
Déhà – “Ave Maria II” (2021)
Naturmacht Productions
#FuneralDoomMetal, #DepresssiveFuneralDoomMetal, #DoomMetal
Para fãs de: Imber Luminis, Funeral Mourning, Abyssmal Sorrow, Nortt, Slow, Mizmor
Nota: 10
Déhà a.k.a. Olmo Lipani, é um compositor e multi-instrumentista belga conhecido não apenas por seus incontáveis projetos, parcerias e colaborações, mas também por sua imensa produtividade e elasticidade criativa. Suas manifestações artísticas e tentaculares se articulam pelos mais diversos ambientes — do Funeral Doom ao Raw Black Metal —, passando pelo Progressive Metal, Avant-garde, Atmospheric, Depressive, Post-Black Metal e até mesmo pelo Pop, quando o mesmo se aventura em covers inusitados, mas de extrema qualidade. Dentre seus mais notáveis trabalhos estão o Imber Luminis, o Slow e o Yhdarl, muito embora a lista seja bem mais extensa e muito vale tanto a pesquisa quanto a audição.
“Ave Maria II” (Naturmacht Productions) é seu décimo quarto lançamento apenas nesse ano, sob seu próprio nome, como vem atuando desde 2018. Tais registros se dividem entre singles, EPs, splits, compilações, colaborações e álbuns completos; e neles ouvimos o artista explorando diversas sonoridades, confeccionando texturas e extrapolando limites predeterminados de gêneros. A arte não possui fronteiras e o horizonte de um artesão musical é sempre muito mais amplo, abrangente e convidativo.
O álbum em si, é a continuação natural de um épico lançado por Déhà há 10 anos em seu outro —, e um dos mais antigos projetos, o Yhdarl. Nesse projeto o músico investia num híbrido de Drone, Doom e (variações) do Black Metal. Aliás, recomendo muito a audição tanto da primeira parte desse trabalho, “Ave Maria” como também dos demais lançamentos do mesmo e as diversas trilhas pelas quais, nosso prolifero Déhà percorre vez ou outra.
O espaço sonoro de “Ave Maria II” é amplo, extremamente amplo, mas muito bem preenchido por guitarras colossais, pelo peso esmagador das mesmas, por múltiplas consistências, elevações e calmarias. Por suavizações que vão deliberadamente se opondo aos momentos de pungente angústia e assim, criando uma magnífica tela baseada em tons densos e contrates. A interação entre a surreal interpretação da soprano Madicken De Vries e os vocais extremamente dolorosos e agonizantes de Déhà fazem parte indissociável dessa tela.
Cada um de seus pouco mais de 43 minutos foi sabiamente pensado, trabalhado e aproveitado ao máximo — tanto pelo levante de muralhas atmosféricas intransponíveis quanto pelos ritmos tiranicamente lentos que pontuam toda duração da obra. Claro que um único tema e com essas proporções assusta, mas não se engane, pois, apesar não ser de fácil absorvição e de calmo entendimento, ela é fascinante. Sua imensidão é hipnótica, seus múltiplos e bem elaborados movimentos (apesar de monótonos) são viscosos e ousados. Em resumo, temos aqui um disco que verdadeiramente desafia o ouvinte, suas percepções e suas emoções. “Ave Maria II” precisa ser ouvido com certa precaução, contemplado em cada um de seus ângulos, degustado várias e várias vezes até que possa ser enfim, compreendido e reverenciado.
Após a jornada e seus tantos clímaces ficamos a nos questionar: fomos abençoados por todas as graças e sutilezas da vida ou fatidicamente amaldiçoados por toda dor que ela oculta? Déhà novamente surpreende com um álbum de beleza lancinante, titânico e implacável! Se tiver coragem e neurônios (recém-inaugurados ou não) ouça! Aos amantes de Doom Metal em sua mais extrema e drástica metamorfose um verdadeiro néctar!
Fábio Miloch





