
Fabiano Negri – “The Fool’s Path” (2020)
Independente
#ClassicRock
Para fãs de: Alice Cooper, Pink Floyd, The Who
Nota: 10
Em seu livro “O que é música” (1986), o autor J. Jota de Moraes fala sobre a diferença entre ouvir música com o corpo e ouvir emotivamente. Ouvir com o corpo é empregar no ato da escuta não apenas os ouvidos, mas a pele que vibra ao contato com o dado sonoro. Já ouvir emotivamente é usar a música a fim de que ela desperte ou reforce algo latente em nós mesmos, nos possibilitando saborear com maior intensidade o seu sentimento, com o auxílio da música transformada em “clima”. Ao nos enviar o EPK de “The Fool’s Path” no começo de março, Fabiano Negri estabeleceu o que acabaria se tornando a trilha sonora dos meus dias pré-quarentena com um disco de imersão, cujo maior mérito foi me possibilitar tanto ouvir com o corpo quanto ouvir emotivamente – coisa que só obras-primas da estirpe de “Dark Side of the Moon” foram capazes de fazer até então.
Conceitual, o disco conta a trajetória do próprio Negri, e basta prestar atenção nas letras para entender os motivos pelos quais o cara está optando por parar – entre a falta de retorno financeiro e o excesso haters de internet com os quais é obrigado a lidar, nem o Brasil, esse grande túmulo para a cultura, escapa, como nota-se na derradeira “Dying City”. Vinte e cinco anos esmurrando a faca cega da aceitação foram o suficiente, e Fabiano explica o porquê em músicas que por mais autobiográficas e autorreferentes que sejam vestem como luva a todos que em algum momento se viram forçados a abraçar o fracasso e seguir em frente.
Se nas letras, a inspiração vem da experiência de um só indivíduo, na parte musical, as influências são tão diversas quanto as versões de clássicos do rock nos quais Fabiano Negri toca todos os instrumentos que vez ou outra ele compartilha em suas redes sociais. Ouve-se algo de Alice Cooper – o original, dos anos 70 – aqui, uma timbragem que remete ao Deep Purple acolá e uma ênfase no instrumental como nunca antes se ouviu na obra de Negri. Solos de guitarra, como o da belíssima “Changing Times” – gravado de primeira em take único, veja só você – nos fazem pensar em David Gilmour, lamentar pela saída de cena precoce e torcer para que bons ventos eventualmente tragam Fabiano e tudo o que tenho certeza que ele ainda é capaz de oferecer de volta… desde que com essa volta venha, ainda que tardio, o reconhecimento em massa do qual é merecedor.
Marcelo Vieira





