
Funeral Dawn – “Inner Demons” (2020)
Independente
#FuneralDoomMetal, #DoomMetal, #AtmosphericDoomMetal
Para fãs de: Doom:Vs, Evoken, Funeral Tears
Nota: 8,5
Thiago Alboneti é um desses músicos que sofrem de crises ininterruptas de criatividade, como se vivesse um raciocínio binário — vício e necessidade. Aos seus olhos e ouvidos, compor é preciso, viver, talvez nem tanto. E é justamente esse pensamento que o mantém criando, explorando, dando vida e alma sonora às suas ideias, que a propósito são muitas.
É certo que tanto produzir quanto viver o Underground, considerando todos os seus reveses é optar por uma labuta que desconhece fim — quase um masoquismo — como se fosse uma subida feita por vontade numa montanha de cacos de vidro. As recompensas? As histórias que são escritas ao longo do caminho, os personagens que de conhecidos passam a amigos e a paisagem que tanto muda nessa trajetória. Pois, bem! Thiago faz parte desse seleto time de degustadores do sofrimento, cujo prazer maior é preservar-se em atividade e produzindo. Ainda que volta e meia um ou outro sangramento, ou ferida apareçam — sendo talvez esses, os únicos prêmios por ser parte desse engenho e mantê-lo em funcionamento.
O Funeral Dawn é sua mudança (momentânea) de tela — onde o mesmo sai das paisagens acidentadas, da técnica e da visceralidade do Death Metal e se aprofunda na melancolia dos abismos monocromáticos do Funeral Doom. Desse modo a austeridade e os metodismos tão comuns ao gênero foram postos de lado, cedendo lugar a uma sonoridade introspectiva e voltada ao minimalismo. Tendo ao centro às emoções e à profundidade humana e as suas inumeráveis interpretações. Um deixar de ser apenas mais outro reflexo no espelho para um mergulho no interior do próprio, em suas turvas águas mentais. É justo afirmar que em sua solidão criativa, Thiago conseguiu imprimir suas características e qualidades como músico e isso acabou por render um trabalho de alto nível, que tanto serve para projetá-lo no cenário Doom nacional, como também ilustra a alta qualidade que o gênero exibe desde sempre em nosso território.
A curta intro “Let The Candle Burn” nem de longe pressagia a imersão desesperadora e o peso esmagador de monólitos como: “Funeral” e “If I Could…” e “Inner Demons”; que são como marchas solenes a levar o ouvinte aos campos do desespero, onde a dor desabrocha. O desenvolver dos riffs, os teclados que ora envolvem e noutras preenchem as composições revelam o esmero que o músico teve durante a confecção do álbum. Tudo é muito nítido e encaixado com precisão, tendo como medidores a sensibilidade e o refinamento – “Another Winter Leaf Falls” é prova cabal do que digo.
Destaques além dos citados? Citaria com facilidade o restante do trabalho, resenhar faixa a faixa é algo ultrapassado dizem, mas como quem muito fala é chato com tempo de sobra (eles sempre tem tempo de sobra), indico a pesadamente hostil “Regret Of A Man”, que ao meu ouvir é o ápice do disco; bateria presente, riffs azedos, assinatura melódica precisa e bem imposta, e teclas a somar beleza enquanto acentuam a dramatização desse réquiem ao funesto.
Seria contraditório ao Doom Metal dizer que fico feliz em ouvir tantos predicados num só trabalho, que por vezes beira o impecável, mas sim, fico melancolicamente feliz. O Doom Metal nacional ganha mais um representante de peso e pompa, e eu mais uma banda para ser fã.
Fábio Miloch





