Paul Di’Anno – “In Memory Of…” (2025)
Metalville Records | Hellion Records Brazil
#HeavyMetal
Para fãs de: Iron Maiden, Tank, Raven, Judas Priest, Saxon
Texto por Johnny Z.
Colaboração por Caio Siqueira Iocohama
Nota: 8,0
Antes de qualquer análise, é importante deixar algo claro: In Memory Of… está longe — muito longe — de ser um lançamento oportunista ou um simples “caça-níquel”. O que temos aqui é um registro legítimo, carregado de significado, que respeita a trajetória e a essência de um artista que sempre viveu o heavy metal de forma visceral.
Lançado no Brasil pela Hellion Records, In Memory Of… ganhou um peso ainda maior após a partida de Paul Di’Anno, em 2024. Mais do que um compilado, o álbum se consolidou como um documento essencial da força que o vocalista ainda preservava em seus últimos anos, mesclando registros ao vivo com o material consistente de sua fase à frente do Architects of Chaoz.
O lançamento carregou um peso que foi muito além de qualquer análise técnica ou estrutural. Tratou-se de um registro póstumo que funcionou como um verdadeiro documento da fase final de Paul Di’Anno — um artista que ajudou a moldar o heavy metal, mas que sempre fez questão de trilhar seus próprios caminhos, mesmo quando estes o levavam por terrenos irregulares.
Longe de ter sido um álbum coeso no sentido tradicional, o disco se apresentou como um mosaico de momentos distintos, reunindo gravações de estúdio, registros ao vivo e, principalmente, material oriundo da fase com o Architects of Chaoz — período que muitos enxergaram como um último suspiro criativo do vocalista e, injustamente, não recebeu a devida atenção, assim como ocorreu com o WarHorse. E foi justamente nessa mistura que In Memory Of… encontrou sua identidade: imperfeita, fragmentada, mas absolutamente honesta.
A abertura com “Impaler” (Live) já deixou claro que não houve espaço para polimento excessivo. A faixa surgiu crua, direta e carregada de urgência, evidenciando que a agressividade característica de Di’Anno permanecia intacta, mesmo nos anos finais. Foi um início forte, que estabeleceu o tom emocional do álbum e reforçou que, apesar das limitações vocais perceptíveis, sua entrega continuava sendo o grande diferencial.
Logo na sequência, “Je Suis Charlie” (Architects of Chaoz) adicionou uma nova camada ao repertório. Com peso instrumental marcante e uma abordagem mais direta e contemporânea, a faixa se destacou tanto pela intensidade quanto pelo conteúdo, trazendo uma carga temática mais explícita e mostrando que ainda havia espaço para diálogo com o presente.
Na sequência, músicas como “The Beast Arises” (Live) e “Marshall Lokjaw” (Live) aprofundaram essa proposta. A primeira manteve a energia elevada, apostando em uma atmosfera mais densa e cadenciada, enquanto a segunda resgatou com força a veia punk rebelde que sempre foi marca registrada de Di’Anno, ainda que ambas soem cruas e, por vezes, desleixadas em suas versões ao vivo.
Foi, no entanto, dentro do bloco ligado ao Architects of Chaoz que o álbum atingiu parte de sua maior consistência. “Rejected” surgiu como um dos grandes destaques, equilibrando riffs diretos com uma abordagem vocal que remete à crueza dos primórdios do heavy metal britânico. Já “You’ve Been Kissed By The Wings Of The Angel Of Death” reforçou o peso dessa fase, com guitarras afiadas e uma intensidade quase sufocante, evidenciando um Di’Anno que, mesmo fisicamente limitado, ainda conseguia soar visceral.
Outro momento importante foi a releitura de “Killers” (Live). Aqui, além do peso e da abordagem mais encorpada, há um detalhe que cria uma conexão direta com o público brasileiro: a contagem em português (“um, dois, três, quatro”) antes da explosão da música — um pequeno gesto que carrega grande valor afetivo. A performance, crua e carregada de personalidade, dividiu opiniões, mas reforçou o caráter humano e autêntico da execução.
Ainda dentro desse eixo mais nostálgico, os clássicos do Iron Maiden aparecem com carga emocional evidente. “Running Free”, por exemplo, surge quase como uma síntese da própria trajetória de vida de Di’Anno — rebelde, intensa e indomável. Já a inclusão de “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones, injeta uma energia imediata e direta, evocando aquele espírito de “mosh pit mental” que sempre dialogou com sua essência punk.
O encerramento com “Soldier of Fortune”, do Deep Purple, oferece um desfecho inesperadamente sensível e emocionante, funcionando como um fechamento digno e quase contemplativo para um álbum marcado por intensidade e memória.
Ainda assim, vale uma ressalva importante: a ausência de faixas de bandas fundamentais de sua trajetória, como Battlezone, do Killers e até mesmo de Dianno, ou mesmo versões de estúdio mais representativas, além de possíveis raridades e inéditas, acabou limitando o alcance do material como retrospectiva definitiva. Inclusões mais ousadas, como algo da obscura The Almighty Inbredz, poderiam ampliar ainda mais a leitura de sua identidade artística.
Essas lacunas, no entanto, não comprometem o impacto geral do disco. Pelo contrário, reforçam a ideia de que In Memory Of… não buscou ser uma coletânea perfeita, mas sim um retrato honesto de um artista em sua fase final.
Ao longo do álbum, elementos de punk, hard rock e heavy metal tradicional se entrelaçam sem qualquer preocupação com unidade estética, evidenciando um trabalho que prioriza sentimento acima de técnica. A produção oscila, as performances variam, e as limitações são evidentes — mas nada disso soa como um problema central. Em vez disso, contribui para humanizar ainda mais o registro.
Porque, no fim das contas, In Memory Of… não é sobre técnica, inovação ou coesão. É sobre legado. Sobre atitude. Sobre um artista que, mesmo enfrentando anos de dificuldades de saúde, jamais abriu mão de sua essência.
E talvez seja exatamente por isso que o disco funcione tão bem como despedida. Sem filtros, sem excessos, sem tentar provar nada. Apenas Paul Di’Anno sendo ele mesmo até o fim — imperfeito, intenso e absolutamente inesquecível.





