Entrevista com a banda Higher Ground

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ENTREVISTA COM A BANDA HIGHER GROUND

A música traz em si o poder de curar, remediar e aliviar. Talvez seja essa a sua razão, o que a torna a mais completa das artes; a ciência das melodias e a poesia das harmonias alinhadas num mesmo ritmo e cadência. Ligamos músicas a pessoas, a períodos e a momentos importantes para amar, chorar, refletir, sonhar e dançar – sim, nosso organismo e vida estão numa constante dança na qual mudam-se os passos e a música, nem sempre conforme a coreografia do tempo e quase invariavelmente ao sabor das horas. Formado por Carl Lee D’Angelo (guitarra e voz), Diego Rolis (bateria e voz) e Gu Sena (baixo e voz), o Higher Ground lançou em pleno 2020 uma pequena amostra de suas pretensões musicais – na verdade, uma volta a bordo de uma máquina do tempo que te leva direto para o alvorecer dos anos 70: feeling, magia, groove, funk, rock ‘n’ roll e alto astral. É por essa razão que conversamos com o trio sobre planos futuros, novos trabalhos, influências e a indústria fonográfica. Som na caixa e boa leitura!

Por: William Ribas
Diagramação: Johnny Z.
Fotos gentilmente cedidas pela banda

Metal Na Lata: Primeiramente, eu tenho que lhes dar os parabéns pelo trabalho de vocês. “The EP” é incrível. Botei para tocar e foi impossível não colocar no volume máximo e, quando percebi, minha filha de quatro anos começou a dançar e se divertir. Acho que esse é o grande proposito do Higher Ground: trazer algum tipo de emoção. Estou certo?

Carl: Gostaria de começar agradecendo pela oportunidade e pelos elogios. Nós fazemos exatamente aquilo que nossa alma nos move a fazer, é tudo de verdade! E nossa alma gosta de balançar o esqueleto (risos). Acredito que no final a música se resume a isso: algo que possa mexer conosco por inteiro, que nos transporte para dentro do som e faça isso transparecer em nós mesmos. Tem maneira melhor de transparecer isso se não dançando? Desconheço! (risos)

 

Metal Na Lata: Como surgiu a banda?

Rolis: Já tocávamos juntos num antigo projeto chamado Lunaticuz, cuja única diferença na formação era o vocalista, nosso parceiro Marcos Oliveira, o Marquinhos, que também tocava violão. Ele estava morando em Munhoz (MG), muito longe de nós, e assim foi ficando cada vez mais difícil de estarmos juntos. Por conta disso, nós três estávamos a todo vapor e nos encontrávamos uma ou mais vezes por semana para fazer um som. Até que um dia estávamos para fazer um show em Toledo (MG) e faltando duas horas para o show, recebemos a notícia que o Marquinhos não ia conseguir tocar conosco por conta de problemas pessoais, então teríamos de nos virar para fazer essa apresentação como um trio. Em nenhum momento pensamos em não tocar; montamos assim mesmo um repertório ali na hora, meio que improvisado (risos). Fizemos o show; metade o Carl cantou e a outra metade eu cantei. Deu tão certo que voltamos lá para tocar todos os anos desde então! (risos). Foi aí que resolvemos que tínhamos que ter um projeto nosso, mas faltava um nome. De primeira veio o nome Quinta trio, por que as quintas-feiras eram sagradas para nos encontrarmos para tocar, mas convenhamos, o nome era horrível, né?! (risos). Finalmente, dentre várias ideias, chegamos a Higher Ground, nome do qual todos nós gostamos e achamos que seria o ideal para o som que estávamos fazendo e por todo significado por trás dele. Uma curiosidade, depois de um bom tempo caiu a ficha que “Higher Ground”, do Stevie Wonder, foi a primeira música que o Carl e eu tocamos juntos ao vivo. Nunca poderíamos imaginar que tocaríamos juntos em uma banda com esse nome anos depois.

 

Metal Na Lata: Revivals estão na moda hoje em dia. Esse resgaste trazendo a black music misturada com o rock ‘n’ roll dos anos 70, foi algo que vocês já tinham em mente quando se juntaram para criar o Higher Ground?

Carl: Não. Na verdade, a chegada a esse som que fazemos foi bem natural, algo que veio fluindo e se tornou o que fazemos hoje. Parece que sempre esteve ali, só faltava captar da forma certa.

Gu: Nós inclusive éramos ligeiramente mais pesados na sonoridade quando começamos a tocar juntos, mas sentimos que poderíamos nos expressar melhor tirando um pouco a mão, sabe? Menos é mais… as composições foram vindo numa linha mais soul, dando mais espaço para os metais e para a cadência mais funkeada; os sorrisos iam surgindo a cada levada que arranjávamos juntos, cada vez mais aprofundados nessa praia, que sempre esteve no nosso sangue, essa coisa black de que tanto gostamos e que defendemos com unhas e dentes.

 

Metal Na Lata: O “The EP” traz somente quatro músicas, o que, na minha visão, é um verdadeiro pecado tamanha a qualidade apresentada nele, ficando aquele gosto de quero mais. Como está sendo a repercussão desse primeiro lançamento?

Carl: O lançamento do “The EP” ocorreu em 10 de janeiro nas principais plataformas digitais e junto fizemos um show que foi uma grande festa, casa lotada, uma baita recepção. Tudo que se deu depois se deve ao lançamento desse material, que nos abriu muitas portas e pôde mostrar um pouco do que é o Higher Ground e do que faremos.

Rolis: Foi bem legal e muito bem-aceito. O legal dessa mistura é que muitas pessoas que nem mesmo costumam ouvir rock nos ouvem e têm uma surpresa. Temos uma atitude rock ‘n’ roll, mas estamos mais na linha do soul. É fácil dançar e curtir o som, basta deixar rolar. Estamos recebendo muitos feedbacks positivos, e todo mundo já está no aguardo de mais material.

Gu: Fechamos muitas parcerias e montamos uma equipe bem legal de trabalho. Todos estão mais empenhados do que nunca. O EP e sua repercussão positiva deram um ânimo ainda maior para toda a galera. É um sinal que estamos no caminho certo.

Carl: Portanto, esse gostinho de quero mais é de propósito (risos).

 

Metal Na Lata: A versão física do “The EP” vem em uma bela embalagem imitando um vinil. Nos dias de atuais com o streaming em alta, o artista tem que caprichar e se reinventar para lançar um produto que dê vontade de comprar. Você acha que os downloads ilegais e, na sequência, o streaming, que mataram a dedicação que os fãs tinham com as bandas?

Carl: Sinceramente, não é esse preto no branco. O que matou a aquisição de material físico foi a facilidade de se conseguir o mesmo de forma digital aliado a falta de capricho e de investimento de muitos grupos, e consequentemente das gravadoras, com seus materiais. Tudo foi ficando cada vez mais simples, a magia foi se perdendo ao longo do caminho. Por que alguém compraria um álbum físico com um encarte de uma página com uma foto qualquer da banda e sem as letras das músicas, se na internet estaria disponível, muitas vezes por uma pequena porcentagem do preço? A comodidade levou a isso, tornando mais fácil lançar algo virtual. Então, eu acho que essa é uma culpa dividida. Hoje vivemos o retrato dessa bola de neve. Os artistas não se interessam mais em lançar material físico caprichado porque acham que a galera não vai se interessar e, assim, ele e a gravadora não vão recuperar o dinheiro investido no lançamento daquele disco em questão. Acreditamos que não seja esse o caminho. Pode haver um investimento maior em discos e encartes que chamarão atenção das pessoas e, assim, gerar uma segunda onda de consumidores daquele material, entende? Andar na contramão do dito mercado… pode até ser uma grande loucura, mas devemos jogar nas onze, surpreendendo o público. Sei que é difícil, sendo muito mais cômodo arrumar um culpado para o fracasso de vendas desse ou daquele artista ou disco. Como eu disse, nunca há um culpado somente; é uma série de fatores em que tanto a indústria como os grupos têm suas parcelas de culpa, assim como no final da pirâmide os consumidores que sempre irão comprar o que mais lhe agradar e que tenha algum significado, que faça sentido ter.

 

Metal Na Lata: Músicas como “Let’s Keep Groovin’”, “Gimme All The Lovin’” e “Get Up And Funk” são um convite para dançar, mesmo com um lado rock. Já “Do Me Right” é mais carregada na emoção, mais intimista. É difícil para um compositor abrir sua mente, se desprender e apenas sentir o que cada música pede?

Gu: Nós geralmente não sentamos para compor uma canção do zero. Na maioria das vezes há uma ideia no ar e vamos moldando-a até virar um som. Vamos sentindo a musica chegar sabe? Acho que é uma doideira nossa, parece que a música já existe e nós só a interpretamos à nossa maneira. Tem dado certo (risos).

Carl: Várias vezes já cheguei com uma ideia sem nem mostrar aos caras antes. Quando eles tocam em cima, era exatamente o que eu havia imaginado. Nos entreolhamos e sabíamos que é aquilo que deveria ser. Está pronto o som, é isso. Nossas mentes estão abertas, sempre.

 

Metal Na Lata: Outro ponto que chama bastante atenção é o trabalho vocal. Temos lindas linhas melódicas, partes “rasgadas”, mas, principalmente, o que explode são os coros. É como fechar os olhos e se imaginar ouvindo os corais gospels americanos. Como foi o trabalho especifico para as vozes no EP?

Carl: Na banda temos, além do meu vocal, o privilégio de ter muitos cantores natos como o Gu e o Pelegrino, além da backing vocal Galena, que dispensa qualquer comentário. Isso não poderia passar despercebido, então logo no começo já começamos a trabalhar bem essas sobreposições e corais como todos os grandes grupos faziam anteriormente. A maioria das grandes bandas da black music nasceu de grupos vocais e dentro de igrejas batistas. É natural que tenhamos essas influências e referências conosco.

Gu: Tivemos a sorte de descobrir que muitos na banda cantam, então enchemos o saco para que fosse assim (risos). Foi difícil, todas essas linhas não são moleza de se executar ou compor, mas demos uma atenção muito especial às vozes; sabíamos que se fosse algo bem-feito o público ia curtir e ensaiamos muito para ao vivo fazermos ainda melhor do que em estúdio. Cantamos umas coisas a capella também, e têm ficado bem legal.

 

Metal Na Lata: Tive a oportunidade de ouvir duas músicas novas: “Kings Of Groove” e “Got To Be My Love”. Sei que ainda não são versões definitivas, mas me deixaram bastante otimista. Como estão os trabalhos para o disco completo?

Carl: Todos os sons já estão prontos. São músicas que já estamos tocando há um tempo e terão agora o espaço num disco completo. Quem acompanhou os shows já tem uma noção do que vem por aí.

Gu: Só estamos finalizando alguns ajustes, aguardando diminuir o risco dessa pandemia, por isso temos de fazer tudo com calma e respeitando as normas da OMS. Assim que tivermos o sinal verde, entraremos de vez em estúdio. Já adianto que será algo bem diferente das coisas que têm sido lançadas nos últimos 20 ou 30 anos por uma banda brasileira.

 

Metal Na Lata: O que o futuro pode esperar do Higher Ground?

Carl: Música tocada com a alma, a nossa verdade cantada, sempre, nada além disso.

Rolis: Grooveira braba, com certeza!

 

 

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista, pessoal. O espaço final é de vocês.

Carl: Gostaríamos de agradecer imensamente mais uma vez pelo espaço dado a nós e dizer a todos que agora é hora de ficarem em casa, de se cuidarem, de mostrar humanidade e solidariedade que em breve curtiremos muito groove juntos! Queremos muito estar nos palcos, porém mais do que tudo queremos que todos estejam a salvo para que possamos curtir muito juntos novamente! Vem muita novidade aí. Um grande abraço a todos e Let’s Keep Groovin’!

 

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