Entrevista exclusiva com a banda Andralls

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Algumas bandas são tão clássicas, que seus nomes falam por si só. O Andralls tem mais de 20 anos de estrada, e 7 anos após o lançamento de “Breakneck”, temos finalmente o seu aguardado sucessor, “Bleeding for Thrash”, lançado recentemente. Apesar das mudanças de formação, a banda sempre manteve-se fiel ao estilo que consagrou, sendo impossível não coloca-los como gigantes do Thrash Metal brasileiro. Para nos contar um pouco dessa trajetória, conversamos com o baterista Alexandre ‘Xandão’ Brito e guitarrista Alex Coelho, afim de sabermos os bastidores e tudo o que cercou esse retorno devastador. Com vocês, os reis do “Fasthrash”!

Por Mauro Antunes
Fotos Pri Secco e divulgação

Metal Na Lata: Primeiramente, obrigado pela entrevista. Conte-nos sobre esse retorno devastador e a repercussão de “Bleeding for Thrash”…

Alex Coelho: O Andralls voltou a tocar juntos em 2015. Na época do “Breakneck”, a banda fez alguns shows com o Xandão, Cleber (Orsioli, ex-vocal e guitarra, atual Blackning) e Eddie C. (baixo), e em 2014 devido a alguns problemas particulares, a banda deu um tempo. Durante esse período, eu e o Xandão voltamos a nos falar mais e queríamos voltar a tocar juntos, mas inicialmente a ideia nem era a de ser Andralls. Com a ida do Cleber para o Blackning, decidimos que retornaríamos o Andralls e já nessa época, começamos a compor músicas novas.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Daí seguimos o processo lá em minha casa, bem school com o sentimento de garotos. Durante esse tempo, o Alex foi diagnosticado com câncer, e tivemos que adiar tudo.

Alex Coelho: O instrumental estava praticamente pronto, o que ainda estava em aberto eram os vocais.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Depois retomamos e foi tudo muito natural e fizemos tudo como sempre fizemos, do jeito que fizemos como sempre fizemos.

Alex Coelho: E tudo sem nenhuma pressão de gravadora ou qualquer outra coisa tipo. A repercussão entre os fãs não poderia ser melhor. Nosso momento está excelente…

Metal Na Lata: O disco foi lançado em formato físico e mídias digitais, além disso, toda sua discografia foi disponibilizada, também, nas mídias digitais. Hoje em dia, difícil ficar sem elas?

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Toda nossa discografia está nas mídias digitais, o Felipe (Freitas, baixo) é quem cuida dessa parte em nossa banda. Disponibilizamos no Deezer, Spotify, no próprio Google Play. Não dá pra ficar só nas mídias físicas, nem eu tenho os em mídia física. Hoje em dia temos que trabalhar com isso também. Nem eu tenho a discografia em mídia física!

Alex Coelho: O Felipe é o cara que cuida da tecnologia por ser mais jovem, eu e o Xandão não somos ligados a isso (risos).

Metal Na Lata: Queria que vocs comentassem sobre a expressão “fasthrash”. De onde ela veio, já que parece realmente adequada para o som do Andralls.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Isso começou de uma brincadeira entre eu e o Denis Di Lallo. Eu tenho a mania de linkar palavras, como fiz, por exemplo, “noiséthrash”, uma brincadeira de “nós somos” e “nóis é”. Logo, pensamos no “fastthrash” e em seguida, tiramos um “T” e virou uma expressão do nosso vocabulário.

Metal Na Lata: No novo disco, temos a terceira parte da trilogia “Andralls on Fire”, que começou lá no disco de estreia. Uma grande sacada da banda…

Alexandre ‘Xandão’ Brito: O Denis foi quem fez a primeira parte e a segunda fizemos em conjunto com o Alex e eu. Para essa terceira parte, o Alex chegou com o riff.

Alex Coelho: Pensei nela com um refrão inicialmente com o refrão no meio e no final, e depois repensamos e começamos com o refrão como um soco na cara do ouvinte. O Xandão adorou a ideia

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Pedi para o Denis criar a letra para a música…

Alex Coelho: Depois pedi para ele fazer o solo da música e acabou não rolando, porém a letra acabou sendo dele

Alexandre ‘Xandão’ Brito: O Denis acabou tendo uma sacada bem legal na letra da “Andralls on Fire pt. III”; a de que todas as frases da letra são nomes de músicas do Andralls, como o Megadeth fez com a “Victory” do álbum Youthanasia (1994). Ou é título de uma faixa, ou algo presente em algum ponto da letra. O início da letra é “Beyond the Chaos”, “The Hell I Can’t See”, “Chaotic World”, “Misery Screams”. Gostamos muito do resultado final.

Metal Na Lata: Falando um pouco sobre as músicas, “We Are the Only Ones” abre o disco quebrando tudo o que vem pela frente. Impossível não imaginar essa faixa ao vivo. A banda pretende mesclar as faixas novas com antigos clássicos nos setlists dos próximos shows?

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Com certeza. Como o disco novo tem 30 minutos, podemos tocar o álbum na íntegra e mesclar com antigos clássicos. Quanto aos clássicos, ainda vamos brigar muito para quais incluir. Vimos que tocar logo de cara, as 3 primeiras faixas do disco novo funcionam muito bem, pois são de fácil assimilação. A “We Are the Only Ones” tem um refrão fácil e facilmente, os fãs conseguem cantar conosco; “Andralls on Fire Pt. III” os fãs já conhecem o refrão e “64 Bullets” é rápida e ao mesmo tempo, tem uma levada mais dançante, e aí partimos para os clássicos. Na turnê, será dessa forma

Metal Na Lata: O álbum tem pouco menos de 30 minutos de duração. Quando compuseram as músicas, já viram que seria dessa forma, uma espécie de “Reign In Blood” do Andralls?

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Eu e o Alex nunca pensamos nisso. Não temos essa de ter músicas longas. Se a música tiver que ter 2 minutos, ela terá que ter 2 minutos. Não pensamos nisso

Alex Coelho: O Denis (Di Lallo, ex-guitarrista) que tocou conosco, tinha mais essa preocupação. O legal de um disco curto, é que dá vontade de ouvi-lo várias vezes. O “Force Against Mind” também tem pouco mais de 30 minutos. “We Are the Only Ones” foi a primeira que escrevemos e “On Fire”, fecha o trabalho e o tracklist acabou parecendo como um livro, excetuando a homenagem ao Penna, “27.02.18”.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: A parte lírica das músicas foram todas minhas, exceto a “Andralls on Fire”, eu estava inspirado. Às vezes, estava em casa tomando uma cerveja e veio a inspiração para pensar sobre qual assunto cada música poderia soar. Em “After Apocalypse”, eu estava assistindo o “O Livro de Eli” com Denzel Washington, um filme que tem tudo a ver com este título.

Metal Na Lata: Foram 7 anos de espera para o sucessor do fantástico “Breakneck” (2012). Nesse período, tivemos a saída de importantes integrantes como o baixista Eddie C. e o frontman Cleber Orsioli, além do retorno de Alex Coelho e um novo baixista. Fale sobre essa nova formação, e em especial, sobre como foi trazer o Felipe para a banda, já que ele atua também no Hammurabi.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: O Eddie mora no Nordeste e o conflito de agendas estava pegando para nós às vezes. Quando eu estava em Portugal fazendo uma turnê com o Corpsia, e estava trabalhando em umas datas para o Andralls, chegamos a um acordo com o Eddie e ele deixou a banda. Logo depois, estava conversando com o Leandro (Gavazzi, baterista do Hammurabi), disse que o baixista Felipe estava pronto para assumir o posto caso concordássemos. Além de ser um monstro tocando, é sangue novo e precisávamos disso.

Alex Coelho: Tentamos também deixar o Cleber na banda, mas não foi possível, ele quis seguir com a banda que seria a banda dele, sua saída do Andralls foi numa boa.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: O Andralls é uma banda em que todos decidem as coisas juntos e no caso do Blackning, ele poderia fazer as coisas de sua forma. O Felipe tem voz ativa na banda, apesar de mais novo. Quando entrei no Nuclear Warfare (banda alemã de Thrash Metal da qual Xandão também é o baterista), consegui colocar minha forma de trabalhar e hoje nos damos muito bem, já estou com eles há 5 anos.

Metal Na Lata: A música “NoisÉThrash” soa como um discurso de amor ao estilo que a banda segue tocando. Gostaria saber, após todos esses anos de estrada e álbuns lançados, o que é Thrash Metal para vocês?

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Para mim é um estilo de vida, fazemos música sem compromisso sem apego a um estilo, isso é natural pra nós, é o que fizemos nossa vida inteira.

Alex Coelho: Estamos ficando velhos, e isso dificulta um pouco continuar nessa pegada, mas não sabemos fazer outra coisa, nunca pensamos em soar melódicos ou Death Metal por exemplo.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Essa música era que a música fosse uma instrumental com uma introdução. Depois, vimos que não fazia muito sentido iniciar o álbum dessa forma e resolvi criar uma letra para ela, que foi criada como um recital. E resolvemos que eu iria gravar, e acabou sendo muito fácil.

Alex Coelho: Dá pra imaginar o Xandão num palanque. Isso foi algo inédito, algo que nunca o Xandão havia feito. Usaremos a faixa como uma introdução do show para a turnê.

Metal Na Lata: Duas faixas do novo disco foram dedicadas ao saudoso Fabiano Penna, ex guitarrista de Rebaelliun e que já fez parte do Andralls. “Legion” é puro fasthrash e “27.02.18” que é data de seu falecimento é um epílogo instrumental…

Alex Coelho: “27.02.18” foi uma faixa que fiz brincando em casa, e na ocasião, o Fabiano ainda estava entre nós. Quando mostrei ao Xandão e ele gostou da ideia de incluir uma vinheta no próximo trabalho. Vimos de cara, que a música era a cara dele.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: O Alex fez a música só na guitarra, e tinha um tom triste, algo que o Fabiano adorava fazer.

Alex Coelho:  Não sei se talvez estava sentindo no meu subconsciente o que iria acontecer com ele, mas casou perfeitamente com isso, e penso que poderia ter sido uma música criada por ele, pois era algo que era a cara dele.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: E a “Legions” quando a fizemos, o Fabiano ainda estava entre nós e as bases, tem tudo a ver com o que ele fazia no Rebaelliun. Mostramos aos caras do Rebaelliun e eles viram que realmente tudo tinha a ver com eles, inclusive a letra. O Penna foi um cara muito importante pra nós. Ele colocou a banda no music business. Quando gravamos a demo do “Force Against Mind”, levamos a demo para o estúdio que ele trabalhava em São Paulo, e nos encaminhou para a gravadora Marquee Records e, em seguida, assinamos contrato. Ele não só produziu esse álbum, como outros álbuns, mas chegou a fazer turnê conosco. Sempre esteve muito presente conosco!

Metal Na Lata: Por favor, vocês poderiam fazer alguns comentários sobre a discografia do Andralls?

MASSACRE, CORRUPTION, DESTRUCTION… (2000)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Não fui eu quem gravei a bateria desse álbum, porém nele há 3 músicas minhas.

Alex Coelho: Começamos a gravar esse disco em 1999 e terminamos em 2000. Estávamos muito crus na época, e foi um grande aprendizado para nós. Temos ótimas músicas aqui, “Andralls on Fire” virou clássica”, “Hate” é ótima; esse disco nos abriu as portas, pois tocamos 3 noites com o Judas Priest que até então, nunca havia tocado em São Paulo, apenas no Rock in Rio. Os caras deram assistência a nós, nunca nos menosprezando, eram nossos ídolos.

FORCE AGAINST MIND (2003)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Esse é o meu favorito!

Alex Coelho: É uma briga boa para nós com o disco novo…

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Esse disco é muito bem feito, tem muito sentimento nele, foi quando nos juntamos eu, Alex, Eddie e Denis que é meu amigo de infância.

Alex Coelho: Escrevemos as músicas na casa do Eddie e nossos ensaios eram sempre lá…

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Fizemos com a intenção de fazer “o disco” para chutar a bunda de todos. Com ele conseguimos nosso primeiro contrato com uma gravadora, além de uma outra gravadora gringa. Também foi muito bem divulgado, fizemos uma grande turnê para ele.

Alex Coelho: Na época, a revista Valhalla divulgou uma lista com os 50 melhores discos de Thrash Metal do Brasil, e o disco estava entre eles, e guardei a revista até hoje.

FASTHRASH LIVE (2003)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Gravamos no Rio de Janeiro junto com o Malevolent Creation. A gravadora tinha montado toda a estrutura para a gravação de um ao vivo para o Malevolent Creation, e meio que na hora, nos disseram: “gravem vocês também”! No dia, não estávamos encanados para gravar um disco ao vivo e agimos naturalmente.

Alex Coelho: Disco ao vivo com uma energia fantástica, tudo muito natural, sem overdubs, nos ali “na lata”!

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Feito logo após o “Force Against Machine”, teve uma tiragem única de 500 cópias que desaparecem rapidamente. Hoje, ele físico é uma raridade!

INNER TRAUMA (2005)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Gravamos no Rio de Janeiro, eu morava num estúdio aqui em São Paulo, e compomos todas as músicas nesse estúdio.

Alex Coelho: Não tínhamos outro trampo, foco total nele, ensaiávamos todos os dias.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Fomos para o Rio de Janeiro, onde ficamos na casa de um amigo por mais de 1 mês. Em minha opinião, o disco tem muitas músicas boas, mas falhou na mixagem final. Caso contrário, teria um impacto melhor. Na Europa, eles adoram esse disco, que tem uma sonoridade que agrada o povo de lá, especialmente os suecos. O disco mais longo que fizemos com mais de 40 minutos de duração. Tem muitas ‘nóias’ do Denis! Já pensamos em remixar o disco, mas encontrar os arquivos originais não é muito fácil.

Alex Coelho: Nessa época não estava tão inspirado para riffs novos e o Denis absorveu mais o disco. Eu e o Denis sempre nos complementamos. Enquanto ele gostava de se preocupar arpejos e escalas, eu sempre preferia umas palhetadas, aquela sujeira boa. Essa é a diferença entre esse disco e o anterior em que eu criei mais.

ANDRALLS (2009)

Alex Coelho: Quando fizemos o disco, o Denis tinha acabado de deixar a banda. As letras foram totalmente refeitas, após a saída dele. O Penna produziu e trabalhou demais nesse disco. Foi totalmente feito pelo Xandão e eu. Considero esse, nosso disco mais difícil de executar ao vivo. De vez em quando me dá uma loucura e o toco na íntegra em casa, e sempre fico com o braço doendo.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Esse disco foi gravado de forma totalmente analógica, no rolo, não tem mentira nele. É um disco muito rápido, foi desafiador.

Alex Coelho: Gravei 4 paredes de guitarra, baixo e voz, e o Xandão na bateria e as letras junto com o Penna. Estávamos tecnicamente tinindo, com muita pegada.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Depois que disco saiu, o Alex saiu da banda e o Cleber assumiu o posto e saiu em turnê. E fizemos uma turnê gigantesca, pela Europa inclusive, tranquilamente fizemos mais de 150 shows. Desbravamos vários lugares no Brasil e no mundo, verdadeiramente um espírito Thrash.

BREAKNECK (2012)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Esse foi desafiador porque não tinha o Alex na banda. O Eddie tinha composto pouca coisa na banda até então, mas ele se motivou bastante e foi chato com o Cleber para que o estilo Andralls fosse mantido. Tem ótimas músicas, outra grande turnê, inclusive na Rússia o disco foi licenciado. O clipe da “Under the Insanity” nos impulsionou, “Policia Asesina” teve a participação dos amigos espanhóis do Rato Raro, a arte dele é demais, feita por um francês que tinha feito capas do Arch Enemy e outras bandas obscuras da Europa.

BLEEDING FOR THRASH (2019)

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Filho novo, é bonito né (risos)!

Alex Coelho: Esse disco é muito importante pra gente. É como uma fênix, renascemos! Mostramos pra todo mundo e pra nós mesmo, que estávamos inteiros e com muita lenha para queimar.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Tivemos um cuidado muito grande na hora de finalizar, eu e o Alex, compusemos tudo e quando o Felipe entrou na banda, aproveitamos a presença dele ao máximo e sua forma de tocar, deixou tudo muito diferente.

Alex Coelho: Na pré produção, eu havia gravado o baixo, mas com o Felipe, regravamos e ficou muito mais brutal.

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Tivemos tempo pra finalizar tudo, mas no final de tudo, acabou ficando corrido, já que eu tive que viajar, o Alex teve aquele problema de saúde, e no final, ficou com a marca do Andralls.

Alex Coelho: Fizemos alguns shows e as pessoas já nos dizem que será difícil fazer um disco novo melhor do que ele. Foi licenciado na Alemanha e será distribuído por toda a Europa. Iremos explorar ele muito, feliz demais com esse momento! Quando fizemos a masterização final, todos caímos no choro e vimos que tudo valeu a pena.

Metal Na Lata: Obrigado pela entrevista e deixem aquela mensagem aos fãs. Valeu Andralls!

Alex Coelho: Continuem nos apoiando, dependemos de vocês! Agradecemos vocês do Metal na Lata! Obrigado pelo apoio!

Alexandre ‘Xandão’ Brito: Estamos aqui pra mostrar que a banda nunca morreu. Viva o Fasthrash!

Mais informações:

www.facebook.com/andrallsfasthrash
[email protected]

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