Edu Falaschi – Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ (26/05/2019)

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Banda principal: Edu Falaschi
Local: Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ
Data: 26/05/2019
Produção: OnStage Agência

Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Gustavo Maiato

Parece que foi ontem que li a resenha do Daniel Dutra sobre o então novo álbum do Angra na finada Disconnected. Parece que foi ontem, mas já faz 15 anos que “Temple of Shadows” foi lançado. O passar do tempo — e a ele acrescido o fato de o grupo, mesmo após tantas mudanças na formação, nunca mais ter lançado algo do mesmo calibre — conferiu ao disco uma aura de título mítico do metal brasileiro. Galera na casa dos trinta, muito provavelmente, conheceu o Angra através dele ou de seu antecessor, “Rebirth” (2001), e tem como referência não Andre Matos, mas sim Edu Falaschi, como frontman da banda.

Por mais que a saída de Edu tenha se dado em termos nada amigáveis e todo o contato posterior do vocalista com os ex-colegas tenha sido pontuado por trocas de farpas ao vivo ou pela Internet, não se pode fazer vista grossa quanto à qualidade e à relevância do material fruto dessa parceria que durou mais de uma década. Nada mais justo, portanto, que celebrar o auge disso tudo: “Temple of Shadows”, a obra conceitual ambientada nas Cruzadas do século XI, na íntegra, contando não apenas com Edu, mas com outro de seus responsáveis no palco: o baterista Aquiles Priester.

Um diferencial, porém: além da banda — completada pelos guitarristas Roberto Barros e Diogo Mafra, pelo baixista Raphael Dafras e pelo tecladista Fábio Laguna —, o show “Temple of Shadows in Concert” que botou um Circo Voador praticamente lotado a baixo trouxe ainda um quarteto de cordas — oportunamente batizado “The Quartet of Shadows” —, o que possibilitou levar para o palco praticamente todas as orquestrações presentes no riquíssimo e elaborado álbum.

Com o relógio marcando pouco mais de oito da noite, o sistema de som da casa perguntou se o público toparia esperar mais alguns minutos para que os cerca de duzentos pagantes que ainda não haviam chegado pudessem chegar. O carioca fez sua solidariedade ser ouvida: “Não! Nem fodendo!”. Aí foi questão de segundos até as luzes se apagarem e “Deus Le Volt!” reunir combustível e comburente necessários para que “Spread Your Fire” iniciasse a incendiária reação em cadeia que só cessaria três músicas depois ao som do violão de doze cordas em “Wishing Well”. “Vocês são foda, Rio de Janeiro, nem quiseram esperar os caras chegarem”, brincou Edu. “Mas também, quem mandou ir ao estádio em dia de show de metal?!” Onde eu assino?

Se o espaço útil do palco já era quase nenhum por conta da estrutura a la Transformers da bateria de Aquiles (veja as fotos), quando Mike Orlando (Adrenaline Mob), Thiago Bianchi (Noturnall) e Juninho Carelli (se eu for listar todas as afiliações do cara aqui, fodeu) subiram ao palco para transformar “The Temple of Hate” num happy hour da firma, a impressão que se tinha era de que um metrô lotado seria mais acolhedor. Foi divertido de se ver e, dado o caráter masturbatório dos solos de guitarra, incrível de se ouvir.

Dois convidados locais entram em cena para fazer as vezes de Hansi Kürsch e Sabine Edelsbacher em “Winds of Destination” e “No Pain for the Dead”, mas coube a nós, o público, a parte de Milton Nascimento em “Late Redemption”, no que consistiu no momento de maior descarga emocional da noite. A canção derradeira de “Temple”, com sua letra de caráter universal que faz sentido mesmo se extraída do conceito do álbum, adquiriu dimensões transcendentais, realinhou shakras, lavou almas e recarregou as baterias para o desfecho épico que estava por vir.

Primeiro “Pegasus Fantasy”, em releitura acústica tocada sob pedidos insistentes da turma com DNA de otaku. Depois, “Verão”, d’As Quatro Estações de Vivaldi, com Barros esbanjando uma técnica digna dos Malmsteens da vida. “Live And Learn”, do Angra, antecipou dois cortes da carreira solo — “Streets of Florence” e “The Glory of the Sacred Truth”, um oportuno momento de desabafo —alfinetadas em tom conciliatório, por assim dizer — que incluiu linhas célebres como “Venera o diabo? Pra mim não tem papo” e pouquíssima cerimônia na hora de apresentar os músicos: “o maior baixista do Brasil”, “o maior baterista do Power Metal” etc.

Para um quase cinquentão que comeu o pão que o diabo amassou, Edu está cantando muito. E quanto eu digo muito, é MUITO MESMO. É ótimo vê-lo confiante, preciso na nota e, principalmente, feliz, como há tempos não se via, diante da certeza de estar apresentando um verdadeiro espetáculo para aqueles que nunca deixaram de acreditar na sua reviravolta. A saideira veio com a dobradinha “Rebirth” e “Nova Era”. Que o esplendor de um novo dia continue a brilhar na carreira — e na vida — de Edu. Espero de verdade vê-lo em breve.

Obrigado à OnStage Agência pelo credenciamento e pela parceria.

Setlist:

Deus Le Volt! / Spread Your Fire
Angels and Demons
Waiting Silence
Wishing Well
The Temple of Hate
The Shadow Hunter
No Pain for the Dead
Winds of Destination
Sprouts of Time
Morning Star
Late Redemption
Bis:
Verão
Live and Learn
Pegasus Fantasy
Streets of Florence
The Glory of the Sacred Truth
Rebirth
In Excelsis / Nova Era
Gate XIII

 

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