Kreator + Carcass + Exodus + Nails, Sala Tejo, Lisboa, Portugal (20/03/2026)
Texto e fotos por Carlos Lito
Colaboração: Patrício Pereira Costa e Souza
Confesso: a expectativa já era alta — mas o que aconteceu na Sala Tejo, em Lisboa, superou qualquer previsão otimista. Saindo do Porto e encarando cerca de 3h15 de estrada ao som de uma playlist nada amigável aos ouvidos mais sensíveis, a sensação era clara: o esforço valeria a pena. E valeu.
Desde os primeiros momentos, ficou evidente que não se tratava apenas de uma sequência de shows, mas de uma verdadeira celebração da longevidade, da identidade e da força do heavy metal em suas mais diversas vertentes. Um encontro de gerações, sonoridades e legados.
Abrindo a noite, os californianos do Nails tinham uma missão nada simples diante de um lineup tão robusto — e a cumpriram com autoridade e entrega visceral. Mesmo em um horário ainda inicial, a Sala Tejo já contava com um público expressivo, pronto para absorver o impacto logo nos primeiros acordes.
Com uma proposta direta e sem concessões, o trio despejou uma sequência compacta de faixas executadas praticamente sem intervalos, criando uma sensação contínua de pressão sonora. A abertura com “Suffering Soul” funcionou como um gatilho imediato, emendada por “Lacking the Ability to Process Empathy” e “Conform”, formando um bloco inicial sufocante e brutal. O timbre característico, carregado de distorção e com aquela aspereza quase “serrilhada”, cortava o ambiente enquanto a banda mantinha uma execução firme e implacável.
Mesmo com um breve problema técnico durante “God’s Cold Hands”, com falha momentânea no PA, a apresentação seguiu sem perder intensidade ou controle. No desfecho, “Unsilent Death” veio como a última explosão de energia, transformando a pista em um turbilhão de movimentação intensa.
A abertura com o Nails foi um choque imediato. Sem rodeios, o trio entregou brutalidade crua e direta, sustentada por uma cozinha rítmica avassaladora. Não era muito familiarizado com a banda, mas saí de lá como fã.
Quando o Exodus subiu ao palco, a Sala Tejo já estava completamente aquecida. A entrada dos veteranos da Bay Area trouxe uma mudança clara de atmosfera: saía a crueza extrema da banda anterior e entrava o espírito clássico, quase celebratório, do thrash metal em sua forma mais tradicional.
Com o lançamento recente do álbum Goliath, a expectativa era alta, e a banda não perdeu tempo. A abertura com “3111”, primeiro single do disco, colocou a casa em movimento, emendando imediatamente com “Bonded by Blood”, um dos maiores hinos do gênero. A pista se transformou em um turbilhão de cabeças girando, rodas se formando e crowd surfings surgindo em sequência. Fãs de Exodus sabem: caos organizado é a regra.
O setlist passou por diferentes momentos da carreira, incluindo “Deathamphetamine”, “Blacklist” e a nova “Promise You This”, mantendo o público constantemente engajado. Rob Dukes, de volta aos vocais, conduziu a plateia com segurança, enquanto Gary Holt reforçava peso, energia e identidade da apresentação. Mesmo com os anos passando, sua presença continua única, sempre cheia de movimento e atitude própria.
Apesar da força do repertório, o som em alguns momentos ficou excessivamente estridente, prejudicando a definição das músicas, e pequenas oscilações na execução — especialmente na bateria de Tom Hunting — foram perceptíveis. Ainda assim, nada freou o ímpeto coletivo.
Na reta final, Dukes convocou o público para mergulhar no thrash mais clássico. “A Lesson in Violence” e “The Toxic Waltz” elevaram a intensidade, esta última ainda com uma provocação à “Raining Blood”, do Slayer, antes da explosão final. O encerramento com “Strike of the Beast”, acompanhado do famoso wall of death, consolidou a apresentação, que se apoiou totalmente na força de um legado incontestável.
Em cerca de 50 minutos, o Exodus entregou um show intenso, repleto de clássicos e com aquele espírito que só uma banda pioneira é capaz de transmitir — uma conexão direta e visceral com a essência do thrash metal.











Quando o Carcass subiu ao palco, a Sala Tejo pareceu se transformar. Sem luzes extravagantes ou efeitos visuais, a presença da banda britânica dominava o ambiente. Cada movimento, cada nota, prendia a atenção do público, que respondeu com rodas de mosh, headbangs incessantes e energia compartilhada que fluía diretamente do palco para a plateia.
O set começou com “Unfit For Human Consumption”, abrindo caminho para clássicos como “Buried Dreams”, “Incarnated Solvent Abuse” e “No Love Lost”, equilibrando complexidade técnica e força brutal. Em trechos mais densos, como “Tomorrow Belongs To Nobody / Death Certificate”, a banda permitiu um breve respiro antes de retomar a pressão com “Genital Grinder” e “Exhume To Consume”.
“Dance Of Ixtab” trouxe uma pausa estratégica, preparando o público para a onda final de energia. O encerramento com “Heartwork” foi recebido com entusiasmo absoluto, selando uma apresentação técnica, impactante e emocionalmente intensa. Bill Steer e Jeff Walker conduziram a banda com precisão, destacando cada detalhe instrumental.
E então chegou o momento mais esperado. Por volta das 21h30, a Sala Tejo vibrava em antecipação. O anúncio do som inicial mecânico — a icônica “Run to the Hills”, do Iron Maiden — fez todos cantarem em uníssono, sinalizando que algo grandioso estava prestes a acontecer. Um breve silêncio caiu sobre o público, e a introdução serena de “Eve of Destruction” preparou os presentes para a tempestade sonora que se seguiria: o poderoso Kreator.
Quando a cortina se ergueu, revelando Mille Petrozza, Sami Yli-Sirniö, Jürgen “Ventor” Reil e Frédéric Leclercq, o instante seguinte foi pura energia. O riff de abertura de “Seven Serpents”, executado pela primeira vez ao vivo, incendiou a pista, e o público respondeu imediatamente com rodas de mosh e crowd surfings. A iluminação em tons vermelhos, combinada com chamas e jatos de vapor, criou um ambiente quase apocalíptico que preenchia cada canto da sala.
O setlist equilibrava passado e presente. Do novo álbum, faixas como “Hail to the Hordes”, “Krushers of the World” e “Loyal to the Grave” tiveram destaque, enquanto clássicos como “Enemy of God”, “Hordes of Chaos (A Necrologue for the Elite)” e “Satan Is Real” mantiveram a plateia em êxtase constante. Wall of deaths, circle pits e cabeças balançando sem parar refletiam a entrega total do público.
Mille Petrozza comandou o palco com autoridade, Sami e Frédéric reforçaram o impacto com riffs precisos e movimentação constante, enquanto Ventor sustentava a bateria com energia impressionante. Elementos cênicos estratégicos, como tochas e detalhes visuais, ampliaram a experiência, tornando o espetáculo memorável.
Na parte final, a intensidade atingiu seu ápice. “Phantom Antichrist”, “666 – World Divided” e “Violent Revolution” incendiaram a plateia, antes de Mille e companhia encerrarem a noite com o hino absoluto “Pleasure to Kill”. Foram aproximadamente 90 minutos de thrash intenso, mesclando técnica, peso e espetáculo visual de maneira única.
No fim, ficou claro: não se tratava apenas de rever clássicos, mas de testemunhar a vitalidade contínua de uma banda que ainda redefine a experiência do thrash ao vivo. Energia, precisão, espetáculo e emoção total — uma noite que ninguém presente esquecerá.

















