A inegável genealogia católica do Doom Metal

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A inegável genealogia católica do Doom Metal

No princípio imperava a inocência, e a inocência era inofensiva. No entanto, após provar o fruto proibido do conhecimento, nasceu a racionalidade e, com ela, a busca por sabedoria e evolução. Foi então que o Establishment disse: “Faça-se o medo do fogo eterno do inferno”. E o Establishment viu que o medo era bom — bom para a manutenção de seu controle e poder totais.

O goticismo do subgênero e seu confronto contra o Establishment

Dessa forma, durante o obscurantismo medieval, criminalizou-se a dúvida com humilhação pública, oferecendo redenção somente por meio da submissão. O Establishment disse: “Façam-se as trevas, afastando qualquer foco de luz”. E o Establishment viu que essa separação era perfeita, pois era exatamente o que garantiria seu status.

A descoberta de plantas medicinais era bruxaria, assim como a busca por conhecimento fora dos dogmas era pecado mortal. Em ambos os casos, o destino era a fogueira, uma das mortes mais cruéis já impostas a um ser humano.

A Idade Média se foi, felizmente. Mas será que o Establishment é diferente hoje?

A verdadeira história dos crucifixos dos quatro jovens de Birmingham

Black Sabbath Acervo – Os pais do Doom Metal

Em 1968, na cidade industrial de Birmingham, quatro jovens — Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne — fundam o Earth, que logo depois passaria a se chamar Black Sabbath. Criados por famílias de tradição católica, com exceção de Butler, o único praticante e devoto, todos conviviam com a ameaça de queimar eternamente no inferno.

Tanto que, quando foram convidados a se apresentar para um grupo de magia negra liderado pelo autointitulado “King of the Witches”, Alex Sanders, recusaram. Contudo, a recusa não foi bem aceita, e a banda foi amaldiçoada. Além disso, pouco depois, o próprio Sanders contatou a gerência do grupo, recomendando que usassem cruzes para se proteger.

Foi então que o pai de Ozzy, operário numa fábrica de peças automotivas, construiu quatro crucifixos gigantes com metal residual da linha de produção. Daquele momento em diante, os quatro passaram a usá-los constantemente no pescoço. Assim sendo, aquilo deixaria de ser proteção para se tornar parte da identidade do Black Sabbath.

A faixa Black Sabbath e o nascimento do Doom Metal

Ainda que sem ciência do que aquilo significaria no futuro, quando o Black Sabbath compôs e gravou a faixa homônima de seu debut autointitulado, acabara de criar o Doom Metal. Embora oficialmente sejam definidos como os pais do Heavy Metal — existem correntes dissidentes sobre isso. Porém uma coisa é certa: a paternidade do Doom não cabe a mais ninguém. A fim de ser justo com a história, houve bandas que consolidaram o estilo e fomentaram seu crescimento.

Músicas como Electric Funeral, Lord Of This World, Into The Void, Under The Sun, Snowblind, Sabbath Bloody Sabbath, entre outras, são provas vivas do que afirmo anteriormente. Em outras palavras, a ameaça e o medo provocaram o nascimento do estilo mais sombrio do Metal, mesmo que muitos atribuam esse adjetivo, equivocadamente, ao Black Metal. No que diz respeito às trevas e ao macabro, o Doom é supremo.

Pentagram, o protótipo

Bobby Liebling – a mente que manteve o Doom Metal, além do Black Sabbath, na década de 70

Ao mesmo tempo em que o Black Sabbath brilhava no Reino Unido, Bobby Liebling fundava, em Alexandria, Virgínia, o Pentagram.

Na verdade, não há ligação direta com o catolicismo, mas é o elo perdido que mantém o Sabbath vivo enquanto todo mundo surfava na onda Punk. Somente em 1985, eles finalmente lançam o seu debut, Relentless, conquistando seu merecido espaço dentro da história do subgênero, principalmente pela energia visceral — e até divertida — que Liebling emana nos palcos.

Os americanos do Trouble e a resposta católica

Eric Wagner – (R.I.P) – Acervo Web

Em 1979, em Chicago, nascia o Trouble, fundado pelos músicos Eric Wagner (vocal), Jeff Olson (bateria) e Rick Wartell (guitarra). Dentre eles, o vocalista teve o catolicismo presente em sua criação, tanto que as letras de seu álbum de estreia, Psalm 9, são literalmente o Salmo 9 da bíblia.

O próprio Wagner explica no encarte de 2006: “Eu fui criado católico, mas você tem que lembrar, no começo dos anos 80 todo metal era meio satânico, e eu não entrei nessa vibe”. Ou seja, não existe nada mais Metal do que fugir de uma moda ou tendência, seja ela qual for. As gerações mais novas não entendem isso, já que não presenciaram aquele momento.

Pouco tempo após deixar o Trouble, em 2008, Wagner formou o The Skull, banda que igualmente utilizava temáticas católicas.

Candlemass: a missa de vela e o hábito “franciscano” do vocalista Messiah Marcolin

Messiah Mercolin – o “frade” do Doom Metal

Em 1982, na cidade sueca de Estocolmo, a princípio como Nemesis, nascia o Candlemass. Somente em 1986 foi lançado o disco de estreia da banda, o clássico Epicus Doomicus Metallicus, gravado pelo vocalista Johan Längquist, que é o atual frontman do quinteto.

Assim que as gravações do álbum acabaram — nem chegou a ter turnê com ele — Längquist deixou o line-up e o lendário Messiah Marcolin assumiu o seu posto, lançando mais um clássico, Nightfall, já em 1987.

Nas apresentações, Marcolin era destaque, tanto por sua voz emblemática quanto por usar um hábito franciscano, comum nos sacerdotes católicos pertencentes à ordem fundada por São Francisco de Assis. Como sempre, a origem do Metal é controversa de alguma forma, pois a ordem franciscana nasceu justamente por discordar do materialismo do catolicismo ortodoxo.

Sorcerer, na sombra da cruz invertida e a estrela da manhã

Anders Engberg, vocalista do Sorcerer – Reprodução

Nascido em 1988, da mesma forma que o Candlemass, também na capital sueca, o Sorcerer encerrou suas atividades precocemente em 1992.

Somente depois de seu retorno às atividades em 2010 é que a história da banda começou a ganhar registro e relevância. Foram quatro excelentes full-lengths: In the Shadow of the Inverted Cross (2015), The Crowning of the Fire King (2017), Lamenting of the Innocent (2020) e Reign of the Reaper (2023), além de dois EPs, Black (2015) e Reverence (2021).

Um quinteto de instrumental absolutamente competente, de qualidade indiscutível, tendo, inegavelmente, um dos melhores cantores do subgênero em seu line-up, o senhor Anders Engberg.

As influências de Black Sabbath — principalmente nas eras Dio e Tony Martin — e Candlemass são explícitas. Mas em quais pontos o catolicismo pode ter citações aqui? O título do debut In the Shadow of the Inverted Cross, ou seja, Na Sombra da Cruz Invertida, pode, ao mesmo tempo, significar oposição ao cristianismo e/ou a crucificação de São Pedro.

O outro exemplo é a faixa de abertura do seu mais recente registro, Reign of the Reaper, chamada “Morning Star”, pois a “Estrela da Manhã” seria uma forma de se referir a Lúcifer. Grande parte dos espiritualistas acredita que Lúcifer nada mais é que uma criação da Igreja Católica Romana para controlar e dominar as pessoas pelo medo do inferno, como citei no início desse artigo.

Doomocracy: Unorthodox, passando o establishment a limpo, tanto no passado quanto no presente

Doomocracy Divulgação Metal Archives

O ano é 2011 e, na cidade grega de Heraclião, capital da Ilha de Creta, nasce o Doomocracy, com o propósito de oferecer aos fãs Epic Doom Metal de qualidade extrema.

Os dois primeiros discos, The End Is Written (2014) e Visions & Creatures of Imagination (2017), realmente agradam. Contudo, o magnum opus da banda ainda estava por vir.

Desde que o ouvi pela primeira vez até hoje, o conceitual Unorthodox sempre me causa arrepios. Não somente pela parte instrumental e vocal absolutamente perfeita, como também por seu conteúdo lírico fascinante.

O Establishment histórico tanto quanto o atual são tratados de maneira poética e profunda, combinando a atmosfera musical com a profundidade desses importantes temas.

Sobretudo, o Establishment nunca precisou ser sutil. Se antes era a política a ferro e fogo, hoje é linchamento digital.

Em outras palavras, o mecanismo é o mesmo: humilhação pública como exemplo. Atualmente, a cadeira de humilhação pública virou print no Twitter. Já o touro de bronze siciliano virou cancelamento com gosto de sangue, pois o sistema jamais pede perdão quando extrapola ou erra o alvo.

Conclusão: Establishment ontem e hoje

Através de Unorthodox, o Doomocracy mostrou que o Establishment era católico e gregoriano, nos corais de vozes e nos decretos, mas hoje esse mesmo poder pertence à elite política global, apesar de ainda existirem nações dominadas por religiões.

Concluindo, o Doom Metal, mais uma vez, dentro de seu propósito, deixa a desgraça do mundo às claras.

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