Nevermore – Carioca Club, São Paulo/SP (28/04/2026)
Produção: Honorsounds e Bangers Open Air
Texto e vídeo por Johnny Z.
Fotos por Rodrigo Faustino
Após atropelar praticamente todo o casting dos dois dias do Bangers Open Air dias antes, logo, eis que a poderosa formação reformulada do Nevermore teve sua merecida reestreia como headliner no Brasil graças ao sideshow no Carioca Club, casa mais que certa para esse tipo de evento.
Desde o início, sem banda de abertura ou qualquer tipo de aparato visual de palco — exceto o logo da banda no telão de LED —, a banda liderada por Jeff Loomis (guitarra) e Van Williams (bateria), únicos membros da formação clássica, junto aos novos — e impressionantes — integrantes Berzan Önen (vocal), Jack Cattoi (guitarra) e Semir Özerkan (baixo), apresentou um show completo, irretocável e completamente lotado, com mais de 1h30 de duração, em formato intimista, que deixou muito marmanjo com lágrimas nos olhos de tanta emoção. Em outras palavras, toda a apresentação foi teste para cardíaco, meus amigos!
Vale destacar que esse foi apenas o quarto show dessa formação e, já nos primeiros segundos da apresentação, com Berzan cantando as primeiras palavras de “Beyond Within”, precedida pela introdução “Ophidian”, não houve sequer um ser vivo ali presente que sonhasse em criticá-lo por substituir o nosso saudoso gênio Warrel Dane. Os vídeos na internet dos shows anteriores mostravam muito bem que o cara é um monstro (literalmente), mas ali, na sua frente, o negócio tomou proporções inigualáveis.
Diante disso, meus caros, estamos diante de mais uma banda que conseguiu encontrar um substituto à altura — não só capaz de emular perfeitamente o timbre, a atitude, o alcance e a força de Warrel Dane, como também de inserir emoções, nuances e técnicas próprias, o que eu valorizo muito! Além disso, Berzan Önen sabe que assumir esse papel inevitavelmente o colocaria em comparação com o legado do antigo frontman, mas o faz com tanta qualidade, esmero e bom gosto que conquista a todos rapidamente, em questão de segundos. Ou seja, o negócio subiu o sarrafo — e muito, mas muito alto! Jogo ganho de goleada!
Do ponto de vista técnico, o som da casa estava na medida certa, nada exagerado ou estourado; ou seja, permitia uma experiência completa de todos os instrumentos e, logicamente, ver cinco caras ali, in loco, bem na nossa frente, dando verdadeiras aulas de doutorado para um Carioca Club abarrotado de gente não tem preço que pague.
Ao longo do show, revisitando quase todas as fases da banda, com exceção do álbum de estreia homônimo, de 1995, que não teve nenhuma faixa no setlist, o grupo focou mais fortemente nos clássicos mais do que queridos por todos: Dead Heart in a Dead World (2000) — com seis faixas — e This Godless Endeavor (2005), com cinco faixas.
Na sequência, “My Acid Words” e a estupenda “Enemies of Reality” — veja abaixo o vídeo com a plateia praticamente inteira do Carioca Club cantando muito alto — funcionaram como um verdadeiro rolo compressor, evidenciando precisão, peso e entrosamento. E, mais do que isso, é justamente esse entrosamento que chama atenção: a banda retornou às atividades nos palcos há menos de um mês, após 15 anos longe e com 3/5 da formação composta por novos integrantes. De fato, é surreal pensar nisso!
Quando falamos de performance, Jeff Loomis dispensa comentários, pois o cara é — sem sombra de dúvidas — um dos maiores guitarristas surgidos nos últimos 30 anos, e quem discordar disso está redondamente enganado. Sua excelente passagem pelo Arch Enemy — antes dessa volta do Nevermore — chegou a ser comentada por muitos como um desperdício de talento, já que ele sobrava por lá (risos). Aliás, vejam bem: não é um comentário pejorativo ao Arch Enemy, que eu também sou muito fã, ok? Mas o lugar de Jeff Loomis é no Nevermore.
Nesse contexto, sua guitarra segue sendo o eixo criativo e técnico da banda e, junto às levadas sólidas, precisas e violentas de Van Williams, forma a força motriz de toda a máquina Nevermore. Agora, com a técnica dos novos integrantes, a tendência é que tudo fique ainda mais nivelado por cima, já que a voz de Berzan Önen é algo que deveria ser estudada pela NASA (risos).
Ao vivo, a mistura de agressividade, melancolia e refinamento continua intacta desde os tempos de Warrel Dane, o que mostra que as escolhas dos novos músicos foram, ao mesmo tempo, seguras e brilhantemente acertadas.
Em termos de repertório, a apresentação funcionou como uma verdadeira viagem pela discografia da banda, mesmo dando mais ênfase aos dois álbuns citados anteriormente, pois as outras faixas eram, basicamente, as mais queridas dos demais trabalhos. Por exemplo, “Engines of Hate”, “Sentient 6”, “Next in Line” e “Inside Four Walls” mantiveram o nível de agressividade nas alturas, com muita entrega de todos da banda, enquanto momentos mais introspectivos, como “The Heart Collector” — com dedicatória de Berzan Önen ao almighty Warrel Dane — e, mais tarde, “Believe in Nothing”, proporcionaram alguns dos pontos mais catárticos da noite. Como resultado, o público cantou em uníssono, com altíssima carga emocional, incluindo este que vos escreve.
Além disso, a cada música executada, a pista e os camarotes do Carioca Club se transformavam em um só coro. Entretanto, o momento mais marcante veio quando todos começaram a gritar o nome de Berzan Önen no famoso “Olê, olê, olê, olê, Berzan, Berzan!”. Nesse instante, o cara — que não é pequeno — não aguentou e visivelmente encheu os olhos de lágrimas. Até os outros músicos perceberam a cena e passaram a aplaudi-lo. Sem dúvida, ali caiu a ficha do turcão (risos).
Como curiosidade, tive a oportunidade de encontrar a banda no backstage após a apresentação e, ali, tive o prazer de bater um belo papo com todos, incluindo o “humildasso”, “simpaticasso”, gente “boassa” Berzan Önen. Ele me contou que a camiseta do Brasil (falsa, daquelas de loja de conveniência, diga-se) que usou no Bangers havia sido roubada; por isso, no show do Carioca, estava com outra, agora oficial. Inclusive, quem a deu está de parabéns por isso (risos).
No entanto, o momento mais emocionante foi quando comentei que todos os fãs e, principalmente, Warrel Dane, com toda certeza — esteja onde estiver — estariam sorrindo de orelha a orelha e abençoando-o com orgulho. Foi então que veio uma declaração incrível: “Johnny, inacreditável hoje eu estar aqui cantando com a minha banda favorita e ouvindo os brasileiros gritando meu nome desse jeito. Estou muito feliz, muito obrigado”. Em seguida, ele me abraçou com os olhos cheios de lágrimas! Precisa falar mais?
Retornando ao show, já no início da parte final da apresentação, tivemos a cacetada brutal “Born”, com direito a um wall of death organizado por Berzan Önen, que trouxe o caos à Terra. Nesse momento, quem estava no fundo foi para a frente, quem estava na frente deu umas três voltas pela pista inteira, e apenas alguns poucos sortudos conseguiram se manter no lugar. Por incrível que pareça, eu, por pura sorte, consegui ficar ali na frente (risos).
Por outro lado, Jeff Loomis e Van Williams foram, como sempre, perfeitos — e são como vinho: quanto mais velhos, melhores ficam. Suas execuções são precisas, pesadas e muito refinadas como de costume. Ainda assim, os olhos e ouvidos também estavam voltados aos novos membros.
Entre os destaques, Semir Özerkan se mostrou um baixista virtuoso de mão cheia, com muita presença de palco, interação, técnica apurada e backing vocals que, até então, o Nevermore carecia, dando um belo up nas músicas. Já Jack Cattoi é outro monstro, com uma precisão impecável, capaz de deixar qualquer um de queixo caído; porém, no palco, me pareceu um pouco travado, talvez pelo peso do momento em sua vida. Compreensível, não é mesmo? Ainda assim, acredito que, com o tempo e mais shows, isso será sanado e ele se tornará uma peça fundamental para a banda e sua performance estará completa.
Encaminhando-se para o final, fechando o setlist antes do bis, tivemos a soberba “Final Product”, a já citada “Believe in Nothing” — duvido que alguém não tenha fechado os olhos e ouvido Warrel Dane cantando! — e a surpresa “This Godless Endeavor”, verdadeiros coices na cara!
Por fim, para o bis, tivemos um encerramento típico de uma aniquilação global: a cacetada que nunca deve sair do setlist “Narcosynthesis” e monstruosa “The River Dragon Has Come”, fechando uma apresentação nostalgicamente impecável, perfeita, magistral, com ímpeto, força, técnica e uma sensação clara de missão cumprida.
Em conclusão, o Nevermore não só voltou: ele veio fortemente renovado, e tenho plena certeza de que vai conquistar patamares ainda maiores que antes, pois conseguiu criar uma sinergia com o público intensa e genuína, em um nível elevadíssimo — abraçando com carinho o passado, como todos queriam, e olhando para o futuro com os pés no chão e a qualidade nas alturas.
Reforçando, escrevo novamente o que vou dizer: com todo o respeito do mundo ao saudoso Warrel Dane e a Jim Sheppard (ex-baixista original), pois foram fundamentais para a sonoridade do Nevermore, mas, com essa nova formação, a banda chegará a lugares nunca antes alcançados.
E mais, Berzan Önen chegou para preencher uma lacuna aberta por anos entre os monstros sagrados dos vocais no metal — um patamar que o remeterá mais para frente (provavelmente) a nomes como Rob Halford, Warrel Dane, Ian Gillan, Bruce Dickinson, Ronnie James Dio, Geoff Tate, Michael Kiske e tantos outros que ajudaram a construir essa história. Pronto, falei, e se quiserem me chamar de fan’old’boy eu não ligo a mínima (risos).
Agradecimentos a todos da Honoursounds e a Marcos Franke pela oportunidade e, também, a Milton Mendonça pela parceria, cordialidade, respeito e amizade ao me permitir conhecer os mestres após o show.
Ophidian (Intro)
Beyond Within
My Acid Words
Enemies Of Reality
Engines Of Hate
Sentient 6
Next In Line
Moonrise
Inside Four Walls
The Heart Collector
Born
Final Product
Believe In Nothing
This Godless Endeavor
Narcosynthesis
The River Dragon Has Come



























Confira também três músicas do show gravado por nosso amigo Raphael Olmos, da banda Kamala, para o canal Papo de Riffeiro:





