
Foreigner – Quarenta anos do álbum “4”

Fundado em 1976, no auge do Punk e da NWOBHM, com um som que misturava elementos de Rock, Pop e Rhythm & Blues, o Foreigner teve sua formação original com Mick Jones, guitarrista e fundador da banda, Ian McDonald (saxofonista, ex-King Crimson), Dennis Elliott (baterista), Al Greenwood (tecladista), Ed Gagliardi (baixista) e Lou Gramm (vocalista).
Seu autointitulado álbum de estreia de 1977 vendeu cinco milhões de cópias e alcançou o quarto lugar na Billboard. “Double Vision” (1978), o último com a formação original, chegou ao terceiro lugar (sete milhões de cópias vendidas) se mantendo por seis meses no TOP 10. Seu terceiro álbum, “Head Games” (1979), alcançou o quinto lugar e a banda conseguiu platina quíntupla novamente. Foi então que Jones começou a pensar na identidade do quarto álbum: “Vencemos o azar do primeiro álbum e ainda tivemos “Double Vision”, mas acho que em “Head Games” nós realmente entramos no “modo excessivo”, com drogas, bebidas…Eu olho para trás e acho que não estava muito focado. Tentamos fortalecer a imagem da banda com “Dirty White Boy” e “Head Games” em si, mas foi daí que surgiu a questão sobre para onde estávamos indo…”
Ao longo de seus três primeiros álbuns o Foreigner se estabeleceu (junto com Journey, Styx, REO Speedwagon e Boston) como uma das principais bandas do que viria a ser chamado de AOR. Mas isso não era o suficiente. Jones queria mais. Só que antes do próximo passo, algumas mudanças precisavam ser feitas.
Jones estava preocupado com as demandas de Al Greenwood e Ian McDonald para serem incluídos no processo de composição, mas ele pensava que isso enfraqueceria a banda e Greenwood foi o primeiro a ser dispensado. McDonald logo o seguiu.
O baixista Rick Wills, substituindo Ed Gagliardi no “Head Games” se surpreendeu: “Eu não esperava por isso. Jones me disse que queria mais liberdade para trazer outros músicos, para experimentar – especialmente com teclados – porque nessa época as pessoas estavam começando a fazer coisas incríveis eletronicamente. Jones queria experimentar essas coisas, porque pensava que era o caminho a seguir”. Jones prosseguiu: “Foi um momento difícil emocionalmente. Ian era um amigo próximo, mas Lou e eu sentimos que tínhamos alcançado nosso ritmo escrevendo juntos e queríamos realmente maximizar isso. Conversamos longamente sobre essa questão e sabíamos exatamente aonde queríamos chegar, então era preciso ser um pouco implacável”.

Agora contando com Lou Gramm (vocais e percussão), Rick Wills (baixo e vocais de apoio) e Dennis Elliott (bateria e vocais de apoio), Jones (guitarra, vocais de apoio e teclados) escolheu o sul-africano Robert John “Mutt” Lange, o homem por trás do “Back In Black” do AC/DC, para coproduzir o novo álbum. “Ele chamou minha atenção pela primeira vez quando produziu a banda City Boy” – disse Jones – “Fiquei impressionado com o trabalho dele com eles. Nossas agendas não coincidiram para o “Head Games” então escolhemos Roy Thomas Baker (Queen). Mas “Mutt” sempre esteve no meu radar e dessa vez o “timing” foi perfeito”.
Conhecido pelo perfeccionismo e o talento excepcional de saber o momento perfeito da existência de uma música dentro das opções de produção, Robert John “Mutt” Lange impactaria a banda em vários níveis. Até achar esse momento perfeito, o processo de gravação não começou. Após diversas mudanças houve um consenso e as gravações começaram no Atlantic Studios, mas logo mudaram para o lendário Electric Lady construído por Jimi Hendrix depois que desistiu de transformar esse porão em uma boate e que “Mutt” utilizou no “Back In Black”.
Mas o novo álbum, que Kurt Loder (Rolling Stones) chamou de “o melhor e mais aventureiro álbum da banda”, conseguiria ser um “divisor de águas”?
Após um título provisório (“Silent Partners“) o álbum ganhou a simples alcunha de “4” (talvez pelos quatro membros ou por ser o quarto álbum), mas de “simples” o processo não teve nada. Com uma demora de mais de um ano para ser finalizado, perdendo todos os prazos possíveis e estourando todos os orçamentos (mais de um milhão de dólares de custo), “4” antes de nascer, ganhou uma missão hercúlea: mais do que um tremendo sucesso, precisava ser uma obra-prima.
O compromisso de “Mutt” e Jones (que dividiram a produção) era realizar o melhor álbum possível e só iriam finalizar o álbum quando tivessem alcançado o nível de excelência que imaginavam. “As canções são a base de tudo” – disse Jones à Classic Rock – “Sempre me propus a fazer álbuns que você pudesse ouvir do começo ao fim”.
Até “4” ver a luz do dia em 02/07/1981, problemas se amontoaram quaisquer que fossem as decisões. Como lembra Jones: “Tivemos esses momentos com “Mutt”, mas meio que superamos. Nada durou mais que o tempo para alcançar o que pretendíamos. Gradualmente, as coisas foram relaxando e realmente começamos a apreciar o que todos trazíamos para a banda. Ele, então, conseguiu tornar a “rigidez” de sua abordagem mais maleável“.

“Mutt” poderia ser considerado o “vilão” da história, mas seria leviano. Tudo bem que ele queria fazer o álbum utilizando bateria eletrônica, mas Dennis não aceitou bem. “Ele queria usar uma faixa de clique para cronometrar” – lembra Jones – “e Dennis se ofendeu com isso. Ficamos tão fartos que em um momento dissemos: “Foda-se!” e entramos no estúdio juntos. Sentei-me ao piano, Dennis à bateria e criamos uma faixa básica, só ele e eu. Então viramos para “Mutt” e dissemos: “Ok? Feliz agora ?!” Queríamos provar que essa banda sabia tocar e marcar o tempo”. E continua: “Eu queria ficar mais à moda antiga enquanto ele queria utilizar a tecnologia que estava surgindo. Como você pode ouvir em seus álbuns do Def Leppard, a bateria lá é eletrônica, sintetizada, mas eu não queria seguir esse caminho. Não funcionaria para nós”.
Mas existiram outras situações, como por exemplo quando Tony Platt responsável pelo projeto das faixas básicas depois de três meses precisou sair das gravações para poder remixar o “Shock Tactics” do Samson (que também estava atrasado). Antes de sair ele indicou Dave Wittman (Savatage, Kiss, Armored Saint, Eric Clapton, Lita Ford) que se tornou o braço direito de “Mutt” até o fim das gravações.
Outra questão eram as participações especiais no álbum, em especial os teclados. As gravações iniciais tiveram Bob Mayo (Peter Frampton, Lou Reed), mas Jones e “Mutt” foram atrás de Thomas Dolby (“Mutt” tinha ouvido uma “demo” do jovem de 22 anos e gostado). Como Dolby explicou para a Classic Rock: “Recebi uma ligação de um amigo que disse: “Alguém chamado Mick Jones ligou para você e queria que você fizesse uma sessão”. Achei que fosse o Mick Jones do The Clash, uma das minhas bandas favoritas na época. Na verdade eu nunca tinha ouvido falar do Foreigner, mas quando pesquisei, descobri que eles eram muito grandes na América. Os teclados já estavam prontos na maior parte do álbum, mas eles não estavam muito felizes, então, me deram um teste para ver o que eu poderia fazer”. Acabou que Thomas Dolby ficou responsável pelo álbum inteiro e “Mutt” gostou tanto do trabalho que usou Dolby no “Pyromania”.
Na época da inclusão de Dolby a banda já estava no Electric Lady por seis meses e ainda faltava muito para o término do processo. Os problemas foram tantos que a banda quase perdeu todas as incontáveis horas de gravação ao enfrentar um incêndio no cinema de arte (8th Street Playhouse) que ficava ao lado do estúdio. Ainda bem que isso não aconteceu, mas ainda tinham o fim do aluguel do estúdio para se preocupar (Hall & Oates que já haviam prorrogado suas gravações duas vezes e resolveram não ceder mais) e, como problema pouco é bobagem, “Mutt” não conseguia mais adiar a produção do “Pyromania” do Def Leppard.
Como relembrou Jones: “Ele permaneceu absolutamente o maior tempo que pôde. Foi angustiante para “Mutt” ter que sair, mas ele tinha que sair. O Def Leppard já estava três ou quatro meses atrasado. Passamos por esse tempo intenso juntos, então foi realmente angustiante”. Com “Mutt” fora – embora ainda em contato por telefone através do Atlântico – Jones, junto com Wittman, adicionou os toques finais ao álbum.
Mas quatro semanas se passaram e nada do término do álbum. Foi quando Jones transformou o estúdio em sua casa para não perder mais tempo. Parece ter dado certo, pois logo depois “Mutt” e Bud Prager, responsável pela gestão do álbum, começaram a mixagem final de “4”.
Ao ser lançado “4” deu à luz diversos novos clássicos da banda e várias outras canções que ajudaram o álbum a disparar nas vendas.
O baixista Rick Wills comenta: “Pelo que eu me lembro havia apenas um início que se transformou em “Waiting For A Girl Like You”. A primeira vez que eles tocaram para mim, eu disse: “Bem, se isso não é um sucesso, eu não sei o que é!” Essa foi uma das primeiras músicas que gravamos. O desempenho de todos foi ótimo e sabíamos o que tínhamos em mãos”. Jones também comenta: “Ela quase se escreveu sozinha. Foi a primeira vez que tive uma experiência emocional realmente séria. À partir do momento em que colocamos a faixa básica e Lou adicionou um vocal “scratch”, achei difícil não me emocionar durante as reproduções. Foi uma sensação tão estranha. Parecia que algo estava passando por mim, que eu era apenas um canal. Foi a primeira vez que entrei em contato com o que ouvi outros escritores ou artistas falarem”. Platt complementa: “Essa foi uma daquelas faixas em que me lembro da sessão de gravação muito claramente. Colocamos um teclado básico em segundo plano com a faixa principal. Depois que escolhemos o “master” e fizemos todas as edições, lembro-me de ficar sentado lá até cerca de três horas da manhã e todos ainda estavam dizendo: “Oh, reproduza novamente! Toque de novo!” Havia um sentimento geral de que este seria um grande sucesso”. Como disse Justin Hawkins do The Darkness: “a maior balada de rock de todos os tempos”. Muito disso se deve a profundidade vocal extraordinária e emocional de Lou Gramm.
Saindo da balada e voltando ao Rock, “4” abre com a energética “Night Life”, uma continuação orgânica e natural de “Head Games”. Jones explica a inspiração: “Perto do estúdio, na esquina da Sexta Avenida, havia uma comidinha de cachorro-quente “Nathan’s Famous”. Quanto mais tarde ficava maior era o burburinho e um monte de personagens estranhos e algumas prostitutas apareciam. “Night Life” foi inspirada nessa grande mistura de personagens”.
Outro grande clássico do álbum é “Juke Box Hero” e seu tema de “se tornar uma estrela de rock”. Depois de pronta, Jones, durante os toques finais do álbum, resolveu retirar os vocais de apoio da música (o que irritou “Mutt” e até o empresário da banda). Depois de ver a besteira que tinha feito Jones voltou atrás e Wittman, pela complexidade da música, precisou reconfigurar tudo manualmente e remixá-la, por isso, mesmo que imperceptível, a versão original representa duas sessões de mixagem diferentes. “Foi um milagre!”, lembra Jones. Mas valeu à pena já que a música é um combinado incrível de melodias, guitarras e teclado de cair o queixo (que solo!). Um hino!
Um outro clássico da banda é um capítulo à parte. “Urgent” foi baseada em um tema instrumental de alguns segundos (a ideia de “Mutt” de ouvir toda e qualquer coisa que a banda tivesse feito acabou funcionando). Nesse período, o grande Junior Walker estava tocando em um clube próximo ao estúdio. Jones e Wills foram vê-lo e acabaram o convidando para ir ao estúdio e gravar o solo de sax da música. Jones lembra: “Durante toda a carreira ele nunca havia feito um overdub já que sempre havia gravado “ao vivo”, então, nas primeiras cinco ou seis tomadas ele estava realmente desconfortável”. Ao final de diversas tomadas, aonde versões diferentes foram gravadas e recortadas, é possível testemunhar o clássico solo da lenda da Motown que ajudou “Urgent” a se tornar onipresente pelos anos 80. Brilhante! Hipnótica!

Por falar em participações, elas são várias por todo o álbum: Thomas Dolby (sintetizadores principais), Larry Fast (sintetizador sequencial), Michael Fonfara (texturas de teclado), Robert John “Mutt” Lange (coprodução e vocais de apoio), Ian Lloyd (vocais de apoio), Bob Mayo (texturas de teclado adicionais), Hugh McCracken (“slide guitar”), Mark Rivera (saxofone, vocais de apoio) e o próprio Jr. Walker (solo de saxofone).
Além desses clássicos indeléveis o álbum ainda conta com “Woman in Black” (diversas texturas servem de ponte para a melodia e o groove se encontrarem), “Break It Up” (o que uma guitarra simples, um baixo excelente e um piano são capazes de fazer), “Girl On The Moon” (com suas nuances e sutilezas), “Luanne” (mistura de rock anos 50, 70 e 80 com ecos de John Fogerty) e “I’m Gonna Win” (dinâmica, intensa e enérgica).
Mick Jones encontrou em “Mutt” o catalisador perfeito para suas ideias elevando o nível do Foreigner como banda. A lendária atenção aos detalhes de “Mutt” e a guitarra disciplinada de Jones resultaram em uma excepcional colaboração com um perfeito equilíbrio entre guitarras e sintetizadores, além de confirmar Lou Gramm como um dos melhores de sua geração.
Mas será que valeu à pena tantos meses, prazos perdidos e orçamentos estratosféricos?
O álbum esteve por 10 semanas alternadas no primeiro lugar das paradas da Billboard vendendo mais de dez milhões de cópias (sete milhões apenas nos EUA). Até hoje é o álbum mais vendido da banda e dos seis singles lançados, apenas o último não chegou ao Top 30.

Jones, anos depois, refletiu sobre o álbum: “Foi definitivamente a soma do que eu pensei que estávamos construindo. Quando eu olho para trás, eu sei que é meu álbum favorito. Sei que o processo foi longo, cansativo e caro – caro não apenas financeiramente. Os relacionamentos ficaram tensos durante aquele álbum e as situações domésticas fora de controle. Havia muita intensidade envolvida, mas, olhando para trás, é aquele do qual tenho mais orgulho”.
“4” é o álbum mais icônico do Foreigner. É uma trilha sonora dos anos 80. É o álbum que fez a transição do Hard Rock dos anos 70 para o AOR dos anos 80 (junto com “Escape” do Journey, pavimentou a estrada do AOR quando ninguém sabia o que era). É cheio de detalhes e momentos perfeitos entre harmonia e melodia, que transformaram o Foreigner em lenda.
Não deixe de revisitá-lo nesse aniversário de quarenta anos! Essencial e absoluto!
João Paulo Gomes





