
Judas Priest – 40 anos de “Screaming For Vengeance”
Texto por João Paulo Gomes

Ao longo das décadas muito foi escrito sobre este álbum que ajudou a ascensão do Metal e, até hoje, é celebrado como um clássico, mesmo que entre os fãs da banda ele ainda divida opiniões com “British Steel”, “Painkiller” ou “Defenders of the Faith” sobre qual é o melhor. A importância dele dentro do cenário e esse fervor dos fãs aumentaram o desafio de escrever essa matéria.
Mas vou voltar um pouco no tempo antes de escrever sobre o álbum…
Normalmente o Black Sabbath é creditado como um dos pioneiros do Heavy Metal, mas não há como negar que seus contemporâneos do Judas Priest também foram de suma importância para o desenvolvimento do gênero. Claro que não houve um abalo sísmico como no caso do Sabbath, mas rapidamente a banda se tornou uma força essencial para o estilo.
Nos anos setenta o Judas já havia se firmado como um dos grandes nomes do movimento NWOBHM e a nova década fazia com que eles fluíssem melhor criativa e comercialmente. Apesar disso, “Point Of Entry” não agradou. Era chegado o momento de rever conceitos, buscar novamente a essência, mergulhar de volta nas suas raízes e achar seu caminho.
A gravadora estava pressionando a banda por um álbum verdadeiramente Heavy Metal que agradasse aos fãs americanos, mercado referência para a indústria fonográfica mundial, que a banda queria explorar mais. Eles partiram então para o Ibiza Sound Studios na Espanha (fugindo dos impostos ingleses) em janeiro de 1982 (a mixagem e os overdubs foram gravados no Beejay Studios em Miami, Flórida) contando com Tom Allom novamente na produção. “Havia um pequeno estúdio lá e nós estávamos loucos”. – disse Rob Halford em 2010 – “Destruímos carros, batemos motos… Pensávamos ser invencíveis”.
Ao contrário de “British Steel”, criado e gravado em um mês, esse foi um projeto muito mais elaborado. A banda queria um álbum diversificado, mas coeso. “Esse não foi um dos que escrevemos rapidamente”. – disse Glenn Tipton – “Dedicamos muitas horas para garantir que as músicas ficassem do jeito que queríamos. No final acho que acertamos. O álbum tem uma ótima atitude e definitivamente foi marcante para o Priest”.
A produção de Tom Allom, muitas vezes criticada, dessa fez foi brilhante. O álbum é denso e pulsante, com um trabalho diferenciado entre as guitarras, além de ter um som muito mais nítido do que vários de seus antecessores. O flerte com o Hard Rock deu um ar mais sofisticado ainda ao som da banda.
Mesmo sem abrir novos caminhos em termos de composição, apesar da excelência de uma das maiores e mais duradouras parcerias da história do Heavy Metal com Rob Halford, Glenn Tipton e K.K Downing, ou exibir a complexidade de trabalhos anteriores, a banda demonstra estar mais madura, energizada e apresentando melodias e refrãos cativantes.
Com a misteriosa citação: “De uma terra desconhecida e através de céus distantes veio um guerreiro alado. Nada permaneceu sagrado, ninguém estava a salvo do Hellion enquanto ele soltava seu grito de guerra… Gritando por Vingança” adornando seu oitavo álbum, o Judas Priest lançou em 17/07/1982 pela Columbia Records, após cinco meses no estúdio, “Screaming for Vengeance”. A banda deixa a inconsistência dos últimos álbuns e emerge triunfante com um dos melhores álbuns de todos os tempos.

A capa do álbum, iniciando a trilogia icônica de Doug Johnson, é um capítulo à parte e criou uma nova tendência para a banda. Baseada no Hellion da primeira música do álbum ela é precisa em descrever o sentimento e o poder do álbum.
Contando com uma de suas formações mais estáveis: Rob Halford (vocais), Glenn Tipton e K.K. Downing (guitarras), Ian Hill (baixo) e Dave Holland (bateria), o álbum alcançou #11 no UK Albums Chart, #17 na Billboard Top 200 dos EUA e recebeu ouro e platina dupla vendendo mais de cinco milhões de cópias em todo o mundo.
O Thin Lizzy pode ter sido um dos primeiros a usar as guitarras gêmeas, mas o Judas as consolidou no Heavy Metal com K.K. Downing e Glenn Tipton. Aqui os dois não estão para brincadeira e produzem riffs e solos que são alguns de seus melhores momentos ao longo da década de oitenta. A diferença de estilo deles cria algo único e genial, sem nenhum ser submisso ao outro, fazendo com que a soma das partes seja maior do que o talento de cada um.
Rob Halford é um caso à parte. Considerado um dos melhores vocalistas de Metal de todos os tempos a ferocidade dele é impressionante. Dono de um alcance vocal absurdo, ele aqui, em seu auge, ele soa impressionante e dosa agressividade e aspereza com melodias harmoniosas que somente “The Metal God” seria capaz de fazer.
É possível dizer que a cozinha não esteja à altura do restante da banda, ainda mais depois do baixo ter quase sumido na mixagem, mesmo assim o trabalho é bem feito.
Mas, vamos às músicas…
O álbum começa esmagador com “The Hellion” rugindo em uma das melhores introduções da história do Heavy Metal e preparando o ouvindo para o que viria a seguir. Quarenta segundos instrumentais memoráveis, representando o novo despertar do Judas, são seguidos da monstruosa, clássica, rápida e incrível “Electric Eye”. Perfeição em forma de música com um tema assustadoramente atual sobre a invasão de privacidade na vida das pessoas, inspirada na obra “1984” de George Orwell. Uma dica: Nunca cometa o pecado de desfazer essa dupla.
Depois desse início impressionante, gerando uma tremenda expectativa e, sem perder tempo, o ouvinte é bombardeado com uma dupla divina e matadora: a fantástica, viciante e cativante “Riding On The Wind” que toma o ouvinte de assalto e “Bloodstone” com seu riff animal, melodias incríveis, letra sobre a corrupção e a espantosa performance de Halford oscilando entre medo e súplica. Dois clássicos para os fãs da banda e das guitarras gêmeas de Glenn e K.K.
A próxima sequência pode ser entendida para “acalmar” o ouvinte antes de mergulhar novamente de cabeça no Metal. A primeira é “(Take These) Chains”. Escrita em parceria com Bob Halligan Jr., (KISS, Kix), que trabalharia novamente com o Judas Priest em “Some Heads are Gonna Roll”, de “Defenders of the Faith”, ela virou o segundo single do álbum. Em seguida temos “Pain And Pleasure”, que pode ser considerada uma alusão ao BDSM. Ouvindo novamente depois de tanto tempo elas realmente são boas músicas, mas não conseguiram se destacar do restante do álbum e, por consequência, não se tornaram favoritas dos fãs.

Após esta “pausa”, um novo bombardeio atinge o ouvinte com a música título e “You’ve Got Another Thing Coming”. A estupenda e épica faixa-título faz jus ao seu nome. Ela é um animal furioso e raivoso com poder e intensidade além do limite. Frenética e vertiginosa ela destrói as defesas do ouvinte com seus vocais, riffs e solos insanos. “You’ve Got Another Thing Coming” praticamente encapsula os ideais, a imagem e atitude da banda e é a grande responsável pela explosão comercial e popular do Judas, sem perder a identidade e a atitude da banda.
Apesar de começar a ser gravada na Espanha, ela só foi finalizada na Flórida durante a mixagem, conforme Halford explica: “Brincamos com essa música em Ibiza, mas não chegamos a acertá-la na mosca. Ficou enterrada no lado B do disco. (A letra) tratava de alguns temas clássicos do Priest, como determinação, não desistência e a crença em si mesmo, e, ao voltarmos a ouvi-la sob o sol da Flórida, percebemos que havia mais ali do que pensávamos” – e continua – “Humm… É uma música muito boa para dirigir, não é?””.
Esse último pensamento é compartilhado por K. K.: “É claro que não tínhamos conhecimento desse ingrediente intangível quando a escrevemos, mas não há dúvida de que essa música tinha o tipo de batida que, mesmo se você estivesse dirigindo a apenas 50 por hora, quando ouvisse aquela introdução, seria simplesmente convencido a acelerar. Além disso, a música trazia uma inegável sensação de felicidade e despreocupação. Melhor ainda: tudo nos Estados Unidos então parecia girar em torno desse ethos de “entre no carro, ligue o som e dirija. Era a música ideal para o momento” e Ian Hill complementa: “Essa música nasceu por acidente. Quando fomos para a Flórida mixar o álbum descobrimos que precisávamos de mais uma música e estávamos com pouco tempo. Fizemos o nosso melhor para conseguir o que a princípio seria apenas uma música para encher linguiça. Isso é muito incomum para nós, porque nunca pensamos dessa forma. Ela foi escrita e gravada em poucas horas, mas soava tão espontânea que as rádios norte-americanas a abraçaram e ela passou a ser tocada em todo lugar. Foi a música que nos fez estourar em grande estilo nos Estados Unidos. Tudo o que se seguiu realmente se deve a essa música concebida na reta final da gravação. Isso só prova que as coisas mais espontâneas às vezes são as melhores”.
Eles tanto não imaginavam o sucesso dessa música que ela não abre nenhum dos dois lados do LP (normalmente local aonde ficavam as apostas de sucesso dos álbuns). A surpresa foi imensa como diz Halford: “Honestamente, nós nem sonhamos que a música seria a que faria o disco um sucesso tão grande. Todos nós gostamos, mas parecia um pouco simples e talvez não pesado o suficiente. Terminamos no final da sessão e meio que decidimos mantê-la. Estávamos olhando para o álbum como um todo e talvez não tivéssemos a perspectiva de ver que era a faixa de destaque. Mas a gravadora ouviu e imediatamente eles disseram que iriam torná-lo o single e eles acharam que daria certo. Nós apenas demos de ombros, mas obviamente eles viram algo nela que nós não vimos”.
Mas nada disso a impediu de invadir os EUA e atingir #4 na parada de rock da Billboard e #17 na Billboard 200 com seu peso melódico e energia contagiante.

O álbum finaliza com a subestimada “Fever” (uma quase “power ballad” que sofreu por vir logo depois de “You’ve Got Another Thing Comin'”. Apesar de ser mais lenta em comparação ao restante do álbum, é uma bela canção) e a perversa “Devil’s Child” (a melhor música que o AC/DC nunca escreveu, foi uma excelente escolha para finalizar o álbum).
Os anos 80 (re)definiram o Heavy Metal, como lembra Tipton: “Eram tempos loucos, mas ótimos. Eu realmente olho para aqueles anos como os anos obrigatórios do metal. Todo mundo era uma estrela do rock, aspirante a estrela do rock ou parecia uma estrela do rock. Então, todos tinham a mesma plataforma para trabalhar”.
Mas este álbum não é “apenas” um marco para a banda. Não ajudou “apenas” a (re)definir o Metal, mudando a forma como ele era feito. Não serviu “apenas” de inspiração para o desenvolvimento de várias vertentes do Metal (power metal, speed metal…). Mas, sim, se tornou um dos mais importantes álbuns já feitos.
Coeso e contagiante “Screaming For Vengeance” consolida e aperfeiçoa o que o Judas Priest vinha fazendo em seus álbuns anteriores soando mais pesado do que nunca e deixando uma marca indelével no estilo. Que as novas gerações possam ter noção da importância que o álbum e o Judas possuem e deem o devido reconhecimento e respeito a eles.
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