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Entrevista com Fabiano Negri

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ENTREVISTA COM FABIANO NEGRI

De 2018 até hoje, tive o prazer de resenhar quatro álbuns do grande Fabiano Negri. Eu já o conhecia graças ao Rei Lagarto, mas somente dois anos atrás, quando resenhei “The Lonely Ones” (leia a resenha aqui) foi que me aprofundei na sua obra solo, que, felizmente, está disponível quase que na íntegra nas plataformas digitais. Artista completo, Negri está lançando o que promete ser seu último trabalho, o autobiográfico e conceitual “The Fool’s Path” (leia a resenha aqui). O Metal Na Lata conversou com o cara para saber um pouco mais sobre o disco e sobre a pausa por tempo indeterminado que ele dará em sua carreira. Acompanhe!

Por Marcelo Vieira
Fotos: Divulgação

Metal Na Lata: “The Fool’s Path” é um álbum conceitual. Mas é o tipo de álbum conceitual no qual o conceito veio antes das músicas ou o contrário?

Fabiano Negri: O conceito do álbum, que é explicar a minha relação com a classe artística e com o mundo artístico independente, veio antes das músicas. Só que mesmo sendo um álbum conceitual, eu tentei fazer com que cada música também pudesse funcionar sozinha. É um álbum bastante crítico. Cada música faz crítica a alguma coisa que eu acho que esteja errada ou algo que tenha dado errado.

 

Metal Na Lata: “The Fool’s Path” vem na sequência de outro trabalho bastante pessoal seu, só que com uma diferença fundamental: “The Lonely Ones” (2018) é cem por cento voz e violão e você gravou tudo em sete horas. “The Fool’s Path”, obviamente, levou muito mais tempo. Quanto tempo?

Fabiano Negri: Oitenta por cento do disco foi composto logo após o “Maybe We’ll Have a Good Time for the Last Time” (2015), que era para ter sido o meu último disco. Eu já estava muito desanimado naquela época com a recepção dos meus trabalhos, mas ele teve uma aceitação extraordinária. Recebi críticas muito boas e o disco inclusive entrou em várias listas de melhores do ano naquele ano, o que me surpreendeu. Logo após isso, eu compus o “The Fool’s Path”, e ele ficou engavetado, pois eu sabia que no momento certo eu o soltaria para ser o meu último disco. Quando resolvi gravar para valer, o processo demorou uns dois meses.

 

Metal Na Lata: A capa de “The Fool’s Path” traz um sujeito sozinho do topo da montanha, uma coisa até meio Jack Kerouac. É como se o personagem estivesse contentado de ter atingido aquele patamar com a dura certeza de que aquilo é o mais alto que ele pode chegar, o mais longe que a própria arte pode levá-lo. Independentemente da minha divagação, qual é a história por trás da capa do disco?

Fabiano Negri: É exatamente isso. O Emerson Penerari, que fez a capa, e eu discutimos algumas formas de trabalhar, e inspirado pela música “The Fool’s Path”, que fala sobre o tolo, que no caso é tanto o artista quanto a carta de tarô, ele decidiu usar o tolo do tarô fazendo alusão a tudo que a gente havia conversado sobre a minha carreira. E ele foi muito feliz.

 

Metal Na Lata: Que álbuns conceituais serviram de inspiração para você no processo?

Fabiano Negri: Primeiramente, o “Tommy”, do The Who, brilhante; o “Quadrophenia”, do The Who, mais que brilhante; “Welcome to My Nightmare”, do Alice Cooper, um disco que tem um arranjo geral que supera qualquer expectativa que você tivesse dentro do rock, pois vai muito além do rock; e o “Operation: Mindcrime”, do Queensrÿche.

 

Metal Na Lata: Interessante você citar o “Welcome to My Nightmare”, já que o primeiro single, “Voiceless / The Wicked”, me lembrou Alice Cooper das antigas. “Halo of Flies” na introdução e “Black Juju” nos versos.

Fabiano Negri: Eu sou um grande fã do Alice Cooper Group e também ouço “Halo of Flies” no começo da “The Wicked”. O Alice Cooper Group tinha essa coisa de criar climas instrumentais para a mágica acontecer.

Metal Na Lata: É um rock teatral, né? Eu ouço discos como o “Welcome to My Nightmare” e consigo imaginar toda a encenação. E você conseguiu proporcionar isso no “The Fool’s Path”. A gente ouve e estabelece mentalmente o desenrolar da história.

Fabiano Negri: Pô, que bacana que você achou isso. Pensei nisso, na verdade. Sou formado em canto, sou cantor por natureza e meu instrumento principal é a voz, então nos meus discos eu sempre dei muito destaque para a minha voz. Já nesse disco eu dei muito espaço para o instrumental. Achei que o instrumental teria que contar a história das letras de alguma forma, que é o que faz um disco conceitual acontecer, então eu botei o pé no freio em relação à minha voz e prestei mais atenção na composição da parte instrumental.

 

Metal Na Lata: Por mais que “The Fool’s Path” seja um álbum conceitual baseado na sua trajetória artística, prestando atenção nas letras a gente consegue interpretar elas de várias maneiras conforme a nossa própria história pessoal. Essa conexão também foi pensada?

Fabiano Negri: Apesar de os seres humanos serem únicos, eles são muito parecidos. Então os problemas de aceitação que eu tenho, a vontade que eu tenho que as pessoas entendam o que eu faço da forma que eu faço e a frustração por não ter essa aceitação em algum momento são refletidos em qualquer outro ser humano. A busca geral do ser humano, embora em diferentes casos, status sociais e profissões é aceitação. Então, na verdade, esse disco é sobre não ter a aceitação que eu achava que merecia pelo meu trabalho. Pode parecer um negócio meio egocêntrico, mas o ser humano é baseado no ego. A expectativa nunca foi cumprida. Na verdade, é essa expectativa de aceitação que move o ser humano a fazer qualquer coisa. Então se a música funciona para mim, ela vai funcionar para outras pessoas que têm as mesmas expectativas de aceitação em relação ao que fazem.

 

Metal Na Lata: A letra de “The Wicked” fala sobre isso, né? O cara que tem o dom, mas leva tanta porrada que passa a achar esse dom uma maldição.

Fabiano Negri: Exatamente. Chega um momento em que você se pergunta: “Por que eu estou batendo a cabeça com isso, se eu posso simplesmente pensar em ganhar dinheiro?”, “Por que eu passo meses compondo e gravando, se a pessoa não vai dar a atenção que eu acho que ela deva dar para entender o que eu fiz?” Vejo isso nas redes sociais. Posto uma música minha, tem a galera que curte, timidamente compartilha, comenta às vezes só por educação… aí eu posto um cover e, nossa, chove de comentários. Isso me entristece bastante.

 

 

Metal Na Lata: As pessoas que mais pedem por músicas novas são as primeiras a correr quando se fala em pagar por elas…

Fabiano Negri: Exatamente. A maioria das pessoas quer receber o seu material de graça e quer ouvir o que quer ouvir. Não há o mínimo de respeito com o trabalho que o artista está fazendo.

 

Metal Na Lata: “A maioria das pessoas quer ouvir o que quer ouvir”. Tipo, “já conheço o som desse artista, então se ele fizer alguma coisa fora daquele quadrado eu, automaticamente, vou rejeitar”?

Fabiano Negri: É pior do que isso. Elas querem me ouvir interpretando as músicas que elas gostam de outros artistas. Elas querem me ouvir tocando sons do Pink Floyd, do Black Sabbath, do Uriah Heep; coisas que eu fiz e que viralizaram pra caramba. Aí eu falo “essa é minha”. Elas não ouvem, elas ignoram quando não há um grande nome junto. Por mais que eu ame os meus ídolos, me entristece muito eu não ser reconhecido como um cara que faz música pela grande maioria das pessoas que estão na minha página ou me seguindo nas redes sociais. Cantar bem um monte de gente canta. Estou além disso. A falta de interesse das pessoas em descobrir que eu sou um artista que além de cantar sabe fazer outras coisas é que acaba minando as energias.

 

Metal Na Lata: Você acha que isso pode ter a ver com o fato de você ter atingido o seu ápice de popularidade à frente de uma banda? Talvez o nome Rei Lagarto ainda seja mais conhecido do que o nome Fabiano Negri.

Fabiano Negri: Acho que não, até porque o Rei Lagarto era uma banda underground que durante um tempo deu certo. Muita gente cita o “Free Fall” (2001), do Rei Lagarto, como um grande disco, só que para mim não é um grande disco. É um disco que tem algumas canções boas, mas a gente era um bando de adolescentes tentando fazer um disco. Ouço no disco várias falhas, grandes problemas, mas sei que ele representa uma época gostosa da vida das pessoas que iam aos shows e curtiam as músicas. Musicalmente, tudo que eu fiz depois do “Free Fall”, na minha opinião, é superior.

 

Metal Na Lata: De repente, o “Free Fall” é o álbum favorito de alguns porque naquela época essas pessoas saíam, bebiam, curtiam, não tinham filhos nem tantas responsabilidades. O ouvinte médio é esse, que inevitavelmente relaciona a música a uma fase da vida, e não necessariamente a melhor fase da vida dele vai coincidir com o que o artista ou a banda considera a sua melhor fase. Entende?

Fabiano Negri: Claro. E é por isso que não culpo ninguém pela minha carreira não ter decolado da maneira que eu achei que deveria decolar. Sei que são reações humanas normais, mas quando alguém fala “ah, o ‘Free Fall’ é o seu melhor disco”, eu respondo que não, não é o meu melhor disco. “Tomorrow”, que é uma música que todo mundo adora, foi a minha primeira composição. É uma coisa tão embrionária que às vezes eu me sinto até um pouco ofendido, mas eu entendo porque também tenho uma relação passional com as músicas que ouço. Tenho uma relação passional com Ozzy Osbourne, que é o meu artista favorito, o cara que me colocou na música. Amo tudo que ele faz. Sempre ouço o que ele faz com muito mais carinho do que eu ouço qualquer outra pessoa. Entendo isso, mas isso reflete de forma negativa na minha carreira, infelizmente.

 

Metal Na Lata: Deve ser muito ruim para um artista ouvir que o seu primeiro álbum e as suas primeiras músicas são o que de melhor ele já fez. Parece, então, que sua carreira se baseia em correr atrás do próprio rabo.

Fabiano Negri: É frustrante porque eu tenho uma forma muito específica de ouvir a minha música. Vamos dizer que eu sou um crítico feroz da minha música. Sei muito bem quando fiz um grande trabalho e quais são os meus trabalhos menores. Então eu tenho que contar até dez para não sair batendo boca com a galera que fala que o “Free Fall” é o melhor trabalho que eu já fiz.

 

Metal Na Lata: De acordo com o seu critério, então, “The Fool’s Path” é o seu melhor trabalho?

Fabiano Negri: Acredito que seja o meu trabalho mais maduro. Não é o mais fácil; é um disco que requer múltiplas audições para entender, como todo álbum conceitual. Acho que é o meu melhor trabalho desde a época que eu decidi esperar para lançar.

 

Metal Na Lata: Em vinte e cinco anos de carreira, você lançou trinta álbuns. Olhando para trás, com a sua maturidade de hoje, você acredita que ter produzido em escala quase industrial pode ter impedido alguns trabalhos de alcançarem o seu potencial máximo? Se você pudesse voltar atrás, teria feito algo diferente, de repente intervalos maiores entre um disco e outro?

Fabiano Negri: Acredito que sim. Mas como nunca ganhei dinheiro com música, o fato de compor e lançar discos é terapêutico para mim. Para a gente não ficar doido no dia a dia tem que ter uma forma de escapar da pressão da sociedade. É óbvio que minha estratégia de marketing e publicidade é suicida. Mas ao mesmo tempo, tudo isso fez com que eu mantivesse a minha sanidade em dia.

 

Metal Na Lata: Até o momento em que deixou de fazer, né?  

Fabiano Negri: Com certeza. Você precisa concordar comigo que a gente está vivendo num mundo estranho. Então não é só o lance das pessoas não estarem dando atenção para a minha música. Na verdade, as pessoas não estão dando atenção para nada. As pessoas estão dando atenção para o número de curtidas nas bobagens que elas falam ou compartilham no Facebook. É um momento em que eu abro a rede social e me deprimo com o que vejo. Que porra de época é essa que a gente está vivendo? Então não é só em relação a música. A própria situação em que eu me encontro socialmente não me deixa ter inspiração para fazer mais nada. As pessoas não estão ligadas em coisas essenciais para a vida, como a arte, por exemplo.

Metal Na Lata: Legal você tocar nesse ponto porque tem músicas no “The Fool’s Path” que agora com a sua fala fizeram ainda mais sentido para mim. Duas, que na minha audição dialogam entre si, são “Lies Behind the Mask” e “Last Man on Earth”; para mim, ambas são cartas abertas aos haters de internet. Na verdade, não só aos haters, mas também às pessoas cuja apatia contribui para a deterioração do ambiente virtual.

Fabiano Negri: Vou um pouco além. Na verdade, essas músicas são sobre o achismo. O cara acha e toma como norte da vida dele o que ele achou. Só que ele está errado.

 

Metal Na Lata: Tem uma frase na letra de “Last Man on Earth” que diz “I’d like to see your courage with you computer turned off” (“Eu gostaria de ver sua coragem com seu computador desligado”). As redes sociais estão repletas desses “faixa-preta de internet”…

Fabiano Negri: Exatamente. O cara vai lá, vomita toda a frustração dele em relação a não sei o que… [breve pausa] na verdade, eu sei o que é. As pessoas estão frustradas consigo mesmas. E elas tentam de alguma forma medicar essa frustração atacando os outros sem o mínimo critério.

 

Metal Na Lata: Esse tipo de gente é meio que um produto desse cenário de apocalipse social e cultural que é o Brasil. E é sobre isso que fala “Dying City”; um cenário que obriga o artista, cansado, a repensar as próprias escolhas e se abster desse papel de referência. E eu acho legal que a música termina com “bye bye”. Para bom entendedor…

Fabiano Negri: Dentro do que sei que posso fazer e escrever, essa música reflete tudo que eu poderia ter feito se tivesse condições, mas que desisti de fazer. Sou um cara humilde, mas tenho total consciência do que sou, e sei que poderia oferecer muita coisa se as pessoas estivessem a fim de ouvir. Então “Dying City” é sobre isso, e eu não falo só sobre mim; falo sobre as outras centenas de músicos supertalentosos que conheço que estão deixando suas carreiras de lado porque as pessoas simplesmente não querem ouvi-los. Nós, músicos, sentimos que não precisamos atender a essa galera tocando o coverzinho que ela quer ouvir. A gente pode mais do que isso, então é “bye bye” mesmo.

 

 

Metal Na Lata: Você falou das pessoas que não querem ouvir e tal, mas e quem quiser ouvir “The Fool’s Path” na íntegra?

Fabiano Negri: Vai ter que comprar o disco! Essa foi uma das minhas revoltas pessoais. Não gosto de falar isso, mas tem muita gente que diz que admira o meu trabalho, mas na hora que eu pergunto “compra?”… nego some, velho! Nego faz de conta que não é com ele! E a gente não está falando de mil reais, a gente está falando de vinte, quarenta reais, o preço de duas cervejas no boteco.

 

Metal Na Lata: Não dá nem para pensar em lucro nesse caso. É mais uma tentativa de minimizar o prejuízo…

Fabiano Negri: Minha esposa é alguém que não se conforma por eu estar abandonando a composição. Ela está comigo há dezesseis anos e me viu compor todos os discos nesse tempo. Até brinquei com ela que se eu vendesse quinhentas cópias de “The Fool’s Path”, eu faria mais um disco. Vendi vinte e uma até agora.

 

Metal Na Lata: Essa é a sua condição para não abandonar a carreira?

Fabiano Negri: Isso é só uma brincadeira, cara. Não vou vender quinhentos discos hoje. O “Free Fall”, em 2001, vendeu quatro mil. [risos]

 

Metal Na Lata: É o seu disco mais vendido?

Fabiano Negri: É. Mas o “The Lonely Ones” é o meu disco mais bem-sucedido nas plataformas de streaming. Não sei o que aconteceu com esse disco. Acho que dialoguei com algumas pessoas que eu precisava, então ele foi muito ouvido. Tenho 300 mil streams no Spotify.

 

Metal Na Lata: Isso é coisa pra caramba.

Fabiano Negri: É, mas sabe quanto isso me rendeu até hoje? Duzentos dólares. Isso não é nada. Quer dizer, hoje em dia é até um pouco mais já que o dólar explodiu [risos].

 

Metal Na Lata: Mas não é segredo para ninguém que na realidade do streaming o artista tira o palitinho menor sempre.

Fabiano Negri: Não mesmo. A sorte é que eu sou um professor requisitado e construí uma carreira como profissional da música. Não tenho nenhuma economia. Nessa crise como a que está vindo agora eu vou me foder. O amor pela música me fez produzir mais um disco, mas pensa bem: você gasta no mínimo dez mil reais para fazer um disco, e aí 300 mil streamings te rendem duzentos dólares? Puta que pariu! Galera grava em casa qualquer merda e põe no Spotify. Eu não. Eu primo pela qualidade do que estou fazendo. E isso custa caro.

 

Metal Na Lata: Como as pessoas, sobretudo em tempos de quarentena e isolamento social, podem apoiar o artista independente para manter o cara motivado?

Fabiano Negri: Comprando o produto do artista. Ouvindo as músicas do artista nas plataformas de streaming. Compartilhando, mas compartilhando e endossando o artista. Se você gosta do artista independente, você tem que puxar mais o saco dele que de qualquer outro. Os grandões têm dinheiro, eu não tenho.

 

Metal Na Lata: Obrigado por esse bate-papo, Fabiano! Espero que você tenha curtido tanto quanto eu. Vamos encerrar com um recado seu para os leitores do Metal Na Lata!

Fabiano Negri: Se você gosta de um artista independente, se você curte o som de um artista independente, curtir e elogiar num post não é o suficiente. Você precisa comprar o produto desse artista. Só assim você vai dar condições para esse artista continuar e dar condições para esse artista ter inspiração para trabalhar. A compra das coisas que esse artista está vendendo é indispensável para a carreira desse artista continuar. É isso.

 

Mais informações:

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(19) 99994-1769
www.fabianonegri.com
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