House of Lords – “New World – New Eyes” (2020)

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House of Lords – “New World – New Eyes” (2020)
Frontiers Music
#HardRock#MelodicRock#AOR

Para fãs de: HardlineHarem Scarem bandUnruly Child Band

Nota: 8,0

Houve momentos em que pensei que o pouco inspirado “Saint of the Lost Souls” (2017) seria a saideira do House of Lords. Ledo engano! Olha os caras com disco novo na praça, aí. Não só isso: “New World – New Eyes”, o décimo de estúdio da banda é talvez o melhor desde “Come to My Kingdom” (2008), álbum responsável pela primeira e única vinda da banda ao Brasil doze anos atrás. Da formação que subiu ao palco do Circo Voador na segunda edição do festival Hard in Rio, três quartos seguem no barco: o vocalista e capitão James Christian e seus imediatos gente-boa Jimi Bell (guitarra, desde 2019 também no Autograph) e BJ Zampa (bateria, que vem quebrando o galho para o Dokken). O baixo fica a cargo de Chris Tristam, o mesmo de “Saint”.

A exemplo de praticamente todos os lançamentos desde a volta do HOL em 2006 com o excelente “World Upside Down” – consideremos “The Power and the Myth” (2004) um acidente de percurso –, as músicas em “New World – New Eyes” parecem obedecer à uma lógica do tipo “eu cuido do meu, você cuida do seu”. Entenda: é como se Christian – que também assina a produção – e Bell fizessem um acordo e trabalhassem de maneira quase que independente. O resultado na prática pode não ser o mais adequado para os leigos, já que não são poucas as vezes em que a música sofre uma espécie de metamorfose na hora do solo, tornando-se plataforma para “fritações” que pisam na linha tênue entre a exibição – de uma técnica invejável – e o exibicionismo.

Mas Jimi está longe de ser um mero “fritador”, e isso fica claro no decorrer do repertório, construído em torno dos riffs que se tornaram a marca registrada do “novo” HOL; seu timbre consegue ser pesado e “arredondado” na medida certa. A ênfase nos teclados segue sendo coisa do tempo em que Gregg Giuffria dava as cartas; aqui, o instrumento marca presença como uma sutil camada de verniz, ou como a base amanteigada desse cheesecake sonoro, oferecendo uma ambiência que ao vivo fica a cargo do bom e velho playback. James canta cheio de alma; sua interpretação acima de qualquer suspeita joga para escanteio quaisquer noções de que a ação implacável do tempo possa ter-lhe destituído do posto de um dos melhores vocalistas do Melodic Rock e do AOR mundial. Em suma: no quesito vocal, o cara envelheceu bem.

Agora, o que mais impressionou este autor não foi a forma, mas sim o conteúdo. É, caro leitor, ouvir prestando atenção à mensagem faz toda a diferença. Começando pela assustadoramente atual faixa-título e seguindo em frente com “Change (What’s It Gonna Take)”, “We’re All That We Got” e a derradeira “The Summit” temos um bloco de letras sobre manter a fé, fazer sua parte, não desanimar perante as adversidades; enfim, uma bem-vinda aula sobre humanidade e sobre o papel do ser humano nesse momento difícil de pandemia e distanciamento social. Já a outra metade do disco fala essencialmente sobre relacionamentos, sob vários pontos de vista; desde profundas promessas de amor e devoção (“Perfectly (Just You And I)” e “The Both of Us”) até um cafajeste mergulho em águas rasas (“$5 Bucks of Gasoline” e “The Chase”), passando por assuntos sensíveis (“One More” é um chamado à ação abaixo a violência contra a mulher) e pela importância da fossa enquanto etapa pós-término (“Better Off Broken”). No fim das contas o recado é claro: queira, sim, mudar o mundo, mas comece a mudança dentro de casa. Dentro de si. Quer Hard Rock que leve à reflexão? Então, toma!

Marcelo Vieira

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