
O Shadowside ultrapassou há tempos, as fronteiras de Santos/SP sua cidade de origem e ganhou o mundo. Formado pela vocalista Dani Nolden, Fabio Buitvidas (bateria), Raphael Mattos (guitarra), e Maguns Rosén (baixo), lançam mundialmente “Shades of Humanity”, seu 4º álbum de estúdio e o segundo lançado consecutivamente no Japão. Para falar sobre este novo trabalho e um pouco sobre a trajetória da banda, conversamos com Dani Nolden e o resultado foi um revelador bate papo. Confira abaixo!
Por William Ribas e Mauro Antunes
Metal Na Lata: “Shades Of Humanity” saiu 26 de julho no Japão, 28 de julho Europa e América do Norte e no Brasil somente 04 de setembro, porque essa diferença tão grande em relação ao mercado nacional?
Dani Nolden: Foi uma necessidade contratual, infelizmente perdemos várias oportunidades, especialmente no lançamento do nosso álbum anterior, o “Inner Monster Out”, por causa da pirataria. Tínhamos várias gravadoras interessadas em trabalhar conosco, mas ninguém queria arriscar porque o álbum já havia sido colocado na internet logo depois do lançamento no Brasil. É claro que a pirataria não acontece apenas aqui, mas era algo extremamente necessário que, ao menos até o dia do lançamento no exterior, o álbum não estivesse ainda na internet. Porém, se fosse apenas por isso, poderia ter sido um lançamento simultâneo. Mas como estamos trabalhando com três gravadoras diferentes, sendo uma nos Estados Unidos e Europa, uma no Japão e uma no Brasil, com as duas estrangeiras fazendo a maior parte do investimento financeiro, fizemos os acordos de forma que quem estivesse fazendo esse investimento maior pudesse explorar o lançamento sem concorrência, ao menos no primeiro mês. Foi uma forma de retribuirmos o suporte que as gravadoras deram.
Metal Na Lata: Qual o conceito por trás do título do novo disco?
Dani Nolden: O conceito do título se trata da natureza da humanidade, do fato de que não existe o simples “preto” e “branco”, não existe o bem puro e o mal puro, todos nós somos imperfeitos, em diversos tons de cinza… por isso o álbum se chama “Shades of Humanity”, que significa “tons de humanidade”. Nenhum de nós é puro e nenhum de nós é perfeito. As boas ações nem sempre são completamente boas, em parte porque muitas delas são motivadas pela sensação de se sentir bem em fazer algo… então sempre há uma pontinha de egoísmo, da mesma forma que alguém seria capaz de matar uma pessoa, que é algo terrível, em nome de algo bom, como salvar a vida de uma criança. Então, a moralidade humana é algo muito difícil de julgar. Somos criaturas capazes de uma destruição extrema, ao mesmo tempo que somos capazes de atos nobres, ainda mais em momentos de calamidade. A humanidade é de uma complexidade incrível, caótica e é sempre motivos de algumas reflexões bem interessantes.
Metal Na Lata: Muitas bandas que contam com mulheres acabam usando a imagem delas para promoções, algumas até usando demasiadamente e se esquecendo do som, com o Shadowside vemos um todo cuidado com isso por mais tenha uma vocalista, o importante é a música, como funciona isso para vocês?
Dani Nolden: Há muito tempo nós temos esse cuidado de não nos concentrarmos demais na minha imagem ou no fato de que tem uma mulher na banda. Queremos deixar claro que somos uma banda de verdade, não três caras que fazem tudo nos bastidores com uma mulher como ferramenta de marketing, e muito menos como uma mulher que é a única “arma” da banda e se esquece que não é só ela que importa. Nós somos uma banda, o essencial pra nós é a música e a imagem da banda. Todos nós somos parte de tudo isso. Por mais que eu acabe aparecendo um pouco mais, tanto por ser mulher quanto por ser a vocalista, é muito importante pra nós que fique claro que a Shadowside é um grupo que se concentra na música e leva em consideração a opinião dos quatro membros da banda antes de decidir qualquer coisa.
Metal Na Lata: Se passaram 6 anos entre “Inner Monster Out”(2011) e “Shades Of Humanity”(2017), qual é a principal diferença entre um e outro?
Dani Nolden: Nós trabalhamos ainda mais no equilíbrio entre a energia, o peso, a agressividade e a musicalidade no “Shades of Humanity”. Queríamos melodias mais marcantes, mas também queríamos riffs mais nervosos e músicas mais intensas. Basicamente, queríamos evoluir o “Inner Monster Out”, porquê nele encontramos nossa identidade, mas no “Shades of Humanity” levamos isso um passo adiante e ousamos um pouco mais, deixamos fluir ainda mais nossas personalidades como compositores. O resultado foi um álbum com arranjos mais elaborados, que captura melhor a energia que temos no palco, mas que até o momento ainda não tínhamos conseguido colocar em uma gravação. Sinto que o “Shades of Humanity” é um álbum que traduz bem a essência do que é Shadowside.
Metal Na Lata: A banda já excursionou algumas vezes fora do país, agora contam com o baixista Magnun Rosén, a ideia da banda é fincar o nome do grupo lá fora e cada vez mais se internacionalizar?
Dani Nolden: Não, o fato do Magnus ser sueco é apenas um detalhe. Se ele fosse brasileiro, estaria na banda da mesma forma. Convidamos o Magnus por ele ser um baixista de Metal incrível e uma pessoa excelente de ter em um grupo, especialmente no nosso, porque ele também acredita no trabalho em equipe, em conversarmos e trabalharmos nas músicas até que todos estejam satisfeitos e é uma pessoa muito gentil e fácil de lidar. Tem muita gente boa e muita gente legal aqui no Brasil, mas aconteceu de nossa personalidade bater muito bem com a do Magnus. É claro que queremos marcar o nosso nome em todo lugar possível, fazer tours tanto no Brasil quanto no exterior, mas ter um membro que não é brasileiro foi apenas um acaso. Somos e sempre seremos uma banda brasileira, não importa o quanto a gente toque lá fora!
Metal na Lata: Em 2011, o Shadowside abriu um show para o Iron Maiden. Hoje, passados 6 anos dessa experiência, contem-nos um pouco de como foi essa experiência.
Dani Nolden: Ainda é algo indescritível. Especialmente porquê o show que fizemos com eles em 2011 foi uma segunda chance, algo que eu nunca imaginei que seria possível. Em 2009, nós fomos convidados para tocar com eles pela primeira vez. Fomos chamados 3 dias antes do evento, porque o Iron Maiden fazia questão de ter uma banda de abertura, então o organizador do evento passou algumas opções para eles e eles nos escolheram. Nós tocaríamos primeiro, depois tocaria a Lauren Harris, e então o Iron Maiden. Pela proximidade com o evento e pelo fato de o show já estar divulgado, não foi divulgado em lugar algum que tocaríamos… apenas nós publicamos algo rapidamente dois dias antes do show. Porém, no dia, uma tempestade atrasou todo o cronograma do evento. No horário que deveríamos ter começado a tocar, o Iron Maiden ainda estava passando o som porque a chuva impediu qualquer atividade, estragou parte do cenário deles e todos foram forçados a simplesmente esperar aliviar um pouco. O empresário do Iron Maiden queria atrasar todo o evento para que pudéssemos tocar, mas a Polícia Militar não permitiu, para a segurança e transporte público das pessoas. Nós ficamos arrasados, é claro… mas o empresário deles, o sr. Smallwood, disse que se lembraria de nós. No dia seguinte, pessoas nos acusaram de termos mentido, inventado que abriríamos para o Iron Maiden. Felizmente, o próprio sr. Smallwood postou no blog do Iron Maiden falando de nós e explicando o motivo de não termos tocado. Porém, ainda assim foi uma tristeza enorme porque achamos que nunca mais teríamos essa chance. Só que então, em 2011, eles voltaram ao Brasil… e se lembraram de nós! Nos convidaram para tocar no Rio de Janeiro. Uma das bandas mais importantes do mundo é também a banda mais ética e generosa que eu já vi em toda a minha vida. Eles exigem bandas de abertura e não permitem que cobrem da banda para tocar. Foi um sonho realizado, algo que eu nunca imaginei que alcançaria, e a sensação de tocar ao lado de uma lenda, selecionada por eles mesmos, é algo que eu vou guardar pra toda a vida. Eles são um exemplo, um modelo a ser seguido.
Metal Na Lata: Qual a expectativa da banda em relação ao novo álbum? Já existem datas para uma turnê?
Dani Nolden: Estamos conversando sobre possíveis datas, então em breve espero poder anunciar a turnê! O “Shades of Humanity” já está entre os 5 mais vendidos aqui no Brasil, ao lado do Accept, Edguy, Torture Squad e Iced Earth, alguns medidores de vendas e rádios na Europa e Estados Unidos já têm apontado o nosso álbum como um dos mais tocados e vendidos, as resenhas têm sido excelentes, então estamos muito felizes com as reações, tanto da imprensa quanto dos fãs!
Metal Na Lata: O Brasil é um país extremamente rico em bandas de Heavy Metal, é indiscutível o talento dos nossos músicos, mas temos uma cena problemática, intrigas, shows vazios entre outros problemas, o que realmente é preciso para que possamos crescer e sair do papel e virar realidade na cena mundial?
Dani Nolden: Nós podemos acabar com qualquer intriga, pra começar! (risos) Brincadeiras à parte, eu acho que nossa cena hoje está muito mais madura e não vejo mais tantas intrigas como havia antigamente. Claro que sempre tem uma briga ou outra, afinal são todos seres humanos, mas penso que a cena hoje está mais concentrada em fazer boa música e as bandas demonstrando alegria quando uma outra banda alcança algum sucesso. Nosso país realmente é rico e penso que nossa cena já é uma realidade, só que nosso território está muito longe dos locais onde o Heavy Metal é mais popular, como a Europa e os Estados Unidos, o que dificulta longas turnês para muita gente. E isso, por sua vez, faz com que as gravadoras tenham medo de investir nas bandas brasileiras, porque banda que não toca, também não vende discos. As bandas querem tocar, mas isso nem sempre é algo viável ou fácil de ser organizado. A Shadowside conseguiu isso porque vencemos um concurso internacional logo no lançamento do nosso primeiro álbum, que tinha como prêmio uma vaga no Indianapolis Metal Fest, nos Estados Unidos, que permitiu que começássemos nossa carreira internacional, pois saímos de lá com uma reação excelente do público, o que se transformou na nossa primeira turnê internacional, que gerou a segunda, e então as coisas começaram a acontecer naturalmente. Não digo que nossa carreira foi “sorte”, porque vencemos aquele concurso concorrendo com mais de 1000 bandas de todo o mundo, só que várias dessas mais de 1000 bandas eram bandas excelentes, que também mereciam uma carreira internacional, mas acabaram não tendo essa oportunidade de dar esse pontapé inicial. Por isso, penso que muitas das bandas do nosso país só precisam de uma primeira chance. Boa parte das bandas que conseguiram essa primeira chance já é realidade no cenário mundial. Fora os já consagrados Angra, Sepultura e Krisiun, temos o Hibria, que é adorado pelo público japonês e as meninas do Nervosa que estão tocando por toda a Europa. Os shows vazios normalmente são causados por falta de promoção ou por momentos em que o público está sem grana mesmo. Uma boa estratégia talvez seja pensarmos em mais festivais no Brasil, pra que o público possa ver várias bandas que ele gosta no mesmo evento, porque ir a shows de 5 ou 10 bandas em um mês pode ficar inviável para as pessoas na realidade brasileira, e elas acabam tendo que escolher. Acho que nunca vi um festival ter pouco público no Brasil, mesmo com apenas bandas brasileiras, então pode ser uma boa opção.
Metal Na Lata: Deixem uma mensagem para os fãs que estão ansiosos para conferir o novo álbum e vê-los em ação no palco.
Dani Nolden: Nós também estamos muito ansiosos! Queremos cair na estrada logo e espero ter novidades sobre isso em breve. Muito obrigada à todos pelo apoio, pelas mensagens incríveis, espero que estejam curtindo o “Shades of Humanity” e o novo videoclipe da música “Alive”, que já está disponível no nosso canal no YouTube. Nos vemos logo em algum show!





