LITERAFÚRIA: O Casamento entre Literatura e Metal

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LITERAFÚRIA: O Casamento entre Literatura e Heavy Metal
Por Marcelo Lopes Vieira



“O homem nada sabe, mas é chamado a tudo conhecer”
.
Eliphas Levi.

 

O universo parece que consegue ser descrito em trindades.

A Santa Trindade para aqueles que têm fé! Os três planos de existência do ser humano para os hermetistas. As três deidades hindus; passado, presente, e futuro é a forma como dividimos nosso tempo.

Olhando para o Heavy Metal, a “santa trindade” de sua gênese parece apenas obedecer esta lei universal.

Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath deram forma a um estilo musical vigoroso, mas também lírico e artisticamente livre, que muitos puderam transformar em um modo de vida.

Ao contrário do que as aparências possam mostrar, esse modo de vida não se resume a jeans, algumas vezes rasgados, couro, rebites, camisetas pretas, rebeldia e contestação. Existe um diálogo com as demais artes que é devidamente absorvidos pelos fãs, numa direta influência de seus ídolos.

Artes plásticas, cinema, e literatura se misturam à música de forma consistente, como se o Heavy Metal fosse uma voz ainda mais forte para espalhar a mensagem das demais artes a pessoas que muitas vezes não teriam como tomar contato com elas.

Segundo Heather L. Lusty, em seu livro “Rocking the Cannon: Heavy Metal and Classical Literature”, a característica primária que distingue o Heavy Metal dos outros gêneros do Rock é a forma com que ele abraça a estrutura literária, enfatizando inspirações e narrativas melódicas da mesma forma que a música clássica e barroca.

Claro que o Heavy Metal ao longo dos anos se desenvolveu com discursos que envolviam poder, violência, morte, e o lado obscuro do ser humano. Uma parcela do pacote contestador quanto ao conservadorismo da sociedade ocidental que vinha desde a ruptura com a utopia do movimento Flower Power no fim da década de 1960.

Dentro dessa contrarrevolução cultural, alguns dentro do Heavy Metal perceberam que era possível falar dos mesmos temas, mas de uma maneira mais profunda, usando a literatura. Desta forma, muitas bandas conseguiram fugir do hedonismo e dos assuntos costumeiros para instigar suas plateias.

Lembre-se do que faziam Alice Cooper e Kiss, por exemplo, que buscavam a imagética dos quadrinhos (no caso de Alice Cooper, das clássicas publicações de terror, como “Eeerie” e “Creepy”), além do cinema e do teatro.

O Black Sabbath não só inaugurou o Heavy Metal, como também o
amarrou à literatura 
desde o início!

 

A TRINDADE SAGRADA DA LITERATURA NO HEAVY METAL

Como estilo musical, o Heavy Metal tem seu marco zero convencionado no lançamento do primeiro álbum do Black Sabbath. E basta uma análise no pacote total deste marco histórico da música do Século XX para entender a que me refiro.

A capa traz um apelo artístico sombrio, misterioso, ao mesmo tempo em que busca influência em lendas europeias e contos góticos de terror clássico, algo bem impresso nas letras de algumas músicas.

O próprio nome da banda, Black Sabbath, remete a um clássico filme de Mario Bava, de mesmo nome (no Brasil foi batizado de “As Três Máscaras do Terror”), lançado em 1963. Bava é um renomado diretor italiano (tanto que Quentin Tarantino admitiu que esta obra foi sua principal inspiração para o roteiro de seu “Pulp Ficttion” [1994]) que trouxe para esse filme o formato antologia (esquecido, ao menos no cinema), donde uma das histórias é inspirada no conto “A Família do Wurdalak”, de Aleksei Tolstói.

Existe uma curiosidade interessante sobre esse conto. Sim, você se lembra do nome Tolstói, mas esse não é aquele de “Ana Karenina”, mas sim seu primo.

Neste conto do outro Tolstói, “A Família do Wurdalak”, temos covas, luares, crucifixos, sangue e muita mitologia. Qualquer semelhança com os temas do Heavy Metal não é mera coincidência, o que não nos espanta que os pais do gênero tenham se vinculado, mesmo com dois graus de liberdade, a este conto.

O Heavy Metal teve influências das mais diversas advindas da literatura, desde a Bíblia, mitos clássicos, até a alta literatura. Porém, se formos elencar a trindade sagrada da literatura no Heavy Metal, ela é formada por ocultismo, fantasia e terror.

Voltando ao primeiro disco do Black Sabbath, a faixa de abertura, com seus sinos, a chuva, e a letra, já nos dá uma primeira mostra de como o terror está ali na gênese do gênero, afinal ela se torna um assombroso conto de terror musicado. Já sua sucessora no tracklist, “The Wizard”, foi inspirada na fantasia de “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, livro que o baixista Geezer Butler estava lendo à época.

Claro que ali naquelas oito composições sombrias existiam referências ao ocultismo, mas nesse quesito, no nascedouro do Heavy Metal, o Led Zeppelin se destacava principalmente no que tange às referências literárias.

Essa influência do ocultismo no Led Zeppelin veio de Jimmy Page, que era aficionado por Aleister Crowley, o maior ocultista do Século XX. Page chegou a comprar a mansão que fora de Crowley, a “assombrada” Boleskine House, em 1970.

As referências à filosofia thelemica do Crowley estavam dispostas de forma sistemática e diversa, mas seu maior clássico, “Stairway to Heaven”, traziam remissões óbvias ao poema “The May Queen” nos versos:

“If there’s a bustle in your hedgerow, don’t be alarmed now,
It’s just a spring clean for the May queen.
Yes, there are two paths you can go by, but in the long run
There’s still time to change the road you’re on.
And it makes me wonder.“

A influência de Aleister Crowley se estenderia também para nomes fora do Heavy Metal como David Bowie, Rolling Stones e Beatles, mas dentro do gênero ele seria inspiração para uma das mais importantes bandas da sua história: o Iron Maiden. Ironicamente, Crowley se autoproclamava A Besta666 (apelido dado pela mãe ainda na infância), dois símbolos muito usados pela banda inglesa desde seu clássico “The Number of the Beast”, de 1982.

No Iron Maiden, a faixa “Revelations“, do álbum “Piece of Mind” (1983), trouxe versos inspirados nos graus de transformação da Thelema, alegoricamente representado pela transposição do abismo. A faixa título do disco seguinte, “Powerslave”, também trazia uma parábola thelemica envolvendo o mesmo tema.

Pulando para “Seventh Son of a Seventh Son”, a faixa “Moonchild” é homônima de um dos livros de Crowley, cuja letra traz menções a Babalon e à Mulher Escarlate, figuras importantes no sistema thelemico. Mesmo que este álbum seja orientado num primeiro plano por outra obra, como veremos mais à frente.

Dentre os membros do Iron Maiden, Bruce Dickinson era o mais interessado no ocultismo e em sua carreira solo ele também mergulhou nas referências ao mago Crowley. “Man of Sorrows”, faixa de “Accident of Birth” (1997) fala da juventude de Aleister Crowley e traz o mantra “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”, presente no “Livro da Lei”, obra icônica do ocultista. No ótimo “The Chemical Wedding” (1998), a letra de “The Tower” traz muitos dos ensinamentos alquímicos de Aleister Crowley e seu Tarô.

Aliás, “The Chemical Wedding” é o álbum mais ocultista de Bruce Dickinson, muito inspirado por William Blake e seu livro “O Matrimônio entre o Céu e a Terra”. Neste livro, Blake cria por chapas coloridas com desenhos e vinhetas, um ataque à ortodoxia religiosa, bem como crítica política, social e literária, além de profundos códigos alquímicos, sendo a primeira obra inglesa em versos livres.

Voltando à gênese do Heavy Metal, é consenso da importância da banda norte-americana Coven no processo de sepultamento do movimento hippie e na inserção de temas ocultistas/satânicos no Rock, antes mesmo do Black Sabbath.

Até existe uma coincidência interessante entre o Black Sabbath e o Coven. O nome do baixista da banda norte-americana é Oz Osborne e a primeira música de seu álbum “Witchcraft Destroys Minds & Reaps Souls”, se intitula “Black Sabbath”.

Este foi seu disco de estreia, que saiu ainda em 1969, com altíssima concentração de ocultismo em sua fórmula, afinal, a vocalista e líder do Coven, Jinx Dawson, era interessada na literatura de Aleister Crowley. Numa das faixas teríamos um ritual satânico retirado da Bíblia Satânica de Anton Szandor LaVey.

Existe ainda uma lenda de que o Coven iria liderar uma espécie de Woodstock Satânico, e para não dizer que eles não foram relevantes o suficiente para tal, King Diamond se declarou influenciado pela banda.

E se existe um nome que levou a palavra de LaVey escrita nas páginas da Bíblia Satânica para o Heavy Metal, este foi, sem dúvidas, King Diamond e seu Mercyful Fate. “Satan’s Fall”, por exemplo, a grande e épica composição de “Melissa” (1983), foi inspirada pela “Bíblia Satânica”.

Diamond inclusive pode ser considerado um dos compositores mais literários do gênero. Não que ele busque adaptar peças da literatura, ele escreve suas próprias histórias de terror em discos como “Abigail” (1987) – contando a história da bruxa Abigail com fortes referências ao ocultismo e a LaVey – e “The Spider’s Lullaby” (1995) – uma espécie de coletânea de contos de terror clássico –, pra citar apenas dois.

Para aproveitar que já estamos falando do tripé literário básico do Heavy Metal (terror, fantasia, e ocultismo), não dá pra falar em terror literário nesse gênero musical sem mencionar o álbum “The Horror Show” (2001), do Iced Earth.

Deixando os méritos musicais de lado – e eles são muitos – neste disco a banda faz uma verdadeira ode aos clássicos do terror, tanto na literatura quanto no cinema (e muitos destes sendo adaptações de livros). Em doze composições existem referência a livros como “Frankenstein”, de Mary Shelley, “Drácula”, de Bram Stocker, “O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson, “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, e, indiretamente, ao livro de David Seltzer, “A Profecia”.

Aleister Crowley, o maior ocultista do Século XX
influenciou o Heavy Metal com seus livros e ideias
.

 

MITOLOGIA, FANTASIA E MAIS UM POUCO DE TERROR

Robert McParlan já disse que “os mitos são de onde a literatura emerge”.

Muitos séculos atrás, música, astronomia e matemática estavam ligados pela visão do universo desenhado por Pitágoras. Platão, por sua vez, foi influenciado por Pitágoras aos construir seus mitos e sua abordagem universal, criando uma ligação entre música e mitos que séculos mais tarde frutificaria, também, no crossover de literatura fantástica – filha direta dos mitos – e do Heavy Metal.

Se buscarmos referências nos mitos das civilizações antigas, encontraremos muitos nomes de bandas e pseudônimos de artistas. Por exemplo, Marduk é o deus supremo da Antiga Mesopotâmia, que criou os céus matando o dragão gigante alado Tiamat, e depois criou os seres humanos misturando seu próprio sangue com a terra.

Na Grécia Antiga temos figuras como Cronos, Cérbero (cão com três cabeças que guardava os portões de Hades), Harpia (criatura com seios de mulher e garras de abutre), Medusa (que tinha cabelos de serpente, presas de javali, mão de latão e asas douradas), e a Fênix, que são frequentes nos discos de Heavy Metal. Isso sem falar no mito de Ícaro, levado para o Heavy Metal num dos maiores clássicos do Iron Maiden, “The Flight of Icarus”, do álbum “Piece of Mind” (1983).

Subindo para a Escandinávia, a base da mitologia nórdica e germânica foi compilada em duas coleções denominadas “Eddas”, sendo que a mais antiga, em verso, data de 1065, e a mais moderna, em prosa, de 1640.

Ali estão reunidos temas, eventos e personagens comuns ao Heavy Metal (como o palácio Valhala, as Valquírias, deuses como Thor, Odin, Loki, os gigantes de Jotunheim, Beowulf, e a morte de Baldur), principalmente nas bandas de Viking Metal e Black Metal.

A banda norueguesa Burzum pode ser um dos grandes exemplos de uso dos “Eddas” no Heavy Metal, sendo seu álbum, “Umskiptar”, de 2011, inteiramente baseado neste livro, além de álbuns como “Dauði Baldrs” (1997 – disco instrumental sobre a morte de Baldur), e “Hliðskjálf” (1998 – Hliðskjálf é o nome do trono de Odin), que também buscavam ali seus conceitos.

A mitologia nórdica é um tema farto dentro do Heavy Metal e caberia um texto dedicado inteiramente a ele, mas seria injustiça não citar bandas como Amon Amarth, Bathory, Unleashed e Enslaved, como precursoras dessa temática no gênero.

Isso sem falar em todo o legado Celta dentro do Heavy Metal moderno. Bardos, druidas, o deus-caçador Cernunnos, são exemplos de temas perenes no Folk Metal, como bem fez a banda nacional Tuatha de Danann.

Fico impelido a incluir a Bíblia neste rol de mitologias sagradas, pois para aqueles que não a tem como livro sagrado ela é exatamente isso. E até pelas implicações históricas de como a Igreja Católica a impôs na sociedade ocidental, ela é, talvez, para o bem ou para o mal, o livro mais usado no Heavy Metal. Que o digam bandas como Slayer, Lamb of God, Armored Saint, Stryper e Avenged Sevenfold cujos nomes foram dali retirados.

Encontrar exemplos de uso de sua última parte, que contém as profecias do Apocalipse, dentro do Heavy Metal não é tarefa difícil, assim como é só buscar as principais bandas de Black Metal para referências a Satanás, Lúcifer, e seus confederados infernais, como Abbadon, por exemplo.

Todavia, o exemplo mais imediato que foge deste padrão seria o clássico do Metallica, “Creeping Death”, que já tinha se inspirado nos quatro cavaleiros do Apocalipse no álbum anterior, faixa narrando a história das dez pragas do Egito do ponto de vista de uma das pragas.

As principais mitologias, muito antes de serem usadas no Heavy Metal, inspiraram heróis lendários, cavaleiros e suas espadas, batalhas épicas, monstros, cálices sagrados, e seres mágicos, seja em lendas ou no que seria conhecido como literatura fantástica.

Desde a Epopeia de Gilgamesh, passando pelo “Mahanaratta”, até os modernos “O Senhor dos Anéis” e “Conan”, a verdade é que esse gênero literário traz paralelos temáticos com o Heavy Metal: poder, violência, e morte, só pra simplificar!

Claro que quando pensamos em literatura fantástica atrelada ao Heavy Metal, nos vem à mente de imediato bandas de Power Metal, como Rhapsody, Hammerfall, e, em destaque, o Blind Guardian.

“Somewhere Far Beyond”, disco emblemático do Blind Guardian, lançado em 1992, foi o responsável por marcar nestes alemães a alcunha de “Bardos do Metal”. Dentre os temas deste disco estão livros de escritores como Tolkien, Stephen King (o nome do disco, inclusive, foi inspirado na série “A Torre negra”), Michael Moorcock (escritor cujo personagem Elric também inspirou o Blue Oyster Cult na música “Black Blade”)  e Poul Anderson.

Mas isso era só o princípio, “Somewhere Far Beyond” se encontra na discografia do Blind Guardian como o primeiro disco da trilogia de clássicos completada por “Imaginations From the Other Side” (1995), e “Nightfall in Middle-Earth”  (1998).

O disco de 1998 era totalmente inspirado na obra de J. R. R. Tolkien, cultuado criador do universo onde Elfos, hobbits, anões, homens, magos, trolls, orcs, e um imperador das sombras dividem sagas heroicas, com batalhas épicas e aventuras emocionantes. Claro que colocado dessa forma simplifica demais o que vemos em “O Hobbit”, na trilogia “O Senhor dos Anéis”, e “O Silmarillion”, a espinha dorsal de sua mitologia artificial, mas ajuda a dinamizar nossa proposta de panorama rápido.

Nem só de Power Metal vive a fantasia no Heavy Metal. Como já vimos anteriormente, Black Sabbath e Led Zeppelin (que o digam “Ramble On”, “The Battle of Evermore” e “Misty Mountain Hop”) também se inspiraram em Tolkien, e ainda podemos citar de cabeça “Lord of the Rings”, do Styx e “Rivendell”, do Rush.

A língua artificial criada por Tolkien – que também era professor de linguística na Universidade de Oxford – é muito usada no Metal para buscar palavras com significados que representem a ideologia e conceito das bandas.

O Burzum é um exemplo disso, buscando seu nome no livro “O Senhor dos Anéis” (burzum significa escuridão na língua de Mordor), assim como o pseudônimo de seu único membro, Count Grischnach. A banda Cirith Ungol também retirou seu nome desta trilogia. E o Summoning talvez seja a banda mais inspirada pela obra de Tolkien junto com o Blind Guardian. Claro, não nos esqueçamos do brasileiro Altú Págánach, que funde “Senhor dos Anéis” com o Black Metal atmosférico.

Engana-se quem pensa que Tolkien inaugurou a fantasia heroica. Na verdade, antes dele, um dos primeiros a escrever sobre um mundo fantástico novo foi Robert E. Howard, o criador do personagem Conan, o bárbaro da Ciméria, que já emprestou seu nome para banda de Doom Metal, e tem no Manowar o maior replicador de seu universo no Heavy Metal.

Aliás, o Manowar é um caso à parte, pois talvez seja a banda com mais similaridades à literatura fantástico-épica, mas que não se vale de narrativas literárias propriamente ditas, à menos de pontualidades, apesar de sua imagética remeter a personagens como Conan.

Voltando ao Século VIII a. C., Homero nos deu o épico maior da Grécia antiga, “Ilíada”, uma história que se passa durante o décimo ano da Guerra de Tróia, tendo Aquiles e Agamemnon no centro da trama. O Manowar se inspirou nesta saga heroica em seu álbum “Triump of Steel”, de 1992, narrando a trajetória de Aquiles na épica “Achilles, Agony and Ecstasy in Eights Parts”, uma música de quase trinta minutos.

O Manowar talvez seja a banda com mais similaridades à literatura fantástico-épica,
com sua imagética remetendo ao universo de Conan.

Mudando a direção para a fantasia voltada ao terror, encontramos um amigo de Robert E. Howard que também criou uma mitologia artificial, mesmo que indiretamente. Estou falando de H. P. Lovecraft.

Lembra-se da frase “Não está morto o que pode jazer, e, em estranhas eras, até a morte pode morrer” encontrada no álbum ao vivo “Live After Death”, do Iron Maiden? Pois então, ela é deste escritor.

Lovecraft será o responsável por criar o escritor Abdul Alhazred, responsável pelo onipresente – pelo menos no gênero do terror – Necronomicon, o livro dos mortos (que certamente você já viu em algum lugar do Heavy Metal, e essa história já foi contada pelo Mercyful Fate em “The Mad Arab”, do álbum “Time” [1994]). Ele ainda foi o primeiro a elaborar os principais deuses cósmicos que completam o panteão macabro dos Mitos de Cthulhu, iniciado na sua obra-prima, escrita em 1926, “O Chamado de Cthulhu” (tudo bem, o conto “Dagon”, veio antes, mas convenciona-se o início em 1926).

Qualquer semelhança com o título da excepcional faixa instrumental de “Ride the Lightning”, segundo disco do Metallica não é mera coincidência. Aliás, o Metallica ainda emprestaria de Lovecraft o conto “A sombra de Innsmouth” para escrever o clássico “The Thing That Should Not Be”, do álbum seguinte, “Master of Puppets” (1986). Até no álbum mais recente, “Hardwired… To Self Destruct” a banda busca citações a Lovecraft em “Dream No More”.

Não só o Metallica foi inspirado pelas histórias de Lovecraft. Ele é um escritor realmente apreciado pelos músicos de Heavy Metal. O Black Sabbath nos deu “Behind The Wall of Sleep”, inspirada no conto “Além das Barreiras do Sono”.

Os excêntricos do GWAR usaram a “A Maldição de Yig” em “Horror of Yig” e o Cradle of Filth faz referências à obra de Lovecraft em “Cthulhu Dawn”, do álbum “Midian” (título que remete ao semi-mítico santuário dos monstros descrito por Clive Barker no conto “Cabal”, que fecha seus “Livros de Sangue”).

Olhando para o Death Metal, o Nile é uma banda que traz muito de H. P. Lovecraft. Seu primeiro álbum “Amongst the Catacombs of Nephren-Ka” se destaca, pois Nephren-Ka é um dos personagens mais interessantes do escritor. Ele seria um Faraó sombrio controlado pelo deus Nyarlathotep .

Um dos herdeiros modernos de Lovecreaft, sem dúvidas é Stephen King, o Rei do Terror. King ainda é um escritor muito ligado ao Rock. Muitas citações que introduzem suas obras, ou alguns de seus capítulos são retirados dos versos que compõem alguns clássicos do estilo.

Exemplos imediatos estão no livro “Christine” (onde cada capítulo é introduzido com uma menção direta aos hinos do Rock) e “A Dança da Morte”, cuja epígrafe traz estrofes de Blue Oyster Cult, Bruce Springsteen e Country Joe and the Fish, além de termos um rockstar alcoólatra e drogado, salvo de uma overdose pelo juízo final, como um dos protagonistas. No sentido inverso, seu livro “O Cemitério” inspiraria o Ramones em “Pet Sematery” e “Poison Heart”.

Pensando em inspiração para o Heavy Metal, Stephen King motivou o Anthrax em temas como “A Skeleton in the Closet”, “Misery Loves Company”, e o clássico “Among the Living”; o Black Sabbath concebeu “The Shining”, faixa de “The Eternal Idol” (1987), indiretamente inspirada no livro “O Iluminado”; o Blind Guardian antes mesmo da trilogia clássica apresentava, em 1990, sua adaptação musical para “Tommyknockers”; e o Demons & Wizards, banda com ligações com Blind Guardian e Iced Earth, apresentou em “Touched By The Crimson King”, seu álbum de 2005, um conceito  baseado no épico “A Torre Negra” (para mim, o melhor épico fantástico de todos os tempos! Sim, estou me lembrando de Tolkien).

J. R. R. Tolkien talvez seja o escritor mais cultuado pelos fãs e músicos do Heavy Metal.

 

 

UMA VIAGEM LITERÁRIA FINAL PELO HEAVY METAL

Do mesmo jeito que alguns nomes do Heavy Metal fugiram de assuntos comuns e se dirigiram ao ocultismo, à fantasia, e ao terror, tendo como a literatura sua base, outros usaram a literatura, mas rumaram a outros segmentos.

Muitos poetas foram usados como motivação para o gênero, e talvez o Iron Maiden seja a banda que mais se destaque quando falamos em grandes poetas no Metal. Começando por “The Trooper”, uma das melhores canções da banda, inspirada pelo poema “The Charge of the Light Brigade” de Alfred Tenyson, que criou todos os simbolismos para um belo poema de guerra, apresentando um ritmo empolgante e exaltando as glórias de um honrado soldado que se sacrifica em prol do desenvolvimento de sua nação.

“The Trooper” estava no álbum “Piece of Mind”, e no disco seguinte, “Powerslave”, o Iron Maiden repetiria a dose, mas agora musicando outro poema clássico: “The Rime of the Ancient Mariner”, do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge.

Mas musicar poemas não era novidade no Heavy Rock. O Scorpions já havia feito uma adaptação de “Lorelei”, poema de Heinrich Heine, onde a banda coloca a sereia como protagonista de sua versão.

As bandas extremas também buscam poetas algumas vezes, como no caso do Celtic Frost, em seu disco “Into the Pandemonium” (1987), que buscou citações diretas de Emily Brontë, conhecida pelo livro “O Morro dos Ventos Uivantes”, em “Inner Sanctum”, e de Charles Baudelaire na letra de “Tristesses de la lune” e “Sorrows of the Moon”.

Eia aí uma aproximação da literatura gótica que casaria perfeitamente com a imagética vampiresca de outra banda, o Cradle of Filth. Desde seu álbum que desenvolve a lenda macabra da Condessa Erzsébet Bathory, passando pela música inspirada pelo clássico “Carmilla” (a vampira lésbica), de Sheridan Le Fannu, até a recente “Nymphetamine”, baseada em “Lolita”, de Vladimir Nabokov, a banda inglesa cria seu conceito em cima da imagética do romantismo gótico.

Voltando de nossa digressão, grandes momentos da literatura foram concebidos em versos, como no caso do influente e imaginativo “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Por mais absurdo que possa parecer, este livro e “Paraíso Perdido”, de John Milton, foram duas obras em particular que incutiram no imaginário popular ocidental que Lúcifer é o “Senhor das Moscas”, o “Príncipe de Todo o Mal”, etc.

O livro de Dante foi adaptado para o Heavy Metal pela banda brasileira Sepultura no álbum “Dante XXI” (2006), por ideia do vocalista Derrick Green, como contou o guitarrista Andreas Kisser:

’A Divina Comédia’ foi escolhida por sugestão do Derrick Green. A partir do momento em que comecei a ler, fiquei impressionado com a riqueza da história. O livro nos inspirou também a usar cellos, trompas e elementos mais orquestrais.”

Claro que o Sepultura não foi o primeiro a usar a obra de Dante, e sua primeira parte, “Inferno”, inspirou muitas bandas em suas expressões de peso e velocidade musical. Dentre as principais, destaque para “Demon’s Gate”, do Candlemass, e “Dante’s Inferno” do Iced Earth, além do álbum “Underworld”, do Symphony X.

E o Sepultura parece que gostou da aventura de criar um álbum conceitual baseado em um livro, tanto que no álbum seguinte a “Dante XXI” ele buscou inspiração na ficção científica de Anthony Burgess para compor “A-Lex” (2009), baseado no clássico “Laranja Mecânica”.

Antes de falarmos rapidamente sobre a influência da ficção científica, retomemos a obra de John Milton, “Paraíso Perdido”, um clássico da literatura poética, que só pelo título já nos leva à banda Paradise Lost, uma das pioneiras do Death/Doom Metal e do Gothic Metal.

O peso deste livro na cultura popular ocidental é incalculável. Acredite, toda a mitologia sobre a queda de Lúcifer que você pensa ter lido na Bíblia Sagrada, foi cravada no imaginário popular por esta obra de ficção. Ou seja, muito dos temas que permeiam as vertentes obscuras do Heavy Metal são herança deste livro.

Ilustração de Gustavé Dore para a queda dos anjos liderados por Lúcifer,
narrada no livro “Paraíso Perdido”, de John Milton.

Ainda caminhando entre os clássicos da literatura, encontramos William Shakespeare. E aí não há dúvidas! A adaptação de “Hamlet” feita aqui no Brasil no antológico projeto “William Shakespeare’s Hamlet” lançado em 2002 é a mais inspirada das que ouvi. Este álbum consiste de uma Opera-Rock contando o clássico de Shakespeare por dezenove faixas interpretadas por nomes tão importantes quanto distintos no Heavy Metal nacional da época, sendo um retrato nítido daquela era na nossa cena.

E por falar em clássico, não da pra deixar de citar “Fausto”, de Goethe, uma tragédia onde o protagonista desiludido faz um pacto com o demônio Mefistófeles em troca de favores terrenos. Esse clássico foi adaptado pelo Kamelot nos discos “Epica” (2003) e “The Black Halo” (2005), esse último um dos melhores discos da banda.

Outro gigante da literatura usado no Heavy Metal foi “Moby Dick”, de Herman Melville. O Led Zeppelin possui uma canção homônima, mas o grande destaque aqui vai para “Leviathan”, álbum de 2004 do Mastodon, baseado nesta obra de Melville, escritor norte-americano que trabalhou num baleeiro e diz que essa foi sua universidade.

Os exemplos, dentre vários, se seguem com “For Whom the Bell the Tolls”, do Metallica, inspirada no livro homônimo de Ernest Hemingway; “The Edge of Darkness”, do Iron Maiden, presente no disco “X-Factor”, inspirada na obra de Joseph Conrad, “No Coração das Trevas”, sendo que a banda já havia feito, em 1988, em seu “Seventh Son of a Seventh Son”, um disco totalmente baseado no livro “Seventh Son”, de Orson Scott Card.

Orson Scott Card que era um renomado escritor de ficção científica, gênero que o Iron Maiden ainda buscou o título de um emblemático álbum: “Brave New World” faz referência direta ao livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. A banda se mostra polivalente na mistura de literatura com Heavy Metal, usando a ficção científica também em “To Tame a Land” (faixa do álbum “Piece of Mind”, e ligada ao livro “Duna”, de Frank Herbert).

Um dos grandes da ficção científica sem dúvidas foi Ray Bradbury, e seu livro “Crônicas Marcianas” contribuiu para o fetiche que o gênero nos anos 50 e 60 teria com o Planeta Vermelho. Mas parece que isso se estendeu até o ano de 2001, pois a banda Royal Hunt usou este livro como base para o disco “The Mission”.

Já o Anthrax foi até o quadrinhos de scify do Juiz Dredd para o tema do clássico “I am the Law”, enquanto o Black Sabbath, para compor “Time Machine”, e o Queen, em “The Invisible Man”, recorreram a adaptações livres dos conceitos dos livros de H. G. Wells, um dos pioneiros da ficção científica. Outro gigante do segmento, George Orwell, emprestou seu clássico “1984” para que o Judas Priest desenvolvesse a cortante “Electric Eye”, presente no álbum de 1982, “Screaming for Vengeance”.

Infelizmente, são muitas as referências e o espaço para enumerá-las limitado. Concentrei meu foco em bandas clássicas que buscaram na literatura inspiração para sair dos temas comuns ao Heavy Metal, ao mesmo tempo em que tentei pontuar nomes de diferentes estilos e épocas com o intuito de reforçar que não existe este ou aquele período, ou gênero, onde mais use a literatura.

Um dos exercícios que acho mais interessantes dentro do Metal é buscar estas referências e conhecer novos livros, novo autores, através das músicas que gosto. Pois acredito ser esse o conteúdo que faz do Heavy Metal diferenciado, e não a roupa, o cabelo, o volume, ou a velocidade! A profundidade das ideias, e como estas levavam seu público rumo à literatura, ao cinema, e a outras formas de arte (existem capas de disco, por exemplo, que mereciam estar expostas em museus, e algumas até são!) sempre foi o diferencial do Heavy Metal.

Por isso, preste atenção às letras das bandas que você gosta, muitas têm algo a dizer! Destas, algumas te mostrarão o quão libertador é poder advindo dos livros. Exercite o hábito de ler, pois ele te leva ao hábito de pensar, que por sua vez te liberta da escravidão de seguir as ideias dos outros.

E ao contrário do que muitos pensam, Heavy Metal e literatura têm tudo a ver.

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