As I Lay Dying – Vip Station, São Paulo/SP (03/05/2026)
Produção: Dark Dimensions
Assessoria: JZ Press
Abertura: Self Insight e Throw Me To The Wolves
Texto por Johnny Z.
Fotos por Ezequias Pedroso (@showemfoco)
A abertura da noite ficou por conta dos paulistas da Self Insight, trazendo seu hardcore nervoso para um público que — ao meu ver — não sei se entendeu completamente o som dos caras. Apesar de ainda não ser um nome conhecido, o grupo já possui um lançamento oficial disponível em plataformas digitais, seu álbum homônimo, se mostrando como mais um grande nome dentro da nova geração do hardcore brasileiro.
Formada por Carlos HLK (vocal), Vinicius Starteri (guitarra), Alexandre Dartangnan (baixo) e Lucas França (bateria), a banda mostrou exatamente a que veio: um hardcore cru, agressivo e de impacto imediato, com forte influência do peso clássico de bandas como Madball, Agnostic Front e Hatebreed.
A apresentação foi curta, mas extremamente eficaz, baseada em energia constante, riffs secos e uma pegada que não dá espaço para respiro. É aquele tipo de show que aposta tudo na intensidade — e acerta em cheio dentro da proposta de quem curte riffs como ganchos de direita no queixo.
No meio da apresentação, a banda também prestou uma homenagem ao amigo e recentemente falecido guitarrista Chile Portilla, em um momento de forte carga emocional que reforçou ainda mais a conexão entre banda e público. Como curiosidade, Vinicius Starteri, que hoje assume a guitarra, era originalmente baixista do grupo e acabou migrando de função após o ocorrido.
Na minha visão, pode até ter destoado um pouco das outras bandas da noite em termos de abordagem sonora, mas isso não diminui em nada o resultado. Como sou fã de hardcore violento, adorei!
Falando exclusivamente do som da Self Insight, o negócio é bruto: porrada do começo ao fim, muito pesado e convincente. E, sinceramente, gostei muito do que vi. É hardcore direto, sem filtro e com muita verdade no palco. A postura de seu vocalista, usando um colete de soldado, já deixou claro que os caras não estão para brincadeira.










A trajetória recente do Throw Me To The Wolves em palcos nacionais e, também, internacionais ajuda a explicar o nível de segurança apresentado a cada nova performance. A banda não apenas vem consolidando seu nome na cena, como também construiu um histórico consistente de aberturas para grandes gigantes do metal mundial.
Antes mesmo da primeira música, a atmosfera já foi construída com a execução da faixa “Genesis”, funcionando como introdução e preparando o terreno para o impacto que viria na sequência. Em seguida, o grupo entrou em cena com precisão cirúrgica e entrega total, transformando a abertura em algo muito além de um simples aquecimento de palco.
Essa fase de ascensão não acontece por acaso. O Throw Me To The Wolves já dividiu palco com nomes de enorme peso da cena internacional, como HammerFall, In Flames, Possessed, Exodus, Killswith Engage, Infected Rain, Carcass, Batushka, além de outras bandas relevantes do metal mundial, o que reforça de forma clara a crescente projeção do grupo no circuito ao vivo e sua consolidação entre os novos nomes em evidência.
Com formação composta por Diogo Nunes nos vocais, Gui Calegari e Fabrício Fernandes nas guitarras, Fábio Fulini no baixo e Maycon Avelino na bateria, o quinteto demonstrou um entrosamento impecável e que já não soa mais como promessa, mas como algo consolidado dentro de sua trajetória recente. Mesmo em um set idêntico à abertura para o In Flames algumas semanas antes, a banda conseguiu imprimir identidade, conduzindo a apresentação com segurança um dos últimos shows de divulgação do álbum de estreia Days of Retribution (2025), encerrando esse ciclo de forma muito positiva. Portanto, aguardem um novo petardo para breve!
Ao vivo, a fusão entre o death metal melódico e elementos mais modernos ganha ainda mais força. Os riffs surgem bem estruturados, com peso e clareza, enquanto a bateria sustenta a base com precisão e constância. As variações de dinâmica evitam qualquer sensação de repetição, mantendo o show em constante movimento, e sempre repleto de energia, pois é paulada atrás de paulada! Faixas como “Chaos”, “Tartarus” e “Gates of Oblivion” funcionam como disparos de energia imediata, enquanto “Days of Retribution” e “Fragments” equilibram agressividade e melodia de forma eficiente.
Diogo Nunes assume o centro da apresentação com naturalidade, sem recorrer a excessos teatrais, mas com presença suficiente para manter o público conectado do início ao fim, inclusive até brincando muito com o público. Sua comunicação direta com a plateia ajuda a encurtar a distância típica entre banda de abertura e audiência, criando uma atmosfera mais participativa já nos primeiros momentos da noite.
Outro ponto que se destaca é a solidez coletiva em palco. O Throw Me To The Wolves não depende de grandes pausas dramáticas ou artifícios visuais para sustentar o impacto do show. Tudo é construído na base da execução firme e do entrosamento entre os músicos, com cada integrante cumprindo seu papel de forma clara dentro do conjunto.
Mesmo também abrindo a programação, o público já ocupava boa parte da casa e respondeu de maneira ativa, o que potencializou ainda mais a entrega da banda. Essa troca imediata ajudou a transformar a abertura em um verdadeiro aquecimento de alto nível, e não apenas em uma etapa obrigatória do evento.
No encerramento do set, a sensação é de consistência e maturidade crescente. O Throw Me To The Wolves demonstra entender perfeitamente seu espaço em um line-up, mas também mostra capacidade de extrair dele o máximo possível em termos de presença e impacto. Sem exageros, sem promessas vazias e sem necessidade de provar algo a qualquer custo, a banda entrega um show direto, pesado e eficiente — daqueles que reforçam, a cada apresentação, o nome dentro da cena nacional de forma cada vez mais sólida.
Sabe aquela banda nível gringa que nasceu no Brasil? Então… (risos)















Após sua última passagem pelo Brasil em 2019, quando esteve no país promovendo Shaped by Fire, o As I Lay Dying retornou a São Paulo no dia 3 de maio de 2026 com uma proposta especial: celebrar as duas décadas de Shadows Are Security, um dos discos mais importantes da história do metalcore e do metal em geral. Na Vip Station, o grupo mostrou que, mesmo com o passar dos anos, problemas pesados pessoais de seu vocalista (tema amplamente conhecido, mas irrelevante para o contexto desta resenha) e mudanças significativas, segue extremamente relevante — agora impulsionado por uma formação renovada.
Atualmente, a banda conta com Tim Lambesis nos vocais — único remanescente da formação original —, ao lado do brasileiro Bill Hudson e de Don Vedda nas guitarras, Chris Clancy no baixo e vocais limpos, além de Tim Yeung na bateria. A formação atual demonstra excelente entrosamento e imprime uma energia renovada ao grupo, algo que ficou evidente ao longo de toda a apresentação. Outro ponto marcante dessa nova fase é a incorporação de um peso mais brutal, com uma agressividade ainda maior em relação ao passado.
Diferente de um set convencional, o show foi estruturado em três atos bem definidos. A abertura funcionou como um aquecimento em altíssimo nível, com uma sequência certeira de faixas que já se provaram extremamente eficazes ao vivo.
“Blinded” deu o pontapé inicial com riffs marcantes e uma dinâmica que alterna peso e melodia com naturalidade, servindo como introdução direta e impactante. Na sequência, “94 Hours” elevou imediatamente a temperatura da casa — um clássico absoluto que, ao vivo, ganha contornos ainda mais agressivos e invariavelmente provoca as primeiras rodas mais intensas da noite. A clássica e certeira “Burden” manteve o nível com uma abordagem mais moderna e densa, com vocais limpos de Chris em destaque, enquanto um dos novos singles da banda, “Echoes”, mostrou que o grupo segue atual, dialogando com sua própria essência sem soar repetitivo.
“A Greater Foundation” trouxe o equilíbrio característico entre refrão marcante e peso nos versos, criando um dos momentos mais cantados desse primeiro bloco. Encerrando a abertura, “Parallels” surgiu como um dos pontos altos em termos de intensidade e precisão, com riffs rápidos e um breakdown que funciona como gatilho imediato para o caos na pista. O resultado foi um início avassalador, deixando o público completamente envolvido … e sedento por mais!
Vale destacar também o trabalho de som e iluminação da casa. Tendo frequentado a Vip Station em diversas ocasiões, foi possível perceber que, desta vez, tudo funcionou de forma exemplar. A sonoridade se manteve nítida e equilibrada em todos os pontos do ambiente — algo que pude comprovar circulando por diferentes áreas da casa —, enquanto a iluminação complementou perfeitamente a intensidade do show. Um mérito claro de todos os profissionais envolvidos nesses setores.
Com o terreno preparado, o segundo ato — ponto central da apresentação — trouxe a execução de faixas certeiras de Shadows Are Security, transformando a Vip Station em um verdadeiro ritual coletivo. “Meaning in Tragedy” abriu o bloco com a casa já em ebulição, seguida por “Confined”, que elevou os coros a um nível impressionante, com o público praticamente assumindo os vocais. “Losing Sight” manteve a intensidade com sua condução direta, preparando o terreno para “The Darkest Nights”, um dos momentos mais aguardados da noite, recebido como um verdadeiro hino.
Na sequência, “Empty Hearts” trouxe uma carga emocional mais evidente, contrastando com a agressividade predominante, enquanto “Reflection” e “Repeating Yesterday” reforçaram a força do álbum com riffs marcantes e mudanças de andamento que mantêm a dinâmica sempre interessante. Encerrando esse bloco, o hino “Through Struggle” surgiu como um dos pontos mais altos da apresentação, unindo peso, melodia e uma resposta massiva do público — um fechamento à altura de um álbum que segue sendo referência dentro do gênero.
Ao longo dessa segunda parte, ficou evidente o quanto esse material permanece impactante ao vivo: riffs memoráveis, transições bem construídas e uma intensidade que não se perde com o tempo. Com a nova formação, as músicas ganharam ainda mais corpo, com guitarras mais encorpadas e breakdowns ainda mais brutais, elevando a experiência a outro nível.
A terceira e última parte veio para fechar a noite com intensidade máxima. “Nothing Left” abriu o bloco final como um verdadeiro soco direto: rápida, agressiva e com riffs cortantes, funcionando como gatilho imediato para rodas violentas, algo visto por praticamente toda a apresentação. A banda nitidamente estava curtindo estar ali, e sentiu que era o seu melhor show na turnê até então.
Na sequência, “The Sound of Truth” manteve o nível elevado, trazendo uma construção mais cadenciada e um groove marcante, enquanto “My Own Grave” encerrou a noite de forma contundente, com peso moderno e um clima quase épico, deixando a sensação de missão cumprida.
No aspecto técnico, o desempenho foi irrepreensível. As guitarras de Bill Hudson e Don Vedda formaram uma parede sonora pesada e precisa, enquanto Tim Yeung sustentou tudo com firmeza e agressividade. Chris Clancy acrescentou peso e equilíbrio com seus vocais limpos — inclusive protagonizando um momento inusitado ao tocar no meio da roda de mosh —, e Tim Lambesis manteve uma performance vocal consistente, agressiva e com presença de palco dominante do início ao fim.
A dupla de guitarristas Bill Hudson e Don Vedda parece tocar junta há décadas, tamanha a coesão entre palhetadas e solos. Bill, como já esperado, mostrou-se um verdadeiro monstro: postura firme, execução precisa e solos cheios de personalidade, além de uma presença de palco extremamente impactante.
Já Tim Lambesis não parava um segundo: berrava, se movimentava e agitava o tempo todo. De uma visão privilegiada — diretamente do palco — era possível notar até mesmo a estrutura elevada onde ele se apoia praticamente cedendo com o impacto de seus pulos. Assustador (risos).
Chris Clancy foi um destaque à parte. Seus vocais limpos casaram perfeitamente com os vocais agressivos de Lambesis, criando um contraste poderoso e uma dualidade que elevou ainda mais as músicas ao vivo.
Já o “pequenino” Tim Yeung praticamente desaparece atrás do kit, mas o tamanho engana: quando começa a tocar, vira um gigante. Técnica apurada, peso e precisão definem sua performance.
A resposta do público foi um espetáculo à parte. A Vip Station se transformou em um verdadeiro caos organizado, com rodas constantes, crowd surfing praticamente ininterrupto e coros ensurdecedores. A troca de energia entre banda e plateia foi um dos pontos mais marcantes da noite. A vibe realmente estava lá em cima!
Sem dúvidas, o show do As I Lay Dying foi mais do que uma celebração de aniversário — foi a reafirmação de um legado dentro do estilo. Posso não ser um conhecedor ou apreciador inveterado do gênero, mas não sou ingênuo a ponto de não reconhecer que o negócio é uma verdadeira pancada. Se você ainda tem preconceito com o rótulo “metalcore”, vale a pena deixar isso de lado e ouvir sem amarras: a surpresa pode ser grande… eu mesmo me surpreendi.
Mais do que revisitar o passado, a banda mostrou que Shadows Are Security ainda soa atual, pesado e absolutamente eficaz ao vivo. Em São Paulo, ficou claro: a nova fase não apenas sustenta o nome, mas aponta para um futuro tão intenso quanto seu passado. Quanto a tentativas de cancelamento ou boicote, fica o registro: a música falou mais alto naquela noite — e isso foi o que realmente prevaleceu e o que realmente importa.








































