Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

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Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

Dentre os instrumentos de corda presentes no Rock/Metal, a relevância do baixo sempre foi menor que a da guitarra. Ainda assim, são muitos os apaixonados por esse som que é o elemento que serve de ligação entre o ritmo e a harmonia musical. Essa paixão é plenamente justificável, já que há alguns discos históricos nos quais o baixo ganhou pleno destaque.

Seja por causa da criatividade e capacidade técnica do baixista ou seja pela genialidade do produtor musical, há álbuns que produziram sons de baixo que estão além do limite da perfeição. Ou seja, seus timbres beiram o inalcançável.

O quarto capítulo de nossa matéria especial “Discos Que Destacam o Baixo” se dedicará especialmente ao subgênero Thrash Metal.

Megadeth – “Peace Sells… but Who’s Buying?” (1986) (Redator: Cristiano Ruiz)

Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

Ainda que seja um trabalho repleto de boas faixas, o debut do Megadeth, “Killing Is My Business… and Business Is Good!” (1985), devido a sua baixa qualidade de produção, passou meio que despercebido na época. No entanto, o fabuloso lançamento de “Peace Sells… but Who’s Buying?”, no ano seguinte, colocou a nova banda do ex-Metallica, Dave Mustaine, em evidência pela primeira vez.

O time original de Mustaine contava com o baixista David Ellefson, que aliás gravou a imensa maioria dos discos do quarteto. Ellefson conseguiu nesse disco, assim como em outros da discografia do Megadeth, colocar o seu instrumento em evidência, em um subgênero de Metal no qual tal fato, a peinxípio, não é uma exigência. Tanto é assim, que as oito faixas de “Peace Sells… But Who’s Buying?” mereceriam a citação aqui, porém, de qualquer forma, vamos escolher as três principais.

Em primeiro lugar, seria uma heresia não destacarmos a canção que se refere ao título do álbum. “Peace Sells” introduz com um riff de baixo que acaba sendo dobrado pela guitarra logo depois, comandando a música do início até o fim. Na sequência, é justo citarmos as maravilhosas frases que deixam “Good Mourning/Black Friday” ainda mais fantástica. Lembrando que o guitarrista Chris Poland e o saudoso baterista Gar Samuelson completavam esse time e, juntos, todos eles obtinham, como resultado, um Thrash Metal tecnicamente ímpar. Encerrando os destaques, a linha da faixa que abre o registro, “Wake Up Dead”, usa até técnica de slap, dessa forma, furando completamente a bolha e elevando o Thrash a um patamar musical mais alto.

Annihilator – “Alice In Hell” (1989) (Redator: Cristiano Ruiz)

Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

Em 17/4/1989, a banda canadense de Thrash Metal, Annihilator, lançou o seu debut “Alice In Hell”. Se anteriormente mencionamos que o segundo álbum do Megadeth deu abertura a um Thrash mais técnico, três anos mais tarde, o debut do “Annihilator” definiu o que chamamos hoje de Technical Thrash Metal.

No estúdio, o mentor do Annihilator, o guitarrista Jeff Waters, também foi o responsável por registrar o baixo, mas isso não empobreceu o instrumento, muito pelo contrário. Desde que a introdução “Crystal Ann” soa os seus primeiros acordes até o grand finale, “Human Insecticide”, os arranjos de baixo do senhor Waters merecem todos elogios. As faixas “Alison Hell” e “W.T.Y.D.” (Welcome to Your Death) são os principais destaques, já que as linhas de baixo a deixam mais que formidáveis.

Posteriormente a esse lançamento, a carreira do Annihilator foi cheia de altos e baixo quanto à qualidade. Contudo, qualquer deslize jamais conseguiria apagar o brilho do debut “Alice In Hell”, pois trata-se de um dos títulos fundamentais para aqueles que amam o Thrash Metal tocado com mais técnica.

Testament – “Practice What You Preach” (1989) (Redator: Johnny Z)

Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

Lançado em 1989, “Practice What You Preach” é o terceiro álbum do Testament, e marca um momento de virada na sonoridade da banda — e, principalmente, uma rara ocasião no Thrash Metal onde o baixo não só aparece com nitidez, como se torna peça fundamental da atmosfera e da estrutura das músicas. Greg Christian, então baixista da banda, entrega aqui uma performance inspirada, versátil e incrivelmente audível, o que já diz muito, considerando como o baixo costuma ser sufocado nas mixagens de álbuns de Thrash daquela era.

O álbum abre com a faixa-título, e logo nos primeiros segundos já é possível perceber como o baixo está mais presente na mixagem, pulsando junto com os riffs mas também abrindo espaços próprios. A técnica de Greg é limpa, precisa e com um timbre bem definido — não é um baixo distorcido tentando se camuflar com a guitarra, é um instrumento separado, com identidade. Ele não se limita a dobrar os riffs: escute com atenção e vai perceber frases independentes, preenchimentos sutis e, às vezes, até melodias paralelas.

Greg Christian deu muito mais destaque ao baixo do Testament em “Practice What You Preach”

Essa riqueza se estende por todo o álbum. Em “Blessed in Contempt”, o baixo atua quase como um condutor da tensão. Já em “Greenhouse Effect”, Greg alterna entre linhas cavalgadas e grooves firmes, sempre amarrando as viradas de tempo com muita consciência rítmica. E em faixas como “The Ballad”, mais lenta e sombria, o baixo ajuda a construir a melancolia, sustentando a parte limpa com uma sensibilidade que contrasta com o peso que virá depois.

Um dos grandes momentos do álbum para quem aprecia o trabalho de baixo é “Envy Life”. Aqui, Greg Christian brilha com uma linha marcante, quase funkeada, que se destaca completamente do instrumental. É uma faixa onde o baixo não é apenas audível — ele é o centro das atenções. A pegada de palhetada firme, mas com groove, dá uma cara própria à música, e revela como o Testament, mesmo ainda imerso no Thrash Metal clássico, começava a explorar caminhos mais grooveados e técnicos — algo que eles desenvolveriam mais à frente.

O toque da produção de Alex Perialas

Outro ponto importante é a produção. Sob os cuidados de Alex Perialas (mesmo produtor de álbuns do Anthrax e Overkill), a mixagem favorece todos os instrumentos com certo equilíbrio, permitindo que o baixo tenha espaço. Não é que o som seja perfeito — afinal, estamos falando do final dos anos 80 — mas é muito acima da média quando se trata de registros Thrash da época. A escolha dos timbres, a separação dos canais e a clareza dos arranjos favorecem o trabalho de Greg Christian de forma justa.

“Practice What You Preach” é um disco que não apenas mostra o Testament em uma fase mais madura, mas também registra um dos momentos mais brilhantes da banda – e, claro, do baixo – no Thrash Metal oitentista. Greg Christian não tenta roubar a cena — ele simplesmente toca com tanto gosto, tanta fluidez e precisão, que acaba se tornando um dos pilares mais interessantes do disco. Para quem curte baixo com presença, musicalidade e inteligência, este álbum é uma pérola que merece ser redescoberta com atenção.

Overkill – “W.F.O” (1994) (Redator: Johnny Z)

Discos Que Destacam o Baixo, capítulo 4

Lançado em 1994, “W.F.O.” (sigla para “Wide Fucking Open”) é um disco que encapsula como o Overkill se manteve fiel às raízes do Thrash Metal mesmo em plena era do grunge e das mudanças sonoras dos anos 90. Mas mais do que isso, “W.F.O” é um monumento ao baixo no Thrash — e não qualquer baixo: estamos falando de D.D. Verni, um dos baixistas mais subestimados (e únicos) do gênero. Aqui, ele brilha como raramente se vê em álbuns do estilo. Não só pela presença sonora, mas pela criatividade, punch e importância estrutural de suas linhas.

Desde os primeiros segundos da faixa de abertura, “Where It Hurts”, fica claro que o baixo está na linha de frente. Com um timbre distorcido, metálico e agressivo, D.D Verni empurra o som com uma autoridade que não deixa dúvidas: ele não está ali só pra dobrar guitarra, ele está ali para ditar o peso. É o tipo de abordagem que lembra Lemmy do Motörhead em espírito, mas com uma pegada mais técnica e frenética. E mais importante: com uma mixagem que faz justiça ao instrumento.

Ao longo do disco, D.D. Verni se mostra um verdadeiro arquiteto do groove. Em faixas como “Fast Junkie” e “Supersonic Hate”, ele costura os riffs com uma linha rítmica sólida, mas também brinca com pequenos fills e viradas que dão vida ao som. Nessas horas, o baixo não é apenas o alicerce: ele é a alma da música. E é impressionante como ele consegue soar pesado sem perder definição — cada nota soa clara, mesmo nos momentos mais caóticos.

D.D Verni conduz o baixo do Thrash Metal a outro patamar

“Bastard Nation” é outro destaque nesse sentido. Aqui, a linha de baixo é quase “cantada”, com uma independência melódica rara no thrash. D.D faz questão de não ficar preso ao que as guitarras estão fazendo — e isso dá um dinamismo único à faixa. Já em “They Eat Their Young”, é como se o baixo estivesse em guerra com as guitarras, em um duelo sujo e vigoroso, onde ninguém sai por baixo (sem trocadilhos).

A verdade é que “W.F.O” é todo construído em torno do baixo em comunhão com os riffs de guitarra. O groove, a violência e a energia das músicas nascem do jeito como D.D Verni toca junto das palhetadas das guitarras. E não é só técnica, é personalidade. Ele usa a palheta com fúria, mas também com precisão. O resultado é um som que rasga, morde, mas também conduz. Um baixo que fala alto sem soar exibido. Ele preenche os espaços, mas nunca atropela.

A marca do Thrash Metal nos anos 1990

A produção, apesar de crua e propositalmente mais “na cara” que nos discos anteriores, valoriza isso. A mixagem não enterra o baixo — ao contrário, dá a ele o lugar de protagonista que merece. E isso transforma “W.F.O” em um álbum único no catálogo do Overkill e, de certa forma, no próprio Thrash dos anos 90.

Em um momento onde muitas bandas veteranas estavam perdendo identidade ou tentando se adaptar às tendências da época, o Overkill fez um disco honesto, brutal e, acima de tudo, grooveado. E esse groove tem nome: D.D Verni.

Para quem gosta de sentir o baixo vibrando no peito, conduzindo o peso e fazendo a ponte entre o Metal e o Punk/Hardcore com propriedade, “W.F.O” é uma aula. Um disco que mostra como o Thrash pode ser não só rápido e agressivo, mas também sujo, encorpado e dançante — quando se tem um baixista com atitude e inventividade como D.D Verni.

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