In Flames – Audio Club, São Paulo/SP (23/04/2026)
Produção: Honorsounds e Bangers Open Air
Abertura: Throw Me To The Wolves
Texto por: Ivan Oliveira
Edição do texto: Johnny Z.
Fotos por: Alessandra Rosato
Edição das fotos: Rodrigo Faustino
O chamado melodic death metal sempre me chamou a atenção. Lembro-me do início dos anos 2000, quando escutei no programa Backstage algumas faixas de Tokyo WarHearts, do saudoso Children of Bodom, e imediatamente me apaixonei pela combinação entre vocais agressivos, velocidade e melodias marcantes. Faço essa introdução para dizer que, desde então, esse se tornou um dos estilos que mais me atraem — tanto que passei a acompanhar nomes como Soilwork, o próprio Children of Bodom e até o Carcass em sua fase Heartwork e Swansong. E, entre essas bandas, a única que ainda faltava ver ao vivo era o In Flames — mas isso, felizmente, já não falta mais.
Sou fã da trajetória completa da banda, desde sua fase inicial — incluindo o estupendo The Jester Race — até os trabalhos mais recentes, que apresentam uma sonoridade consideravelmente diferente da original. Portanto, na última quinta-feira, os suecos transformaram a Audio Club, em São Paulo, em um verdadeiro caldeirão metálico. Em apresentação paralela ao Bangers Open Air, o In Flames mostrou a que veio e por que segue como uma das bandas mais relevantes do metal melódico moderno, equilibrando peso, técnica e um repertório que soube contemplar diferentes fases da carreira — ainda que, infelizmente, tenha deixado de fora os dois primeiros álbuns.
Nesse side show, a Audio Club, tradicional casa paulistana, ofereceu uma proximidade que valoriza bandas intensas como o In Flames. O público compareceu em ótimo número, com a pista bastante preenchida, criando o ambiente ideal para uma apresentação dessa magnitude.
A responsabilidade de abrir a noite ficou nas mãos dos paulistanos do Throw Me To The Wolves, que soube aproveitar cada minuto em palco com inteligência e intensidade. Atualmente formada por Diogo Nunes (vocais), Gui Calegari (guitarra), Fabrício Fernandes (guitarra), Fábio Fulini (baixo) e Maycon Avelino (bateria), a banda demonstrou segurança e entregou um set consistente, mesmo com o tempo de apresentação mais enxuto, fortemente baseado em seu álbum de estreia Days of Retribution (2025), reforçando que segue em plena fase de divulgação do trabalho.
A proposta sonora — que transita entre o death metal melódico e abordagens mais modernas — funcionou muito bem ao vivo. Faixas como “Chaos”, “Tartarus” e “Gates of Oblivion” deram o tom da apresentação, evidenciando riffs bem construídos, mudanças de dinâmica eficientes e uma base rítmica sólida, criando impacto imediato na pista. Tudo foi executado de forma direta, energética e sem excessos.
À frente, Diogo Nunes se mostrou um frontman eficiente, conduzindo o show com naturalidade e mantendo uma comunicação constante com o público. Sua postura ajudou a diminuir a distância típica de apresentações de abertura, criando um ambiente mais próximo e receptivo logo nos primeiros momentos da noite.
Outro ponto positivo foi a coesão do grupo em palco. Mesmo sem recorrer a grandes recursos cênicos, a banda se apoiou na execução firme e no entrosamento entre os integrantes para sustentar a apresentação — algo essencial em um contexto onde a expectativa do público estava naturalmente voltada para a atração principal.
A resposta da plateia também chamou atenção. Diferente do que costuma acontecer em aberturas, o público já ocupava boa parte da casa e reagiu de forma participativa, elevando o clima do evento desde cedo.
Como em todas as boas aberturas, o Throw Me To The Wolves cumpriu seu papel com eficiência e deixou uma impressão bastante positiva. Mais do que apenas aquecer o público, a banda conseguiu se posicionar com personalidade, reforçando o momento atual de consolidação e ampliando o alcance de seu trabalho dentro da cena nacional.
Setlist:
Chaos
Tartarus
Days of Retribution
Fragments
Awakening My Demons
Gates of Oblivion
Gaia


















Mas era pela atração principal que todos aguardavam. Quando as luzes se apagaram, a resposta foi imediata: gritos, braços erguidos e celulares registrando cada segundo antecederam a entrada do In Flames. O clima já era de ebulição, e bastaram os primeiros riffs de “Pinball Map” para a Audio Club explodir. Desde o início, ficou claro que seria uma apresentação sem respiro, com intensidade constante e uma conexão imediata entre banda e público. O som encorpado da casa contribuiu diretamente para isso: guitarras bem definidas, baixo pulsante e bateria firme, tudo soando limpo mesmo nos momentos mais rápidos.
Atualmente, o In Flames conta com Anders Fridén (vocal), Björn Gelotte (guitarra), Chris Broderick (guitarra), Bryce Paul (baixo) e Jon Rice (bateria), uma formação que tem se mostrado extremamente sólida ao vivo, algo perceptível já nos primeiros minutos de show.
Anders Fridén mostrou mais uma vez por que é peça fundamental no sucesso longevo da banda. Com uma presença de palco natural e segura, alternou com facilidade entre vocais agressivos e passagens melódicas, mantendo constante interação com o público brasileiro. Em diversos momentos, conduziu coros e incentivou a participação da plateia, reforçando uma sensação de proximidade que outras resenhas também destacaram como um dos pontos altos da noite — essa troca direta entre banda e fãs acabou sendo um dos pilares da apresentação.
Nas guitarras, Björn Gelotte e Chris Broderick formaram uma dupla extremamente entrosada. Enquanto Gelotte segue como o principal responsável pela identidade sonora do grupo, Broderick adiciona precisão técnica e peso extra, deixando os arranjos ainda mais robustos ao vivo. O resultado foi uma parede sonora consistente, com riffs bem destacados e solos executados com clareza.
“Pinball Map” funcionou como uma verdadeira declaração de intenções. Clássico absoluto de Clayman, a faixa entrou com energia imediata, fazendo a casa responder em uníssono. Desde ali, já era possível perceber algo que também foi observado em outras coberturas: o público estava completamente entregue, cantando alto e participando ativamente de praticamente todas as músicas.
As composições mais recentes também tiveram espaço e mostraram que a banda não depende apenas do passado. Ao contrário, o material atual foi recebido com entusiasmo, evidenciando que o In Flames conseguiu manter relevância mesmo com as mudanças em sua sonoridade ao longo dos anos.
Outro momento muito aguardado foi “Cloud Connected”, de Reroute to Remain. Assim que a introdução começou, a reação foi instantânea. A música, que simboliza uma fase de transição na carreira da banda, ganhou uma nova dimensão ao vivo, funcionando como um dos pontos de maior resposta coletiva da noite — algo que diversas análises também ressaltaram ao comentar a força dessa faixa em apresentações recentes.
Na sequência, “Trigger” elevou ainda mais o nível de agressividade. O andamento acelerado e o riff marcante transformaram a pista em um verdadeiro turbilhão, com rodas se formando e uma entrega física evidente por parte do público. Esse tipo de resposta reforça como determinadas músicas do repertório continuam extremamente eficazes ao vivo, independentemente da fase da banda.
“Only for the Weak” foi, sem surpresa, um dos momentos mais emocionantes. O público assumiu os vocais em diversos trechos, criando uma atmosfera de comunhão difícil de replicar. Foi aquele tipo de momento em que banda e plateia praticamente se tornam uma coisa só — um aspecto frequentemente apontado em resenhas como um dos grandes diferenciais das apresentações do In Flames.
Dessa fase mais “moderna”, “Alias”, de A Sense of Purpose, também teve excelente recepção. Com um refrão forte e uma dinâmica bem construída entre peso e melodia, a faixa mostrou como o grupo soube expandir seu som sem perder identidade.
Ao longo de toda a apresentação, o In Flames demonstrou domínio total do ritmo do show. Alternando momentos de impacto direto com passagens mais melódicas, a banda manteve o público envolvido do início ao fim. Sempre que havia uma leve queda de intensidade, uma nova sequência mais pesada surgia para reacender a energia — uma construção de setlist pensada e eficiente, algo que também foi observado por outros veículos ao analisarem a performance.
Pessoalmente, senti falta de alguma música de The Jester Race no repertório. Ainda assim, talvez o maior mérito do In Flames hoje seja justamente não soar preso ao próprio legado. Diferentemente de muitos nomes históricos que apostam apenas na nostalgia, aqui vemos uma banda que continua se reinventando e apresentando um repertório dinâmico.
Ao final, a sensação era de satisfação coletiva. Para quem já conhecia a reputação do grupo, o In Flames confirmou todas as expectativas. Já para quem assistia pela primeira vez, ficou evidente que ainda vale — e muito — investir tempo em bandas que constroem sua relevância no palco, com entrega real e conexão genuína com o público.
Setlist:
Pinball Map
The Great Deceiver
Deliver Us
Cloud Connected
Trigger
Alias
Only for the Weak
Meet Your Maker
State of Slow Decay
Voices
I Am Above
Take This Life





























