
Def Leppard – “High ‘N’ Dry” (1981)
Mercury Records
#HardRock, #HeavyMetal, #MelodicRock
Para fãs de: Whitesnake, Thin Lizzy, Warrant, Tesla, Poison, Dokken
Nota: 10
Durante os anos 70, o jornalista Geoff Barton chamou de New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM) a nova safra de bandas emergida no Reino Unido (Iron Maiden, Saxon, Judas Priest, Venom, Motorhead, etc.) que substituíram o Blues da primeira geração (Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple) por peso e velocidade. Apesar de fazer parte dessa geração o Def Leppard nunca foi literalmente “Metal”. Claro que essas influências foram o DNA de “On Through The Night”, primeiro álbum da banda, produzido por Tom Allom (Black Sabbath, Judas Priest) e inclusive a Rolling Stones escreveu “eles não apenas respeitam os mais velhos, mas também seguiram sugestões de seus colegas da nova onda”. Durante o processo de desenvolvendo da identidade da banda era preciso também ir além para ser relevante a nível mundial.
Entra em cena então Robert John “Mutt” Lange (The Boomtown Rats, Foreigner, The Motors, AC/DC). Sua adesão (este foi o primeiro dos quatro álbuns produzidos por ele) e de Shipley trouxeram uma produção mais melódica do que antes, dando um salto de qualidade na sonoridade e tendo um efeito significativo na carreira da banda. Claro que “Mutt” Lange trouxe também a sua abordagem meticulosa e seus métodos disciplinadores que foram difíceis de absorver no início: “Era quase como a disciplina do exército, mas ele conseguiu ótimas performances de todos que nunca teríamos de outra forma” – lembrou Joe Elliott em 2014 – “Lange foi um grande capitão, um grande líder. Estávamos sem leme e ele nos deu a direção que desesperadamente precisávamos”.
“High ‘N’ Dry”, o segundo álbum dos rapazes de Sheffield, se posiciona entre a coragem do primeiro álbum e o hard rock comercial e polido dos seguintes, mantendo ainda o poder agressivo e distorcido que a banda possuía na época. Quarenta anos depois de seu lançamento este clássico da discografia Leppard, e dos anos 80, não apenas os afastou definitivamente do NWOBHM, mas também foi o trampolim para o que viria a ser a sonoridade e a ascensão meteórica da banda.
“Agora, olhando para trás, há partes que acertamos e erramos” – diz Joe Elliott – “Mas de um modo geral, como segundo álbum, foi o início para onde estávamos indo. Tínhamos a mente aberta e estávamos muito felizes por trabalhar com “Mutt” Lange. Ele era como um professor, um guru do rock, e, não apenas queríamos aprender com ele, como estávamos preparados para entrarmos no ringue e lutar”.
Durante as sessões de gravação do álbum no Battery Studios de Londres, a banda e “Mutt” Lange dissecaram, reescreveram, refizeram, reorganizaram e regravaram (UFA!) meticulosa e indefinidamente cada parte do material composto, até cada canção chegasse à perfeição, segundo Lange, materializando pela primeira vez o som distinto e único da banda. É importante frisar que junto à importância de “Mutt” Lange também há uma maior maturidade, habilidade e evolução musical da banda ao começar a criar sua identidade musical com os arranjos polidos e compactos dos vocais de apoio.
“Fazer “High ‘N’ Dry” foi uma enorme curva de aprendizado soando contundente, profissional e, de modo geral, foi o começo de onde queríamos ir” – disse Joe Elliott ao Blabbermouth em 2014 – “Um ano depois, ao fazermos “Pyromania”, o que tínhamos passado durante a gravação de “High ’N’ Dry” havia sido absorvido e percebemos que valeu a pena todo o esforço”.
“High ‘N’ Dry” e sua enigmática capa (desenvolvida por Storm Thorgerson, fundador da agência de design “Hipgnosis” (pode ter certeza que em sua coleção existem diversos álbuns feitos pela Hipgnosis)) viram a luz do dia em 11/07/1981, alcançando o Top 30 no Reino Unido, o 38º lugar na Billboard 200, o 26ª lugar na “UK Albums Chart” e em 1992 chegando a platina dupla. Como curiosidade “High ‘N’ Dry (Saturday Night)” alcançou o 33º lugar entre as 40 melhores canções de metal do VH1, o álbum reentrou nas paradas de sucesso dos EUA em 72º lugar (em 1983) após o lançamento de “Pyromania”, e, depois de ser relançado em 1984, o single remix de “Bringin ‘On the Heartbreak” alcançou o 61º lugar na Billboard Hot 100.
Vale ressaltar que este é o último álbum da formação original da banda com Joe Elliott (vocais), Rick Savage (baixo), Steve Clark e Pete Willis (guitarras) e Rick Allen (bateria), além da primeira aparição de Phil Collen nas inserções de teclados. Apesar de Willis ter uma importância significativa na história da banda, ele pensava em seguir um caminho a lá Robin Trower ou Jimmy Page e isso não se encaixava com a ideia de “Mutt” Lange de tornar as músicas mais acessíveis. Junte a isso todo o problema com o álcool e drogas e o resultado é sua saída da banda, apesar de chegar a escrever parte do “Pyromania”.
Com um clima muito AC/DC, temperado com Thin Lizzy, UFO e influências do Kiss em início de carreira, a banda desfila diversos hinos de hard rock com toques melódicos abrilhantados pelas impressionantes guitarras gêmeas de Clark e Willis. “Mutt” trouxe sensibilidade, acentuou riffs, aparou arestas, adicionou melodias, criou o início da magia entre a banda e as paradas de sucesso, mas, sabiamente, apesar de polir o som (não tanto quanto nos próximos álbuns), ainda deixou espaço para aqueles jovens “famintos”, “arrogantes” e “petulantes” com a atitude de “nós sabemos que somos bons”, serem agressivos, cheios de energia e excitantes a seu modo.
Abrindo com um golpe triplo: “Let It Go”, “Another Hit And Run” e a faixa título, este é o álbum mais turbulento e violento da banda. Uma incrível mistura de riffs excelentes, melodias cativantes, refrões memoráveis, solos absurdos e o início dos vocais de apoio em multicamadas com um som pesado e cru. Se há perfeição no Hard Rock esse trio de abertura é um grande exemplo. Implacável!
Mas o álbum fornece variedade também em “You Got Me Runnin’” e “Mirror Mirror (Look Into My Eyes)”. Enquanto a primeira lembra “Hey You” do Thin Lizzy, a segunda mistura o próprio Thin Lizzy com British Steel.
A banda foi capaz de apresentar uma das primeiras “power ballads” criadas. “Bringing on the Heartbreak”, é um capítulo à parte e inaugurou um estilo que viria a definir o Hard Rock nos anos 1980. Suas harmonias são um modelo para o futuro da banda no restante da década. Uma balada enorme e poderosa com solo primoroso de Steve Clark.
Foi um golpe de mestre uni-la à “Switch 625”, um instrumental de tirar o fôlego. O duelo de guitarras é tão furioso que cria diversas imagens mentais. Essa junção com ecos de Thin Lizzy é uma das melhores coisas já criadas pela banda.
O Hard Rock volta a imperar com “Lady Strange”. Embalada pela harmonia das guitarras essa é uma das melhores músicas já feitas pela banda. Riff, solo, melodia… tudo beira à perfeição!
“On Through The Night” (não sei o motivo de ter uma música no segundo álbum com o nome do primeiro álbum, mas…) e “No, No, No” (não confunda com a música do Kiss) mantém o nível lá em cima. A primeira é um hino com um solo fenomenal de Clark e a segunda pisa fundo no acelerador, arrebata com um incrível solo de Willis e finaliza o álbum deixando um gosto de “quero mais”.
Mesmo com todos esses hinos, “Me & My Wine”, que entrou no relançamento de 1984, não deveria ter sido deixada de fora.
Em “High ‘N’ Dry” a banda juntou canções que foram previamente testadas no palco com outras escritas durante a gravação do álbum e ao lado do talento de “Mutt” Lange as reestruturou de forma a criar um equilíbrio de peso e melodia que cativa do início ao fim do álbum com um som genuíno e consistente, a banda demonstra estar pronta para dominar o mundo.
E pensar que a EMI optou por trabalhar apenas com o Iron Maiden.
Citando Mary Poppins, “High ‘N’ Dry” é “praticamente perfeito em todos os sentidos”. Este é um daqueles raros álbuns que nunca envelhecem. Matador!
João Paulo Gomes







