Entrevista com Marcos Maccione (Galo de Briga)
Com o lançamento do álbum de estreia “Ruas”, o Galo de Briga se firma como um dos nomes mais intensos e contestadores da cena punk/hardcore atual. Com letras em português que escancaram a realidade das ruas, a violência cotidiana, a política, as bebedeiras e a resistência, as dezessete faixas do disco traduzem fielmente a essência do quarteto formado por Marcos Maccione (vocal), Chris Antimídia (guitarra), Gepão (baixo) e Ander (bateria): energia crua, crítica social afiada, fúria e uma conexão profunda com o ambiente urbano brasileiro. “Ruas” aprofunda ainda mais o universo lírico e sonoro da banda, elevando sua potência e relevância. Conversamos com Marcos Maccione sobre as origens do Galo de Briga, o papel político de sua música, suas influências e os próximos passos desse ataque sonoro.
Entrevista por Johnny Z.
Fotos: Divulgação
Metal Na Lata: A banda nasceu em 2023, mas já chega com experiência de estrada de cada integrante. Como as vivências anteriores influenciaram na identidade e na urgência sonora do Galo de Briga?
Marcos Maccione: Acredito que o que mais fortalece o som da banda é justamente o entrosamento natural entre nós. Já nos conhecemos há bastante tempo, então existe uma sintonia muito forte, tanto pessoal quanto musical. Além disso, nossas influências sempre foram muito parecidas — crescemos ouvindo os mesmos sons e frequentando os mesmos ambientes underground. Tudo isso cria uma base sólida para compor e tocar com intensidade, sem precisar forçar nada. É como se cada um já soubesse exatamente o que o outro quer transmitir, e isso se reflete diretamente na identidade sonora do Galo de Briga.
Metal Na Lata: O punk e o hardcore têm uma tradição de contestação e crítica social. De que forma vocês enxergam o papel do Galo de Briga nesse cenário atual do Brasil?
Marcos Maccione: O Brasil está atravessando um dos momentos mais difíceis da sua história recente, em praticamente todas as áreas — política, social e econômica. Isso, de certa forma, acaba sendo combustível para a criação. Quando você vive um contexto tão conturbado, as ideias vêm com mais urgência, porque a realidade é provocadora por si só. Eu, particularmente, acredito que estamos presenciando um dos períodos politicamente mais instáveis da nossa história, e o punk sempre teve esse papel de reagir e expor as contradições do sistema. O Galo de Briga surge justamente nesse momento, com vontade de falar alto e direto.
Metal Na Lata: As letras de vocês são diretas, em português e sem rodeios. Quais temas foram mais desafiadores de transformar em música e por quê?
Marcos Maccione: O maior desafio, sem dúvida, é conseguir falar sobre temas pesados e atuais sem cair em um discurso partidário ou panfletário. O país está extremamente polarizado, e isso exige cuidado para manter a crítica afiada, mas sem fechar portas. Nosso objetivo é mostrar injustiças, contradições e problemas que afetam todo mundo, independentemente de bandeiras políticas. Transformar isso em música, de forma direta e acessível, é uma tarefa que exige sensibilidade e honestidade.

Metal Na Lata: O álbum de estreia, “Ruas”, carrega um título forte e simbólico. O que essas “ruas” representam para vocês?
Marcos Maccione: “Ruas” tem tudo a ver com a essência da banda. Representa nossas trajetórias pessoais, a vivência no underground e o cotidiano real que inspira nossas letras e nosso som. É nas ruas que tudo acontece — é onde crescemos, onde vimos as coisas mudarem, onde os movimentos nascem e onde a resistência pulsa. O título traduz bem essa ligação com a vida concreta e com a realidade de quem vive a cena de verdade.
Metal Na Lata: Vocês citam influências que vão de Ramones e Motörhead a Cólera, D.R.I. e até Gwar. Como conseguem equilibrar essa variedade de referências dentro de uma sonoridade própria?
Marcos Maccione: Isso acontece de maneira muito natural. Cada um traz um pouco das suas referências, e quando começamos a compor, tudo se mistura organicamente. Mesmo com essa diversidade de influências, mantemos sempre a pegada crua, direta e energética que foi pensada desde o início. A ideia nunca foi copiar ninguém, mas sim deixar que tudo que ouvimos e vivemos apareça nas músicas, sem perder a identidade do Galo de Briga.
Metal Na Lata: O underground paulistano é um campo fértil, mas também competitivo e resistente. Como têm sido a recepção do público e da cena desde os primeiros shows da banda?
Marcos Maccione: A recepção tem sido excelente. Desde os primeiros shows percebemos que, mesmo sendo uma banda nova, o público tem reagido com entusiasmo. A cada apresentação, conquistamos mais pessoas, muitas vezes que não conheciam nosso som e acabam sendo surpreendidas pela energia ao vivo. Essa sensação de estar ganhando espaço show após show é muito gratificante, especialmente dentro de uma cena tão viva e exigente como a de São Paulo.

Metal Na Lata: A intensidade dos palcos é um ponto marcante do Galo de Briga. O que vocês buscam transmitir ao público durante uma apresentação ao vivo?
Marcos Maccione: O palco é o nosso lugar favorito, é onde realmente nos sentimos em casa. Não importa se estamos tocando em um espaço pequeno ou em um evento maior — a entrega é sempre total. Queremos que o público sinta a verdade do que fazemos, que a energia seja recíproca. Cada show é uma oportunidade de conexão direta, sem filtro, e é isso que buscamos transmitir: intensidade, verdade e paixão pela música.
Metal Na Lata: Em tempos de algoritmos e redes sociais, como uma banda com discurso crítico e sonoridade agressiva consegue se conectar com novos públicos sem perder autenticidade?
Marcos Maccione: Acredito que o segredo está justamente em não tentar moldar o som ou a mensagem para agradar o algoritmo. Fazemos um som verdadeiro, direto, sem frescura e sem floreios. Falamos sobre o cotidiano real das pessoas, sobre situações que todo mundo reconhece, e isso cria identificação. Mesmo com toda a lógica digital atual, as pessoas ainda buscam autenticidade. Quando você é verdadeiro, essa conexão acontece naturalmente.

Metal Na Lata: O disco foi lançado pela Porcoburger Records. Como surgiu essa parceria e qual a importância de ter um selo que acredita no trabalho de vocês nesse primeiro momento?
Marcos Maccione: A Porcoburger Records é formada por amigos de longa data, pessoas que acompanham nossa trajetória desde o primeiro ensaio. Essa relação de confiança facilitou muito a parceria. Eles acreditaram no nosso trabalho desde o início e deram o suporte necessário para colocar o álbum na rua (belo trocadilho). Já temos, inclusive, a parceria garantida para o segundo disco. Ter um selo que compartilha da mesma visão e acredita de verdade na banda faz toda a diferença nessa fase inicial.
Metal Na Lata: O punk/hardcore sempre teve um espírito de resistência e coletividade. Quais são os próximos passos do Galo de Briga para além do álbum – projetos, colaborações ou até ações fora da música?
Marcos Maccione: Nosso foco agora é tocar muito, levar o som para o maior número possível de lugares. Estamos finalizando as músicas do próximo álbum, que já está tomando forma. Fora isso, mantemos também a nossa convivência de forma leve e verdadeira — gostamos de nos reunir, tomar uma cerveja, fazer um churrasco e manter essa amizade forte, porque isso também faz parte da essência da banda. O punk é música, mas também é convivência e espírito coletivo.
Metal Na Lata: Se compararmos o punk/hardcore dos anos 70 e 80 com o de hoje, o que vocês enxergam como principal mudança – na sonoridade, no público ou na mensagem?
Marcos Maccione: Acho que houve mudanças nos três aspectos — na sonoridade, na mensagem e no público. Como em qualquer estilo musical, as coisas evoluem e se transformam naturalmente com o tempo. O punk dos anos 70 e 80 tinha um contexto histórico específico, enquanto hoje lidamos com outras realidades. Ainda assim, a essência permanece. O que muda são as formas de expressão, os recursos disponíveis e as maneiras como o público se envolve com a cena.
Metal Na Lata: O que vocês acreditam que a cena atual pode aprender com a velha escola do punk/hardcore, e o que a nova geração traz de positivo que talvez não existisse no passado?
Marcos Maccione: Apesar de o Galo de Briga ser uma banda nova, eu vivi minha adolescência nos anos 80 e acompanhei de perto o surgimento de muitas bandas clássicas. Essa experiência nos ensina muito — principalmente sobre atitude, independência e espírito coletivo. A velha escola mostrou que é possível fazer muito com pouco, desde que haja paixão e comprometimento. Por outro lado, a nova geração traz novas ferramentas, novas ideias e uma energia renovada. Essa combinação é poderosa, porque mantém o legado vivo ao mesmo tempo em que abre espaço para inovações. Como dizem: “punk’s not dead”.
Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista. O espaço final é de vocês.
Marcos Maccione: Em nome do Galo de Briga, quero agradecer pelo espaço e pelo apoio. Nosso álbum está disponível em todas as plataformas digitais, e convidamos todo mundo a seguir a gente nas redes sociais em @bandagalodebriga. Apoiem as bandas independentes, compareçam aos shows, fortaleçam a cena. Valeu demais pelo apoio e… até a próxima, seus malacabados (risos)!





