
Moonspell – “Hermitage” (2021)
Napalm Records | Alma Mater Records
#GothicMetal, #DarkMetal
Para fãs de: Paradise Lost, Tiamat, Nightfall, Lake Of Tears, Type O Negative
Nota: 8,0
Ainda corajosos de sua própria música os veteranos lobos lusitanos do Moonspell chegam ao seu décimo terceiro álbum de estúdio, o atmosférico e poligonal, Hermitage. Que antes de mais nada, é a prova de que o quinteto de maior expressão do Metal português continua a abrir milhas da acomodação — sua discografia prossegue sem ceder vagas ao sedentarismo musical e sua pesquisa por sonoridades e ambientes é ainda ampla e produtiva.
Com sua apresentação visual creditada a Arthur Berzinsh (Cradle Of Filth) e seus consoles de estúdio deixados nas mãos de Jaime Gomez Arellano (Ghost, Paradise Lost, Hooded Menace e outros), Hermitage é audacioso, mas não ambicioso e épico como foi “1755”. Suas medidas e proporções são mais discretas e simples, baseadas em camadas, em pinceladas que, ora se evidenciam espessas e noutras se revelam delgadas e macias. A dita audácia reside no fato da banda ter escolhido um caminho reverso ao esperado, se no periódico anterior tudo era intenso e por vezes excessivo, algo justificado pela dramaticidade e veracidade da temática, aqui temos uma abordagem mais simplista, focada nos detalhes e não na magnificência dos adornos.
Marcado por ser a estreia do baterista Hugo Ribeiro, o trabalho põe-se logo nos trilhos com temas mais atmosféricos e crescentes: “The Greater Good” e “Common Prayers”; duas belas peças de abertura para inaugurar um repertório que muito se expande em seus pouco mais de cinquenta minutos. Não sei se existe o rótulo “paisagismo musical”, caso não, ele ganha lógica na transcendental “All Or Nothing”, tema que muito possui daquela sinergia que havia entre as teclas de Richard Wright e as linhas íntimas de guitarra de David Gilmour; à entrega de Ricardo Amorim e Pedro Paixão é inegável em todo trabalho, mas na faixa citada ambos estão conectados pela sensibilidade da alma, numa linguagem que só amigos/e músicos de longa data conhecem.
O tema título acrescenta dinâmica ao apanhado, com suas cores mais fortes e estrutura mais padronizada, por sua vez “Entitlement” e “Solitarian”, essa última um instrumental, trazem de volta os diálogos dos já citados Ricardo Amorim e Pedro Paixão. “The Hermit Saints” é o Moonspell em seu próprio território — cada riff e cada harmonia vocal exibe a assinatura de seu DNA. “Apophthegmata” e “Without Rule” cumprem a função de dar sequência ao disco e manter sua consistência. “City Quitter” é mais um tema instrumental, mas desta vez sendo guiado pelas atmosferas criadas por Pedro Paixão. A versão regular do disco finda-se nele, mas outras trazem uma incrível versão para “Darkness In Paradise”, da instituição do Doom Metal, Candlemass.
Mas como pode um texto sobre o Moonspell que não cita Fernando Ribeiro? Ora, é dele a voz que nos guia pelos diversos ambientes de Hermitage, algumas vezes sereno e emotivo, noutras urgente e desesperado — anjos e demônios coexistem em sua voz e letras, simples assim. O Moonspell revela em seu novo álbum que está a envelhecer bem, ciente de suas ambições e sábio para com suas próprias escolhas. Construções musicais inteligentes com diversas sutilezas marcantes e hipnóticas fazem de Hermitage um trabalho singular, talvez não muito “digerível” a princípio, mas ainda sim, forte e sedutor.
Fábio Miloch



