Entrevista com Karim Serri (Legacy Of Kain)

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Um dos grupos mais ativos da região sul do país, a Legacy Of Kain é uma banda nova, mas que em cerca de 3 anos de existência coleciona excelentes críticas sobre suas apresentações e lançamentos, e nesse quesito já podemos incluir o mais recente, “Paralelo XI”, onde a banda decidiu dar um passo além do que já tinha feito e apostar agora no inglês e em um tema perturbador, cruel e esquecido de nosso passado. Nessa entrevista com o guitarrista e produtor da banda, Karim Serri, pudemos falar um pouco mais sobre a trajetória vitoriosa da Legacy Of Kain até aqui, as questões acerca da temática e recepção do novo álbum e também da turnê pela América Latina.

Por William Ribas
Fotos cedidas pela banda

Metal Na Lata: São apenas dois anos que separam “I.N.V.E.R.S.O” (2017) de “Paralelo XI”, novo trabalho que acaba de ser lançado. Acreditam que o primeiro tenha desempenhado bem o seu papel de apresentar a banda ao público?

Karim Serri: No “I.N.V.E.R.S.O”, a gente considera como um tipo de demo, o trabalho de estreia da banda, é uma junta de musicas que fizemos na época e usamos isso para começar a moldar o que seria a Legacy of Kain. Eu particularmente, acredito que a banda vai se moldando de composição em composição, e as coisas vão tomando forma e amadurecendo música a música, e disco a disco. Paralelo XI é a que veio a Legacy of Kain, claro que ainda tem muito que mudar e amadurecer, mas quem ouviu e gostou é daí para melhor, quem ouviu e não gostou talvez nunca goste.

Metal Na Lata: “Paralelo XI”, vem recebendo bastante resenhas positivas por parte da mídia especializada e o público também parece ter aprovado e abraçado o álbum de imediato. Para começarmos esse bate papo, qual é a chave, para em tão pouco tempo de lançamento, “Paralelo XI” já ser apontado como um dos melhores álbuns de 2019, e já quase que obrigatório nas famosas listas de melhores do ano?

Karim Serri: Bom, primeiro a felicidade não cabe no peito cada vez que alguém escreve “certamente um dos melhores do ano”, chega a escorrer uma lágrima. Não existe receita de sucesso, se existisse todos seriam bem-sucedidos. Uma coisa é certa, a gente fez um disco que reflete exatamente o que é a Legacy Of Kain. Você ouve “The Throne”, “Worse Days Will Come”, Beneath The Mud”,” Indigenous Pride”, e consegue sentir a vibe da banda. Uma coisa que acho importante ressaltar, é o processo todo e como foi concebido o disco. A ideia inicial era de fazer o disco com calma, gravar no final de 2018 para mixar e masterizar com tranquilidade, mas no final das contas foi tudo ao contrário. Uma correria ferrada, mas, acho que isso contribuiu para o resultado final, a gente focou demais no trabalho, na temática, nas letras, nas gravações e a coisa acabou saindo muito mais coeso e homogêneo do que a gente tinha planejado. Em 15 dias foram feitas 7 letras, em 20 dias foi gravado o disco todo, e mais uma semana para a mixagem e masterização. Correria insana, foco 100% no trabalho. E acho que esse tempo de concentração e de dedicação ao disco contribuiu para ele sair dessa forma.

Metal Na Lata: Algo que chama a atenção no novo álbum, é o instrumental, o peso que ele impõe. É como tivéssemos uma massa sonora que suga o ouvinte para dentro do disco. Gostaria de saber um pouco como foi composto as linhas instrumentais para o disco?

Karim Serri: Sem pensar muito. “Paralelo XI” é um disco extremamente musical, apesar de ser técnico, ele não foi elaborado para soar assim. As músicas foram saindo, a gente ensaiou, mudou algumas coisas, cortou outras, mas esse disco é 100% inspiração. O que a gente levou como base foi a ideia de fazermos um disco rápido, sem muita frescura, sem preguiça de fazer riffs e o mais Thrash Metal possível, dentro da nossa ideia que é de levar o som para um caminho mais moderno. E novamente voltando ao tema da maneira como ele foi gravado, acho que o fato de ser um álbum coeso traz o cara pra dentro do disco. Eu sinto essa mesma coisa quando escuto o “Paralelo XI”, ele não deixa você se distrair e perder o foco, é muita coisa acontecendo rapidamente e em sequencia. Prende a atenção mesmo.

Metal Na Lata: Obviamente que o grande destaque de “Paralelo XI” é a parte lírica. O trabalho trata do massacre ocorrido com a tribo Cinta Larga em 1963, mas não deixando com que disco entre no rótulo de “conceitual”. Temos músicas que inclusive tratam do desenvolvimento desenfreado e problemas governais. Como foi para vocês amarrem todos os temas, o conceito, e não deixar com que o ouvinte se perca?

Karim Serri: Mais uma vez, não pensamos muito. É claro que tentamos linkar os assuntos para não viajar demais e sair fora do propósito, cara. Eu acho realmente que quando você pensa demais e constrói as coisas muito teoricamente a galera percebe, fica artificial. Então a gente apenas faz e deixa fluir. Em “Paralelo XI”, o Felipe Mata, nosso ex-baixista, criou o conceito ou a temática do disco, mas não queríamos fazer um álbum conceitual para não ficar preso apenas a um tema mesmo porque está tudo virado do avesso, tem muita coisa para se falar.

Metal Na Lata: Alias, “Paralelo XI” foi disco que teve bastante colaboração externa com ex-integrantes, amigos da banda e que ainda contou com a participação da Fernanda Lira, da banda Nervosa. Conte um pouco sobre todo esse processo que envolveu o novo álbum.

Karim Serri: Então, eu particularmente gosto disso, acho que só agrega. Todas as letras do Pedro são fantásticas, ele escreve muito bem. A participação da Fernanda também foi fundamental, o que ela gravou se encaixou com perfeição. Já faz tempo que eu não tenho mais o ego tão inflado ao ponto de não aceitar coisas de fora. Inclusive, a ultima música do disco é do nosso ex-guitarrista, Angelo Torquetto. Poderíamos muito bem ter tirado, afinal, são só 4 minutos que não fariam diferença, mas ela faz diferença, porque é uma boa música. Inclusive, tem uma música minha que ficou de fora, ou seja, poderia muito bem ter tirado uma e colocado outra, mas para quê se a gente achou que a música dele estava mais dentro do propósito?

Metal Na Lata: Agora sobre o tema central. Pelo o que li, as pesquisas sobre o massacre foram bastantes complicados e exigiram bastante de vocês. Por se tratar de índios, que querendo ou não parecem sempre esquecidos pela grande maioria das pessoas, existe um certo desleixo, ou até mesmo, vontade de que esse tipo de tragédia não apareça? 

Karim Serri: Pois é, os números em relação a esse acontecido e outros episódios envolvendo os Cinta Larga são muito confusos, vão de 30 a 3000 foram vários episódios, e muitos deles ou todos, sei lá, envolvendo ou com o consentimento, ou no mínimo tendo a omissão do Governo Federal. Com tanta gente poderosa envolvida nesse episódio, quase que caiu no esquecimento, e como até hoje não há um numero nem um relato detalhado do ocorrido, o que é estranho por se tratar de um acontecimento de grandes proporções, nem por parte do Governo nem por parte dos índios, eu particularmente acredito que o assunto ainda é tratado e abafado nos setores do governo que tratam desse tipo de crime.

Metal Na Lata: Hoje em dia, com todos problemas, debates e brigas que a política vem provocando, muitas bandas preferem ficar caladas, afinal, vivemos uma era onde “todos querem respeito e liberdade de expressão desde que a sua opinião seja a mesma que a minha”. Em algum momento do processo de composição, houve algum receio em continuar escrevendo sobre temas tão delicados?

Karim Serri: Nunca, a gente fala do que acredita, a partir do momento que formos impedidos disso, nada mais faz sentido. Tomamos alguns cuidados para que não entendam errado nosso posicionamento, e não venham com essa baboseira de “você é de esquerda”, “você é de direita”, mesmo porque, perdeu-se o verdadeiro entendimento do que é esquerda e direita. Hoje em dia se você é pró-governo automaticamente é taxado de direitista, fascista, e se você é contra o governo, automaticamente é Lulista e de esquerda, assim, burro mesmo. Sem meio termo, você não tem mais o espaço para ter uma opinião diferente.

Metal Na Lata: Outro fator importante e impactante em “Paralelo XI”, é a mudança do português para o inglês nas letras. Essa troca veio naturalmente ou foi algo pensado visando mesmo uma carreira mais internacional daqui para frente? Inclusive, vi que as novas músicas têm tocado com frequência em rádios americanas.

Karim Serri: Bom, te conto que uns 5 anos atrás, eu com o surgimento de bandas como P46, PNNC, John Wayne e outras, pensei que o mercado brasileiro finalmente iria crescer, amadurecer, criar circuitos e uma cena mais forte, me enganei. A mudança para o inglês foi totalmente racional. O pensamento foi o seguinte, se cantarmos em português vamos continuar agradando aos fãs daqui e continuar com as portas quase fechadas lá fora, se cantarmos em inglês, vamos continuar agradando aos fãs por aqui, e quem sabe abrir um novo leque de opções no mercado internacional. A receptividade lá fora com quase 1 mês de lançamento tem sido incrível.

Metal Na Lata: Tive a oportunidade de ouvir uma música que ficou de fora do disco, “Dead Earth”. Sinceramente, foi como levar um soco certeiro do Mike Tyson. Existem mais faixas que não entraram no álbum? Ter músicas guardadas na manga abre a possibilidade para uma edição limitada ou até para um futuro licenciamento fora do pais?

Karim Serri: Ah, você ouviu é? (risos). Bom, a gente não colocou essa música porque ficamos com receio de deixar o disco muito longo e menos atrativo. Hoje em dia, as pessoas escutam 3 ou 4 músicas e já passam para o próximo. “Dead Earth” é uma boa música e vamos sim lançar ela logo mais. Quem sabe como você falou, em um lançamento ou licenciamento internacional.

Metal Na Lata: O Legacy of Kain está de malas prontas para uma extensa turnê, que vai abranger boa parte da América do Sul. Como estão os preparativos para os shows? (Essa entrevista foi feita antes da banda embarcar para a turnê).

Karim Serri: Correria grande, a logística para agendar uma tour dessas sem tour manager, sem booker, sem grana, é extremamente complicada. Mas, a expectativa é grande, vamos tocar em 3 festivais bem legais, 1 em Porto Velho, 2 no Peru, e também tem os shows na Bolívia que estão sendo muito bem organizados.

Metal Na Lata: Tudo o que a humanidade está vivendo e sempre viveu na realidade, só que por conta de toda a informação que a tecnologia nos dá o impacto parece ser maior, nada mais é do que o Legado de Cain?

Karim Serri: Nada mais é do que o Legado de Cain. Falta de amor ao próximo, inveja, ódio injustificado, rancor, falta de perdão, todas essas coisas juntas levaram Cain a fazer o que fez com Abel, e nós vivemos as consequências disso desde então.

Metal Na Lata: Muito obrigado pela entrevista, o espaço final é todo de vocês.

Karim Serri: Muito obrigado ao Metal Na Lata, e a você, pela entrevista, pelo espaço. Desejo vida longa ao Metal na Lata.  Sigam fazendo esse trampo que a gente sabe o quanto é difícil e o pouco reconhecido por parte da cena brasileira. Mas, graças a vocês, a gente segue na luta e com esperança de que as coisas um dia mudem por aqui. Forte abraço!

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