Madball
Local: Tropical Butantã, São Paulo/SP
Data: 09/04/17
Abertura: Oponente, Bayside Kings e Paura
Produção: Honorsounds
Nenhum outro subgênero da música pesada enaltece e dissemina tanto os valores familiares, a amizade e a união como o Hardcore. Seguindo os preceitos básicos dessa ideologia, somos todos um só, sem distinção de etnia, credo ou opção sexual, e realmente seria muito bom se essa mensagem positiva fosse assimilada por todos.
O evento ao qual tive o prazer de assistir no último domingo (09/04/17) foi muito mais que um simples show ou uma apresentação artística. Foi uma autêntica celebração Hardcore, como um encontro de irmãos que há tempos não se viam. Irmãos unidos num único propósito: diversão pura e simples, acompanhada da melhor trilha sonora do estilo.
Como todo mundo sabe, a única apresentação do Madball no Brasil esse ano já havia sido agendada há vinte dias atrás, porém, um problema de saúde envolvendo a filha do vocalista Freddy Cricien acarretou em um súbito cancelamento às vésperas do evento, com Freddy prontamente postando um vídeo em respeito aos fãs explicando resumidamente o que havia ocorrido, pedindo sinceras desculpas, e prometendo uma nova data a ser anunciada muito em breve. E foi breve mesmo, pois em menos de um mês já estava tudo resolvido, com nova data e local anunciados.
A nova casa escolhida para abrigar o evento foi o Tropical Butantã, na zona Sul de SP. Local acolhedor, não muito grande e com boa estrutura de palco e som, muito propício para sediar um evento desse porte. Apresentações de Hardcore precisam de um local mais intimista, para haver aquela troca de energia e um contato direto com o público, o que seria inviável em grandes arenas.
Mas chega de pataquada e galhofada e vamos ao que interessa. Foram escaladas três bandas para a abertura do espetáculo: Oponente (São Paulo), Bayside Kings (Santos) e Paura (São Paulo), e posso dizer que foram escolhidas a dedo. Três bandas muito competentes, já reconhecidas no underground, e devidamente influenciadas pelo Hardcore novaiorquino clássico dos anfitriões da noite. O Oponente pegou o salão vazio e o pouco público presente ainda meio “morno”, mas isso não foi empecilho para o grupo, que em um set muito curto e explosivo demonstrou que não estavam pra brincadeira. Destaques para a visceral “Faça Você Mesmo” e para o cover de “Refuse/ Resist” (Sepultura) que ficou excelente.
O Bayside Kings assumiu o bastão a seguir e já contava com o apoio de um público mais numeroso. A performance frenética aliada a boas composições fez desta uma das melhores performances entre as bandas de abertura. Logo no início do set, o vocalista pulou no meio do público e de lá conduziu o restante da apresentação, interagindo com a plateia, abraçando os fãs e convidando-os a cantar juntos, e confesso que vários talentos foram revelados nesse momento. O primeiro “mosh pit” tomava forma e me fazia temer pela integridade de todos. Músicas como “Another Point of View” e “Bigger Than Me And You” já dava sinais da destruição iminente que viria em breve.
O Paura é talvez a mais conhecida das bandas de abertura (ao menos pra mim) e já contava com a casa quase cheia a esta hora. O vocalista Fabio Prandini se mostrou muito engajado, ostentando uma curiosa camiseta a qual enaltecia a todo momento, com os dizeres “Refugees Welcome” (muito condizente com a terrível realidade vivida pela Síria e outros países), e promoveu um discurso pacifista contra os malefícios da política, da disseminação do ódio, apregoando a cultura do “cuide de você mesmo”. Apresentação impecável, intensa e repleta de ótimos momentos fizeram deste o melhor show de abertura da noite. “Bull Control”, “Reverse the Flow”, “Worthless Progress” e “Gas Diplomacy” são a síntese da fúria em um set que oscila entre o Hardcore e o Thrash com igual desenvoltura. Uma banda que merece ser conhecida e respeitada. E o momento que todos esperavam estava chegando…
A cena foi curiosa: um menino, por volta de uns oito anos, aparece acompanhado por um integrante da produção (creio eu) e pergunta se o público presente gosta de Hardcore. Após a afirmação em uníssono, o pequeno fala: “com vocês, Madball”. Aí, meus queridos, o Tropical Butantã se mostrou a mais sólida edificação, pois pra aguentar todo aquele impacto, só tendo a construção muito bem alicerçada. Que arregaço!
A banda havia afirmado que o set list era especial, pois seria elaborado a pedido exclusivo dos fãs. Se isso se concretizou eu não sei, só sei que o “bola” fez uma varredura de toda sua carreira, executando seus maiores clássicos e, a essa altura, se apresentassem um set só com versões para clássicos do Sidney Magal, o público nem se importaria, pois o nível de comoção era alarmante.
Freddy estava visivelmente empolgado, e até perguntou ao público se preferiam que ele se comunicasse em inglês ou espanhol. Idioma escolhido, o cara elogiou e agradeceu aos presentes, interagindo o tempo todo entre as músicas e agitando igual a um demente em pleno surto de epilepsia. A banda toda estava em um entrosamento exemplar, tornando as músicas ainda mais brutais ao vivo.
“Hardcore Lives” deu início ao espetáculo e se mostrou a escolha perfeita. Público se esmurrando e se engalfinhando em um dos mais selvagens “mosh pit” que já vi na vida, e aquilo me fez refletir: “ainda bem que estou a uma distância segura. Estou velho demais pra isso”. Senilidade a parte, a demolição estava apenas começando e eu queria mais, muito mais!
O Metal e suas ramificações tem o poder de despertar as reações mais intensas, mas você não sabe o que é intensidade e energia até assistir a um show desses caras. A conexão entre público e banda foi algo único. Todos os presentes, quase sem excessão, cantando junto cada palavra proferida por Cricien foi emocionante. “Smell the Bacon, “We The People” e “Get Out” vieram na sequência, emendadas umas às outras, formando um bloco de destruição em massa. Simplesmente alucinante.
Em um determinado momento, o vocalista apresenta seus companheiros de banda e diz há quanto tempo estão juntos: Brian “Mitts” Daniels (guitarra), Mike Justian (bateria) e Hoya Roc (baixo). Ao anunciar esse último, o público quase não deixou Cricien falar, tamanha a ovação a um músico que já se tornou uma espécie de marca registrada da banda. Foi um tal de “Hoya, Hoya…ole,ole,ole,ole…”
Os trabalhos mal haviam começado e o palco já se tornava terra de ninguém. Em vários momentos, mal dava pra ver a banda no set. O “stage dive” foi certamente a atividade mais concorrida da noite. E tome “Can’t Stop, Won’t Stop”, “Nuestra Familia” e “D.N.A.” em mais uma tríade fulminante! Porém, “Set it Off” e “Down by Law”, composições presentes em um dos álbuns mais emblemáticos da história do HC americano, “Set it Off” (1994), despertaram até os mortos, e o que se viu não foi mais um simples “mosh pit”, mas sim um genocídio estilizado. Cenas impressionantes.
O Madball ainda tinha muito a dizer, e o incansável público estava lá para ouvir. Ainda tivemos “Mi Palavra”, “Across Your Face”, “Face to Face”, “Infiltrate de System” e mais uma pancada de hits do melhor Hardcore do mundo. Uma pena que o set foi muito curto (se chegou a uma hora foi muito). Poderiam tocar toda a discografia na íntegra que ainda assim seria pouco.
Já assisti a alguns shows nesses meus 43 anos, tive experiências memoráveis, porém, o que presenciei hoje me fez rever os conceitos de “memorável”. As bandas de abertura, juntamente com o Madball, proporcionaram um espetáculo dinâmico, intenso e absurdamente impactante, que dificilmente será superado. Tudo isso fez com que esse velho e desgastado coraçãozinho anseie ainda mais por um novo disco do “Bola Doida” o mais breve possível. “Hardcore Still Lives” nunca fez tanto sentido!
Agradecimentos especiais à Honorsounds pela parceria, às bandas de abertura, principalmente ao Paura pela amizade e apoio, toda equipe técnica pelo belo trabalho e, evidentemente, ao Madball por nos fazer ainda vivos e sedentos por Hardcore. Que venham muito mais eventos desse tipo.
Set List:
Hardcore Lives
Smell the Bacon
We the People
Get Out
Can’t Stop Won’t Stop
Nuestra Familia
DNA
Set it Off
Down by Law
Mi Palavra
Across Your Face
Face to Face
Infiltrate the System
Look My Way
DMS
It’s My Life
Pride
Doc Marteen Stomp
100%
Hardcore Still Lives
Ricardo L. Costa





