Mourning Noise – “Serpent Lip Service” (2026)

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Mourning Noise – “Serpent Lip Service” (2026)

Cleopatra Records
#HorrorPunk #PunkRock #RockAndRoll

Para fãs de: Misfits, Samhain, The Cult e The Undead

Texto por João Paulo Gomes

Nota: 10

“Combina o horror punk clássico e agressivo com uma tensão atmosférica sombria e ritmos intensos” ou então “um novo álbum venenoso, repleto de riffs soberbos, ritmos avassaladores e letras de estética noir”.

Ao procurar informações sobre o novo álbum do Mourning Noise, advindo da mesma cena que gerou o Misfits, essas foram algumas das frases que mais encontrei. Mas, depois de ouvir o álbum, elas se tornam muito genéricas e/ou preguiçosas.

Contando com músicos veteranos e de peso, como Steve Zing, histórico no baixo e na bateria do Samhain/Danzig, o baixista Chris “Draphobia” Morance, o guitarrista Tommy Koprowski e o vocalista/guitarrista Robby Bloodshed, Serpent Lip Service não é apenas um álbum venenoso. Ele é um absurdo!

Mas, em primeiro lugar, é preciso não tratar o álbum apenas como “mais um disco de horror punk”. Para isso, destaquei três pilares que definem o álbum:

A relação com o passado

Alguns dizem que, ao soar deliberadamente retrô, uma banda passa a sensação de não querer ou ter medo de arriscar. No caso do Mourning Noise, seria muito fácil transformar sua história em uma espécie de prisão estética: repetindo fórmulas, reproduzindo os mesmos timbres e tentando convencer o ouvinte de que ainda estamos nos anos 80, já que seus membros fazem parte da história do horror punk.

Mas a maior virtude de Serpent Lip Service é mostrar que algumas linguagens não precisam ser abandonadas para que uma banda evolua e que, apesar da presença do passado, este não é um lugar onde a banda deseja morar, mas algo que compõe a sua própria personalidade.

A incrível “Melted Minds”, que abre o álbum, cria imediatamente essa conexão com os anos 80 e funciona como uma espécie de cartão de visitas. “Live And Die For You”, para mim uma das melhores faixas do disco, mostra que essa herança não é apenas estética, enquanto “Serpent Lip Service” aponta para uma sonoridade muito mais moderna sem abandonar suas raízes.

A transição para o presente acontece de maneira tão natural que, muitas vezes, é difícil perceber exatamente onde termina a referência e começa a identidade da banda. É uma das provas mais irrefutáveis de que “soar” é completamente diferente de “copiar”. O resultado é um álbum que parece confortável dentro de sua própria pele.

A atmosfera

A estética noir não aparece apenas nos títulos das canções ou na temática das letras, mas está enraizada nas próprias músicas, timbres, espaços, andamentos, vocais e, principalmente, naquela sensação cinematográfica de ameaça iminente.

“Ogre” é um bom exemplo, principalmente pelas evoluções que acontecem dentro da própria música, enquanto “Vermin Vision” possui o DNA do The Cult dos primeiros anos incorporado de maneira muito natural à identidade da banda. Mas é na “Candlelight Version” de “Live And Die For You” que essa atmosfera encontra talvez sua expressão mais perfeita. Muito mais como a trilha sonora de um filme que ainda está acontecendo do que uma música sobre uma cena. Maravilhosa!

O Mourning Noise cria todo esse clima sem precisar transformar cada faixa em uma caricatura. É uma escuridão que não precisa ser anunciada: ela simplesmente existe. É justamente aí que o álbum mostra que sua estética não está apenas naquilo que apresenta, mas naquilo que consegue fazer o ouvinte sentir.

A dinâmica

O álbum equilibra perfeitamente canções curtas e longas, fazendo com que ritmo e variedade caminhem lado a lado. “Driven By Moonlight” chega, ataca e desaparece, enquanto “Vermin Vision” e a faixa-título encontram espaço para desenvolver suas ideias sem deixar o álbum perder velocidade.

Se for feita uma comparação com Screams / Dreams (2024), ele era muito mais extenso em quantidade de material, enquanto Serpent Lip Service é mais condensado. Mas isso não acontece por falta de material, e sim por saber exatamente o que deixar de fora.

Essa decisão artística demonstra uma banda mais consciente de sua própria identidade e de como quer ser ouvida, substituindo a preocupação em mostrar tudo o que é capaz de fazer pela escolha consciente daquilo que realmente precisa estar no disco.

Talvez esta seja a maior demonstração de maturidade de Serpent Lip Service: um álbum que sabe exatamente o tamanho que precisa ter.

Resumindo: Serpent Lip Service é venenoso e possui horror punk clássico, riffs soberbos, atmosfera pesada, ritmos avassaladores e estética noir. Mas chamar o álbum apenas disso é insuficiente e representa a perda de uma grande oportunidade de se deliciar com tudo o que é oferecido.

Em vez de tentar nos convencer de que os anos 80 ainda existem, a banda mostra que aquilo que nasceu naquela época ainda pode ser transformado, contaminado e levado para outro lugar.

Talvez alguns chamem isso de nostalgia e outros, de falta de ousadia. Mas eu prefiro chamar de identidade.

Como afirmei no início da resenha, o álbum é um absurdo, mas tão absurdo que, para mim, é o álbum do ano!

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