DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2

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DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2

Antes de mais nada, é necessário deixar claro que as dez bandas desse artigo dizem respeito unicamente a análise subjetiva dos autores. Ou seja, naturalmente haverá discordância. Assim sendo, cabe aos leitores a reflexão sobre a carreira de cada um desses artistas, independentemente de fazerem parte de seu gosto pessoal ou não. Além disso, cada um pode ter em sua opinião dez bandas que mereceriam mais reconhecimento que obtiveram. Na verdade, o importante são as perguntas que podemos fazer a nós mesmos, a fim de entender o contexto histórico e cultural que levaram ao resultado que, particularmente, não estamos de acordo.

No primeiro capítulo cinco bandas subestimadas ganharam destaque e mais cinco serão apresentadas nessa parte final.

Vamos lá?

Heathen – Thrash Metal da America

DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2 – HEATHEN – ACERVO

Heathen é uma das bandas mais cultuadas do Thrash Metal americano, surgida em 1984 no coração da Bay Area, Califórnia, mesma cena que revelou Exodus, Testament e Death Angel. Criada pelo guitarrista Lee Altus e pelo também guitarrista Doug Piercy, a banda logo chamou atenção por unir riffs velozes, técnica refinada e vocais mais melódicos do que a maioria das bandas do gênero, o que os colocou em uma posição única dentro do Thrash.

Seu primeiro disco, “Breaking the Silence” (1987), saiu pela Combat Records e trouxe um Thrash direto, com uma produção cristalina para a época. Entre os destaques estão “Death by Hanging”, que virou hino do estilo, e a versão Thrash do clássico “Set Me Free”, do Sweet, que até ganhou clipe na MTV — ajudando o grupo a conquistar fãs fora do underground. O álbum apresentava também uma característica marcante: solos longos e trabalhados, algo que mostrava a preocupação do Heathen com a musicalidade, além do peso e já uma boa dose de técnica apurada.

O segundo álbum, “Victims of Deception” (1991), foi ainda mais ousado. Considerado por muitos fãs e críticos como sua obra-prima, trouxe músicas longas, complexas e cheias de mudanças de andamento, quase beirando o Thrash progressivo. Faixas como “Hypnotized” e “Morbid Curiosity” mostram a maturidade da banda, tanto em letra quanto em instrumentação. O disco ainda contou com a participação do baixista Marc Biedermann (Blind Illusion) e mostrou um Heathen afiadíssimo, mas acabou ofuscado pelas mudanças do mercado musical no início dos anos 90, quando o grunge dominava as atenções.

O retorno com “The Evolution of Chaos”

Depois de anos de hiato e mudanças na formação, Heathen retornou com força em “The Evolution of Chaos” (2010). O álbum foi recebido com entusiasmo, provando que o tempo não tinha apagado a chama do grupo. Ele resgatava a sonoridade clássica da banda, mas com uma produção moderna e um peso ainda maior. “Dying Season”, “Control by Chaos” e a épica “No Stone Unturned” são exemplos perfeitos do equilíbrio entre técnica, melodia e agressividade que consagrou o Heathen.

“Empire of the Blind” (2020) veio consolidar a nova fase do grupo. Gravado com a formação que contava com Lee Altus, David White (vocais), Kragen Lum (guitarra), Jason Mirza (baixo) e Jim DeMaria (bateria), o álbum trouxe uma pegada mais direta e moderna, sem abrir mão da identidade clássica. Faixas como “The Blight”, “Empire of the Blind” e “Sun in My Hand” mostraram uma banda ainda criativa e atual, provando que o Heathen não vive apenas de nostalgia, mas segue olhando para frente.

Hoje, Heathen é visto como uma verdadeira lenda cult do Thrash: pode não ter atingido o mainstream como alguns contemporâneos, mas construiu uma discografia respeitada, que equilibra peso, melodia e técnica de maneira singular. Sua história é de persistência, fidelidade à própria identidade e entrega total ao Metal, mantendo vivo o espírito da Bay Area até hoje.

Trouble – Doom Metal da América

DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2 – TROUBLE – ACERVO

Ainda que o Trouble esteja na ativa, desde 1978, obtendo um certo sucesso nos anos 80, talvez o maior problema com a banda foi a propaganda pra época. Entre a saída de Ozzy Osbourne do Black Sabbath e a entrada de Ronnie James Dio, que mergulhou o som da clássica banda ainda mais nas trevas, a Metal Blade, na época, vendeu o Trouble com o rótulo de “White Metal”, trazendo a idéia de contraste e resposta às letras mais obscuras que estavam ganhando o mercado na época, e isso, de certa forma, mais atrapalhou a banda que ajudou, já que, hoje em dia, muita gente não busca o som da banda pela associação maior ao White Metal com Metal cristão, do que pelo conceito da época, afinal, era tudo mato ainda.

Mesmo assim, eles são considerados um dos pioneiros do Doom Metal. A voz de Eric Wagner, aliada aos riffs carregados e pesados, além de bateria e baixo mais lentos e marcantes, ajudaram a moldar um estilo. Porém, a banda em si nunca conseguiu se aproveitar totalmente dessa questão.

Trouble, banda menosprezada por um rótulo comercial

Sua fase mais marcante passou pelos quatro primeiros álbuns, sendo “Trouble” (1984), “The Skull” (1985), e seus dois discos mais bem sucedidos comercialmente, “Run to The Light” (1987) e “Trouble” (1990). A partir daí, a banda passou a usar temas mais psicodélicos, como visto em “Manic Frustration” (1992) e “Plastic Green Head” (1995).

Com a saida de Wagner em 2008, pouco após o lançamento do “Simple Mind Condition” (2007), a banda conta desde então com Kyle Thomas, que substituiu Wagner por um período no final dos anos 90. Uma banda que soa como um verdadeiro filho do Black Sabbath, mas que não teve a devida atenção ao longo da sua carreira.

Korzus: Thrash Metal do Brasil

DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2 – KORZUS – ACERVO

Ah, Korzus… Essa banda devia ser muito maior do que é. Mesmo que no Brasil seja, de certa forma, consolidada, eles nunca conseguiram se projetar totalmente, principalmente no mercado exterior.

O álbum “Mass Illusion” (1991), pra época, era um baita disco de Thrash Metal, e o disco seguinte, “KZS” (1995), como disse o vocalista Marcello Pompeu uma vez, era um disco à frente do seu tempo. Se o mesmo tivesse sido lançado uns anos depois, com a modernidade alcançando o Metal, certamente, teria feito mais sucesso. Isso realmente é uma verdade, pois os elementos Hardcore presentes no disco foram algo bem explorado nessa época, principalmente por bandas como o Biohazard.

Retorno após um grande hiato

O longo período até outro disco de estúdio, o fenomenal “Ties of Blood” (2004), também colaborou para uma menor projeção da banda. E os seus dois últimos discos de estúdio “Discipline of Hate” (2010) e “Legion” (2014), são verdadeiros petardos, dificilmente comparáveis em termos de qualidade, olhando para o mercado nacional, mas que também não foram suficientes pra banda alcançar vôos maiores.

Contudo, isso também nunca foi muito o intuito da banda. Talvez, ao comparar com bandas com a mesma longevidade, o fato de não terem evoluído pra uma banda globalizada dá essa sensação agridoce, que como uma banda com uma discografia praticamente impecável fique “voando baixo”. Felizmente isso nunca influenciou na qualidade musical da banda, já que todos os seus discos merecem atenção.

Onslaught: Thrash Metal do Reino Unido

DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2 – ONSLAUGHT – ACERVO

Onslaught é um caso evolutivo interessante no Metal. Seu primeiro disco, “Power From Hell” (1985), é um proto – Death Metal, com Paul Mahoney no vocal, assim como algumas bandas da época, que estavam desenvolvendo um som mais furioso do que o Thrash Metal oferecia em seu início.

Em seguida, veio “The Force” (1986), que já era mais maduro, dessa vez com Sy Keeler no vocal, com uma abordagem mais Thrash. Mas mesmo assim manteve algumas características do primeiro disco, mostravam a força que o som da banda tinha.

Já seu terceiro disco, “In Search of Sanity” (1989), é certamente seu disco mais ambicioso, e ao mesmo tempo, subestimado, de toda sua discografia. Com músicas longas, deixando de lado o som mais cru e visceral dos dois primeiros, soando até como uma versão inglesa do “And Justice for All” (1988) do Metallica, além de contar com o vocalista de Heavy Metal Steve Grimmett. O disco é incrível, porém colaborou para a banda não desenvolver uma identidade tão própria, sendo que, os três primeiros discos contam com vocalistas e abordagens diferentes, o que, comercialmente, não ajudou a banda, tanto que, ela acabou em 1991.

Retornando em 2004

Com seu retorno em 2004, apoiado no boom da retomada do Thrash Metal na virada do milênio, e tendo o retorno de Sy Keeler no vocal, a banda finalmente conseguiu consolidar seu estilo no Thrash. Nesse retorno sairam ótimos discos como “Killing Peace” (2007), “Sounds of Violence” (2011) e “VI” (2013), o que deu uma nova guinada na banda.

Seu disco mais recente de estúdio, “Generation Antichrist” (2020), mais uma vez viu outra mudança. A saída de Keeler e a entrada de David Garnett, que inclusive gravou o último material da banda, “Origins of Agression” (2025), contendo regravações de músicas dos anos 80. Keeler essa semana retornou para a banda, após quase seis anos de sua saída. Que esse retorno ajude a projetar ainda mais essa banda, uma das melhores que a Inglaterra produziu, e não teve o devido reconhecimento.

Hate: Blackened Death Metal da Polônia

DEZ BANDAS SUBESTIMADAS, PARTE 2 – HATE – ACERVO

Hate sofreu com dois problemas ao longo de sua existência. O primeiro, foi estabelecer seu estilo. Formada em 1990, e liderada pelo guitarrista e vocalista Adam “The First Sinner”, foi no seu quarto álbum, “Awakening of The Liar” (2004), que a banda estava formulando um som mais próprio.

Mas, foi só a partir dos dois discos seguintes, o fenomenal “Anaclasis: A Haunting Gospel of Malice & Hatred” (2005) e o ainda mais forte “Morphosis” (2008), que a banda conseguiu estabelecer seu Blackened Death Metal. No entanto, isso esbarrou no segundo problema, que era a inevitável comparação com o Behemoth, que estava vivendo sua melhor fase dentro do estilo, sendo às vezes julgados como uma cópia descarada do mesmo, tanto pelo som quanto pela estética visual.

As comparações com Behemoth ofuscaram Hate

Isso colaborou para que muita gente não desse a devida atenção ao som, mesmo tendo uma boa receptividade dos críticos ao longo dos anos. Contudo, não impediu a banda de continuar lançando discos com uma qualidade absurda e inquestionável. Como “Erebos” (2010), “Solarflesh” (2013), “Crusade: Zero” (2015), “Tremendum” (2017), “Auric Gates of Veles” (2019) e “Rugia” (2021).

Essa lista não tem um disco ruim, beirando o inacreditável de como a banda manteve sua identidade ao longo de 20 anos. E a (hoje injusta) comparação com o Behemoth, sendo que eles mesmos se distanciaram do som que faziam durante a década de 2000, mostra que o Hate, hoje, devia ter mais atenção e apreço por aqueles que admiram essa vertente do Metal extremo, sendo um prato cheio de qualidade, longe de serem uma sombra de outra banda.

Redação: Heathen (Johnny Z), Hate, Onslaught, Trouble e Korzus (Matheus Mu)

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