
Dokken – “Tooth and Nail” (1984)
Elektra | Rock Candy Records
#HardRock, #HeavyMetal
Para fãs de: Motley Crue, Quiet Riot, Ratt
Nota: 10
Nos anos 1980, o Dokken vivia uma situação semelhante à da Guerra Fria que dividiu o mundo nos blocos capitalista e socialista. O clima de ódio começou a imperar antes de o grupo embarcar em sua primeira turnê, na esteira do lançamento da bolacha de estreia, “Breaking the Chains”, nos Estados Unidos. A separação não rolou, talvez na esperança de que a grana, quando entrasse, colocasse um ponto final nos embates, principalmente entre o vocalista Don Dokken e o guitarrista George Lynch. Quando o produtor Tom Werman foi trazido a jogo, coube a ele não apenas conduzir a gravação do sucessor de “Breaking”, mas também acalmar os ânimos de Don e George para que a coisa fluísse da maneira mais indolor possível.
E se ódio e falta de entendimento eram o que fazia o Dokken, no fim das contas, funcionar, “Tooth and Nail” pode ser classificado como um disco furioso, que carrega em seu âmago tanto o clima de competição quanto o desejo incandescente de que o trabalho gerasse se não a paz definitiva, pelo menos, maior estabilidade financeira e serenidade. Não custou para o disco entrar no top 100 norte-americano. Apesar de fora do país os números não terem ultrapassado a casa do um milhão, a Elektra se deu por satisfeita. Tendo um Mötley Crüe para garantir o faturamento, quem não se daria?
Em “Tooth and Nail”, o que se ouve é o Dokken no momento mais metal de sua carreira, com George colocando em prática os ensinamentos de Eddie Van Halen e Don ainda buscando a melhor maneira de usar seu fiapo de voz. É diante dessa limitação que o backing vocal campeão de Jeff Pilson sobressai. E não nos esqueçamos de “Wild” Mick Brown, que justifica o apelido tocando bateria feito um selvagem — isso sem contar o fato de que o cara cheirava todas na época. Foram três músicas de trabalho: “Just Got Lucky”, “Into the Fire” e “Alone Again”. Todas tiveram videoclipes em boa rotatividade na MTV, que engatinhava rumo ao topo de ditadora da moda naquela década.
Com um approach mais pop do que o restante do álbum, “Just Got Lucky” dá continuidade à “Breaking the Chains” tanto na temática — o camarada que se fode na mão de uma mulher que não vale nada — quanto no caráter baixa-renda de seu clipe. Ainda sobre vídeos, o de “Into the Fire” está para o Dokken assim como o de “Looks That Kill” está para o Mötley, com direito a mulheres em roupas de couro, maquiagens pesadíssimas e alguma pirotecnia barata. Por fim, “Alone Again”, espécie de embrião das power ballads, torna público o talento de Pilson como letrista e abre caminho para participação ainda maior do baixista no processo criativo dos álbuns seguintes.
Mas não para por aí: a abertura com a faixa que dá nome ao álbum é o que de mais pesado o Dokken já gravou até hoje. A letra revoltosa assinada pelo bloco Lynch/Pilson/Brown ganha tom de réplica na voz de um Don desesperado. Correndo por fora, a lenta “When Heaven Comes Down” garantiu cadeira cativa no repertório de muitas das turnês seguintes, inclusive em algumas das mais recentes. A minha favorita, porém, é “Don’t Close Your Eyes”: riff mortífero em palhetada alternada, refrão que penetra nos ouvidos com doses de eco e letra que beira o tenebroso, fruto de rara parceria entre Don, Pilson e Lynch.
Já nos sulcos finais, um verso de “Turn on the Action” meio que resume os próximos capítulos: ao cantar “forever young but getting older”, Don não fazia ideia de que era questão de tempo até a idade/maturidade conduzir seu Dokken rumo a voos ainda mais altos (apesar de breves) e a si mesmo a aventurar-se como produtor de gente que acabaria fazendo frente ao reinado do grupo que levava o seu nome.
Marcelo Vieira





