
Metallica – “S&M²” (2020)
Blackened Recordings
#HeavyMetal, #HardRock, #Rock, #SymphonicMetal
Para fãs de: Deep Purple, Scorpions
Nota: 9,0
O mundo do Metallica sempre foi um híbrido entre a rebeldia e acomodação perante aos olhares alheios. Para os críticos de plantão, os ditos “haters”, a banda morreu, vendeu-se e não tem mais o tal “sangue nos zóios”. Para uma legião de fãs, ela jamais acomodou-se, sempre foi inquieta e sempre fez às próprias regras, agradando ou não. As fornalhas dentro da maior banda de Heavy Metal de todos os tempos (EU DISSE MAIOR, NÃO MELHOR, OK?) sempre foram nutridas com cavalares porções de confiança, espírito de equipe, ímpeto e desejo por conquistar todos os espaços possíveis e impossíveis.
E foi justamente esse impulso incontrolável que fez com Lars, James, Kirk, Cliff, Jason e, por último, Rob, vissem suas carreiras (e contas bancárias) elevarem-se astronomicamente. Obviamente que alguns erros e tropeços fazem parte desse caminho, mas os contos e causos não são os objetivos aqui, o que está em avaliação é o agora e o futuro. No ano passado em meio a uma interminável e sonolenta “Worldwired Tour” , o grupo americano anunciou as comemorações de 20 anos do ambicioso “S&M” – a aventura que unia o Metallica e a orquestra sinfônica de São Francisco, que foi originalmente gravada em 1999 e trazia à batuta o mítico Michael Kamen. Entre erros e acertos da primeira empreitada, sobre nós pairou a dúvida: seguiriam protocolos numa comemoração à nostalgia ou lançariam ao chão o pó e traças e iriam novamente surpreender, injetando de fato algo novo?
Os dias 6 e 8 de setembro foram os escolhidos para que o belíssimo Chase Center recebesse banda e orquestra de forma triunfal: palco diferente, novos e revigorados arranjos e setlist atualizado. Tudo perfeitamente planejado para ser uma noite magicamente memorável – longe de revisitar um capítulo de sua história, mas a continuação do mesmo de forma apoteótica e única. O que se sucedeu após tais noites foi um verdadeiro martírio – uma longa espera para poder ouvir toda aquela mágica de forma nítida e minuciosa. Quase um ano mais tarde e eis que chega “S&M²”, experiência que comprova uma vez mais que o Metallica tem a audácia como a sua alegoria máxima.
Em duas horas de apresentação a banda transita de protagonista a coadjuvante, a orquestra preenche as lacunas, vai adicionando mais vida e intensidade aos clássicos. Caminhando lado-a-lado como um quinto membro formado por quase 100 musicistas. A tríade apocalíptica: “Ecstasy Of Gold”, “The Call Of Ktulu” e “For Whom the Bell Tolls” revela a sinergia que há entre os músicos, sua entrega e sua mágica capacidade de injetar personalidade e feeling.
A “novata”, “The Day That Never Comes“, parece ter sido criada para a ocasião, como um prenúncio para o que aconteceria 11 anos depois – as harmonias vão crescendo à medida em que as guitarras e violinos criam uma “batalha” entre si, tornando esse momento impagável e que merecem aquele repeat. Abordar a “Confusion” é um tanto complicado, pois enquanto a orquestra e público dão um show à parte, compete à banda entregar algo tenebroso e descartável tal qual é no álbum, “Hardwired to Self Destruct”. Sim, um tropeço, visto que nessa hora a execução de “The Thing That Should Not Be” seria mais que obrigatória; houvesse uma constituição com todas as leis do Heavy Metal, com certeza à não execução da mesma estaria entre os crimes inafiançáveis – um atentando aos bons fãs.
Findando o primeiro disco “The Outlaw Torn” e “Halo On Fire”: a primeira citada, é só a melhor composição da banda pós “Black Album” (1991). Seu andamento arrastado, instigante e solene, é o cenário ideal para que Hetfield se deixar levar pela letra, que a cada verso vai ganhando emoções e proporções diferentes. Aliás, é válido ressaltar como as músicas do “Load/Reload” se adequam bem a esse formato, como se esperassem por novos arranjos e certa sofisticação. “Halo On Fire” segue por linhas próximas, melodicamente melancólica e climática. Banda e orquestra em sinergia entregando o melhor dos dois mundos e vale também destacar o show à parte do público cantando alto.
O segundo disco abre com as peças instrumentais: “Scythian Suite, Op. 20” de Sergei Prokofiev e “Iron Foundry” de Alexander Mosolov, ambas dedicadas à presença da orquestra que se encarrega de mostrar aos fãs de camisetas pretas um universo musical de belas composições clássicas do século passado, deixando o ambiente bastante intimidador. Seguindo ainda a linha mais intimista, “The Unforgiven 3“ pode ser tomada como uma das surpresas, a faixa não era tocada há nove anos e nada adiciona, temos apenas um James visivelmente deslocado e perdido, sem a imponência de sua guitarra – “karma é uma vadia, sacou?” Imperdoável! Mas não será a única, pois “All Within My Hands” vem na sequência e em formas acústicas, trazendo nada espetacular ou inovador tenha visto que sua aparição é costumeira em eventos beneficentes “desplugados”, apenas servindo aqui como preenchimento de tempo mais robusto.
Se existe alguém que merece todas as homenagens possíveis e imagináveis é o imortal Cliff Burton. Seu épico virtuoso chamado “Anesthesia”, lançada no “Kill Em’ All” (1983), ganha aqui outros sentimentos, sendo o momento de maior comoção e trazendo lágrimas a muitos (eu incluso). O músico Scott Pingel respeitou cada nota e passagem. O homenageado não se fazia distante, Cliff estava ali, em espírito e em quatro cordas. “Wherever I May Roam”, “One”, “Master Of Puppets”, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman” seguiram idênticas aos arranjos elaborados por outro imortal, Michael Kamen.
De todo modo, o disco fecha com chave de ouro e o Metallica mostra mais uma vez que está distante e indiferente ao tempo, a idade pode até ter seu peso e cansaço, mas alma da banda permanece viciada na aventura, na surpresa e no desbravar. As tablaturas e partituras antes reféns do amarelar do tempo, foram atualizadas, pelo maestro Edwin Outwater e o arranjador Bruce Coughlin que não apenas as restauraram, mas deram a elas um novo e mais acentuado polimento e uma nova e mais vibrante vida.
“S&M²”, derrapa equivocadamente em duas músicas, mas que no saldo geral merece aplausos, gritos histéricos e um editor finalmente curvado a este grandioso projeto.
William Ribas





