Stryper + Narnia – Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ (15/09/2019)

Stryper-RJ
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Banda principal: Stryper
Banda de abertura: Narnia
Local: Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ
Data: 15/09/2019
Produção: EV7 Live
Assessoria: Lex Metalis Assessoria e Agenciamento

Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Alexandre Sena

Os cancelamentos em série de shows e turnês realizados pela EV7 Live nos últimos meses deixaram todo mundo com a pulga atrás da orelha quanto ao então vindouro giro de Stryper, Tourniquet e Narnia pela América do Sul. O sentimento de “vai dar merda” se intensificou quando o Tourniquet anunciou que não viria. Foi necessário esperar até o último minuto, quando as duas outras bandas finalmente desembarcaram em território nacional, para que a aflição desse lugar ao alívio: as demais apresentações, com exceção da em Brasília, cancelada por questões logísticas, aconteceriam, contrariando as mais realistas expectativas e surpreendendo até o mais desiludido dos fieis.

Digo fieis por conta da temática cristã que permeia tanto a obra do Stryper quanto a do Narnia, que em vista do desfalque de Ted Kirkpatrick e cia., viram-se na obrigação de aumentar seus setlists. O resultado, ao menos na etapa carioca, realizada no último domingo, 15 de setembro, no Circo Voador, foi uma noite repleta de bênçãos, em todas as acepções que a palavra permite, mas também de questionamentos. O primeiro deles: cadê o público que deveria estar aqui? Ninguém sabia dizer. Cinco anos atrás, o Stryper sozinho havia colocado praticamente mil pessoas na mesma casa. Acompanhado pelo Narnia, expoente do Power Metal e cuja relação com o Brasil é estreita a ponto de ter sido gravado aqui, mais precisamente em Belo Horizonte, seu único álbum ao vivo — “We Still Believe – Made in Brazil” (2018) —, impressionou o fato de o público presente mal ter ocupado metade da área coberta do Circo. A Bíblia parece fornecer essa resposta em Mateus 22: “[M]uitos são chamados, mas poucos escolhidos.”

O questionamento seguinte veio quando o Narnia subiu ao palco — ou devo dizer retornou ao palco, tendo em vista que o som foi passado diante dos cento e poucos já posicionados no gargarejo? —, atrasado, sob fortíssima expectativa da assembleia, que viu Christian Rivel-Liljegren dublando, às vezes muito mal, o vocal pré-gravado que saía pelos alto-falantes do lado esquerdo: vocês estão de sacanagem, né? Consta das tábulas da lei do rock: nenhum playback será perdoado. A broxada foi o equivalente a receber nudes da tia-avó por engano. Teve gente dando as costas, trocando a posição privilegiada na pista por uma ida ao banheiro ou ao bar. Não os julgo. A perícia dos demais — Carl Johan Grimmark (guitarra), Martin Härenstam (teclados), Jonatan Samuelsson (baixo) e, honrando o sobrenome que é sinônimo de talento, Andreas Johansson (bateria) — é tamanha que se levanta a hipótese de outros instrumentos seguirem o mesmo esquema da voz. Mas evitemos o falso testemunho por aqui.

Na missão de promover o bem bacana “From Darkness to Light”, lançado há pouco mais de um mês (confira a resenha aqui), os suecos trataram de dedicar 1/3 do repertório ao seu trabalho mais recente. Com isso, “A Crack in the Sky” — single escolhido para dar o pontapé inicial na noite —, “You’re the Air That I Breathe” e “The War That Tore the Land” dividiram o púlpito com nada menos que quatro sons extraídos do clássico “Long Live the King” (1998) e representantes solitárias de “Desert Land” (2000) e “Enter the Gate” (2006). De “Narnia” (2016), disco que marcou a volta após um hiato de quatro anos, foram duas: “I Still Believe” e “Reaching for the Top”. Na reta final, e diante do caráter inorgânico do que foi apresentado, a letra de “Inner Sanctum” ganhou ares de piada pronta: “Only you can see my reality”, canta — dubla? — Rivel-Liljegren. No que depender deste aqui, os que não puderam ver, ao menos, ficarão sabendo. Afinal, Deus perdoa, o Metal Na Lata, não. O papelão foi compensado — foi? — com uma simpatia ímpar no atendimento aos fãs logo após encerrados os 75 minutos da apresentação. Só não tirou foto ou pegou autógrafo dos caras quem não quis.

Setlist Narnia:

A Crack in the Sky
Sail Around the World
The Mission
I Still Believe
You Are the Air That I Breathe
Shelter Through the Pain
Reaching for the Top
The War That Tore the Land
Into This Game
Dangerous Game
Long Live the King
Inner Sanctum
Living Water

 

Já com o Stryper o que rola é justamente o contrário: quem quisesse fotos e autógrafos — em no máximo dois itens, que isso fique bem claro —, teria de desembolsar o total de 320 reais, sem contar o valor do ingresso. Como quem acredita sempre alcança e a cara-de-pau do brasileiro não tem limites, teve fã pedindo autógrafo para o vocalista Michael Sweet no meio do show. Todo o absurdo da situação — cartaz com o pedido escrito em inglês, um exemplar da autobiografia de Michael percorrendo seu caminho até o palco como os judeus que atravessaram o Mar Vermelho e fazendo a travessia de volta — arrancaram risos incrédulos, inclusive do baterista Robert Sweet, cuja bateria posicionada de frente para o público comprometeu a fidelidade da alcunha “Visual Timekeeper” — mal dava para vê-lo —, e quebraram o gelo pragmático que envolveu a execução da dobradinha inicial “Soldiers Under Command” e “Loving You”.

Mas essa suposta frieza absolutamente inexiste, como fica provado no decorrer da hora e meia seguinte. A verdade é que o Stryper é tão, mas tão profissional, sua execução é tão minuciosa em todos os aspectos, que quem não conhece é capaz de pressupor uma latente falta de emoção ou envolvimento. Michael, Robert, o guitarrista Oz Fox — que se trata de um câncer e, fé em Deus, irá vencer esta batalha — e o recém-chegado, mas já possuidor de um status de lenda, baixista Perry Richardson (ex-Firehouse) tocam o que parece ser um greatest hits atualizado da banda, que inclui alguns dos melhores momentos de seus trabalhos mais recentes: o muito bom “Fallen” (2015) dá o ar das graças com “Yahweh” — que Michael afirmou ser sua música favorita do Stryper — e o ainda melhor “God Damn Evil” (2018) comparece com a dupla “Sorry” e “The Valley”. Até “Against the Law” (1990), o álbum que o vocalista afirmou, em entrevista para este que vos escreve, que nunca ouve e do qual tampouco se orgulha, tem sua parcela no repertório com o brado a la Alexandre Dumas “All for One”.

Obviamente, a resposta aos clássicos foi muito mais efusiva. E tome som digno de cantar até a voz pedir penico: “Calling on You” seguida de “Free” num só fôlego, como no supremo “To Hell with the Devil” (1986); “More Than a Man”, com participação do brasileiro Mike Kerr num curioso caso de terceira guitarra; “Honestly”, entoada com a mão direita no peito num vislumbre de quase patriotismo; “Always There for You” e “In God We Trust” — esta na roupagem moderna presente em “Reborn” (2005) — solapando novamente a possibilidade de ouvirmos “I Believe in You”, trilha sonora de Sassá Mutema na novela “O salvador da pátria” e maior sucesso do Stryper no Brasil, ao vivo; “Sing Along Song” com o melhor e mais fácil refrão para se cantar junto — viva as vogais! —, e “To Hell with the Devil”, cuja atitude equivalente a mandar o diabo tomar no meio do olho do cu comporta o objetivo de mostrar a todos que sofrem de juventude em excesso que ser cristão pode ser o maior barato. Sopro de vulgaridade em meio àquela atmosfera sacra, “All She Wrote” do Firehouse deu uma pausa na pregação para nos lembrar de que o glam metal é um pecadinho que não requer penitência. Sorte a nossa.

Setlist Stryper:

Soldiers Under Command
Loving You
Calling on You
Free
More Than a Man
All for One
Surrender
All She Wrote
Honestly
In God We Trust
Always There for You
Sorry
Yahweh
Sing-Along Song
The Valley
To Hell With the Devil

O Metal Na Lata agradece a EV7 Live e a Lex Metalis Assessoria e Agenciamento pelo credenciamento e pela parceria.

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