Os 40 anos de lançamento do álbum “Escape” (Journey)

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Os 40 anos de lançamento do álbum “Escape” (Journey)

Journey“Escape” (1981)
Columbia Records

“Don’t Stop Believin'”
“Stone In Love”
“Who’s Crying Now”
“Keep On Runnin'”
“Still They Ride”
“Escape”
“Lay It Down”
“Dead Or Alive”
“Mother, Father”
“Open Arms”
“La Raza del Sol” (B-Side de “Still They Ride”) *
“Don’t Stop Believing” (Live In Houston) *
“Who’s Crying Now” (Live In Houston) *
“Open Arms” (Live In Houston) *

* faixa bônus no relançamento de 2006

 

Incrível como os álbuns que definem seu gênero passam uma sensação de atemporalidade. A presença de diversos elementos etéreos e emocionais: um determinado som, um sentimento, um momento especial… e o poder de tangibilizá-los nos remete à essa sensação.

Como acontece com “The Dark Side Of The Moon”, aonde é possível perceber a existência da semente do seu estilo, “Escape” traz a essência do AOR em si. Mesmo que haja a discussão se é o melhor álbum de AOR de todos os tempos (e é), o que não se discute é que ele define um gênero musical. Como Jonathan Cain disse: “Durou de alguma forma. As músicas são maiores do que nós”.

Mas o que o faz ser um dos álbuns definitivos do rock?

É possível ter uma ideia pelo que Mike DeGagne, do AllMusic, escreveu: “As canções são atemporais e, como um todo, elas têm uma maneira de reacender a inocência do romance juvenil e a rebeldia de crescer, construído à partir de composições sinceras e musicalidade robusta” ou pela votação dos leitores da Kerrang! de 1988 elegendo-o como o maior álbum AOR de todos os tempos, mesma opinião que a Classic Rock teve em 2008 e que em 2001 já o havia classificado em 22º lugar em “Os 100 melhores álbuns de rock de todos os tempos” e em 2006 o incluiria nos “200 Maiores Álbuns dos anos 80”, como um dos vinte maiores álbuns de 1981.

Curiosidade: Citando o ano de 1981 é incrível como a história é escrita bem na frente dos nossos olhos. Em um curto espaço de tempo “Escape” é separado do “4” do Foreigner, dois clássicos que ajudaram a definir o gênero AOR (junto com “Vital Signs” do Survivor de 1984).

Algumas votações esdrúxulas também existem como o 32º lugar no ranking de “Os 100 melhores álbuns de heavy metal de todos os tempos” (???) da própria Kerrang! e o 24º lugar como “melhor álbum de heavy metal/rock alternativo de todos os tempos” (???) da Virgin.

Mas, independente das votações, seu lançamento mudou a história da banda ao praticamente definir o estilo AOR (e porque não do Hard Rock Americano dos anos 80) e ir como um foguete ao topo da parada da Billboard 200 colocando quatro singles na Billboard Hot 100 (sendo três entre os dez primeiros). Em julho de 2021, foi certificado como diamante pela RIAA tendo vendido mais de doze milhões de cópias (nove milhões apenas nos EUA) em todo o mundo, tornando-se o álbum de estúdio de maior sucesso da banda. Vale ressaltar que “Escape” foi o quinto álbum mais vendido no mundo em 1981.

Curiosidade: Para um álbum que custou apenas U$80,000 (Perry, cujo mantra era “tempo é dinheiro”, raramente fazia mais do que duas tomadas), até que “deu para o gasto”, já que até um jogo chamado “Journey Escape” foi lançado para máquinas de fliperama e para o Atari 2600.

Co-produzido pelo ex-técnico de som do Lynyrd Skynyrd Kevin Elson e pelo ex-engenheiro do Queen Mike Stone, “Escape”, gravado no Fantasy Studio, na Califórnia, entre Abril e Junho de 1981 e lançado em 17/07/1981 pela Columbia, foi o primeiro álbum da banda com o tecladista Jonathan Cain, que substituiu Gregg Rolie (Cain foi indicado pelo próprio Rolie. Eles se conheceram quando o The Babys, do qual Cain fazia parte, abriu para o Journey na turnê do “Departure”) depois que ele deixou a banda no final de 1980 (Antes de Cain, Steve Roseman gravou com a banda “The Party’s Over (Hopelessly in Love)”). Além dos teclados únicos e onipresentes de Jonathan Cain, completam a banda: a grandiosa e inconfundível guitarra de Neal Schon, o intenso baixo de Ross Valory, as baquetas cheias de dinamismo e nuances de Steve Smith e a inacreditável e espetacular voz de Steve Perry. Sua sensibilidade de interpretação, timbre e alcance impressionantes nos transportam para outra dimensão.

Curiosidade: O Journey utilizou novamente o escaravelho em “Escape” (estilizado na capa como E5C4P3), mas desta vez como se escapasse de um planeta em extinção e pronto para um novo mundo que o álbum descortinou para a banda (uma explicação semelhante foi utilizada na festa de lançamento do álbum).

“Quando Jon entrou, ele trouxe uma coisa totalmente diferente”, disse Schon à Goldmine. “Ele era um compositor e um tecladista talentoso, um pianista clássico. Gregg era um cara mais blues, alguém da escola B3 / Jimmy Smith de tocar órgão, o que era uma coisa completamente diferente. Então seguimos com Jon já que sempre havia uma veia clássica em nossas composições ao contrário do que estávamos fazendo com Gregg”.

Cain era a peça faltante do quebra-cabeças chamado Journey. Ainda mais com a batalha entre Steve Perry e Neal Schon pelos holofotes (se credita a Herbie Herbert, empresário que trouxe Perry para a banda quatro anos antes, a manutenção da banda nessa época). A adição de Cain, e sua parceria com Perry, acabou aumentando a tensão criativa: “O atrito traz calor”, explicou Perry. “Quando entrei” – disse Cain – “fui capaz de ajudar a juntar as peças de forma mais sólida. Acho que tudo fluiu melhor. Foi uma mistura de personalidades diferentes. Eles tinham uma espécie de arrogância no que faziam que eu realmente gostava. O jeito de tocar guitarra de Neal era incrível. A voz de Perry estava no auge. Steve Smith e Ross Valory eram uma máquina”. Com Cain a banda atingiu seu ápice.

Essa tensão criativa entre Perry e Schon fez Cain se tornar o canal entre eles. “Neal tinha muitas ideias de rock ‘n’ roll que eu iria analisar e, talvez ajustar um pouco, para apresentá-las a Steve de uma forma mais matizada. Neal tinha muita melodia não estruturada na cabeça. Às vezes, eu poderia adicionar algo a essas melodias e, de repente, Steve saberia o que fazer com elas”.

No primeiro dia de composição, no sótão do apartamento de seu road manager em San Francisco, Perry tocou a melodia de “Who’s Crying Now” em uma fita em que armazenava algumas ideias. A música foi finalizada em uma tarde. “Tivemos uma química instantânea”, disse Cain.

“Open Arms” nasceu e foi criada na casa de Perry de uma parte de piano que John Waite rejeitou para o The Babys (banda que Cain participou). Como disse Perry depois de ouvir o piano de Jonathan Cain: “Uma pena para John Waite”.

“Acho que provavelmente não foi tão reconfortante emocionalmente para Neal nos ver escrevendo juntos”, diz Perry. “Mas também escrevemos com Neal. As coisas de “Don’t Stop Believin’” todos inventamos juntos. Ele estava envolvido em muitas coisas como co-escrevendo “Stone In Love” com aquele ótimo riff de guitarra. Aquilo veio do Neal”. Como Cain disse sobre o triunvirato: “Neal trouxe o fogo e a atitude. Não havia essa de apenas escrever com Steve ou apenas com Neal. Era sobre nós três. Juntos, nós fizemos o Journey”.

Curiosidade: Vale ressaltar o quanto Perry era obcecado pelo perfeccionismo, principalmente o fonético. Seu conhecimento das técnicas de gravação e reprodução era igualado apenas por seu desejo de gravar o que viesse à sua cabeça. Na gravação de “Open Arms” ele passou dois dias no estúdio até obter o som perfeito do “A” ao cantar o título da música, além de criar todas aquelas espetaculares longas notas em “Don’t Stop Believin’”. Esse perfeccionismo o fez escolher até o tipo de vinil a ser utilizado na primeira prensagem do álbum.

Mas, voltando à história…

O álbum abre com três clássicos da banda, mas a primeira é nada mais nada menos do que “Don’t Stop Believin'” (#9) uma das maiores e melhores canções de todos os tempos. Como disse Cain ao New York Post em 2010: “A frase veio do meu pai. Tive muita dificuldade para entrar no mercado da música e ele costumava me dizer essas coisas: “Não pare de acreditar ou você está acabado, cara!”. Enquanto criávamos a música, Perry pediu um “piano rolante” para começar e ele e Schon começaram a acompanhar a música. Aquele riff de guitarra arpejado, por exemplo, seguiu a sugestão de Perry de que Schon se aproximasse do som de um trem”. Perry e Cain terminaram a letra mais tarde, incluindo um lugar inexistente chamado “South Detroit”: “Eu tentei a fonética do leste, oeste e norte, mas nada parecia tão bom ou emocionalmente verdadeiro quanto South Detroit” – Perry disse à Vulture em 2012 – “A sintaxe soou certa. Eu me apaixonei pela letra e só nos últimos anos aprendi que não existe “South Detroit”. Mas não importa”.

“Don’t Stop Believin’” foi e continua a ser a canção de rock perfeita, um hino que transcende gerações com sua melodia impossível de ser esquecida. Não à toa ela se tornou o hino de duas equipes da World Series (White Sox de 2005 e Giants de 2010), destaque na TV (The Sopranos e Glee) e uma das músicas mais vendidas de todos os tempos no iTunes. Se somarmos as vendas digitais e físicas, mais de 6,5 milhões de cópias foram vendidas apenas nos EUA o que torna essa canção um dos singles mais vendidos de todos os tempos.

Mas ainda acredito que essa deveria ter sido a última música do álbum e não a primeira. Assim seria possível que as outras tivessem alguma chance de brilhar um pouco mais e não serem eclipsadas por este “unicórnio” icônico. Mesmo assim a sequência a seguir é de tirar o fôlego.

Curiosidade: a explicação de Steve Perry para as citações de “smell of wine and cheap perfume” e “streetlight people” na entrevista para o programa “Jonesy’s Jukebox” é sensacional!!

“Stone In Love” entra em cena com Neal Schon reinando soberano e Ross Valory brilhando. Uma melodia incrível que captura a essência da banda e impressiona com sua qualidade energizante e seu espírito otimista. Inegável sua contagiosidade.

A banda desacelera em “Who’s Crying Now” (#4). Incrível a capacidade do Journey de criar uma música sentimental ao extremo, mas embuída do espírito do rock. Schon adiciona um solo ao final que eleva a canção a um novo nível. Notável!

A efervescência visceral, a melodia cativante e sua letra sobre liberdade e crescimento quase transformaram a autointitulada “Escape” na “Born to Run” do Journey; “Keep On Runnin’” é um Hard Rock “na lata” remetendo um pouco ao antigo som da banda; “Lay It Down” traz o inacreditável alcance vocal de Perry e a guitarra intensa de Schon, “Dead Or Alive” diversifica o álbum, “Still They Ride” (#19) é assustadora (Perry arrepia!), melancólica e viciante.

O álbum finaliza com “Mother, Father” (Talvez musicalmente seja a melhor canção com influências de rock progressivo. O arranjo foi feito pelo pai de Neal, o músico de jazz Matt Schon, que montou a engenhosa estrutura de acordes criando aquele clima melodramático sob medida para os emocionantes vocais de Perry) e “Open Arms” (#2), a clássica canção de amor e um dos maiores sucessos da banda (seis semanas na Billboard 200). A música que estabeleceu o modelo das “power ballads” dos anos 80 quase não viu a luz do dia, pois alguns membros da banda não gostaram do seu estilo. Com suas belíssimas melodias, ela é cativante ao extremo com piano, guitarra, baixo e bateria em perfeita sintonia, mas a profundidade, paixão e alcance da voz de Steve Perry são um show à parte.

É possível perceber a eletricidade emanada de “Escape” e ela não vem apenas dos singles. Há vida além deles em todo o álbum com temas sobre amor, romance, esperanças, inspiração e sonhos nas canções que não receberam o reconhecimento que mereciam.

“Embora na época parecesse que estávamos apenas fazendo mais música da mesma maneira que sempre fizemos” – disse Perry ao New Haven Register em 2012 – “o tempo mostrou que este é um álbum mais quintessencial do que alguns dos outros”.

Apesar dos músicos brilharem por todo o álbum (principalmente Neal Schon com momentos memoráveis e intensos), Perry é o grande destaque. Difícil explicar algo que precisa ser sentido, mas sua voz é uma entidade com vida própria, quase sobre-humana. Ouso escrever que, se o mundo fosse um lugar mais justo, suas interpretações magistrais e seu alcance vocal impossível de ser alcançado por meros mortais, deveriam colocá-lo no mesmo patamar de Freddie Mercury.

Journey é uma das pedras angulares da minha relação com a música e com a vida e considero “Escape” com suas canções mágicas e atemporais, recheadas de melodias sobrenaturais, refrões bombásticos e arranjos excepcionais, o melhor álbum de AOR de todos os tempos!

IMORTAL!

João Paulo Gomes

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