “cair” quando entram os solos. Já para as musicas antigas, tivemos que pensar bem nos arranjos, mas foi algo muito desafiador e divertido! Antes tocávamos em drop B, ou drop A, e quando virou apenas uma guitarra, subi a afinação para drop D, e isso deixou uma cara mais “Thrash”. O legal que a galera comentava que a banda estava soando mais pesada com uma guitarra do que quando tinha duas.

Metal na Lata: As linhas de baixo sempre foram algo bem presente nos discos anteriores e não se limitavam a sempre a seguir as guitarras e bateria. Isso foi um fator que ajudou nessa adaptação?

Allan: Gostamos de reproduzir no CD aquilo que tocaríamos ao vivo, algo mais direto e o baixo precisa preencher bem o som quando se trata de um “power-trio”. No “Eyes of Creation”, tivemos mais tempo pra trabalhar o baixo e a guitarra em conjunto e fluiu tudo muito naturalmente. Ficamos bem felizes com o resultado pra esse álbum!

Metal na Lata: Estevan Furlan (ex-baterista) anunciou o afastamento da banda por problemas de saúde devido aos anos de intensa atividade na bateria. Como se deu a escolha de Isabela Moraes para essa substituição e como foi a contribuição dela no novo disco?

Raphael: Quando o Estevan se lesionou seriamente dias antes de embarcamos para nossa quarta turnê europeia…foi algo que chocou a gente e foi nessa que a Isabela nos salvou e chamou a responsabilidade de tirar todo o setlist da turnê em menos de um mês. O pessoal de lá já conhecia ela, pois ela já tinha acompanhando a banda em outra turnê, dando uma força no merchandise, equipamentos, luz e tudo mais, então quando comunicamos da lesão do Estevan e que ela assumiria as datas, foi algo que gerou uma grande curiosidade. E mais do que apenas cumprir toda turnê, não poderíamos abaixar o nível da banda. E ela fez um trabalho simplesmente INCRÍVEL com todo o pouco tempo de preparo, o público, bandas e organizadores acolheram muito bem ela e também se mostraram solidários com o Estevan. Voltando da turnê, ela ficou cobrindo por quase 1 ano os shows da banda, quando vimos que o Kamala e o Estevan seguiríamos caminhos diferentes, nem cogitamos fazer testes ou algo do tipo, foi totalmente natural oficializar ela na banda. Ela chegou com todas as musicas já gravadas na guitarra, baixo e vocais, mas mesmo entrando nessa fase final, contribuiu com ótimos arranjos e grooves, que encaixaram muito bem nos novos sons!

Metal na Lata: Raphael Olmos sempre foi o principal vocalista, porém a partir de “Mantra” houve bastante divisão de vocais com outros membros. Agora em “Eyes of Creation” essas alternâncias estão mais consolidadas com o Allan Malavasi (baixo) e chegou num patamar bem elevado. Como foi esse processo?

Raphael: O lance de dividir os vocais é algo muito legal para nós e para os ouvintes, pois deixa o álbum mais dinâmico, menos enjoativo, com mais camadas…e com isso ao vivo, todos da banda tem seus momentos para conectar com a galera. Para o “Eyes of Creation”, tivemos muito mais tempo para trabalhar essas divisões e até mesmo as melodias nos vocais, conseguimos pensar mais em refrões e não apenas dividir o que cada um iria cantar, e sim fazer linhas de vocais que se complementam. Também concordo que conseguimos elevar o patamar nesse ponto, e assim tem que ser para o próximo álbum também.

Allan: Foi um processo bem natural, eu já fazia vocal em outras bandas anteriores e o Rapha e o Estevan na época do “Mantra” já estavam com a ideia de alternar vocais e deu certo! Meu timbre e o do Raphael são bem diferentes um do outro e funciona de maneira bem distinta. No “Eyes of Creation”, foi bem legal o processo de vocais, pois não foi um lance “você faz isso e eu faço aquilo”. Parecia que cada um sabia a parte em que cada vocal se encaixaria melhor.

Metal na Lata: O EP “Consequences Of Our Past – Vol 1” (2017) apresentou regravações dos três primeiros discos, que originalmente tinham dois guitarristas. A ideia desse álbum foi dar essa “roupagem” nova da banda ao som antigo ou oferecer uma produção/gravação mais moderna?

Raphael: A ideia foi registrar as musicas antigas na pegada que estávamos fazendo nos shows atuais, para que o fã tenha um registro com ótima qualidade e ao mesmo tempo o mais próximo possível do que fazemos no show. Vi um artigo do Kiko Loureiro (Megadeth, Angra) onde ele falava de regravações, por que um software pode ter atualizações e a música não? E conversei isso com a banda e adoraram a ideia! Gravamos tudo em apenas 2 dias. E são duas músicas de cada um dos 3 primeiros álbuns (Kamala “2007”, Fractal “2009” e “The Seven Deadly Chakras “2012”).


Metal na Lata: Acredito que existe plano para um “Volume 2” desse EP, certo?

Raphael: Com certeza! Não só “Volume 2”, mas sim vários volumes…tem bandas que gostam de lançar covers, por que não lançar covers de nós mesmos?! O tempo vai passando, vamos evoluindo, ficando mais “rodados” e maduros. Isso sem dúvida reflete positivamente na nossa arte.

Metal na Lata: Em maio, o Kamala embarca para mais uma turnê na Europa, dessa vez para divulgar o “Eyes of Creation”. Vocês já têm um público fiel ou cada passagem por essas terras é sempre uma recepção diferente?

Allan: Com certeza um pouco de ambos! Até mesmo quando se trata de uma cidade em que já tocamos, sempre aparecem novas pessoas e é sempre uma experiência única! O pessoal é bem comunicativo, solícito e são muito gente boa. É sempre ótimo rever pessoas que já foram a algum show nosso e sempre levam alguém diferente pra nos ver. Estamos bem ansiosos com o que nos aguarda nessa próxima turnê!

Metal na Lata: Algumas bandas nacionais têm feito turnês pelo Brasil, tocando de segunda a segunda, fato que ainda é novo por aqui. Existe alguma previsão de vocês realizarem algo nesse aspecto?

Raphael: Vontade não falta, porém a logística do nosso país é mais difícil e para fazer algo assim aqui, necessita ser muito bem feito.


Metal na Lata: Voltando um pouco ao início da banda. Quais foram as principais influências musicais quando resolveram criar a banda e de onde surgiu a ideia de acrescentar mantras e sons orientais (elemento presente até hoje)?

Raphael: Os lances orientais vieram mais por causa do nome da banda, que é de uma deusa hindu. Então tanto nos elementos visuais como sonoros, são algo que fazem sentido e são naturais para o Kamala. Sempre buscamos trazer alguns instrumentos não comuns dentro do metal, como Didgeridoo no “Mantra” e agora no novo álbum, a harpa na intro da “Internal Peace”, feita pelo francês Corentin Charbonnier. E sempre curto compor os riffs e melodias com escalas orientais…então acredito e sempre busquei ter essa identidade visual e sonora para a banda, unindo a energia do metal, com o clima desses outros elementos.


Metal na Lata: Como músicos, quais foram as principais inspirações para que escolhessem o instrumento na qual tocam?

Raphael: Sem dúvida para mim, foi o Metallica! Foi a banda que mudou minha vida e que decidi que buscaria ser músico profissional. Entre os guitarristas que mais me inspiraram no começo, são muitos, mas sempre admirei e estudei o Kirk Hammett, James Hetfield, Dimebag, Dave Mustaine, Joe Satriani, John Petrucci, Andreas Kisser e Rafael Bittencourt.

Allan: Cara, são inúmeras! Mas para mim no baixo, com certeza foi Rex Brown do Pantera!

Isabela: Gosto da Bateria, mesmo antes de começar a aprender, porque um primo meu, também ativo na cena, tem uma bateria em casa e quando eu era criança ficava maravilhada com as peças cintilantes da bateria dele. Quando eu tinha uns 15 anos, pedi pra ele me ensinar a tocar, e desde então, nunca mais parei. Fiz aula com o Gerson Lima Filho uns anos depois e até hoje esse instrumento é presente no meu dia a dia!!

Metal na Lata: Desde o disco de estreia (“Kamala” de 2007), a banda vem lançando material novo a cada dois anos em média, algo muito difícil para bandas, principalmente se for independente. Quais fatores que contribuíram para isso?

Raphael: Formei a banda em 2003, e de lá pra cá lançamos uma demo (2005), cinco álbuns de inéditas (2007/2009/2012/2015 e 2018) e um EP de regravações (2017). Realmente não é algo simples, mas sempre pensei que uma banda não pode deixar a chama apagar. E nada melhor do que um novo álbum para renovar os shows. Lógico que troca de integrantes e a parte financeira são pontos que dificultam, mas o foco tem que ser mais forte e superar tudo isso, claro que não dando o passo maior do que a perna, tudo no Kamala é feito com muito planejamento.

Metal na Lata: Em 2018, vocês celebram 15 anos de existência. Fazendo um balanço desses anos, quais momentos vocês citariam memoráveis, ruins e inusitados?

Raphael: Putz, realmente vem um filme na cabeça, teve momentos ruins sim, mas tudo isso tem que ser revertido para o lado positivo, como teste, amadurecimento e aprendizado. E muitos momentos bons, de conquista, com um gosto a mais…por ser feito tudo no peito, por sempre ser uma banda independente. Sem dúvida, fazer 15 anos…com o lançamento do nosso quinto álbum e prestes a embarcar para nossa quinta turnê europeia, é um sinal que estamos no caminho certo e uma grande maneira de celebrar!

Metal na Lata: Um prazer conversar com vocês. O espaço está aberto para suas considerações finais.

Allan: O prazer foi todo nosso! Gostaria de agradecer a vocês do Metal na Lata pelo apoio e confiança no nosso trabalho, aos nossos parceiros, amigos e principalmente aos nossos fãs que, por mais clichê que soe, nada disse seria possível sem eles, de verdade!

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