Entrevista com a banda Diatribes
Diatribes: o caos controlado do metal extremo brasileiro em ascensão
Diretamente do coração pulsante de São Paulo, a Diatribes surge como um dos nomes mais impactantes da nova geração do metal extremo nacional. Com o lançamento de Degenerate, a banda não apenas apresenta um cartão de visitas brutal, mas estabelece um manifesto sonoro que transita com autoridade entre o Death Metal, o Thrash e o Groove, equilibrando agressividade, técnica e identidade própria.
Em um disco que carrega inquietação, densidade filosófica e uma produção orgânica que foge dos padrões excessivamente artificiais da atualidade, o grupo demonstra uma maturidade incomum para um debut. Riffs esmagadores, vocais versáteis, uma base rítmica pulsante e uma construção musical dinâmica colocam a Diatribes em posição de destaque imediato dentro do cenário.
Nesta entrevista exclusiva, Gladyson Rivero (guitarra), Marcelo Souza (guitarra), Danilo Luna (vocal) e Sérgio Roma (baixo) mergulham nos bastidores de Degenerate, detalhando processos criativos, escolhas estéticas, conceitos líricos e os caminhos que pretendem trilhar a partir de um início tão avassalador. Confira!
Entrevista por Johnny Z.
Colaboração por Matheus “Mu” e Cristiano Ruiz
Fotos por Jean Carlos Santiago (@insanefreakdrum)

Como surgiu a Diatribes em meio ao cenário extremo paulista e em que momento vocês perceberam que havia uma identidade sólida o suficiente para transformar a ideia inicial na banda que ouvimos hoje em Degenerate?
Gladyson Rivero: Após mostrar para alguns amigos os riffs iniciais da música “Hostility Within” e compartilhá-los no Facebook, recebi várias críticas positivas que me incentivaram a continuar. Com a finalização da segunda música, “My Own Hell”, ficou ainda mais claro para todos qual direção deveríamos seguir para o álbum ‘Degenerate’.
Diatribes, logo de cara, remete ao título do álbum do Napalm Death de 1996, em um período em que a banda inglesa expandia sua sonoridade com elementos mais grooveados. A escolha do nome tem relação direta com essa visão musical ou carrega outros significados dentro da proposta da banda?
Gladyson Rivero: Essa é uma pergunta interessante. Ao conhecer esse álbum, fiquei curioso sobre o significado da palavra “Diatribes”, de origem grega. Percebi que ela possui diferentes interpretações, e escolhemos aquela que melhor representava a proposta da banda: discurso violento e críticas severas. Esse conceito acabou se refletindo na maior parte das letras do álbum.
A sonoridade da Diatribes em Degenerate equilibra Death Metal, Thrash e elementos de Groove com bastante naturalidade, ao mesmo tempo em que entrega brutalidade e velocidade. Como foi o processo de encontrar esse ponto de convergência sem soar derivativo?
Sérgio Roma: Foi um processo muito natural para mim. Escuto muito som extremo, mas também gosto de soul e funk (Parliament Funkadelic), que enfatizam bastante o contrabaixo como elemento principal de melodia. Quanto mais referências, mais conseguimos criar misturas novas e gerar resultados diferentes.

O álbum transmite uma sensação constante de inquietação, com mudanças de andamento e múltiplas ideias dentro de uma mesma faixa. Isso foi algo planejado desde o início ou surgiu de forma orgânica durante a composição?
Gladyson Rivero: Em relação à composição, acredito que seja uma combinação dos dois aspectos. Procuro iniciar cada música com a intenção de causar impacto, explorando variações que surpreendam o ouvinte ao longo da estrutura e mantenham um senso constante de expectativa. Essa sempre foi uma busca minha como compositor. Ao mesmo tempo, não acredito em fórmulas mágicas na arte — a criação precisa ser espontânea, autêntica e muito ligada ao momento em que estou compondo.
Gladyson, sendo o principal compositor, como você trabalha a construção de riffs dentro de músicas tão dinâmicas como “Three Down”, que apresenta diversas variações sem perder coesão?
Gladyson Rivero: “Three Down”, sem dúvida, é a música mais difícil de executar do álbum devido à sua complexidade, e sua criação foi o meu maior desafio. Teve muito a ver com um momento turbulento da minha vida. Acredito que consegui misturar todos os tipos de sentimentos e reações que tive naquele período: muita raiva, ódio e frustração. Porém, há momentos em que devemos dar uma pausa, respirar e organizar as ideias para transformá-las em algo estruturado. Minha cabeça não para! Eu canalizo os riffs mentalmente, toco, e, de repente, uma ideia ou pensamento me leva a criar um riff mais melódico que se encaixa com o anterior. Vou tocando, testando, gravando e estudando. Minha criação é bastante dinâmica: desenvolvo os riffs e experimento combinações. É uma tempestade de ideias, praticamente uma autobiografia musical — e, ao mesmo tempo, pessoal — em uma única música.
Houve alguma música durante as sessões de composição que funcionou como um verdadeiro divisor de águas para definir o direcionamento musical da banda?
Marcelo Souza: Sim, a música “My Own Hell”. Ela possui um maior número de riffs diferenciados, com influência thrash e death, trazendo mais dinâmica. Para mim, outra faixa que teve essa mesma importância é “Vicious Circle”, que passa pelo thrash, death e doom, lembrando em alguns momentos até uma pitada de black metal.
Mesmo com uma carga técnica evidente, o disco não soa progressivo ou excessivamente complexo. Existe uma preocupação consciente em equilibrar técnica e impacto direto?
Sérgio Roma: Existe, sim, mas no sentido de não exagerar em riffs ou passagens mais complexas do que o necessário. O importante é manter o sentimento da música.
A produção de Niko Teixeira trouxe um resultado orgânico e poderoso, fugindo da estética mais artificial de parte do metal moderno. O quanto essa escolha foi determinante para a identidade final do álbum?
Marcelo Souza: Justamente isso: queríamos um álbum que soasse orgânico e visceral. O Niko conseguiu captar essa essência. A produção dele foi impecável, inclusive nas linhas de bateria que ele criou. Foi tudo gravado com bateria real, nada de programação. Para mim, o resultado ficou perfeito.
Em relação à produção de Degenerate, em qual estúdio ocorreram as gravações, mixagem e masterização, e como foi conduzir cada uma dessas etapas até chegar ao resultado final?
Sérgio Roma: Foi no estúdio do Niko Teixeira, em Taubaté, o Audiolab Extreme Studio. Ele tem bastante familiaridade com o estilo e também gravou as baterias do álbum, então teve um cuidado especial em trabalhar o nosso disco.
A cozinha formada por baixo e bateria tem um papel fundamental no peso e no groove do disco. Como vocês trabalharam essa base rítmica para sustentar uma proposta tão intensa?
Sérgio Roma: Eu e o Niko falamos a mesma língua, na minha opinião. Conversamos bastante sobre as linhas de baixo, reforçando o pedal duplo e mantendo um som consistente e limpo, para que as músicas tivessem esse groove mais marcado. A ideia foi complementar os riffs, mantendo simplicidade e pouca distorção, para que o baixo não se tornasse uma massa sonora disforme.
As baterias de Degenerate foram gravadas por Niko Teixeira, trazendo uma pegada extremamente orgânica e poderosa. Como foi trabalhar com ele em estúdio e de que forma sua abordagem influenciou o resultado final do álbum?
Marcelo Souza: O Niko é um excelente produtor e também um grande músico. Trabalhar com ele foi muito fácil: é um cara que sabe ouvir, é aberto a ideias e deixa você à vontade. Ele não coloca pressão e corrige de forma tranquila. Como já produz muitas bandas de metal extremo, ele tem esse feeling natural. Isso facilita muito o processo — e o resultado está aí.
As guitarras possuem um papel extremamente marcante, com riffs agressivos e bem definidos, além de uma grande quantidade de variações. Quais foram as principais influências e como vocês estruturam esse processo criativo para manter coesão mesmo com tantas ideias?
Gladyson Rivero: Basicamente, escuto quase todo tipo de música, mas o Death e o Thrash Metal estão na alma. Primeiro, construo uma guitarra base, mas, no meu processo criativo, já penso em como a segunda guitarra deve entrar com notas diferentes, casando com o riff principal e mantendo um encaixe perfeito.
Obs.: nesse casamento, eu sou o marido (risos).
O baixo tem uma presença muito forte e definida na mixagem, contribuindo diretamente para o peso do disco. Essa valorização do instrumento já fazia parte da proposta desde o início?
Sérgio Roma: Quando o Gladyson me chamou, foi depois de ver um show da minha outra banda, o Invokaos, onde eu procuro um baixo presente e complementar, que às vezes pode assumir a linha principal da melodia, mas sem excessos de técnica. Isso casou perfeitamente com a proposta dele para a Diatribes.
Danilo, seu vocal alterna entre guturais profundos e linhas mais rasgadas, com bastante personalidade. Como foi desenvolver essa identidade vocal dentro da Diatribes?
Danilo Luna: O instrumental pedia um vocal versátil, e eu apliquei tudo aquilo que a música representava para mim. No momento em que o Gladyson começou a me apresentar as composições, eu estava ouvindo bastante coisa, alguns álbuns em específico, como Reek of Putrefaction (Carcass), Gore Obsessed (Cannibal Corpse), Sentenced to Life (Black Breath), Show No Mercy (Slayer) e The Link (Gojira). Esse momento proporcionou uma inspiração lírica rica e única. As letras casaram com a linha instrumental quase que como um passe de mágica, o que me trouxe muito orgulho do resultado final.

O título Degenerate sugere um conceito forte e dialoga diretamente com temas como conflitos internos, decadência social e colapso humano. De que forma essas ideias se conectam com a agressividade sonora do álbum e com a realidade que vocês observam ao redor?
Marcelo Souza: A música é uma linguagem através da qual você consegue transmitir sentimentos como amor, ódio, felicidade, tristeza, revolta e coragem. E não foi diferente com Degenerate. Todos esses temas — conflitos internos, decadência social e colapso humano — pediam uma trilha sonora bruta e violenta. E assim o álbum nasceu.
Algumas faixas trazem conceitos filosóficos bastante claros, como existencialismo, niilismo e críticas sociais. Existe uma preocupação em construir um discurso conceitual ou isso acontece de forma intuitiva?
Marcelo Souza: Isso aconteceu de forma intuitiva. Apesar de esses temas serem atemporais, hoje parecem estar mais em evidência. As pessoas estão vivendo muito no automático, cada vez mais afastadas de si mesmas, presas a narrativas. Existe muita ideologia. Na verdade, não se trata apenas de criticar, mas também de fazer uma autocrítica. Às vezes, pode até soar como um pedido de socorro.
Uma das faixas que mais tem ganhado destaque é “The Witch”. Musicalmente, o que ela traz de mais característico na identidade da banda e como foi o trabalho de criação dos riffs para essa música?
Gladyson Rivero: Ela deixa bem claro que o som da Diatribes é honesto e orgânico. Musicalmente, foi criada em tempo recorde e sem grandes dificuldades, com exceção da base do solo de guitarra. É uma música direta e verdadeira, com riffs agressivos e objetivos.
A arte de capa de Degenerate, assinada pelo próprio Danilo Luna, funciona como uma extensão direta da atmosfera e dos conceitos do álbum. Como foi o processo criativo por trás dessa imagem?
Danilo Luna: Começo ouvindo o material, analisando as letras e entendendo o andamento das faixas e a ordem da tracklist. Esse é o primeiro passo antes de tomar qualquer decisão criativa, que precisa traduzir o coração do álbum. Trocamos muitas ideias e começamos reunindo elementos que representassem a degeneração em suas diversas camadas. Criamos uma figura central que expõe suas feridas em uma ação coercitiva sobre aqueles que estão abaixo de seu poder, simulando uma falsa equidade — “vocês sangram, eu também sangro”. Todos estão aos seus pés, aceitando essa figura que os manipula como marionetes, tornando-os coparticipantes da degeneração humana. Na estética, busquei referências do período clássico da Grécia, tanto pela riqueza histórica quanto filosófica, além da conexão com o nome “Diatribes”, de origem grega. Isso dialoga diretamente com o conceito visual. Como detalhe, incluí a inscrição “Sociedade Degenerada” no trono.
As passagens instrumentais, como “Lost Soul” e “Swamp Spirits”, funcionam como respiros dentro da intensidade do disco. Qual a importância desses momentos na narrativa do álbum?
Marcelo Souza: Sim, funcionam como respiros. A ideia é tirar o ouvinte da zona de conforto: depois da tempestade vem a calmaria — e depois da calmaria, a tempestade retorna. Assim é a vida.
“Vicious Circle” teve um processo de composição diferente, partindo de ideias rítmicas já estruturadas. Esse tipo de abordagem deve aparecer mais nos próximos trabalhos?
Gladyson Rivero: Tudo é possível. Ainda não pensamos especificamente nisso, mas músicas novas já estão sendo criadas e, até o momento, não utilizamos novamente essa abordagem. A Diatribes é sempre uma caixinha de surpresas.

A faixa “Empire of Hate” soa como um grande clímax do álbum. Vocês enxergam essa música como uma síntese da identidade da Diatribes?
Danilo Luna: Sou suspeito para falar, porque esse álbum tem muito de todos nós. Mas posso dizer que “Empire of Hate” aponta um caminho possível, sim — e ainda mais pesado, com riffs ainda mais intensos.
Sendo um álbum de estreia tão sólido e já apontado como um dos destaques do ano, como vocês lidam com essa expectativa criada em torno da banda?
Sérgio Roma: A expectativa está enorme. Desde que ouvi as primeiras músicas, já senti que havia algo especial na Diatribes. Mas a resposta tem superado tudo o que imaginávamos. Queremos subir aos palcos o quanto antes para mostrar essa energia ao vivo.
O metal extremo brasileiro vive um momento muito produtivo. Na visão de vocês, o que ainda falta para bandas como a Diatribes alcançarem maior reconhecimento no cenário internacional?
Danilo Luna: Profissionalização em todos os processos: gravação, produção e shows. Além disso, colocar o coração e a alma no que se faz.
A sonoridade do álbum consegue ser extremamente pesada sem abrir mão de clareza e dinâmica. Como vocês trabalharam junto à produção para alcançar esse equilíbrio entre brutalidade e definição?
Sérgio Roma: Desde o início, deixamos claro para o Niko que queríamos que cada instrumento tivesse seu espaço e fosse bem definido na mixagem. Afinamos apenas um tom abaixo do padrão e evitamos exageros na distorção. Afinações muito graves acabam prejudicando a definição, assim como distorções excessivas. Depois, claro, entra o trabalho de mixagem — e o Niko fez isso com excelência.
Após o lançamento de Degenerate, que vem recebendo grande repercussão, o que podemos esperar da Diatribes daqui para frente?
Danilo Luna: Estamos nos preparando para abrir a agenda de shows e também buscando um baterista fixo. Além disso, estamos planejando novidades para proporcionar uma experiência completa ao público, incluindo merchandising e um videoclipe que está a caminho. Temos muita estrada pela frente. Obrigado pelo espaço mais uma vez, Johnny, Matheus “Mu” e Cristiano Ruiz. Um forte abraço, headbangers!
Muito obrigado pela entrevista — este espaço é de vocês para uma mensagem final aos fãs.
Sérgio Roma: Nós que agradecemos o espaço! A todos que têm acompanhado o início da Diatribes e nos dado força para levar esse projeto cada vez mais longe, o nosso muito obrigado. Esperamos vocês nos shows para bater cabeça junto com a gente. KEEP BANGING!!
Mais informações:
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