Entrevista com Diego Pascuci e Matheus Barreiros (Hellgarden)

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Há mais de trinta anos existem aqueles que insistem em achar que metal de qualidade só é feito no exterior, e para esses nós só podemos sentir a mais profunda pena ou desprezo, vai de cada um. O metal nacional há mais de três décadas vem crescendo exponencialmente não só em nosso território, como também bem elogiado por todos os cantos do mundo. Uma das grandes promessas nessa emergente safra de revelações se chama HellgardeN. Vindos de Botucatu, interior de São Paulo, Diego Pascuci (vocal), Caick Gabriel (guitarra), Guilherme Biondo (baixo) e Matheus Barreiros (bateria) não só provam tudo que foi dito anteriormente como cala a boca de todos aqueles ainda pensam de forma retrógrada. Com seu riquíssimo Thrash/Groove Metal e a enorme qualidade de seu álbum de estreia, “Making Noise, Living Fast”, conseguiram assinar com a gravadora americana Brutal Records, que está fazendo uma enorme distribuição em âmbito mundial e, por conta disso, vêm conseguindo excelentes críticas da imprensa e fãs ao redor do globo. Conversamos com Diego Pascuci e Matheus Barreiros à respeito ainda da curta (mas muito promissora) carreira do HellgardeN, atualidades e tudo a respeito de seu trabalho de estreia. Confira!

Por William Ribas
Fotos por Ste de Carvalho e Thiago Victal

Metal Na Lata: Primeiramente, parabéns pelo excelente álbum de estreia. “Making Noise, Living Fast” é incrível! Como surgiu a HellgardeN e também gostaria de saber o significado por traz da escolha do nome da banda.

Matheus Barreiros: Bom, o Hellgarden surgiu em Botucatu em 2015, mas dá para falar que começou lá atrás quando eu e o Caíck tocávamos juntos desde a época de escola, com isso tivemos algumas bandas na cidade. O Diego também tinha banda e nos conhecíamos de festivais pela cidade. Houve um momento que precisávamos de um vocalista ele ficou sabendo disso, entrando em contado. Fizemos os primeiros ensaios, deu certo e a química bateu. Depois de um tempo veio o Guilherme, conhecemos ele num bar aqui mesmo em Botucatu, sabíamos que ele tocava baixo muito bem e como estávamos precisando de alguém para o posto na época o chamamos para o posto. Vieram os ensaios, o santo bateu e deu tudo certo (risos).

Diego Pascuci: Selecionamos vários nomes, fizemos uma votação entre nós, e HellgardeN foi o que achamos mais forte. Não tem nenhum significado mais profundo.

Metal Na Lata: E mesmo com uma história recente, vocês estão se destacando no cenário nacional. Muito se fala que seus shows são pura energia e adrenalina. Desde o momento que se uniram tinham isso em mente?

Matheus Barreiros: Com certeza, as músicas são feitas nessa pegada do ‘ao vivo’. Nós compusemos sempre muito em ensaio, com todos juntos e queríamos trazer, além de boas músicas, uma experiência única para quem está assistindo juntamente com nossa presença de palco que é bem forte e cheia de adrenalina.

Diego Pascuci: Tudo vem bem natural da gente mesmo. Pela nossa música ser bem enérgica, ainda tem a adrenalina de subir no palco, de estarmos fazendo nosso show, o que acaba contribuindo para nossas performances.

Metal Na Lata: Influências de bandas Thrash Metal nos anos 90, daquelas que começaram a despontar usando o groove como carro chefe, por exemplo o Pantera, são muito evidentes no som de vocês. Vocês quiserem resgatar aquela sonoridade da época ou foi algo natural que saiu desde o primeiro ensaio?

Matheus Barreiros: Quando se fala de influência na hora de compor alguma coisa é natural que soe um pouco dessas bandas dos anos 90, pois é algo que a gente carrega. O Pantera é uma delas, mas posso citar Black Sabbath, Lamb of God, Exhorder, até o Led Zeppelin. Sepultura não posso deixar de citar, é explicito quando você tem uma banda de metal no Brasil, mas tudo aparece de uma forma natural sem forçar nada quando começamos a compor.

Metal Na Lata: Percebe-se, também, algumas inserções de Sludge Metal na linha Down e Crowbar. Como foi uni-las em algo mais rápido e brutal, sabendo que esse estilo evidencia mais a cadência nas músicas?

Matheus Barreiros: Essa parte vem bastante do Black Sabbath. Nós gostamos de groove, sentimos que tem um peso a mais abaixar um pouco o bpm e isso acaba dando um resultado interessante na música, mas também adoramos coisas rápidas. O melhor é unir esses dois mundos numa pegada mais nossa mesmo (risos).

Diego Pascuci: Como o Matheus disse, sempre gostamos muito do Black Sabbath. Ouvimos bastante Stoner Metal, pois é algo que todos da banda gostam bastante e acaba sendo bem natural usarmos essas influencias mesmo que cada um de nós tenhamos nossas bandas preferidas. Acaba que em algum momento coincide (risos).

Metal Na Lata: Se vocês fossem apresentar a banda a algum potencial novo fã, como classificariam o som de vocês e como tentariam conquistá-lo?

Matheus Barreiros: Bem, falaria que é um som que vai te levar para outras épocas, onde as bandas realmente queriam mostrar suas atitudes, mas com um ar mais atual e que nenhum minuto ouvindo Hellgarden seria um desperdício. Não haveria arrependimento (risos).

Diego Pascuci: Temos um som totalmente visceral e agressivo. Um Heavy Metal com várias influencias do Thrash Metal, Punk, Groove Metal, um som de verdade sem muitas firulas.

Metal Na Lata: O problema da Covid-19 atingiu todos em cheio. Os shows provavelmente devem voltar a rolar, sendo otimista, depois de junho/julho. Por conta disso, vocês farão um live show de lançamento do disco dia 25 de abril, sendo uma das primeiras bandas de metal a realmente se juntar num estúdio para isso. Como será essa “apresentação” e a logística?

Matheus Barreiros: Nós todos moramos perto um do outro aqui em Botucatu e isso é algo que ajuda bastante. O estúdio que vamos fazer essa apresentação, o General Music, também é perto da minha casa, o que acaba facilitando para levar os instrumentos e em toda  a logística. Estamos seguindo as recomendações do isolamento social pois iremos contar com uma equipe bem reduzida, somente a banda, Thiago Deleo (proprietário do estúdio e operador de som) e o Thiago Vital (câmeras). Então graças à ajuda desses dois amigos é que será possível fazer essa transmissão.

Diego Pascuci: Tocaremos as 8 faixas do nosso álbum fazendo uma transmissão simultânea pelo nosso Facebook e YouTube. Mesmo que sem público para nós terá o mesmo sentimento. Será pesado e cheio de adrenalina com a gente dando tudo de si.

Metal Na Lata: Vocês chegaram a pensar em adiar o lançamento do álbum? E como fica o lado promocional, afinal as redes sociais ajudam e aproximam, mas é ao vivo que se ganha fãs.

Matheus Barreiros: Com certeza, é ao vivo que se ganha fãs. Por isso que estamos tentando fazer essa Live Show do dia 25, para mostrar que esse é o forte da banda. A nossa presença de palco é o grande ponto forte na minha opinião. Sobre o adiamento do álbum, isso não passou pela nossa cabeça. Já tínhamos certo que ia ser dia 10 de abril, sem chance de voltarmos atrás. Como lançamos pela Brutal Records, nós até os questionamos se eles garantiriam o lançamento na data prevista, o que aconteceu. Realmente as redes sociais são aonde conseguimos nos comunicar com o nosso público, aliás, temos a missão de conquistar mais pessoas, ter novos fãs e nesse momento difícil as ferramentas digitais são nossas principais aliadas.

Diego Pascuci: Nós achamos que com a nossa live do próximo dia 25, mostraremos o que normalmente fazemos em cima do palco, batendo cabeça na mesma adrenalina de sempre. Não importa se teremos 2 pessoas assistindo ou 2 milhões, pois estaremos dando o nosso sangue e isso pode ser um diferencial para trazer novos fãs para a banda. Além que quem mora mais longe e gosta do nosso som, ou quer conhecer uma banda nova, as redes sociais dão essa oportunidade do nosso som chegar até ela.

Metal Na Lata: Antes mesmo do lançamento do álbum, quem acompanha o trabalho de vocês nas redes sociais pode ver que vocês já vinham promovendo bastante o nome da banda, pois hoje em dia não basta gravar um disco e esperar cair do céu alguma chance. Qual é o papel de cada integrante na divulgação atrás dos bastidores e da equipe por trás da mesma?

Matheus Barreiros: Cada um na banda exerce várias funções. Eu, por exemplo, fico encarregado de fazer as artes, planejamentos de postagens. Tudo é discutido em conjunto, avaliamos o que realmente vale a pena ser postado, se uma imagem vai ter impacto ou não, tudo é discutido democraticamente. O Diego fica na parte de shows e agendas, o Caíck fica com e-mails, responder o pessoal e o Guilherme faz as atualizações nas nossas redes sociais, enfim, cada um tem uma função que é sempre muito importante, pois cada um é bastante comprometido e caso não fosse assim não teríamos desenvolvido esse campo.

Diego Pascuci: O nosso papel é se doar 100% para a banda. Tudo que fazemos há uma divisão entre nós 4, mas sempre respeitando e entrando num consenso do que é melhor para o Hellgarden.

Metal Na Lata: Vamos falar do disco de estreia. “Making Noise, Living Fast” saiu há alguns dias e a resposta pelo que venho acompanhando está bastante positiva, seja da mídia ou público. O trabalho soa bastante coeso, algo que o tempo e a estrada levam toda a banda ter. Como vocês conseguiram isso em tão pouco tempo e como foi o trabalho de composição para o álbum?

Matheus Barreiros: Como tinha falado, as músicas sempre surgem de ensaios em nosso caso. Inclusive, ensaiar bastante é algo que temos bastante foco. Para o álbum focamos uma música por vez, não tivemos aquela situação de ter “40 músicas” e ter que descartar várias. Fizemos de maneira selecionada, pensada, cada composição foi muito bem trabalhada, cada parte, para que conseguissemos arrematar as 8 faixas que iriam compor o “Making Noise, Living Fast”.

Diego Pascuci: Estamos tocando juntos desde 2015, o Matheus e o Caíque tocam desde os 12 anos de idade juntos. Então, levou um certo tempo até a chegada do lançamento do álbum. Antes de entrar em estúdio, não tínhamos nenhuma demo, todo o processo de composição aconteceu ali na hora das gravações, tocando todo mundo juntos fazendo jams e improvisos.

Metal Na Lata: O interessante é sentir um peso e uma densidade ímpar, algo que mescla o Thrash Metal, Groove Metal e até um Stoner/Sludge em uma menor escala como citado anteriormente, mas que jogado num “liquidificador” transforma a classificação do HellgardeN em certo ponto “indefinido”. As faixas “Spit on Hypocrisy”, “Learned to Play Dirty”, “Brainwash” e “Believe in Yourself or Die”, são exemplos do que disse acima. No momento das gravações, vocês já conseguiam notar que tinham em mãos um excelente disco que facilmente agradaria fãs da velha escola e também os mais atuais?

Matheus Barreiros: Acho que no momento que estávamos compondo enxergávamos um certo potencial nas músicas. Por exemplo, quando encaixávamos algum groove, alguma base no solo, um vocal em alguma estrofe, sentíamos aquilo na hora e identificávamos como algo positivo que faria a música crescer.

Diego Pascuci: A ideia dentro do álbum foi justamente englobar todas as influências da banda. Cada música que o ouvinte for ouvir terá um elemento mais aparente no som. Um mostrando algo mais Groove Metal, outra mais Thrash Metal. Nós misturamos tudo mesmo no liquidificador e resolvemos ver que bicho ia dar nisso no disco (risos).

Metal Na Lata: “Fuck the Consequences” me lembrou muito “Fucking Hostile”, do Pantera. Vocês acham que foi uma forma de homenagem ou essa influência realmente esta encrustada em suas veias, saindo de forma totalmente orgânica e natural?

Matheus Barreiros: Foi uma forma orgânica e natural. Pois não foi nossa intenção apesar que gostamos bastante do Pantera, mas não foi intencional fazer uma música em homenagem ou algo do tipo. Saiu naturalmente.

Diego Pascuci: “Fuck the Consequences” começa com ‘one, two, three, four’, mas isso vem desde o Punk Rock. Existe uma música do Slipknot que se chama “Get This” e nela fazem uma zoeira dentro de estúdio também. Sinceramente, eu acho que a estrutura não se parece com a “Fucking Hostile”. A nossa composição é mais punk/hardcore, algo bem natural, principalmente para mim que tenho bastante influencia desse estilo.

Metal Na Lata: As 8 faixas do disco literalmente passam a sensação de estarmos num mosh pit brutal. Poderia contar-nos um pouco sobre o conceito das letras de “Making Noise, Living Fast”, e em especial a de “Possessed by Noise”?

Matheus Barreiros: Quem poderia falar melhor é o Diego (risos).

Diego Pascuci: A “Making Noise, Living Fast”, desde que nos reunimos em 2015 tomávamos muito ‘goró barato’ nas praças (risos). Eu tinha um fusca azul e nós saíamos de bar em bar tomando cerveja, curtindo metal dentro do carro e ela simboliza a união da banda, tanto que demos o nome para o álbum. “Possessed by Noise” traz essa coisa de gostarmos de ouvir barulho. Aquela sensação da banda estar no palco, estar batendo cabeça junto. E ela tem uma baita conexão entre fã e banda.

Metal Na Lata: Como aconteceu o convite para o disco sair pela gravadora americana Brutal Records? Vocês tiveram conversas com outras gravadoras para a distribuição do álbum em diversas partes do mundo?

Matheus Barreiros: Nós já estávamos com o disco pronto e pensamos que o apoio de uma gravadora, ou de um selo, ajudaria a impulsionar esse disco para mais pessoas, chegando mais longe do que se lançássemos de forma independente. Começamos a prospectar várias gravadoras, fomos atrás, trocamos vários e-mails e mandamos bastante material físico. Depois de um tempo, chegaram as respostas de gravadoras de todo mundo. Tivemos algumas boas propostas, mas a da Brutal Records foi a que mais agradou, que achamos viável, e por ser o nosso primeiro álbum eles foram super solícitos.

Diego Pascuci: O legal é que eles irão distribuir mundialmente o álbum e com isso esperamos que seja só o começo.

Metal Na Lata: Nessa época que o streaming e a baixa venda de material físico na música vêm assombrando bandas especificamente de Rock e Metal, o que uma banda com pouco tempo de carreira como vocês vislumbra para o futuro no tocante a crescimento?

Matheus Barreiros: Como estamos vivendo esse momento de quarentena, muita coisa será uma mudança permanente, ainda mais na música com esse “boom” das lives que será uma frente nova para as bandas poderem trabalhar. Eu acho que seria interessante, nós como artistas, termos que nos reinventar, buscar novas alternativas e sermos ousados. Temos que trabalhar da melhor forma possível e tentar inovar não só na música, mas também em outros aspectos que envolvem todo o mercado musical.

Diego Pascuci: Eu acho que o streaming e a venda do material físico estão muito grandes. Inclusive vi uma entrevista do Krisiun onde eles falam que na Europa eles vendem muito LPs. Tem o Code Orange que ficou em segundo lugar em lançamentos de vinil. O streaming, se você pegar o Slipknot, Sepultura e outras bandas grandes, eles têm bastantes seguidores no Spotify. Acredito que Rock/Metal nunca vão morrer! Terão seus altos e baixos como tudo na vida. O HellgardeN, com seus poucos anos de criação, tocará em todos os shows e festivais possíveis, onde pudermos fincar o nome da banda, seja no digital, seja no ao vivo, estaremos lá!

Metal Na Lata: Para finalizar, o lançamento do primeiro trabalho sempre será o momento especial na carreira de um artista. Recebendo tantos elogios, aumenta a pressão para a banda a partir de agora? Vocês já pensam em um novo álbum, já que a banda vem tocando essas músicas de “Making Noise, Living Fast” já há um bom tempo antes de seu lançamento? Quais os próximos passos da banda?

Matheus Barreiros: Com certeza gera uma certa responsabilidade, pois a partir do momento que estamos tendo essa resposta positiva, nós temos que colocar isso a prova e mostrar que isso condiz com o nosso trabalho. Estamos com mais vontade de poder sair, tocar, compor e gravar coisas novas, tudo faz parte de um processo cíclico da banda. Esperamos fazer shows em todos os lugares possíveis assim que normalizar tudo e colocar o nome do HellgardeN no mapa.

Diego Pascuci: Assim que passar esse momento complicado temos a vontade de fazer um turnê por toda a América Latina, Europa e América do Norte mostrando para a galera o álbum. Logicamente, a pressão da banda aumenta após tantos elogios, mas iremos sempre tocar o que gostamos e “Making Noise, Living Fast” é só o começo.

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, o espaço final é todo de vocês.

Matheus Barreiros: Valeu pela entrevista, espero que gostem de nosso trabalho e mantenham-se a salvos! Nos vemos em breve na estrada após todo esse caos que estamos vivendo! Enquanto isso, curtam nossas mídias sociais e se possível participem de nosso sorteio no apoia-se!

Diego Pascuci: Isso ai pessoal, se cuidem, tudo de bom para vocês e muito obrigado pela entrevista! Curtam e comprem nosso álbum (risos).

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