Extreme Noise Terror – Fabrique, São Paulo/SP (01/11/2017)

ent_2017
Compartilhe

Extreme Noise Terror
Bandas de abertura: Manger Cadavre, Nuclear Frost, Expurgo e Social Chaos
Local: Fabrique, São Paulo/SP
Data: 01/11/2017
Produtora: Xaninho

Texto e fotos por Ricardo L. Costa

Dando andamento a mais uma mini tour por solo nacional, o Extreme Noise Terror, grande baluarte do Grind/Crust mundial, iniciou seu giro pela capital paulista no Fabrique (SP/SP). A data escolhida foi providencial, afinal, era véspera de feriado de finados e eu poderia deixar os ouvidos de molho no dia seguinte, pois o massacre seria intenso e implacável.

A casa escolhida para sediar o evento foi o Fabrique, na Barra Funda (SP/SP). Lugar simples, pequeno e rústico, nada glamouroso ou descolado, ou seja, perfeito para um espetáculo nesses moldes. A apresentação do Extreme Noise Terror tinha ares de mini festival, afinal, contou com quatro bandas de abertura: Manger Cadavre, Nuclear Frost, Expurgo e Social Chaos.

Por conta de meus compromissos profissionais, infelizmente perdi a apresentação do Manger Cadavre. Uma pena, pois estava curioso para assisti-los, ainda mais depois de ouvir seu EP “Revide”, seu brutal lançado este ano. Quem sabe numa próxima oportunidade.

Quando adentrei o recinto, o Nuclear Frost estava terminando os últimos ajustes para dar início ao seu show. E foi um bom show, mesmo estando desfalcados pelo baixista, ausente por um problema de saúde. A vocalista Gaby, após explicar o ocorrido com o companheiro de banda, promete dar o seu melhor, e realmente o fizeram. A moça urra como um animal alvejado por um projétil de grosso calibre sob a base corrosiva do guitarrista Feijão. O som ligeiramente embolado não comprometeu em nada a performance do trio, que mostrou muito carisma e competência em seu Crust/D-beat encardido. “Nuclear Winter Gloom” e “Liquidators” foram os destaques de um breve porém, muito bom, espetáculo.

Setlist Nuclear Frost:

DarkBomb Metal Punk Squad
Pavement From Heat
Morrendo Por Furstração
Nuclear Winter Gloom
Storm Thrash/Final Holocaust/Dust Core
Wargasm
Liquidators
Svartvoid
Eternal Winter
Acid Bath
Year Zero

A seguir tivemos simplesmente o melhor show da noite. Simples assim. Obviamente, não estou desmerecendo os demais, que certamente foram excelentes escolhas e mereceram estar ali, mas com o Expurgo não dá pra brincar. O quarteto de Belo Horizonte veio pra ensinar ao público como se faz Grindcore, mas nada daquele mainstream e refinado não, o autêntico: imundo, primitivo, grosseiro e feioso.

Em um set que beirou a insanidade, tocaram um apanhado geral de sua carreira, incluindo quatro músicas novas (que estarão presentes em seu próximo álbum, a ser lançado em breve). Meu amigo, que massacre, que peso absurdo!

O vocalista Egon Dias certamente estava possuído, protagonizando momentos que me faziam temer por sua integridade física. O cara batia o microfone na bunda, na cabeça, pulava, se debatia como em um ataque epilético, se atirava ao chão. Seus olhos pareciam que saltariam das órbitas a qualquer momento, enquanto vociferava ferozmente os versos de “Blast of Truth”, “Affected by Desiquilibrium” ou “You Call This Humanity?”. Encerraram com “Sofrer em Paz”, com Egon pulando no meio da platéia e fazendo um “boliche humano”. Um dos melhores, se não o melhor, show de Grindcore que já presenciei na vida. Não quer ofuscar a banda principal? Não chamem o Expurgo.

Setlist Expurgo:

Intro Sadistic
Blast Of Truth
Slime’s Blisters
Trapped
Spell Or Xenophobism
Affected By Disequilibrium
Xenon Pieces
Nasty Gut Feast
Carnivorous Eyes
Lungs Decay
You Call This Humanity?
Deviled Mind
Only The Depressive Trades
Não
Morgue Despair
Atmosphere Of Horror
Sofrer Em Paz

 

O Social Chaos já é velho conhecido no underground nacional e até mundial. Donos de uma considerável discografia, mandaram ver num set rápido e rasteiro, mostrando que dominam a arte do Crust/Grind/HC sujo e visceral. O vocalista/baixista Borella agradece o apoio e a presença de todos, enquanto o povo se “acariciava” no circle pit ao som de “Bifurcado”, “Exorcismo” e “Escombros Sobre Escombros”. Fecharam com “Herança Maldita”, abrindo espaço aos anfitriões da noite.

Setlist Social Chaos:

Bifurcado
Poço
Gratefull Dead
Exorcismo,
Brutal Wave
Escombros Sobre Sscombros
A Marcha
Herança Maldita

A esta hora, os coletes com rebites, coturnos surrados e moicanos bem apontados dominavam o recinto. São Paulo Fashion Week do submundo? O cacete! Era só uma autêntica celebração Punk/Grindcore. Antes de iniciarem os trabalhos, um funcionário da produção esclarece que o folclórico vocalista Dean Jones não teria vindo para a turnê, pois estava internado se recuperando de uma grave crise de labirintite. Isso, indubitavelmente, abalou os ânimos dos presentes, afinal, ele é a cara e a personalidade Punk do Extreme Noise Terror, porém, serviu também pra perceber que a banda honra seus compromissos, em uma sólida demonstração de respeito e carinho para com seus fãs.

Ben McCrow (vocalista que gravou o mais recente registro do grupo) ficou encarregado dos vocais sozinho, embora dividisse a função com o guitarrista Ollie Jones em vários momentos. Pois bem, o Extreme Noise Terror já atingiu a condição de lenda do estilo, solidificando seu legado ao longo de mais de três décadas de história. Só os grandes conseguem esse feito, porém, apesar da ótima apresentação, a sensação de que faltava algo era evidente, talvez pela ausência de seu principal integrante, mas também pela quase total reformulação do elenco ao longo do tempo, o que pode acabar descaracterizando levemente o som da banda.

Ben é um frontman competente, não se pode negar. O cara é carismático, tem um timbre vocal muito propício para o estilo da banda, e tentou fazer o seu melhor. O set inicialmente contou com alguns pequenos problemas no ajuste do som que, no seu decorrer, foram sanados. Uma breve retrospectiva de tudo que a banda havia produzido de bom até hoje foi entregue na forma do melhor Crust/Grind tradicional, oriundo das raízes do Punk inglês, principalmente na simplicidade e no caráter de protesto.

“Punk Rock Patrol/Deceived” surgiram no formato de medley e funcionaram como uma injeção de adrenalina no centro do córtex cerebral da galera. Aí, meu amigo, eram só coturnos e braceletes de rebite voando aleatoriamente pelo ar. Sua mais emblemática e atemporal composição, que o Ratos de Porão praticamente apropriou para si, “Work For Never”, surge a seguir emendada com “We The Helpless”. Impressionante como esta música se tornou o hino da banda. O lema máximo de sua trajetória, e ao vivo, empreenderam ainda mais velocidade à sua estrutura original, levantando até um defunto fossilizado.

O ritmo frenético se manteve durante todo o set, com Ben interagindo apenas o necessário com os fãs. A banda parecia com pressa, então tome “Show UsYou Care”, “Religion is Fear”, “Lame Brain” e “False Prophet”, numa seqüência de selvageria pura, onde não foi possível nem concatenar as ideias.

Outros bons momentos de sua inestimável careira foram expostos de forma rudimentar, pesada e urgente: “No One is Innocent”, “Raping the Earth”, “Human Error”, “Think About It”, “Bullshit Propaganda”….arrrrggghhhhh! Eu já presenciei a banda em outra ocasião, ainda com o finado Phil Vane nos vocais. Confesso que naquele dia a banda estava mais inspirada, afinal, contava com sua linha de frente intacta, mas hoje, mesmo reduzido a um quarteto, a banda derramou sangue e suor, mostrando seu real valor.

O público, que se não abarrotou a casa, compareceu em número expressivo, estava pronto para prosseguir no front de batalha, por isso, ainda tivemos algumas peças do quilate de “Dogma, Intolerance, Control”, “Carry On Screaming”, “Murder” e, findando a noite, “Borstal Breakout” (cover do Sham 69). A banda mal se despede e deixa o palco rapidamente, e eu preciso tecer alguma consideração acerca disso: tudo isso que mencionei (isso porque eu não descrevi faixa por faixa do set list do quarteto inglês) durou cerca de 40 minutos. Sério! Talvez a grande decepção, não só minha, mas da esmagadora maioria dos ali presentes, foi a diminuta duração da apresentação.

Tirando o fato de Dean estar de fora da turnê, que por si só já é decepcionante, a banda estava indo bem e tinha, sem sombra de dúvida, muito mais a oferecer. Ainda ouvi gente na saída bradando “fui enganado”. Não é pra tanto, afinal, nos poucos minutos que fomos entretidos, fomos bem representados. Meus sinceros agradecimentos à produtora Xaninho, ao assessor Erick Tedesco e às bandas, por deixarem meus ouvidos seriamente avariados. Valeu!

Setlist Extreme Noise Terror:

Punk Rock Patrol/Deceived
Work For Never/We The Helpless
Show Us You Care
Religion Is Fear
Lame Brain
False Prophet
No One Is Innocent
Raping The Earth
Human Error
Think About It
Chained & Crazed
Bullshit Propaganda
Third World Genocide
Dogma, Intolerance, Control
Pray To Be Saved
Carry On Screaming
Murder
Borstal Breakout

Compartilhe
Assuntos

Veja também