Vinte bandas brasileiras que deveríamos conhecer, parte 3
Há algumas semanas, publicamos as duas primeiras de quatro partes de nosso artigo “Vinte Bandas Brasileiras Que Deveriamos Conhecer”. A saber, iniciamos indicando: Goaten, Deathgeist, Nightwölf, Armahda, Innocence Lost, Warshipper, Axecuter, Midgard, BrightStorm e Armum.
Vamos então conhecer a terceira quarta parte de nossa seleção?
Redatores: Cristiano “Big Head” Ruiz (Forkill, Grey Wolf e Brutallian) e Johnny Z (Tosco e Distraught)
TOSCO, Crossover Thrash Metal de Santos, litoral paulista

Nascido em Santos, no litoral paulista, o TOSCO surgiu em 2017 como uma resposta direta, agressiva e urgente à realidade brutal que nos cerca. Idealizado por Osvaldo Fernandez, voz carregada de fúria e ex-integrante do Repulsão Explícita, ao lado do guitarrista Ricardo Lima — veterano de nomes como Vetor, Chemical Disaster, Scars e Putrid Hope. O grupo rapidamente encontrou sua identidade misturando Thrash Metal, Hardcore e ecos industriais em uma sonoridade devastadora. Com letras prontas e a necessidade quase visceral de colocá-las para fora, a dupla iniciou as composições que tomariam forma quando o baterista Paulo Mariz entrou na jogada, já que trouxe o pulso e o peso que se tornariam marca registrada do quarteto.
Com influências que vão de Slayer, Exodus e Sacred Reich a Ministry, Sick Of It All e Hatebreed, a banda não demorou a consolidar dez faixas autorais — agressivas, diretas, sem concessões. Isso, ainda em seus primeiros meses de vida. A chegada do baixista Anderson Casarini completou a formação responsável por “Revanche”, o álbum de estreia. O mesmo foi lançado em 2018 e recebido com entusiasmo pela imprensa especializada. As letras raivosas vomitadas em português, combinadas à produção certeira de Ivan Pellicciotti, deram vida a um trabalho que soava como um grito de revolta coletiva. Faixas como “Cala Boca Globo” se tornaram verdadeiros hinos do underground, escolhidas por diversos veículos como destaques daquele ano.
Tosco, lançando a sua melhor obra
Sem perder tempo, o grupo mergulhou nas composições de seu segundo álbum, “Sem Concessões”, lançado em 2020. A obra, mais madura, violenta e coesa, mostrou um salto gigantesco em criatividade e técnica. Agora com Ivan Pellicciotti definitivamente como baixista e produtor, o TOSCO apresentou um disco onde cada faixa destilava uma mistura precisa de brutalidade e consciência social. A crítica reconheceu o avanço: a banda estava mais afiada, mais perigosa e mais dona de sua própria voz.
Em meio à pandemia, quando o mundo parou, o TOSCO seguiu em movimento. Participou de festivais online no Brasil e no exterior, lançou videoclipes, colaborou com canais internacionais como o Hardcore Worldwide e manteve viva a energia que sempre foi seu combustível. O convite para integrar o tributo “Brazil Painted Blood”, dedicado ao Slayer, consolidou de vez o reconhecimento da banda dentro e fora do país — a versão de “Piece By Piece” chamou atenção pela fidelidade ao espírito do original e pela identidade própria.
A entrada do baixista Carlos Diaz em 2022 trouxe novo fôlego às composições que resultariam no terceiro álbum, “Agora É A Sua Vez”. Antes dele, o EP “O Brasil é o Crime” abriu caminho com uma faixa inédita pesada como trilho de trem, seguida por versões de Sacred Reich, S.O.D. e Slayer. Ali, o TOSCO reafirmava seu compromisso em manter a essência agressiva, direta e politizada que construiu sua base desde o início.
“Casa de Nóia”, faixa que retrata a Cracolândia
Já com Carlos, o grupo entrou em estúdio para dar vida a um dos discos mais violentos de sua trajetória. “Agora É A Sua Vez” chegou em 2023 carregando tudo o que define o quarteto: riffs cortantes, grooves nervosos, vocais cuspidos com indignação e letras que mais parecem bofetadas na cara da desesperança. “Hellvetia”, single com participação de Dave Austin (Nasty Savage), expôs o caos da cracolândia paulistana com uma intensidade avassaladora. Outras faixas, como “O Brasil é o Crime”, “A Verdade” assim como “Casa de Nóia”, ecoaram entre fãs e críticos como verdadeiros tiros de advertência contra a podridão social que o país insiste em normalizar.
Em 2024, a saída temporária do baterista Bruno Conrado, após um acidente, abriu caminho para o retorno de Paulo Mariz — reforçando laços e trazendo de volta a química original. A nova fase culminou no lançamento de “Facão Afiado – Ao Vivo em São Paulo”, registro bruto e direto da energia do TOSCO no palco. O álbum reúne hinos composições que marcaram a carreira do grupo e mostra um quarteto entrosado, feroz e absolutamente entregue ao caos que propõe. Na mesma época, o videoclipe de “Casa de Nóia”, dirigido por Maycon Avelino, reforçou o peso visual e narrativo das composições da banda.
O quarto disco está em produção
Hoje, enquanto trabalha em seu quarto disco de estúdio, o TOSCO segue mais vivo e urgente do que nunca. Seus shows continuam sendo descargas elétricas de sinceridade, peso e resistência. Suas letras permanecem fiéis ao compromisso de denunciar, chacoalhar e cutucar feridas abertas. E sua música continua evoluindo sem jamais abandonar a essência: a fúria do Hardcore, a precisão do Thrash, o groove devastador dos riffs e a coragem de colocar o dedo na ferida.
Para fãs de Slayer, Ratos de Porão, Korzus, S.O.D., D.R.I., Agnostic Front, Cro-Mags, Biohazard, Hatebreed, Lamb Of God, Machine Head, Suicidal Tendencies, Madball e Nuclear Assault, o TOSCO é mais que uma recomendação: é uma necessidade.
A máquina segue em movimento, e parece longe de desacelerar.
Distraught, Thrash Metal de Porto Alegre/RS

A Distraught é daquelas bandas que carregam no DNA a própria história do Thrash Metal brasileiro. Surgida em fevereiro de 1990, em Porto Alegre, a formação gaúcha se tornou uma presença constante — e necessária — dentro da cena pesada nacional. Convicta desde o início em unir agressividade, consciência social e personalidade sonora, a banda atravessou três décadas mantendo firme o compromisso com a arte extrema e com o diálogo crítico que sempre permeou suas letras.
Influenciada por gigantes como Slayer, Exodus, Kreator e Sepultura, a banda ganhou destaque nos anos 90 por meio de fanzines, demos e da circulação underground que moldou toda uma geração. A estreia oficial veio em 1998, com “Nervous System”, revelando o vigor técnico e a energia crua que nunca abandonariam a trajetória do grupo. Em seguida, consolidou terreno com “Infinite Abyssal” (2000), figurando entre os destaques do ano em veículos especializados. Ampliando, portanto, o alcance da banda em todo o país.
“Behind The Veil” teve a produção do saudoso Fabiano Penna
A vivacidade dos palcos sempre foi uma marca do Distraught, algo registrado já em 2002 com “Live Black Jack (São Paulo)”, que apresentou a potência da banda ao vivo e abriu portas para turnês nacionais. Dois anos depois, em 2004, veio “Behind the Veil”, produzido por Fabiano Penna e lançado pela Marquee Records, marcando uma fase de crescimento que levou o grupo à sua primeira turnê nacional — uma jornada que apresentou os gaúchos ao público de Norte a Sul e que rendeu elogios da imprensa, incluindo a Roadie Crew, que os apontou como uma das grandes revelações do Thrash da década.
O amadurecimento continuou da mesma forma em “Unnatural Display of Art” (2009), com participações de músicos de peso e distribuição internacional, impulsionando a primeira tour sul-americana da banda. A repercussão crescente culminou em um momento histórico: a abertura para o Megadeth em 2010, no Pepsi On Stage, ocasião em que o próprio Dave Mustaine elogiou a performance do grupo. Na sequência, a banda voltou à Argentina, fortalecendo ainda mais seu vínculo com o público latino-americano.
Em 2012, o Distraught entregou um de seus trabalhos mais contundentes: “The Human Negligence is Repugnant”, mergulhando em temas como corrupção, violência e alienação social. Dessa forma, reforçando sua postura crítica e seu compromisso com a reflexão através do Metal. Três anos depois, em 2015, lançaram aquele que muitos consideram o ápice de peso e densidade da discografia: “Locked Forever”. Inspirado no livro “Holocausto Brasileiro”, o álbum é um soco no estômago, abordando os horrores do manicômio de Barbacena com brutalidade sonora, produção refinada e uma estética visual marcante criada por Marcelo Vasco.
Mostrando as raízes e influências
A banda também mostrou sua versatilidade ao homenagear suas raízes em 2018, com versões para “Helter Skelter” (The Beatles) e “Living in the Past” (Motörhead). Reforçando, portanto, a conexão entre o Metal e a rebeldia do Rock clássico. Já em 2022, o single “Crucified Life” trouxe um olhar sensível e incisivo sobre a depressão. Trata-se de um tema raro e necessário no Metal extremo, acompanhado por um videoclipe igualmente forte.
Mantendo a força de sua performance ao vivo, o grupo lançou em 2024 o álbum “Southern Screams Live”. O álbum foi gravado no Bar Opinião, um dos palcos mais emblemáticos do Sul. E, no Dia Internacional do Rock de 2025, apresentou seu novo EP, “inVolution”, uma obra que retoma a agressividade característica da banda ao mesmo tempo em que expande sua abordagem conceitual. Dividido em cinco faixas inspiradas nos elementos da natureza, o trabalho reflete sobre destruição ambiental, ganância humana e colapso moral — temas urgentes que reforçam a maturidade artística da banda e sua relevância contínua.
Com seis álbuns de estúdio, registros ao vivo, EPs, participações em coletâneas, turnês nacionais e internacionais, além de aberturas históricas para nomes como Megadeth, Vader, Destruction e Tankard, a Distraught permanece como uma referência incontornável quando se fala em Thrash Metal brasileiro. A formação atual — André Meyer (vocal), Ricardo Silveira e Everton Acosta (guitarras), Alan Holz (baixo) e Thiago Caurio (bateria) — mantém viva a energia que fez da banda um patrimônio da música pesada no país.
Mais do que uma discografia sólida, a Distraught entrega uma trajetória construída com autenticidade, resistência e a convicção de que o Metal é, também, uma ferramenta de transformação. É uma banda que não apenas sobrevive ao tempo: ela o enfrenta de frente — e continua vencendo.
Grey Wolf, Heavy Metal de Contagem/MG

Em 2012, o vocalista /baixista Fabio Paulinelli, a fim de transformar sua paixão por Heavy Metal e “Conan o Bárbaro” em música, criou o Grey Wolf. Dois anos mais tarde, em formato independente, veio o seu debut homônimo. Logo depois, em 2015, lançou seu segundo álbum completo, “We Are Metalheads”, ainda de forma independente. Fazendo um vocal semelhante ao de Chris Boltendahl (Grave Digger), enquanto produz linhas de baixo técnicas e precisas, Paulinelli definiu o seu estilo de compor.
Grey Wolf ainda lançou mais cinco full lenghts: “Glorious Death” (2016), “The Last Journey Of An Old Viking” (2019), “Cimmerian Hordes” (2022), “The Icy Mountains” (2023), assim como “Legacy Of The Wolf” (2025). Embora sua sonoridade não apresente grande inovações, ela é fiel a sua proposta inicial e continua atraindo seus fiéis seguidores.
Em suma, temos aqui um projeto que merece ser mais valorizado, não somente pela sua parte musical, como também pelo seu desenvolvimento temático. Ao mesmo tempo que há bandas lançando, dentro de suas discografia, discos conceituais, Grey Wolf é um trabalho 100% conceitual. Resumindo, se você é fã de Heavy Metal e temas épicos, você deve conhecer Grey Wolf, caso ainda não o conheça.
Forkill, Thrash Metal do Rio de Janeiro/RJ

Inegavelmente, a capital fluminense é um dos maiores berços de bandas nacionais de qualidade. Forkill, quarteto de Thrash Metal que nasceu em solo carioca em 2010, não é uma exceção a essa regra, já que produziu três registros impecáveis. Atualmente contando com Ronnie Giehl (guitarra), Rodrigo Tartaro (bateria), Igor Rodrigues (vocal e guitarra) e Dudu Martins (baixo), Forkill sempre utilizou suas composições para espancar, musicalmente falando, políticos, religiosos e todas as mazelas da sociedade. Seu álbum de estreia, “Breathing Hate”, foi lançado em 2/8/2013, em formato independente, já deixando uma boa primeira impressão.
Em abril de 2019, dessa vez pelo selo Dark Sun Records, foi a vez do lançamento de “The Sound of the Devil’s Bell”. O segundo registro recebeu ainda mais elogios que seu antecessor, deixando Forkill em evidência na cena nacional do Thrash Metal. Aliás, não podemos deixar de mencionar que a sonoridade do quarteto do Rio de Janeiro é Thrash com pitadas de Heavy, na qual sobra agressividade e competência na execução musical.
O mais recente full lenght do Forkill, “Sick Society”, saiu em setembro de 2022 pelo selo Dies Irae Records. A banda, explicitamente, se dedicou de forma mais intensa a produção desse registro e, como resultado, lançou o seu melhor disco até então. A mundo estava saindo de uma pandemia e esse fato, sobretudo, influenciou a temática desse trabalho. Ou seja, a expressão “Sociedade Doente” tem mais de um significado.
Ainda que façam três anos desde o lançamento de “Sick Society”, isso não deve preocupar àqueles que curtiram a discografia do Forkill até agora. Certamente, eles estão preparando um avassalador quarto esforço para levar ao deleite seus fieis seguidores. Quem ousa duvidar?
Brutallian, Thrash Heavy Metal de São Luís do Maranhão

A ideia Thrash Heavy Metal do Brutallian nasceu na capital maranhense no ano de 2002. No entanto, o primeiro registro do quarteto, o álbum completo “Blow on the Eye” só chegou treze anos mais tarde. Esse lançamento já rendeu boas críticas dos sites especializados, mas o melhor ainda estava por vir.
Em 2018, “Reason for Violence” chegou metendo a voadora na porta, trazendo faixas que são pura violência sonora, porém não abrem mão da melodia. Assim sendo, o competente vocal de Pablo Barros se juntava à guitarra de Lex Wave, ao baixo de Fabio Matta e à bateria de Raul Campos. Juntos, eles faziam um trabalho imperdível para quem ama música pesada e bem tocada.
Infelizmente, desde que lançou o single “Arise” (cover do Sepultura) em 2020, Brutallian não trouxe novidades. Mas, esperamos que eles ressurjam e logo venham novas composições agradáveis aos nossos ouvidos.
Pois então, ansiosos pelo nosso quarto e último capítulo? Aguardem, ele virá brevemente.





