Iron Maiden – “Burning Ambition” (Filme) 2026)
Gênero: Documentário / Música / Biografia
Duração: 1h46min (106 minutos)
Direção: Malcolm Venville
Roteiro: David Teague
Produção: Dominic Freeman
Distribuição: Universal Pictures
Texto por Johnny Z.
Nota: 6,5
Se a proposta de um documentário como Burning Ambition era celebrar os 50 anos de uma das maiores instituições do heavy metal, o resultado final acaba ficando bem aquém do peso e da importância do nome Iron Maiden.
O principal problema está na condução da narrativa. A cronologia é confusa, desorganizada, e em diversos momentos parece que o filme simplesmente salta entre épocas sem qualquer preocupação em construir uma linha do tempo coesa. Para uma banda com uma trajetória tão rica, essa falta de estrutura compromete diretamente a experiência — principalmente para quem espera um registro histórico minimamente consistente.
Não sei se eu fui ao cinema com uma expectativa alta devido aos documentários que a banda vinha lançando em ordem cronológica, mas a decepção com a narrativa apressada e desorganizada é inevitável. Fica a esperança de que a banda retome esse formato mais cuidadoso de revisitar sua própria história, algo muito mais válido e interessante para os fãs que realmente acompanham sua trajetória. Burning Ambition, no fim, soa como um produto voltado para quem não está familiarizado com a carreira do grupo — quase um “Sessão da Tarde” da TV Globo, superficial e de fácil digestão.
Além disso, há omissões difíceis de engolir. Nomes fundamentais simplesmente ficaram de fora ou foram tratados de maneira muito superficial. Um exemplo gritante é Martin Birch, produtor responsável por moldar a sonoridade clássica da banda em álbuns essenciais. Ignorar sua contribuição em um projeto comemorativo beira o absurdo. O mesmo vale para os primeiros membros da banda, que praticamente não existem dentro da narrativa proposta, como se a banda tivesse sido montada já com Paul Di’Anno, Steve Harris, Dave Muray e Clive Burr, que todos sabem que não foram eles.
O caso de Dennis Stratton é ainda mais emblemático: guitarrista do álbum de estreia, ele é reduzido a uma aparição quase fantasmagórica — uma foto ao vivo e um tímido agradecimento nos créditos. Nenhuma contextualização, nenhuma menção à sua participação efetiva na construção inicial do Maiden. Nada!
Outro ponto que incomoda é a total negligência com momentos cruciais do início da carreira, como as dificuldades enfrentadas para gravar a demo The Soundhouse Tapes. O material sequer é citado, o que reforça a sensação de que o filme ignora deliberadamente capítulos importantes da início da própria história que se propõe a contar em detrimento de outras de sucesso.
Visualmente, o uso de animações em IA envolvendo o mascote Eddie é, no mínimo, questionável. Em vez de agregar, essas inserções soam artificiais e destoam do restante da produção — baseada exclusivamente em vídeos antigos —, além de apresentarem qualidade discutível.
Se o intuito era fazer um filme de fã para fã, faria muito mais sentido trazer vozes realmente influentes e relevantes dentro desse universo. O longa até apresenta algumas personalidades conhecidas, dentro de um emaranhado de “famosos quem?”, tratadas ali como fãs, como Lars Ulrich (Metallica), Katon W. de Pena (Hirax), Tom Morello (Rage Against The Machine/Audioslave) e Brian Slagel (fundador da Metal Blade Records) — este último, inclusive, sem qualquer ligação direta com a banda, apenas um admirador declarado. Ainda assim, a seleção de depoimentos parece mal aproveitada e pouco aprofundada.
No contexto brasileiro, fato abordado com afinco no filme – vide os shows no Rock In Rio de 1985 e 2001 – isso fica ainda mais evidente. Em vez de incluir uma figura totalmente aleatória e anônima — que não agregou absolutamente nada à construção da narrativa — seria muito mais interessante ouvir nomes como Walcir Chalas, responsável por trazer os primeiros discos do Iron Maiden ao Brasil em 1980/1981, ou jornalistas e formadores de opinião como Ricardo Batalha e Vitão Bonesso. Pessoas que ultrapassaram a barreira do simples fã e tiveram impacto real na disseminação da banda no país, mas ainda carregam esse DNA apaixonado — algo muito mais relevante do que relatos genéricos que pouco acrescentam.
Ainda assim, nem tudo é negativo. Alguns recortes específicos funcionam, como a abordagem da saída de Bruce Dickinson em 1993, a entrada de Blaze Bayley, o evidente declínio comercial e criativo naquele período, e posteriormente o retorno triunfal de Bruce Dickinson ao lado de Adrian Smith em 1999. Esses momentos são tratados com respeito, mas ainda assim de forma apressada, sem o aprofundamento que mereciam dentro de um contexto histórico tão relevante. De certa forma, essa abordagem apressada até pode ser compreendida — afinal, caso contrário, estaríamos diante de um filme com cerca de quatro horas de duração. Ainda assim, isso não seria necessariamente um problema se o projeto fosse pensado em outro formato, como uma série documental, a exemplo do que foi feito com Raimundos (guardadas as devidas proporções).
Há também méritos pontuais que merecem ser reconhecidos. A forma como o filme aborda o diagnóstico de câncer e a posterior remissão de Bruce Dickinson é conduzida com sensibilidade, respeito e carga emocional genuína. Da mesma forma, a decisão de saída de Nicko McBrain é tratada de maneira tocante. Soma-se a isso a inclusão de alguns trechos de performances ao vivo raras, pouco ou nunca antes vistas e ouvidas, que acabam sendo um dos poucos momentos realmente empolgantes para o fã mais atento.
A impressão geral é de um projeto feito com paixão, mas sem curadoria. Como se fosse um compilado de ideias de fã, sem direção clara — tudo jogado, sem critério ou senso de prioridade. Isso fica ainda mais evidente nas escolhas de foco: há uma insistência desproporcional na era de Powerslave, enquanto outros períodos igualmente relevantes são deixados de lado, uns até completamente esquecidos.
Para piorar, a inclusão de depoimentos de fãs ao longo do filme não acrescenta praticamente nada à narrativa. Qual é, afinal, a relevância de um bombeiro relacionado ao ataque das torres gêmeas, nos Estados Unidos, em 2001, estar ali apenas para dizer que a música da banda o ajudou em um momento difícil? Evidentemente, há respeito pela história pessoal, mas isso não justifica o espaço recorrente dado a esse tipo de relato dentro de um documentário que deveria priorizar a trajetória da banda. Em vez de enriquecer o conteúdo, essas participações acabam quebrando o ritmo e ocupando um tempo precioso que poderia ser melhor aproveitado para aprofundar aspectos realmente importantes da história do Iron Maiden.
Sinceramente, o Iron Maiden — mesmo não tendo se envolvido diretamente na produção do filme, apenas cedendo direitos e aprovando o material — merecia algo muito mais à altura dessa celebração de 50 anos. O resultado é um filme previsível, de narrativa rasa, cronologia bagunçada e com esquecimentos difíceis de justificar.
Resumindo, Burning Ambition é uma oportunidade desperdiçada. Um filme que tinha nas mãos meio século de história, mas optou por contar apenas fragmentos desconexos, deixando lacunas difíceis de aceitar. Para fãs mais atentos — especialmente aqueles que conhecem a fundo a história do Iron Maiden como eu — a sensação é de frustração quase constante.





