
Título: Lords Of Chaos – A Sangrenta História do Metal Satânico Underground
Autor: Michael Moynihan e Didrik Soderlind
Tradução: Tavos Mata Machado
Editora: Estética Torta
Páginas: 666
Ano: 2020/2021 (nova edição)
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O Black Metal sempre foi tido como um dos gêneros mais extremos dentro do rock. Conhecido pelas polemicas que as pessoas da cena se envolveram e pelos acontecimentos como assassinatos, suicídios e queimas de igreja, o estilo é um dos grandes exemplos do “ame ou odeie”. No livro “Lords of Chaos” são contados esses acontecimentos no período de ascensão do Black Metal Norueguês, explicando o porquê de o estilo ter reaparecido no país com um extremismo que foi levado a um outro nível, o porquê da questão política e da questão racial estarem tão presentes na música e na imagem que as bandas passaram e como muitas delas tiveram muitos problemas, além das queimas de igrejas e dos assassinatos.
O livro fala a respeito da influência do Venom, Bathory e Mercyful Fate, que são considerados a primeira onda do Black Metal, e por mais que alguns dos artistas entrevistados digam que não tiveram essa influência, toda a cena teve esse “empurrão”, tanto que no EP “Deathcrush” (1987), do Mayhem, encontramos um cover da música “Witching Hour” presente no primeiro álbum do Venom, Welcome to Hell. Os autores e artistas comentam a respeito das influencias iniciais, como eles elevaram a “tosquise” (entende-se aqui como as estruturas das músicas e o modo de tocar diferente do que era feito na época) a um outro patamar, mantendo as produções lo-fi ou de ser algo tão cru, tão sombrio que mostrava que a intenção sempre foi fazer algo realmente primitivo.
A partir de um trecho do livro Varg Vikernes (Burzum) ganha um grande destaque, onde são feitas várias entrevistas com ele ao longo do livro. Nessas entrevistas ele fala sobre as crenças dele, a mudança do satanismo para o Paganismo/Odinismo, a ideologia política adotando tons da direita-extrema radical (nazismo) e sua ligação com os skinheads. O próprio satanismo é discutido com pessoas que fazem parte dos grupos, que não o usam apenas como imagética para causar reações das pessoas e da mídia, como o fundador da Igreja de Satã, Anton Szandor Lavey. No começo do movimento black metal ele era constantemente atacado pelas pessoas que o consideravam “humanista” demais.
Fica clara a influência que o Conde (como foi chamado em um período de sua vida) teve na cena, não só norueguesa, mas na alemã, na finlandesa, na francesa e até nos Estados Unidos. É notável a grande influência dele em cima de alguns crimes que foram cometidos, alguns erroneamente ligados ao Black Metal, mas outros de pessoas que realmente estavam ligadas a cena, mesmo bandas que não tinham nenhum registro lançado como a “banda” Necropolis. Eles usavam a imagética black metal, os ensinamentos da cena para cometer os crimes.
O livro aborda outros casos de assassinos “satânicos”, como o de Sandro Beyer por membros da banda nacional-socialista alemã de black metal Absurd e Caleb Fairley nos EUA. Também dedica várias páginas ao caso de uma milícia adolescente denominada “Lords of Chaos” que realizou assassinato e incêndio criminoso em Fort Myers, Flórida, em abril de 1996.
O livro faz uma ótima investigação, não sendo somente sobre a música, o que acabou gerando algumas reclamações de leitores alegando que os autores se “afastaram” do tema principal. Ele conta também com relatos policiais, conversas com vários especialistas, padres, psicólogos e faz uma investigação bem aberta no país e ao redor dele, na questão de ideologia política, na religião que influenciou muito na temática do Black Metal. Ele mostra como algumas bandas forram abandonando as raízes satanistas que tinham, e usavam para impressionar a mídia e promover sua banda, seu álbum e foram adquirindo novos olhares.
Citando o Dimmu Borgir como uma das bandas mais bem-sucedidas da cena, os autores mostraram um certo amadurecimento dos artistas e bandas, e como eles nunca precisaram cometer os atos que seus companheiros fizeram, como as queimas de igrejas. Há também uma citação a banda Cradle of Filth que não se envolveu tanto nas polemicas da época, mas que em falas comenta que se tivessem o “poder” eles fariam coisas piores do que estava sendo feito.
Falando do projeto gráfico, os capítulos, mesmo alguns sendo mais longos, tem a capacidade de envolver o leitor já que tem um dinamismo perfeito. Tanto o papel quanto as letras não cansam os olhos. Essa versão lançada esse ano é de capa dura, com o desenho de uma igreja em chamas, e com detalhes na capa que brilham no escuro, apresentando cruzes e um pentagrama invertido na frente, e uma imagem do Baphomet na parte de trás, recheado de imagens de jornais da época, fotos, cartazes e muitas delas parecem nunca terem sido vistas antes.
No geral é um bom livro, não só para quem gosta de música, mas quem quer entender todo o momento, os anos de 1992 a 1996 (o livro foi, orginalmente, lançado em 1998). Esse período foi muito caótico e ao mesmo tempo prolifero, então não é só um livro para fãs de música, mas um livro feito para entender tudo isso, para quem tem curiosidade a respeito do tema e deseja se aprofundar.
Mesmo que muitos dos entrevistados, após o lançamento do livro, tenham falado que suas palavras foram alteradas, que ele não passa de um monte de bobagens reunidas, o livro tem um ótimo conteúdo e se você não for uma pessoa tão aficionada pelo tema e pelas pessoas que fizeram parte da cena (um tipo de fã cego que não aceita críticas ao seu artista favorito), e se tem um olhar mais crítico, com uma mente mais aberta você conseguira enxergar que muita coisa descrita faz sentido, porque eles mesmo promoveram nos jornais como Bergens Tidende, que foi um dos que mais fez um sensacionalismo sobre eles, e as matérias na revista Kerrang! tiveram seu relatos.
Então é um livro recomendado, mas não é feito para pessoas sensíveis, pois existem questões raciais, com preconceitos sendo falados com naturalidade e com uma linguagem que os autores resolveram manter, sem nenhum tipo de censura já que essa era e é uma realidade.
Lucas David





