Gothic Night – Burning House, São Paulo/SP (12/12/2025)

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Gothic Night – Burning House, São Paulo/SP (12/12/2025)

Bandas: Gene Loves Jezebel e Christian Death
Produção: Dark Dimensions
Assessoria: JZ Press

Texto por Wallace Magri
Fotos por Leandro Almeida

A casa de shows Burning House recebeu o evento Gothic Night, reunindo bandas seminais da cena Post Punk/Gothic Rock/Dark Rock dos anos 1980: Gene Loves Jezebel e Christian Death. Ambas lançaram álbuns precursores do gênero e exerceram influência decisiva sobre diversas bandas que surgiriam nos anos 1990, 2000 e até os dias atuais, com propostas musicais semelhantes.

Por um lado, o Gene Loves Jezebel caracteriza-se por uma estética glam e por estruturas de pop rock mais acessíveis, polidas e menos soturnas — sonoridades mais arejadas. Com o lançamento de álbuns como “Promise” (1983), “Discover” (1986) e “House of the Dolls” (1987), a banda obteve considerável sucesso nas paradas alternativas da América do Norte e do Reino Unido. Seus principais hits contaram ainda com clipes amplamente exibidos pela MTV, que à época era referência absoluta no mercado musical.

Por outro lado, o Christian Death trilhou um caminho bastante distinto ao longo de sua trajetória no Gothic/Dark Rock, que já ultrapassa quatro décadas de atividade praticamente ininterrupta. O som da banda é caracterizado por uma abordagem crua e garageira, com guitarras ásperas, linhas de baixo proeminentes e ritmos de caráter tribal. Trata-se de uma sonoridade deliberadamente anticomercial.
Embora não tenha alcançado grande sucesso comercial, o Christian Death foi fundamental para a construção estética e musical de bandas como Type O Negative e Marilyn Manson.

Algo que Gene Loves Jezebel e Christian Death têm em comum é a constante rotatividade de integrantes: ambas as bandas já contaram com dezenas de músicos em seus line-ups ao longo dos anos.

No caso do Gene Loves Jezebel, os irmãos fundadores Jon Aston (guitarra) e Michael Aston (vocais) enfrentaram sucessivas divergências relacionadas a estilo de vida e direcionamento musical, culminando na ruptura após o lançamento de “House of the Dolls” (1987). Atualmente, ambos mantêm projetos distintos utilizando a sigla GLJ.

Já o Christian Death contabiliza cerca de 30 integrantes que passaram pela banda desde 1979. Há bastante tempo o grupo não conta mais com membros fundadores, sendo que Kand e Demone deram continuidade ao nome, lançando álbuns regularmente e promovendo constantes mudanças no time de músicos de apoio.

Dito isso, vamos ao que realmente aconteceu no show realizado na última sexta-feira, 12/12/2025, no Burning House.

GENE LOVES JEZEBEL:

O Burning House é uma casa de shows localizada na zona oeste de São Paulo, de fácil acesso por metrô e trem. O espaço segue o padrão de casas mais underground, com pista para cerca de 250 pessoas. As saídas são amplas, garantindo segurança ao público, e o palco é generoso, bem estruturado e equipado com material de qualidade.

Ao chegar ao local, ficou claro que a noite seria uma verdadeira celebração gótica raiz: ambiente escuro, luz estroboscópica piscando e gelo seco ao fundo. Infelizmente, esse clima não se devia apenas à ambientação cênica. Quem mora em São Paulo sabe que, nos três dias anteriores ao evento, a cidade enfrentou tempestades severas, com tornados, alagamentos e danos generalizados.

A ENEL não conseguiu restabelecer o fornecimento de energia em todas as regiões da capital, e o Burning House acabou diretamente afetado. Na entrada da casa, dois geradores movidos a diesel tentavam sustentar a iluminação de palco, o sistema de PA, as luzes de emergência e as geladeiras do bar. A situação era complicada, mas a produção acionou o modo “show must go on” e o evento seguiu na raça.

Marcado para as 20h30, o show do Gene Loves Jezebel começou cerca de 20 minutos depois. Subiram ao palco os músicos Nick Rozz, Troy Patrick e Pando e, com os primeiros acordes, Michael Aston surgiu em seu habitat natural: o palco, diante do microfone.

A apresentação começou em alta voltagem com o hit “Heartache”. Michael, fumando tranquilamente no palco, iniciou os versos com extrema segurança e domínio cênico, diante de um público fiel que enfrentou o caos urbano para prestigiar seus ídolos.

Infelizmente, os problemas elétricos – não por culpa da produtora, que fez todo o possível para manter o show, nem da casa ou de alguém específico – comprometeram a apresentação. Logo no início, o microfone de Michael apresentou funcionamento instável e, já na segunda música, o amplificador do guitarrista parou completamente. O final de “Always a Flame” e o início de “Downhill Boys” aconteceram entre pausas forçadas e muita resiliência por parte da banda.

O grupo deixou o palco momentaneamente, e Michael Aston — demonstrando vasta experiência com imprevistos típicos do rock — assumiu o papel de mestre de cerimônias. Conversou de forma leve e descontraída com os fãs, chegou a comentar que “estariam de volta em 2026” e não demonstrou qualquer sinal de nervosismo.

A banda retornou com “Cow”, reacendendo o entusiasmo do público. Merece destaque a excelente presença de palco dos músicos: baixista e guitarrista vestiam trajes góticos elegantes, enquanto Michael se envolvia em tecidos, lenços e cachecóis, adicionando movimento e teatralidade à performance — um visual altamente fotogênico.

Sempre carismático, Michael passou a interagir intensamente com as fãs na primeira fila, apontando, flertando e trocando expressões, o que elevou ainda mais o clima de proximidade com o público.

No desenrolar do show, no entanto, o som voltou a falhar mais vezes. A banda retornou ao camarim e, nesse momento, Michael literalmente “largou o protocolo” — no melhor sentido possível — e passou a circular pelo meio do público, iniciando um meet & greet improvisado. Atendeu todos com simpatia, posou para fotos e selfies e manteve sua postura serena, cigarro em mãos, em plena tranquilidade londrina.

Por mais que a produção tenha tentado de todas as formas garantir o mínimo de condições para a apresentação, recorrendo à energia e a geradores, não houve viabilidade técnica para dar sequência ao show, que acabou truncado e com sua dinâmica seriamente comprometida após cerca de 25 minutos de tentativas frustradas. A responsabilidade por esse cenário deve, sim, ser atribuída à ENEL, que falhou em assegurar o fornecimento adequado de energia elétrica, impactando diretamente não apenas o andamento do evento, mas também o público, os artistas e todos os profissionais envolvidos na realização da apresentação.

Setlist:

Heartache
Always a Flame
Downhill Both Ways
Cow
Twenty Killer Hurts
Loving You Is the Best Revenge
Bruises
Beyond Doubt
Suspicion
Gorgeous
The Motion of Love
Desire

CHRISTIAN DEATH:

Com a situação elétrica finalmente sob controle, o Christian Death assumiu o palco do Burning House e, quase de imediato, mudou o clima do ambiente. A sensação no ar ficou mais pesada, mais obscura — exatamente como a plateia esperava. Longe de afastar, essa atmosfera aprofundou a experiência. Quem estava ali queria mergulhar naquele universo e se deixar levar, e foi exatamente isso que aconteceu.

A apresentação começou priorizando composições mais recentes, onde os vocais se alternam de forma equilibrada entre Valor Kand e Maitri Nicolai. Aos poucos, o repertório avançou em direção às fases mais emblemáticas da banda, revisitando faixas que confrontam dogmas religiosos, exploram temas de liberdade individual e mantêm vivo o espírito provocador que sempre marcou o Christian Death. O público respondeu de imediato, cantando junto, acompanhando cada verso e se entregando completamente ao espetáculo.

No palco, a banda demonstrou entrosamento absoluto, sempre trazendo uma troca constante de instrumentos entre Maitri e Matthew Anderson em determinados momentos, alternando baixo e guitarra com naturalidade e fluidez impressionantes. Em outros trechos, Maitri e Valor deixaram os instrumentos de lado para se concentrar apenas na performance, acrescentando ainda mais dramaticidade, intensidade e um toque de descontrole calculado à apresentação.

Um dos momentos mais espontâneos da noite veio quando Maitri desceu do palco, atravessou o público cantando com o microfone em mãos e seguiu até o balcão para pegar um drink, sem interromper a música. A cena foi acompanhada de perto por fãs que vibravam, pulavam e cantavam junto, transformando aquele instante em uma lembrança que dificilmente será esquecida. Em seguida, duas fãs foram convidadas a subir ao palco, aproximando ainda mais banda e plateia em um gesto simples, mas carregado de significado.

Musicalmente, o show também teve seus picos instrumentais. Em determinado momento, a apresentação desembocou em uma jam incendiária de baixo e guitarra, elevando a intensidade da casa. Matthew Anderson se destacou com um solo poderoso, reafirmando não apenas sua técnica, mas também sua entrega visceral ao instrumento, sempre com postura performática e comunicação constante com o público.

Ao longo do set, que passeou por diferentes fases da carreira com uma sequência coesa e envolvente, ficou evidente a segurança de Valor Kand na condução do espetáculo. Sua presença de palco manteve o fio narrativo do show sempre firme, guiando o público por essa jornada sombria sem jamais perder o controle da atmosfera.

O encerramento reservou um momento histórico. Christian Death e Gene Loves Jezebel dividiram o palco em uma versão de “God Save The Queen”, do Sex Pistols. Microfones foram compartilhados, copos de whisky circularam entre os músicos e o espírito contestador da canção encontrou eco perfeito nas trajetórias das duas bandas. Foi um fechamento simbólico, divertido e carregado de significado, que arrancou sorrisos, aplausos e emoção da plateia.

Ao final, ficou claro que o Christian Death não apenas se sentiu acolhido, mas plenamente conectado ao público do Burning House. A troca foi intensa, direta e constante. A banda absorveu a energia da casa (sem trocadilhos, ok?) e devolveu em forma de um show denso, emocional e generoso, encerrando a noite com a sensação de dever cumprido e deixando a certeza de que aquela apresentação entrou para a história do local.

Vale um comentário de quem vos escreve: já tive o prazer de assistir a ambas as bandas em outras ocasiões, inclusive na última passagem pelo Carioca Club, ao lado do The Mission, e ficou evidente que seus shows ganham ainda mais força, envolvimento e organicidade em espaços menores. Nesse sentido, a apresentação no Burning House mostrou-se a escolha perfeita para a realização desta “noite gótica”. Que venham outras!

Setlist:

Tales of Innocence
Penitence Forevermore
The Drowning
We Have Become
New Messiah
Forgiven
Abraxas We Are
Beautiful
The Warning
Rise and Shine
Elegant Sleeping
Four Horsemen
Blood Moon
Romeo’s Distress
Church of No Return
This Is Heresy
God Save the Queen (Sex Pistols cover)

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