
Helloween – “Helloween” (2021)
Nuclear Blast | Shinigami Records
#PowerMetal, #HeavyMetal, #MelodicMetal
Para fãs de: Gamma Ray, Angra, Iron Maiden, Accept, Judas Priest, Blind Guardian
Nota: 9,5
O Helloween é uma banda que dispensa apresentações, mas não posso deixar de mencionar como estou feliz em fazer a resenha deste trabalho o qual eu, assim como milhares de outros fãs pelo mundo, aguardei ansiosamente como uma criança que espera por um presente do Papai Noel na noite de natal. Neste caso, o presente é mais direcionado ao “Dia das Bruxas”, não resisti me perdoem! (risos)
Todos que acompanham a banda já sabem que, há 5 anos estes gigantes do Heavy Metal anunciaram o retorno de dois personagens icônicos de sua história, Kai Hansen e Michael Kiske, algo que, talvez, só fosse possível no sonhos de nós fãs. O sonho então se tornou realidade e fizeram uma turnê incrível celebrando essa reunião, onde Andi Deris e Michael Kiske esbanjaram uma harmonia incrível em cima do palco. Tenho que destacar que eu tive a felicidade de acompanhar quase todos os shows da passagem desta reunião pela América do Sul, então posso afirmar com propriedade essa harmonia no palco.
Os meses foram passando e os fãs começaram a especular a possibilidade de um novo trabalho com estes 7 personagens reunidos, o que foi confirmado pela banda após o término da primeira parte da turnê de reunião. Então, todos ficamos aguardando por este, que com certeza, se tornaria um marco para história do Heavy Metal mundial, mas confesso que, além da ansiedade por este trabalho, eu procurei não criar expectativas, pois sendo bem sincero, o single “Pumpkins United”, lançado antes da turnê, pareceu-me muito genérico e a baixo do que estes
grandes compositores do Heavy/Power Metal podem fazer.
Dito isso, chegou o dia tão esperando e essas são as minhas considerações para o que eu chamo de OBRA PRIMA do Power/Heavy Metal!
Já começa pela arte incrível feita pelo excelente artista israelense Eliran Kantor, que já desenvolveu ilustrações para bandas como Testament, Soulfly, BloodBath, Hate Eternal, dentre muitas outras bandas de metal extremo. O trabalho deste artista é de arrepiar, e só de ver a arte do álbum me emocionei, deixando que minhas expectativas começassem a se elevar.
O álbum começa com “Out For the Glory”, faixa que têm tudo para ser a abertura dos shows da próxima turnê, assim que essa praga de pandemia acabar. Meus amigos, que música!! Ela tem tudo que o Helloween dos anos 80 apresentou de melhor: as influências dos clássicos “Keepers Of The Seven Keys” I e II são extremamente evidentes, e até uma pitada de “Walls Of Jericho” no segundo verso lembrando alguns trechos da música “Judas”, um refrão empolgante sendo 90% cantada por Kiske e os outros 10% por Hansen. Deris não aparece aqui, na verdade ele foi muito mais ativo neste álbum como compositor do que nas gravações em si, algo que falarei mais a respeito durante esta resenha. Enfim, “Out For the Glory” que pode vir a se tornar um grande clássico com o tempo, com um refrão poderoso, passagens rápidas do início ao fim e solos melódicos e diretos como marca registrada dos alemães.
Em seguida, temos uma das músicas já conhecidas do público, “Fear of the Fallen”, o segundo single lançando pela banda. Deris finalmente aparece aqui entregando uma performance incrível, na verdade é difícil dizer quem não foi incrível neste álbum tamanho o empenho e dedicação que desprenderam nesse trabalho. É mais uma música que poderia muito bem ter sido escrita para entrar em um dos “Keepers”, porém ela já trás alguns traços dos grandes trabalhos da era Deris. Vale destacar que, nesta música, o trabalho de cordas do agora trio de guitarras e a ponte de vozes que ligam ao último refrão, temos Deris e Kiske “duelando” e cantando “Listen to your Heart” repetidamente, criando uma parte muito emocionante antes de cair para o último refrão. Mais uma grande faixa dentro desta obra.
Segue-se com “Best Time”, faixa típica “pop” do Helloween e diria até do Gamma Ray ou Unisonic. Óbvio que são os mesmos compositores em todas as bandas, porém era algo que a muito tempo o Helloween não fazia, lembrando muito a música “Exceptional”, do já citado Unisonic, mas a participação do Deris aqui puxa um pouco para “I Can”, uma música “pop” de sua fase na banda, o que dá um equilíbrio interessante. Podemos considera-la um ponto baixo no trabalho, talvez, por ser uma mudança significante na ‘vibe’, mas provavelmente se viesse mais uma paulada Power Metal na sequencia poderia soar um pouco enjoativo. Helloween sendo Helloween, dando pausas quando necessário!
Com “Mass Polution” o álbum começa a entrar mais na fase de Andi Deris, com um início arrepiante de Markus (baixo) que me lembrou bastante “Mr. Torture” por sua pegada mais Heavy Metal e aquele Hard Rock Cru, bem pesado. Aqui, Deris parece ter rejuvenescido uns 20 anos, voltando a cantar com aquela voz cheia de drives clássicos e sujos das épocas de “Master of The Rings” e “The Time of The Oath”, passeando por trabalhos mais recentes também como o “My God Given Right”! Uma grande exibição de um grande vocalista que, por muitos fãs, ainda não foi aceito no Helloween, mas todos devem saber que é graças a ele que o Helloween se mantem firme e forte até hoje!
“Angels” é a música, talvez, mais diferente do disco, com passagens mais cadenciadas, pianos bem evidentes, com um clima bem obscuro e dramático. Destaque para os teclados MUITO presentes, e me arrepiou ainda mais ao saber quem os gravou – bem como todas as orquestrações -, nada mais nada menos que o Mr. Jens Johansson (Stratovarius/Rainbow)! Tem como dizer que isso é não é uma obra? (risos) O refrão que começa cadenciado e em seguida acelera diferencia bastante do que o Helloween costuma fazer. Aqui, Deris volta a ficar em segundo plano, mas quando aparece para “contracenar” com o Kiske, abrilhanta demais. Se a banda jogou “recuada” em “Best Times”, em “Angels” foram pra cima! Gostei bastante da maneira que arriscaram dentro do que eles se propuseram.
“Rise Without Chains”, temos de volta o equilíbrio na participação de Kiske e Deris, e na minha concepção é a união perfeita entre “Keepers I”, “II” e o “Better Than Raw”. Música pesada, melódica, com um refrão típico Deris, porém com a pitada de Kiske, onde diria que seria aquela música “Agridoce”. Para mim, a melhor música do álbum e um dos melhores refrões já escrito pela banda. Vale destacar, também, a exibição do baterista Dani Löeble! Os grooves que fez aqui – e no trabalho todo -, para mim, é a melhor exibição dele na banda desde que assumiu as baquetas. Ele é um baterista muito técnico, mas eu não conseguia sentir sua identidade nos trabalhos anteriores, soando até como um robô. Desta vez, ele realmente destruiu em seu kit!
Chegamos na metade do disco com “Indestructible”, faixa que parece ter saído do álbum “Rabbit Don’t Come Easy”, disco de estreia de Sascha Gerstner como guitarrista na banda. Composição poderosa, contando com os 3 vocalistas, trabalhando bem o peso da fase Deris e com um refrão melódico de Kiske! Essa faixa cairia muito bem em algum dos trabalhos do Gamma Ray, mas aqui estamos falando do Helloween, não é verdade? Acredito que será uma música que funcionará muito bem ao vivo, com o público cantando com pulmões fortes.
“Robot King” segue a mesma linha de “Indestructible”, porém com uma pegada totalmente vinda dos discos mais recentes da banda, mas a participação de Kiske eleva o nível. Na parte do refrão, esses dois ícones mostram o porquê dessa dupla estar dando tão certo! Não é qualquer um que vai conseguir cantar este refrão quando (e se) decidir fazer um cover! Fazendo uma analogia ao futebol, é como a dupla de ataque brasileira de 1994, com Bebeto e Romário destruindo tudo juntos! (risos) Todos os músicos aqui merecem destaque e aplausos em pé ou se emocionar de joelhos! Um épico!
“Cyanide” volta a prestigiar a fase recente da banda com uma grande exibição de Deris, música bem direta, crua e suja como essa fase deve ser! Seu solo de guitarra gruda de tal forma na cabeça que, se a tocarem ao vivo, certamente todo mundo fará o famoso “ooOOOOOooooOOOOO”!
Chegando nas últimas faixas do disco temos “Down In The Dumps”, música clássica tipicamente Helloween, seja fase Kiske, seja fase Deris, além de trazer características dos recentes trabalhos lançados pela banda. Acredito que essa é a música em que a banda deva se apegar para composições futuras, pois é bem equilibrada em termos de peso e melodia. Hora bem rápida, hora mais melódica, com duetos que lembram o famoso solo de “Eagle Fly Free”, refrão alto com Deris alcançando nossas agudissímas da época em que ele cantava no Pink Cream 69 ou quando gravou “Master of the Rings”. Vale citarmos que, aqui começo a destacar a produção alta desse disco, que desde o “Rabbit Don’t Come Easy” eu não sentia termos uma produção tão vibrante, principalmente quando falo das notas altas de Deris. Antes, a mixagem/masterização era muito estridente, em determinados momentos soava até como barulho! Não sei se vocês, caros leitores, tinham essa mesma sensação, mas era difícil ouvir os discos numa paulada só, mas as coisas começaram a serem arrumadas em “My God Given Right” e acertaram em cheio nesta nova obra auto intitulada. Dennis Ward como co-produtor e Charlie Bauerfriend como produtor não tinham como dar errado, não é mesmo?
A última música do disco, “Skyfall” se inicia como uma introdução chamada “Orbit”, e tenho uma leve desconfiaça que deram esse nome pois ela passeia durante todas as fases do Helloween, com alguns poucos segundos e trechos que nos remetem a clássicos como “Halloween” e a famosa introdução de “Walls of Jericho”, antecedendo a exuberante e icônica “Ride The Sky” lá nos anos 80. Enfim, “Skyfall” é o começo do fim do trabalho. E que FIM! Já conhecida do público, feste épico foi o primeiro single do novo álbum disponibilizado para os fãs antes do lançamento do álbum completo. No melhor estilo Kai Hansen (sua principal composição no disco), tem todas as características de épicos que ele já compôs em sua longa e gloriosa carreira, como por exemplo a “Heading For Tomorrow”, do primeiro disco do Gamma Ray após sua saída do Helloween. Uma música muito dinâmica que varia entre passagens rápidas clássicas do Power Metal, com trechos como balada, voltando como um Heavy/Power Metal poderoso e cru que o Helloween sempre soube fazer com maestria. São pouco mais de 12 minutos que parecem ter apenas 5 minutos tamanha a qualidade e desenvolvimento! Vale destacar também que, nesta música, o ‘feeling’
das orquestrações feita pelo Jens Johansson, sem dúvida nenhuma, abrilhantou ainda mais o clima épico proposto por Kai e cia.
O álbum “oficial” começa e termina de forma magistral, porém os mestres ainda nos “presentearam” com algumas faixas bônus em edições especiais duplas (europeia com duas faixas e japonesa com quatro, sendo uma “Pumpkins United”). Puro capitalismo da indústria da música, mas os fãs mais hardcore, com certeza, gastarão os tubos ou vender os rins para consegui-las, graças a nossa “bela economia” que deixou o valor do dólar na estratosfera.
“Golden Times” da início a sessão extra e que musicão! Tinha (ou tem) tudo para se tornar um clássico da banda e um clássico do Power Metal, com um refrão lindo com Kiske passeando pela música sem nem precisar de altos tons, sendo esse o destaque aqui. Muitos cantores tentam (em vão) imitar ou, no melhor dos casos ou pegando mais leve com esses, se influenciar! Kiske consegue emocionar os ouvintes até com leveza, mas aqui temos o contraponto com um instrumental pesado e rápido!
“Save My Hide”, outra música espetacular bem na linha da fase Deris que lembra muito faixas como” Why”, de “Master of the Rings” e “As Long As I Fall”, de “Gambling with the Devil”. Pesada, cadenciada e com um refrão que só Andi Deris consegue emocionar e fazer!
A versão japonesa ainda conta com mais duas músicas faixas! “We Are Real”, mais uma música da pegada mais “pop” do Helloween, com um dueto incrível entre o Kai Hansen e o Andi Deris. Particularmente, eu teria trocado ela por “Best Times”, mas é apenas opinião pessoal, pois não mudaria o resultado final da obra. E uma nova versão de “Pumpkins United”, com os teclados do Jens dando um ar diferente e uma pequena mudança de estrutura que ajudou a melhorar o andamento. Gostei mais desta, pois está dentro da vibe do disco.
Terminada a audição do que posso dizer uma obra-prima do Power Metal, talvez até do Heavy Metal como um todo, não via um grande disco do Helloween desde o “Rabbit Don’t Come Easy” em termos de composições, arranjos, produção, onde tudo, definitivamente TUDO, funcionou.
Porém, devo ressaltar alguns pontos. Deris poderia ter cantado um pouco mais no disco, já que a grande maioria das composições são dele, porém deram maior destaque ao retorno do Michael Kiske, que não compôs absolutamente nada. Acredito que Deris não se importou tanto com isso, pois esse provou que joga pelo time! Outro ponto, senti falta de uma balada impactante no álbum, o que ficaria incrível ouvirmos Deris e Kiske juntos como fizeram na versão ao vivo de “Forever And One”, por exemplo, no álbum ao vivo, fazendo até durões caírem em lágrimas.
Enfim, para mim, as expectativas em torno deste trabalho foram atendidas e creio até que surpreendidas.
Acho que, mesmo com o retorno de membros importantíssimos da história da banda, nem os fãs mais fervorosos (sou um deles e pelo texto vocês já notaram isso, e me perdoem pelo texto enorme. O Johnny quase me arrancou o fígado ha ha ha) esperava um álbum tão poderoso. Tão Poderoso que me levou de volta aos meus 13 anos de idade, época que me tornei um fã talvez até obcecado pela banda, pois graças a eles (junto ao Angra) foi o que escolhi resolver fazer da minha vida como músico.
Se você é fã da fase clássica do Helloween certamente irá se apaixonar pelo trabalho e voltar a viver amores pela banda, se você é fã da fase clássica Deris também irá se surpreender com o que a banda voltou a fazer. Agora, se é fã de Helloween, independente de fases, certamente este trabalho ganhará um espaço em seu coração junto aos maiores clássicos da banda.
Diogo Nunes





