Metal na Lata

Max & Iggor Cavalera – Bar Opinião, Porto Alegre/RS (04/11/2018)

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Banda principal: Max & Iggor Cavalera
Banda de Abertura: Diokane
Local: Bar Opinião, Porto Alegre/RS
Data: 04/11/2018
Produtora: Abstratti

Texto: Sergiomar Menezes
Fotos: Diogo Nunes

Pra início de conversa, lembro que, quando foi anunciado que os irmãos Cavalera entrariam em turnê revivendo os áureos tempos Sepultura (leia-se os anos de 1989 e 1991), muitos “entendidos” disseram que isso era um erro, que eles não tinham o direito de “afrontar” o atual Sepultura, tocando os clássicos do grupo, que isso na realidade era um caça níquel, buscando visibilidade fazendo uma visita ao passado ao invés de olhar para rente. BULLSHIT!!!! Quem em sã consciência, sendo fã ou não do grupo, pode negar aos dois o direito de tocar clássicos absolutos do metal brasileiro ( e porquê não dizer, do metal mundial) que eles criaram ou que ajudaram a criar? E convenhamos… Estamos falando de ninguém mais, ninguém menos, de Max Cavalera, o maior nome do metal brasileiro em todos os tempos. E esqueça aquele velho papo de que ele saiu da banda por que quis, que renega seu passado, blá blá blá Whiskas sachê. Max é a maior lenda do nosso querido e muitas vezes mal tratado heavy metal nacional. Então, se aquela pergunta lá do início, de que se eles podiam ou não realizar essa turnê eu respondo: não! Eles não podiam! Eles deviam! Todo fã do verdadeiro Sepultura deveria assistir a esse show. Mas, desabafo feito (sim, podem me chamar de viúva), vamos ao que interessa.

Dia 04/11/2018 entrou para história do metal no Rio Grande do Sul. E de uma forma que cada um dos presentes ao Bar Opinião nessa noite jamais esquecerá. Um show onde os irmãos Max Cavalera e Iggor Cavalera, fortemente amparados pelo excepcional Marc Rizzo e pelo baixista Mike Leon (ex-Havok) resgatariam, da forma como eles devem ser executados, os clássicos inesquecíveis daquela que foi a maior banda brasileira de metal de todos os tempos. Intitulado ” Max e Iggor Cavalera – 89/91 Era – Special Setlist”, o show traria ao palco do já também lendário Bar Opinião músicas presentes nos clássicos “Benetah the Remains” (1989) e “Arise” (1991), além de algumas músicas obrigatórias e também que não podem faltar em um show do Sepultura. E se por um acaso, você pode estar achando estranho ou até mesmo errado eu estar me referindo toda hora ao Sepultura, bom… é que pra mim meu amigo, o que presenciamos nesta noite foi o VERDADEIRO SEPULTURA! Ali estão a alma, o coração e a força motriz do que um dia foi o Sepultura, Mas, obviamente, esse é minha opinião.

Na abertura dessa noite histórica tivemos a banda Diokane. que faz uma interessante mistura entre o punk/hardcore com o lado mais extremo do metal (leia-se thrash/grind). Formada por Homero Pivotto Jr. (vocal), Rafael Giovanoli (guitarra – In TormentFinally Doomsday), Duduh Rutwoski (baixo) e Gabriel “Kverna” Mota (bateria) mostraram uma garra e disposição muito acima da média, trazendo músicas repletas de velocidade, peso e adrenalina. Sem muita cerimônia, o grupo iniciou seu intenso set com a porrada “The Light make Us Blind”, o que já deixou provado que o show da banda seria muito mais do que um simples banda de abertura.

Com uma excelente qualidade som, a banda mostrou aquele ‘sangue no zóio’ que só bandas com atitude podem ter. Destaque para a performance insana do frontman Homero, que não se furtou em descer do palco algumas vezes indo “cantar” no meio do público. Mas os demais integrantes não ficam atrás, pois era nítido que os músicos estavam dando o melhor de si em cima do palco e a platéia soube reconhecer. Dentre os destaques da apresentação podemos citar ainda “Descreditado”, uma pequena parte de “Into the Void” do Black Sabbath, usada como introdução que a banda teve a genial sacada de chamar de “Intro the Void”, “Born With a Curse”, “Lamento”, “Meu Sangue” , “Certezas” e “Days of Summer”. Unindo a atitude do Hardcore com a pegada do metal, foram 10 faixas que passaram voando, tamanha a velocidade e qualidade das músicas apresentadas pelo grupo. Banda mais do que pronta pra tomar seu lugar no cenário. Diokane. Guardem esse nome!

Setlist Diokane:

The Light Make Us Blind
Descreditado
Born With a Curse
Rushing
Intro the Void + Under
Lamento
Meu Sangue
We Lose (Down)
Certezas
Days of Summer

Após um rápido intervalo, era chegado o momento que todos os presentes estavam esperando. Acredito que muitos ali não tenham presenciado o Sepultura em seu auge, ainda na mais na turnê de divulgação dos álbuns reverenciados nesta turnê. Ou seja, para muitos, essa seria a oportunidade de presenciar algo histórico, insano, inesquecível. E foi exatamente isso que aconteceu! Passava um pouco das 21hs, quando Iggor adentrou ao palco para delírio dos fãs. Em seguida, Marc Rizzo, Mike Leon e a lenda, Max Cavalera entram e temos início a um dos maiores massacres sonoros já presenciados pelo Bar opinião. E não estou falando de velocidade absurda, peso ensurdecedor. Estou falando de THRASH METAL! E nada melhor do que começar com “Beneath the Remais”, executada de forma hipnótica pelo quarteto. Não entendeu? É por que nesse momento, todos prestavam atenção em cada detalhe do grupo em cima do palco, e ao mesmo tempo, cantavam a letra juntamente com Max. Um único senão a apresentação foi o som inicial que estava um pouco abafado e embolado até a terceira música. Mas isso não fez muita diferença pros presentes, uma vez que a segunda faixa executada foi “Inner Self”. Como não lembrar do clipe executado a exaustão pela falecida MTV? “Nonconformity in My Inner Self! Ony I Guide My Inner Self!”. Esse é daqueles momentos que deveriam ser emoldurados e guardados na parede da sala.

Em seguida, “Stronger Than Hate”, mostrando o quanto o Sepultura fazia música foda! Sabe aquele Thrash metal que traz consigo a influência do Thrash Alemão, mas incorpora sua identidade? Esse é um daqueles casos. Iggor destruía seu kit a cada faixa executada, enquanto o baixista Mike Leon não para de agitar um minuto! “Mass Hypnosis” vem em seguida e aqui o som melhora e deixa tudo ainda mais animal! E falar o que da performance de Marc Rizzo? O cara simplesmente segura as pontas com maestria, uma vez que Max não “toca” ais sua guitarra como antigamente. Agora, o que o véio tem de carisma junto ao público. Tenho a mais absoluta certeza que se ele dissesse “Se matem”, o IML teria muito trabalho naquela noite. “Beneath The Remains” segue sendo homenageado, dessa vez com “Slaves of Pain”, outra pérola thrash, com riffs executados à risca pela “dupla” Max e Rizzo. Para encerrar a primeira parte do show, “Primitive Future”, uma pedrada digna de destruir pescoços da forma mais brutal possível.

Era chegada a hora de “Arise”, um dos álbuns de Thrash Metal que eu mais ouvi na vida… E, aqui vai um relato bem pessoal. Não tem preço que pague o sentimento de poder assistir as seis faixas do disco executadas da maneira como elas foram compostas (exceção à “Orgasmatron”, claro). É difícil de explicar, mas quando se deu início a introdução de “Arise”, meu amigo, não teve dor na coluna que me impedisse de bater o a cabeça como se eu ainda tivesse meus 15 anos. “Under a Pale Gray Sky We Shall Arise!”. Puta que pariu! E o que veio depois então? “Dead Embrionic Cells”, outro clássico indiscutível, assim como “Desperate Cry”, um dos maiores hinos do grupo. Essa trinca simplesmente já valeria o ingresso, tamanha a relevância desses três petardos para o metal mundial. Mas, não satisfeitos em nos fazer gastar o estoque de relaxante muscular no dia seguinte, “Altered State” veio para deixar tudo ainda mais nostálgico. O riff desta música ainda ecoa em minha cabeça como se tivesse escutado ontem. “Infected Voice” veio e já sabíamos o que teríamos em seguida. A música que fez com que muitos conhecessem a banda e que, de certa forma, veio a se tornar uma de suas marcas registradas: “Orgasmatron”, cover do também inesquecível e imortal Motorhead, pôs todo local abaixo, com todo mundo cantando junto e bangueando que nem “guri novo”.

Max “abandona” a guitarra e anuncia mais um cover de “Deus”: “Ace of Spades” ganhou uma versão violenta e animal por parte do grupo. Após uma rápida saída do palco, “A gente vai voltar, mas vocês tem que gritar bem alto, porra!”, a banda retorna e detona um dos grandes clássicos do passado longínquo do grupo. “Troops of Doom” ganhou ao longo dos anos um ar mais atual, sem perder aquela aura tosca e brutal de quando foi composta. Um hino que perdurará ainda por muito tempo. Era chegada a hora de relembrar um clássico de “Chaos A.D”, (1993). “Refuse/Resist” abriu uma das maiores rodas que eu já pude assistir no Bar Opinião e mostrou a força desse álbum. E fica aqui uma ideia, quem sabe uma turnê para relembrar “Chaos A.D.” juntamente com “Roots” nos mesmos moldes???? Ok, já fizeram uma para o “Roots”, mas seria uma boa ideia. Para encerrar, aquela música que muitos fãs torcem a cara mas que quando toca não deixa pedra sobre pedra. “Roots Bloody Roots” é um daqueles “hits” que fazem toda a diferença num show do grupo. E chega a ser engraçado ver Max dizendo “vâmo pulá”, enquanto a galera tava se matando lá embaixo. E para coroar esse massacre sonoro, um medley rápido de “Arise/Beneath the Remains”!

Simplesmente, um dos shows mais animais que já tive o privilégio de assistir. Uma banda no ponto, entrosada e tocando só clássicos não tinha como dar errado. E não deu. Muitos dizem que o Max tá acabado, que não toca mais e mais um monte de historinha para boi dormir. Se alguém tem essa opinião, escute os álbuns do Cavalera Conspiracy, do Soulfly e dos inúmeros projetos dos quais ele participa. Não há nada a se dizer. Apenas reverenciar o maior nome do metal brasileiro de todos os tempos. Esse show serviu para, além de destruir nossos pescoços, mostrar que éramos felizes e sabíamos. Esse sim é o SEPULTURA que todos curtem, o real e verdadeiro SEPULTURA DO BRASIL!

Um agradecimento especial à Abstratti Produtora pela parceria de sempre.

Setlist Max & Iggor Cavalera:

Beneath the Remains
Inner Self
Stronger Than Hate
Mass Hypnosis
Slaves of Pain
Primitive Future
Arise
Dead Embrionic Cells
Desperate Cry
Altered State
Infected Voice
Orgasmatron (Motörhead)
Ace of Spades (Motörhead)
Troops of Doom
Refuse/Resist
Roots
Arise/Beneath The Remains (Medley)

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