Ranking de Álbuns: TESTAMENT

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Ranking de Álbuns: TESTAMENT

TESTAMENT: (UM DOS) MESTRES DO THRASH METAL

Poucas bandas conseguiram atravessar tantas fases do Metal com tamanha integridade quanto o Testament. Formada em 1983 sob o nome Legacy, a banda começou a deixar sua marca definitiva quando adotou o nome Testament e lançou seu álbum de estreia, The Legacy, em 1987. Desde então, o grupo californiano consolidou-se como um dos pilares do Thrash Metal — seja na linha de frente, ao lado dos gigantes do gênero, ou nas trincheiras mais pesadas e sombrias da cena.

Sua discografia é um verdadeiro testemunho de resiliência criativa, alternando momentos que exaltam o vigor técnico e agressivo de suas raízes com passagens que flertam com sonoridades mais modernas e brutais — sem jamais perder a identidade. É com esse espírito que revisitamos toda a trajetória fonográfica da banda, ranqueando seus álbuns do absolutamente essencial ao menos brilhante. Mais do que uma simples lista, esta é uma jornada sonora pelos altos e (raríssimos) baixos de uma das bandas mais queridas e respeitadas do estilo.

Se ouvir esses álbuns já é uma experiência poderosa, presenciá-los ao vivo é algo que transcende — é testemunhar a história sendo escrita, riff por riff, solo por solo, grito por grito. Prepare-se e confira!

Texto por Johnny Z.

“PRACTICE WHAT YOU PREACH” (1989)

Lançado em 8 de agosto de 1989, Practice What You Preach marca um dos momentos mais coesos e ousados da carreira do Testament. É um daqueles discos que, mesmo décadas depois, ainda soa relevante, poderoso e cheio de energia. Logo nas primeiras notas da faixa-título, fica evidente que a banda mirava além do thrash metal puro e direto que moldou seus álbuns anteriores — aqui, há uma ambição latente, um senso de maturidade tanto nas composições quanto nas letras.

O álbum captura o Testament no auge da criatividade, explorando temas sociais, políticos e existenciais com uma seriedade que escapa aos clichês do gênero. “Practice What You Preach” chega como um verdadeiro tapa na cara, confrontando a hipocrisia com riffs marcantes de Alex Skolnick e Eric Peterson o vocal cada vez mais sólido e articulado de Chuck Billy. Já em “Greenhouse Effect”, a banda se arrisca ao abordar o aquecimento global — um tema quase inédito no metal da época — e o faz com fúria e inteligência.

O instrumental é um espetáculo à parte. Skolnick entrega alguns dos solos mais inspirados de sua carreira — melódicos, técnicos e carregados de feeling. Eric Peterson sustenta a base com riffs precisos como um gênio do ritmo, enquanto a cozinha formada por Greg Christian e Louie Clemente mantém tudo coeso com precisão cirúrgica. Em faixas como “Sins of Omission” e “Blessed in Contempt”, o peso vem acompanhado de groove, revelando uma transição natural do thrash mais direto para algo mais sofisticado, com leves flertes com o metal progressivo.

“Envy Life” é um dos momentos mais ousados do disco, com um refrão quase radiofônico e linhas melódicas que dividiram opiniões à época, mas que hoje soam como uma das decisões mais corajosas da banda. “The Ballad”, por sua vez, está longe de ser uma balada no sentido tradicional: começa introspectiva e culmina em um clímax brutal — uma verdadeira montanha-russa emocional.

Revisitar Practice What You Preach hoje é como redescobrir uma obra-prima escondida à vista de todos. O álbum envelheceu de forma impressionante — não soa datado, forçado ou limitado pelo seu tempo. Pelo contrário, reflete a segurança de uma banda que, mesmo em meio à ebulição do thrash no fim dos anos 80, já vislumbrava horizontes mais amplos. O Testament aqui não apenas encontrou seu som, mas o lapidou com precisão e ousadia. Para mim, este não é apenas um ponto de virada — é o ápice da discografia da banda. Um trabalho que demonstra, riff após riff, que o thrash podia evoluir sem perder sua essência. Um raro exemplo de que amadurecimento não precisa, necessariamente, significar suavização.

2º- “THE NEW ORDER” (1988)

Lançado em 5 de maio de 1988, The New Order é aquele tipo de disco que nos faz entender por que o Testament é frequentemente citado como um dos grandes nomes do thrash metal — mesmo que, injustamente, muitas vezes fique à margem do chamado “Big Four”. Com esse segundo álbum, a banda deu um salto gigantesco em termos de identidade, técnica e ambição. Tudo aqui soa mais coeso, mais afiado, mais consciente do impacto que poderia causar.

Desde o riff inicial de “Eerie Inhabitants”, já sentimos que algo especial está prestes a acontecer. A produção é mais limpa e poderosa que a do disco anterior, The Legacy, o que só realça o talento individual e coletivo da banda. Chuck Billy mostra sua evolução como vocalista, alternando agressividade e clareza com facilidade, enquanto Alex Skolnick já demonstrava ser um guitarrista acima da média — com solos que equilibram técnica, emoção e musicalidade como poucos na cena da época.

A faixa-título, “The New Order”, é simplesmente uma aula de thrash metal. É impossível ouvi-la sem se sentir tomado pela urgência que ela transmite. A música flui com naturalidade, com mudanças de andamento precisas e riffs que grudam na mente. Outro destaque absoluto é “Trial by Fire”, uma das composições mais memoráveis da banda. O refrão é poderoso, a construção é impecável e o peso vem com inteligência.

O álbum acerta também em sua estrutura, intercalando faixas destruidoras com momentos mais atmosféricos, como o instrumental “Hypnosis”, mas é com a colossal “Disciples of the Watch”, até hoje um hino obrigatório nos shows, que o negócio sobe nas alturas. Nesse álbum, o Testament prova que sabia criar não só pancadarias sonoras, mas também atmosferas sombrias e climáticas, o que dava profundidade ao trabalho e diferenciava a banda de tantos outros do mesmo período.

Mesmo a cover de “Nobody’s Fault”, do Aerosmith, que poderia parecer deslocada à primeira vista, funciona surpreendentemente bem. O Testament imprime sua marca sem perder a essência da faixa original, e isso diz muito sobre a confiança e a personalidade que a banda já havia adquirido em tão pouco tempo de carreira.

O que mais me impressiona em The New Order é o equilíbrio entre brutalidade e refinamento. É um álbum direto, mas não simplório. Rápido, mas não apressado. Técnico, mas jamais frio. Cada música tem sua própria identidade, e juntas formam um disco que é, até hoje, um dos mais sólidos e influentes do thrash. Muita gente considera esse o melhor trabalho do Testament — e eu tendo a (quase) concordar (risos).

Dá pra dizer sem medo que The New Order foi um dos primeiros sinais de que o thrash metal podia ser sofisticado sem perder o impacto, e que o gênero ainda tinha muito a dizer, mesmo em um período onde tantas bandas pareciam apenas seguir a cartilha da velocidade e do peso. O álbum não só envelheceu bem — ele continua atual, vibrante e cheio de vida.

3º- “THE GATHERING” (1999)

Lançado em 8 de junho de 1999, The Gathering é um daqueles álbuns que chegam como um soco certeiro no queixo e te fazem repensar tudo o que você achava que sabia sobre uma banda. O Testament, já veterano e respeitado na cena thrash, decidiu aqui não apenas se reinventar, mas mostrar que ainda tinha fôlego — e fúria — para competir de igual pra igual com toda uma nova geração de bandas extremas que estavam surgindo no fim dos anos 90. E o mais surpreendente: eles não apenas competem, mas lideram.

Desde os primeiros segundos de “D.N.R. (Do Not Resuscitate)”, você já sente que não está diante de um disco qualquer. O peso é descomunal, a produção é crua e moderna ao mesmo tempo, e Chuck Billy está simplesmente monstruoso nos vocais. Ele alterna guturais brutais com linhas mais limpas de forma natural, com uma força que muitos vocalistas do death metal da época não conseguiam alcançar.

O line-up aqui também é digno de supergrupo: além de Chuck e do sempre brilhante Eric Peterson nas guitarras, temos ninguém menos que Dave Lombardo (ex-Slayer) na bateria, dando um peso e uma dinâmica absurdos, e Steve DiGiorgio (Death, Sadus) no baixo, trazendo complexidade e personalidade às linhas mais graves. É um time que beira o absurdo mesmo, e o resultado é exatamente o que se espera de uma formação como essa — ou até mais.

Faixas como “Down for Life”, “Riding the Snake” e “True Believer” são petardos que mesclam o thrash clássico da banda com elementos mais extremos e modernos, mas sem soar forçado. Tudo soa orgânico, como se o Testament tivesse apenas aberto espaço para sua própria brutalidade evoluir. E eles fazem isso sem perder aquele senso de identidade que sempre os diferenciou.

The Gathering consegue ser técnico e brutal sem soar pretensioso. A banda parece estar se divertindo, mesmo entregando uma sonoridade intensa e sombria. Há groove, há riffs memoráveis, há mudanças de andamento bem construídas, e há, acima de tudo, uma confiança absurda em cada nota tocada.

A produção, a cargo de Andy Sneap e do próprio Eric Peterson, é outro ponto forte. Pesada, suja na medida certa, mas com clareza suficiente para valorizar cada detalhe — dos blast beats insanos de Lombardo aos solos inspiradíssimos que surgem ao longo de todo o disco.

É o tipo de álbum que desafia rótulos. É thrash? É death? É groove? É tudo isso ao mesmo tempo, e isso é justamente o que o torna tão especial. Há uma urgência aqui, uma energia quase juvenil, misturada com a maturidade de quem já sobreviveu a várias fases turbulentas da indústria e da vida.

Se você achava que o Testament tinha dado seu melhor nos anos 80, esse álbum chega para provar que a banda não apenas se manteve relevante, mas conseguiu soar mais agressiva e afiada do que nunca. The Gathering é um manifesto de reinvenção sem concessões, um exemplo de como envelhecer no metal pode significar ficar ainda mais perigoso. Esse disco não é só para ser entendido — ele é para ser sentido!

4º- “DARK ROOTS OF EARTH” (2012)

Lançado em 27 de julho de 2012, Dark Roots Of Evil é o tipo de álbum que chega com um peso maior do que o musical: o peso da expectativa. Depois do ótimo The Formation of Damnation, o Testament estava sob os holofotes novamente, reverenciado como uma das bandas que melhor sobreviveram à passagem do tempo e à transformação do cenário do metal. E, para minha alegria — e a de muitos — eles não só corresponderam à expectativa como a superaram com folga.

Logo de cara, com “Rise Up”, já se sente que há algo grandioso se desenrolando. É quase uma convocação à guerra, com um refrão marcante e riffs cortantes que te fazem querer levantar da cadeira e quebrar tudo ao redor. Chuck Billy está em uma forma assustadora — alternando vocais limpos poderosos e guturais avassaladores com uma naturalidade que poucos conseguem alcançar. É impressionante como ele soa ainda mais agressivo, sem perder a clareza nem o carisma vocal que sempre teve.

A produção de Andy Sneap dá o brilho necessário para que cada instrumento encontre seu espaço sem perder a densidade. O som é encorpado, moderno, mas sem cair na armadilha da super compressão digital que engessa tantos álbuns contemporâneos. Eric Peterson segue como o arquiteto sombrio da banda, tecendo riffs intrincados, atmosferas densas e estruturas musicais que oscilam entre o thrash tradicional e o metal moderno com maestria.

Faixas como “Native Blood”, “True American Hate” e “A Day in the Death” mostram uma banda em plena forma — agressiva, coesa, criativa. “Native Blood”, em especial, carrega uma carga lírica intensa, abordando a herança indígena de Chuck Billy com orgulho e fúria, e se tornou um dos hinos mais poderosos do Testament nos palcos. Já “Cold Embrace” aposta em uma pegada mais melódica e atmosférica, quase uma power ballad sombria, que mostra o alcance emocional e musical da banda.

Basicamente, esse trabalho é uma aula de como se manter relevante sem perder a essência. Dark Roots of Earth é um daqueles trabalhos em que dá pra sentir a banda confortável com sua identidade, mas ainda desafiando a si mesma. Não há sinal de acomodação aqui. Pelo contrário — há um senso de urgência, de propósito, como se cada faixa tivesse algo importante a dizer.

O desempenho da formação da época, que trazia o retorno de Gene Hoglan na bateria, um monstro absoluto atrás do kit, só eleva o patamar do disco. Hoglan entrega uma performance brutal, técnica e inventiva, contribuindo diretamente para a força e a fluidez do álbum como um todo.

Nesse álbum, o Testament provou que não está apenas vivo — está mais afiado do que nunca. O disco não é apenas um ótimo lançamento dentro da discografia da banda, é também uma declaração de relevância num cenário em que muitas bandas veteranas apenas repetem fórmulas. Este álbum é apaixonado, forte e incrivelmente atual.

Se você acha que já viu de tudo no thrash, ou que veteranos não têm mais nada de novo a oferecer, esse disco vem para derrubar esses preconceitos na base da porrada. Um verdadeiro colosso do metal moderno, construído sobre raízes antigas — e sombrias.

5º- “THE LEGACY” (1987)

Lançado em 21 de abril de 1987, The Legacy é mais do que o primeiro álbum do Testament — é o tipo de estreia que já nasce com cara de clássico. Mesmo sendo o ponto de partida oficial da banda, ele carrega uma segurança, uma agressividade e uma personalidade tão bem definidas que fica difícil acreditar que estamos falando de um debut. É o tipo de disco que, logo nas primeiras faixas, deixa claro que o Testament não estava ali para ser apenas mais um nome na crescente cena thrash da Bay Area. Eles vieram para ficar — e para marcar.

Desde os primeiros segundos de “Over the Wall”, somos jogados em um redemoinho de riffs cortantes, vocais rasgados e um gana quase palpável. A guitarra de Alex Skolnick já demonstra aqui sua assinatura: solos cheios de técnica, mas com um feeling absurdo, que elevam cada música a um patamar além da pancadaria habitual. E Chuck Billy, que substituiu Steve “Zetro” Souza (que foi para o Exodus) pouco antes das gravações, soa como se sempre tivesse sido o dono do microfone — poderoso, agressivo, carismático, versátil.

O álbum é um verdadeiro desfile de hinos. “The Haunting”, “Burnt Offerings”, “Apocalyptic City”… cada faixa é construída com atenção aos detalhes, mudanças de andamento bem pensadas e uma dose de fúria que nunca soa artificial. A produção, mesmo com a crueza natural da época, consegue dar clareza aos instrumentos e valoriza a performance impecável da banda.

Muita gente costuma dizer que The Legacy é um dos debuts mais fortes da história do thrash — e eu concordo plenamente. Há algo nele que o diferencia de tantos outros lançamentos do período: uma maturidade precoce, uma noção exata de como equilibrar agressividade e musicalidade, peso e melodia, velocidade e groove. Nada soa jogado ou genérico.

A banda conseguiu, nesse álbum e de primeira, unir o melhor do thrash tradicional com uma dose de virtuosismo que poucos da cena tinham. E não é exagero. O entrosamento entre Skolnick e Eric Peterson nas guitarras é simplesmente insano, enquanto a cozinha de Greg Christian no baixo e Louie Clemente na bateria sustenta tudo com firmeza e criatividade.

Mas o que mais me chama atenção em The Legacy é como ele permanece impactante mesmo décadas depois. É o tipo de disco que não se esconde atrás da nostalgia. Ele se sustenta pela qualidade das composições, pelo brilho individual dos músicos e pela energia crua que transborda em cada segundo.

Se você quer entender por que o Testament é, para muitos, o verdadeiro quinto elemento do thrash metal clássico, esse é o disco para começar. The Legacy não é só o início da banda — é o começo de uma história escrita à base de riffs afiados, letras intensas e uma integridade que o tempo só reforçou. Esse álbum não tem só legado no nome — ele realmente construiu um.

6º- “SOULS OF BLACK” (1990)

Lançado em 9 de outubro de 1990, Souls Of Black é aquele tipo de disco que, à primeira ouvida, parece “simplesmente bom” — mas quanto mais você volta a ele, mais percebe que há muito mais sob a superfície. Muitos olham para esse álbum como uma ponte entre duas fases do Testament: a fúria mais crua dos primeiros trabalhos e a sofisticação técnica que viria com The Ritual e, depois, com The Gathering. E isso é verdade. Mas o que poucos percebem é o quanto Souls of Black tem identidade própria — uma atmosfera densa, introspectiva e carregada de crítica social, que o diferencia dentro da própria discografia da banda.

Logo na faixa-título, com seu riff arrastado e sombrio, já fica claro que o Testament estava apostando em algo diferente. A velocidade ainda está lá, como em “Face in the Sky” e “Falling Fast”, mas o peso agora vem acompanhado de um senso de melodia mais presente, de uma preocupação maior com as estruturas das músicas e com o impacto lírico. Chuck Billy entrega uma performance mais contida, mas ao mesmo tempo mais expressiva, variando entre tons reflexivos e agressivos de forma sutil e poderosa.

Alex Skolnick, como sempre, brilha. Os solos estão mais melódicos, mais “cantados”, quase sempre funcionando como uma extensão emocional da música, e não apenas como demonstrações técnicas. A dobradinha com Eric Peterson se mantém afiada, e a cozinha de Greg Christian (com seu baixo gritando da mesma forma que no álbum anterior) e Louie Clemente está especialmente coesa — menos caótica, mais sólida, como se todos estivessem focados em fazer um disco que soasse maduro, consciente, mas ainda assim visceral.

O álbum também marca um momento importante na história da banda: foi lançado em meio à “Clash of the Titans Tour”, ao lado de Megadeth, Slayer e Suicidal Tendencies. Ou seja, era um período em que o thrash estava em um dos seus ápices comerciais e artísticos — e o Testament precisava reafirmar seu espaço. Souls of Black veio como essa reafirmação, ainda que de forma mais introspectiva, quase filosófica.

As letras mostram isso. São temas que vão desde o caos da sociedade (“Malpractice”, “The Legacy”) até dilemas espirituais e existenciais, tudo envolto numa sonoridade mais cadenciada, mas ainda pulsante. É um disco mais sombrio, quase melancólico em certos momentos, mas que não perde o impacto nem a força do thrash. Ele exige mais do ouvinte — não por ser técnico demais, mas por sua densidade emocional. Ah, quer peso? Ok. “Seven Days Of May”, só para citar uma, meu Deus do céu, isso é um rolo compressor!!

Talvez Souls of Black não tenha a mesma aclamação imediata de The New Order ou Practice What You Preach, mas com o tempo, ele foi sendo reconhecido como peça fundamental no quebra-cabeça que é a trajetória do Testament. É aquele tipo de obra que cresce com o tempo, com as escutas repetidas, com a maturidade do ouvinte.

Se você nunca deu muita bola pra esse disco, ou se passou por ele rápido demais, recomendo revisitá-lo com calma. Há muito ali para absorver — tanto musical quanto emocionalmente. Souls of Black não é só um bom álbum de thrash metal, mas sim um álbum que soa como uma reflexão pesada e honesta sobre o mundo, sobre a alma humana… e sobre a própria essência do metal.

7º- “LOW” (1994)

Poucos álbuns representam tão bem uma guinada corajosa e brutal quanto Low, lançado em 13 de setembro de 1994. Em meio a uma década de transformações no cenário musical, onde o Thrash Metal lutava para sobreviver entre os escombros deixados pelo grunge e outras vertentes emergentes, a banda californiana fez o que poucos tiveram coragem: recomeçar com sangue nos olhos e riffs ainda mais pesados.

Desde a faixa-título, “Low”, já fica evidente que a proposta é outra. O groove é espesso, a afinação mais baixa traz um peso claustrofóbico e a voz de Chuck Billy surge mais agressiva, mais visceral. É como se ele estivesse exorcizando todos os demônios que assombraram a banda nos anos anteriores. Low marca também a estreia de James Murphy (ex-Death, ex-Obituary) nas guitarras, e sua contribuição é simplesmente monstruosa. Seus solos são técnicos, melódicos e violentos na medida certa, o que dá ao álbum uma profundidade emocional e instrumental que não se vê em qualquer disco da época.

A coesão entre brutalidade e melodia em todas suas músicas é digna de nota. Músicas como “Legions (In Hiding)” e “Hail Mary” equilibram a fúria dos riffs com passagens cadenciadas, quase atmosféricas. “Trail of Tears”, por exemplo, é um dos momentos mais emocionais da carreira do Testament — uma verdadeira montanha-russa sonora, que começa suave, melancólica, e explode em uma catarse catártica. Ali, Chuck canta com uma dor real, palpável.

É inevitável falar que Low é um dos discos mais subestimados do catálogo do Testament, e só lamento por quem o menospreza. Ele é um daqueles álbuns que crescem a cada audição. À primeira vista, pode parecer apenas mais uma investida na sonoridade pesada dos anos 90, mas, ao mergulhar mais fundo, percebe-se o quanto ele é recheado de nuances, variações e honestidade artística.

O trabalho de Greg Christian no baixo é notável, sustentando toda a pancadaria com linhas sólidas e criativas, enquanto John Tempesta (bateriasta que sucedeu Louie) injeta uma pegada moderna e precisa, deixando claro que o Testament estava mais vivo e inquieto do que nunca. A produção, encorpada e agressiva, ajuda a cristalizar essa nova fase da banda — que aqui começa a flertar com o Death Metal sem abandonar sua identidade thrash.

Low é cru, denso e desafiador. É um álbum que exige ouvidos atentos e coração aberto, porque ele quebra expectativas — tanto dos fãs da velha guarda quanto dos que estavam conhecendo a banda naquele momento. É um disco ousado do noventista, onde na época ninguém esperava algo parecido. É a prova de que o Testament nunca teve medo de evoluir, mesmo que isso significasse ir na contramão da maré. E, por isso mesmo, Low permanece como um marco corajoso e poderoso na discografia da banda.

8º- “TITANS OF CREATION” (2020)

O 13º álbum de estúdio do Testament, chegou ao mundo em 3 de abril de 2020 como uma verdadeira tempestade sonora — e não poderia ter vindo em momento mais simbólico. Enquanto o planeta vivia os horrores de uma pandemia, mergulhado em incertezas, medos e isolamento, o quinteto californiano respondeu da única forma que sabe: com música poderosa, brutal e catártica. O próprio vocalista Chuck Billy e o baixista Steve Di Giorgio contraíram a COVID-19, e ainda assim, mesmo com esse baque pessoal, entregaram um trabalho que não só é tecnicamente impecável, como também funciona como um antídoto emocional para os tempos sombrios. E isso, para mim, é o maior mérito da arte: ser capaz de nos resgatar, mesmo que por alguns minutos.

Desde o primeiro play, o início com “Children of the Next Level”, fica claro que não há concessões. O álbum é um verdadeiro soco na cara, calcado em riffs pesadíssimos, batidas aceleradas e vocais ferozes. A produção cristalina e encorpada, assinada por Juan Urteaga com mixagem de Andy Sneap, transforma a audição em uma experiência poderosa, onde cada detalhe pulsa com intensidade. É moderno, é agressivo, e ainda assim, respira a essência do Testament que os fãs amam desde os anos 80.

Impossível não fazer paralelos com Low (1994), aquele que foi realmente o divisor de águas na carreira da banda. Se lá o Testament iniciou uma jornada mais agressiva, com incursões ao Death Metal e uma estética mais crua, aqui eles parecem ter destilado tudo aquilo com mais precisão e maturidade. Vários momentos de Titans of Creation soam como herdeiros diretos do espírito de Low, tanto em estrutura quanto em clima. Faixas como “Symptoms”, por exemplo, evocam aquela vibe com vocais viscerais de Chuck beirando o gutural e riffs densos que criam uma atmosfera quase sufocante.

Eric Peterson, como sempre, é um caso à parte. O cara continua sendo uma usina de riffs. Seu trabalho aqui beira o absurdo de tão criativo — é como se ele estivesse permanentemente possuído por alguma entidade thrash demoníaca. O peso descomunal e a energia crua das guitarras são a espinha dorsal de todo o disco, sustentando desde as faixas mais diretas como “False Prophet” até as mais técnicas, como “Code of Hammurabi”. Além disso, Peterson empresta seus vocais diabólicos a músicas como “Night of the Witch” e “Curse of Osiris”, com uma pegada fortemente influenciada pelo seu projeto paralelo Dragonlord — o resultado é um contraste matador com os vocais de Chuck, que dá ao álbum um tom ainda mais sombrio e diversificado.

Gene Hoglan dispensa comentários — é simplesmente um monstro atrás da bateria. Seus grooves quebrados, viradas brutais e precisão técnica transformam cada faixa em um campo de batalha. E Steve Di Giorgio, com seu baixo fretless, entrega uma aula de musicalidade, especialmente em músicas como “City of Angels” e “Ishtar’s Gate”, onde seus arranjos flertam com o progressivo sem perder o peso característico.

Já Alex Skolnick, mesmo não estando em total evidência o tempo todo, brilha em todos os solos. Seus fraseados são melódicos, técnicos e cheios de feeling, e mesmo quando mais contidos, elevam cada composição a um nível superior.

Há, ainda, detalhes deliciosos para os ouvidos atentos: o riff de “Catacombs” — usado como introdução nos shows ao vivo da turnê — remete diretamente a “Legions (In Hiding)” de Low. “Dream Deceiver” tem um groove que me lembrou “He’s a Woman, She’s a Man” do Scorpions, mas claro, com um banho de sangue thrash. É um disco repleto de camadas, onde até referências mais sutis brilham.

Titans of Creation é uma declaração de força, relevância, ímpeto e criatividade. É um chute no estômago dos que ainda insistem em dizer que o gênero morreu ou estagnou. Com peso, melodia, técnica e alma, o Testament prova (mais uma vez) que ainda tem muito a dizer. E quando eles falam, ou melhor, quando eles tocam, a gente para pra ouvir e reverenciar— ou até mesmo ‘apanhar’ com gosto (risos).

9º- “THE FORMATION OF DAMNATION” (2008)

Lançado em 29 de abril de 2008, é um daqueles discos que têm gosto de vitória. Mais do que apenas o retorno triunfal do Testament após nove anos sem lançar material inédito, ele simboliza a ressurreição de uma banda que passou por tudo: doenças, mudanças de formação, um hiato que parecia interminável e o peso de um legado enorme nas costas. E ao invés de se acomodar ou tentar reviver o passado, o grupo escolheu renascer com sangue nos olhos, vontade de destruir tudo e mostrando que o tempo só lapidou ainda mais sua fúria.

Logo de cara, “For the Glory of” abre o álbum com uma introdução épica, quase cinematográfica, preparando o terreno para a explosão thrash que vem em “More Than Meets the Eye”. E que explosão! Riffs cortantes, bateria em velocidade máxima e um Chuck Billy absolutamente possuído. É impressionante como ele soa ainda mais poderoso aqui, alternando vocais limpos e rasgados com naturalidade e peso. É como se o tempo tivesse afinado ainda mais sua fúria.

Esse álbum marca o retorno de Alex Skolnick à guitarra solo, e, sinceramente, que falta ele fazia! Seus solos são como vinhos raros: refinados, intensos e absolutamente únicos. Cada frase melódica que ele despeja no meio do caos das músicas é uma aula de feeling e técnica. E claro, o mestre Eric Peterson continua sendo o motor rítmico com seus riffs violentos e certeiros — uma verdadeira parede de som que não dá trégua.

O título The Formation of Damnation não poderia ser mais adequado. A faixa-título, por exemplo, é um hino moderno do Thrash Metal. Ela resume bem o espírito do disco: velocidade, agressividade, peso, mas tudo com uma produção absurda de limpa e robusta, assinada por Andy Sneap, que conseguiu o equilíbrio perfeito entre a sujeira necessária do estilo e a clareza dos instrumentos. O som é cheio, moderno, mas sem perder aquela alma raivosa e tradicional do Testament de sempre.

Destaques não faltam: “Dangers of the Faithless” é uma pancada só, com uma pegada mais arrastada e sombria, lembrando os momentos mais pesados de Low. “The Evil Has Landed” é carregada de groove e sarcasmo lírico, com uma crítica bem sacada ao clima político e social da época. “Killing Season” é direta, sem rodeios, um tapa na cara em forma de música.

Na minha concepção de fã do estilo, esse álbum pode ser considerado como um dos melhores retornos de uma banda de Thrash dos anos 2000, pois a banda conseguiu aqui o que poucas bandas conseguem depois de tanto tempo fora de estúdio: soar fresco, atual, relevante e ainda assim inconfundivelmente fiel a sua essência.

Outro mérito gigante do disco é a formação. Ter Paul Bostaph (ex-Slayer) na bateria foi um acerto brutal. Sua pegada precisa, técnica e ao mesmo tempo animalesca dá ao álbum um peso extra. A sintonia entre ele e Greg Christian no baixo segura tudo com firmeza, deixando espaço para as guitarras brilharem e para Chuck soltar o verbo.

The Formation of Damnation é um daqueles álbuns que nos fazem lembrar por que amamos esse estilo. Ele reúne tudo que o Thrash tem de melhor — velocidade, raiva, protesto, riffs inspirados, vocais esmagadores — mas com a maturidade de quem já apanhou da vida, caiu, levantou e voltou mais forte. É Testament renascendo das cinzas como uma fênix em chamas, mais afiada e poderosa do que nunca. Um clássico moderno que pode figurar entre os grandes marcos da discografia da banda e do gênero como um todo, mas no meu essa posição é o suficiente.

10º- “THE RITUAL” (1992)

The Ritual, lançado em 15 de maio de 1992, é um daqueles discos que geram debate acalorado entre os fãs mais fervorosos do Testament. Uns o veem como um desvio do caminho mais agressivo trilhado até então, enquanto outros, como eu, enxergam ali uma banda explorando maturidade, melodias e novas nuances sem perder a identidade. Mesmo com algumas escolhas que podem ser questionadas — principalmente na produção —, o álbum carrega uma coleção de músicas excepcionais, com composições que mostram um Testament mais introspectivo, coeso e, ainda assim, poderoso.

Gravado durante um período de transição no cenário do metal — onde o grunge começava a engolir espaço nas rádios e o Thrash buscava se reinventar —, The Ritual mostra uma banda apostando mais em atmosferas densas e composições mais cadenciadas, sem aquela urgência que marcou álbuns como The New Order ou Practice What You Preach. E tudo bem, porque o que se ganha aqui é uma sofisticação rara dentro do gênero, com arranjos bem construídos e letras que se aprofundam em questões mais existenciais e espirituais.

É fato que a produção do disco limpa demais não colaborou. O som das guitarras, por exemplo, carece de peso. Falta aquele punch visceral, aquela mordida característica que sempre deu identidade ao Testament. A mixagem soa um pouco limpa demais, domesticada até, o que tira um pouco da força natural das composições. Com uma produção mais crua e agressiva, The Ritual teria ganhado muito mais impacto. Ainda assim, o que se ouve ali são músicas fortes, envolventes, e extremamente bem escritas.

“So Many Lies” é uma das minhas favoritas — começa quase suave, com uma introdução envolvente, e depois cresce com uma fúria controlada, mostrando o equilíbrio que o álbum busca entre peso e melodia. “Electric Crown” talvez seja o maior hit do disco e, com razão: é cativante, bem construída, com um riff que gruda e vocais cheios de atitude. É praticamente um hino daquela fase mais acessível do Testament, com um pé fincado no Hard Rock, mas sem perder a alma thrash. Já “The Sermon” é uma verdadeira aula de como criar uma melodia e um riff foras da curva. A progressão de acordes, o tom grave e soturno de Chuck Billy, a letra carregada de crítica e espiritualidade sombria — tudo ali funciona como uma prece sombria, como se estivéssemos mesmo diante de um ritual.

Mesmo com os problemas técnicos da produção, o trabalho de Alex Skolnick é brilhante. Seus solos nesse álbum são, talvez, os mais inspirados de toda sua carreira com a banda. Eles têm alma, têm melodia, mas não deixam de ser técnicos. Já Eric Peterson continua sendo o cérebro rítmico por trás de tudo, mesmo que aqui seu peso costumeiro tenha sido parcialmente diluído pela mixagem. Greg Christian no baixo aparece de forma discreta, mas sólida, e Louie Clemente, em sua última aparição em estúdio com o Testament, entrega uma performance competente, ainda que sem a intensidade de seus trabalhos anteriores.

Ao longo dos anos, The Ritual foi ganhando mais respeito — mesmo daqueles que torceram o nariz na época. Muitos passaram a vê-lo como uma obra em cima do muro, onde o Testament mostrou coragem para desacelerar e experimentar, mesmo que isso significasse nadar contra a maré thrash da época. É um disco de nuances, de camadas, que exige um pouco mais de paciência do ouvinte, mas que recompensa quem se entrega à proposta.

Apesar de não ser o álbum mais pesado ou agressivo da banda, The Ritual é uma peça essencial dentro da discografia do Testament, pois mostra o fim de uma era de ouro e o último disco com a formação clássica. Se tivesse sido embalado por uma produção à altura de seu conteúdo, talvez hoje fosse lembrado como um dos grandes clássicos da era 90 do metal. Ainda assim, com suas qualidades e suas falhas, é um disco que merece ser ouvido com atenção e respeito — porque ali há emoção e qualidade, há composições de primeira linha e, sobretudo, verdade. Mas, de novo, a produção é muito fraca e fico imaginando como seria se tivesse caído nas mãos de um Andy Sneap…

11º- “BROTHERHOOD OF THE SNAKE” (2016)

Brotherhood of the Snake, lançado 28 de outubro de 2016, chegou cercado de expectativa — afinal, seu antecessor, Dark Roots of Earth (2012), havia elevado o nome do Testament a um novo patamar de relevância e impacto dentro do Thrash Metal moderno. Com uma formação absurda (Chuck Billy, Eric Peterson, Alex Skolnick, Steve Di Giorgio e Gene Hoglan), era natural que os fãs esperassem uma obra ainda mais monumental. Mas aí começaram a surgir declarações preocupantes em entrevistas, especialmente de Eric Peterson e Chuck Billy, revelando que o processo de composição foi conturbado, cheio de desentendimentos, frustrações e até certa negatividade. Peterson chegou a afirmar que praticamente todo o disco foi composto por ele, o que, para muitos — inclusive pra mim —, soou como um possível desequilíbrio criativo, já que estamos falando de uma banda com um time de músicos brilhantes, todos com bagagem e capacidade de sobra para contribuir em alto nível.

Com isso, confesso que a ansiedade deu lugar à cautela. E, de fato, nas primeiras audições, Brotherhood of the Snake soa diferente. É um disco direto, cru, veloz e com foco total na agressividade — mas sem aquele brilho técnico e criativo que marcou os álbuns anteriores. A sensação predominante é que o álbum entrega uma satisfação imediata, porém sem deixar um gosto duradouro. Não há aqui faixas que se destaquem como “clássicos instantâneos”, nem refrões arrebatadores ou arranjos mais sofisticados. O peso está lá, a pancadaria está lá — mas falta aquele “algo a mais” que nos fazia apertar o repeat sem pensar duas vezes nos tempos de The Gathering ou Dark Roots Of Earth.

Tecnicamente, o disco impressiona. Gene Hoglan continua sendo uma verdadeira britadeira humana, mesmo que aqui soe um pouco mais “manso” — não menos veloz, mas com menos variações criativas. Steve Di Giorgio, mestre absoluto do baixo fretless que voltava à banda, tem momentos em que aparece com clareza e força, como em “Neptune’s Spear” e “Canna Business”, mas ainda assim não brilha como poderia. Já Alex Skolnick, que geralmente injeta melodias e solos memoráveis nos discos anterioes, está mais contido, quase apagado em alguns momentos — o que é uma pena, pois seus solos sempre foram uma assinatura melódica importante na sonoridade da banda. Chuck Billy, claro, segue monstruoso, alternando vocais limpos e guturais como poucos conseguem fazer, mas também soa um pouco mais comedido em comparação a álbuns anteriores.

Musicalmente, o álbum aposta na simplicidade. São dez faixas retas, pesadas, com riffs secos e estruturas que priorizam o impacto direto. E sim, ele funciona dentro dessa proposta, porém não brilha. Faixas como “The Pale King”, com suas palhetadas nervosas e cadência certeira, são ótimos exemplos disso. As já citadas “Neptune’s Spear” é outro destaque, assim como a divertida e irônica “Canna Business” — uma ode thrash à erva maldita — e “The Number Game”, que encerra o disco com agressividade e energia.

A produção moderna ajuda a manter tudo coeso e bem amarrado, mas ainda assim falta aquele “punch” nos arranjos, algo que torne cada faixa uma experiência marcante. Em alguns momentos, me peguei pensando que, se The Ritual tivesse tido uma produção mais encorpada, talvez soasse algo parecido com Brotherhood of the Snake: um disco pesado, sóbrio, com bons riffs e momentos interessantes, mas sem aquela chama criativa acesa o tempo todo.

É um álbum honesto, intenso e brutalmente técnico? Sim! Mas, depois de uma crescente artística que vinha desde The Gathering, passando por The Formation of Damnation e Dark Roots of Earth, a expectativa era de algo mais ousado, mais memorável, mais “classudo”.

Ainda assim, é impossível não tirar o chapéu para o Testament. Mesmo em um trabalho que não atinge o nível de seus melhores momentos, a banda mostra um nível técnico altíssimo, coesão e entrega total. E isso já coloca Brotherhood of the Snake acima da média de muitos lançamentos contemporâneos. Não é o disco que vai redefinir o Thrash Metal, nem te fará lembrar de alguma músicas específica — mas é um lembrete poderoso de que o Testament segue como uma das bandas mais respeitáveis e consistentes do gênero.

12º- “DEMONIC” (1997)

Lançado em 9 de junho de 1997, Demonic é um dos trabalhos mais controversos e brutais do Testament — e, ao mesmo tempo, um dos mais discutíveis. Uns odeiam, outros amam. Conhecido por marcar uma das fases mais pesadas e obscuras do grupo, o disco representa uma guinada significativa na sonoridade da banda, incorporando elementos do Death Metal e apostando em uma atmosfera densa, sombria e sufocante. Após uma sequência de álbuns mais técnicos e melódicos, como The Ritual, aqui a banda aprofunda ainda mais a abordagem agressiva que já vinha sendo experimentada em Low, o álbum anterior.

A proposta era tão extrema que Demonic, originalmente, nem foi concebido para ser um trabalho do Testament, mas sim um projeto paralelo de Chuck Billy e Eric Peterson voltado ao Death Metal. No fim das contas, optaram por lançá-lo como Testament, o que explica o choque de muitos fãs da velha guarda. É inegável que o disco divide opiniões até hoje — e isso não é por acaso. Ele rompe drasticamente com o tradicional Thrash Bay Area da banda, mergulhando em vocais guturais carregados, riffs arrastados, letras ocultistas e uma produção que privilegia o peso brutal em vez da clareza.

Chuck Billy entrega aqui uma de suas performances mais intensas, e em muitos casos estranha (não estou falando ruim, ok?). Seu vocal, tradicionalmente mais próximo do Thrash, adota um gutural encorpado e profundamente influenciado pelo Death Metal, que reforça a brutalidade das composições. A temática lírica também acompanha esse mergulho nas sombras, abordando conflitos espirituais, forças demoníacas e dilemas internos de forma quase ritualística. Faixas como “Demonic Refusal”, “The Burning Times” e “Hatred’s Rise” são exemplos perfeitos desse novo direcionamento: opressivas, cadenciadas, cheias de variações de tempo e com uma aura sufocante que domina o álbum do início ao fim.

A formação que gravou o disco contou com Chuck Billy (vocais), Eric Peterson (guitarras) e Derrick Ramirez (baixo), com participações especiais importantes. Gene Hoglan (ex-Dark Angel, Death, futuro Dethklok) assumiu as baquetas e deu ao álbum uma dose absurda de técnica, precisão e força. Sua atuação é um dos grandes trunfos do disco. Glen Alvelais (ex-Forbidden) também aparece como guitarrista solo em algumas faixas, agregando ainda mais peso ao conjunto.

A produção, a cargo da própria banda ao lado de Del James e Eric Peterson, é suja, opressora e propositalmente distante da clareza que se esperaria de um álbum tradicional. Gravado no Driftwood Studios e lançado pela Burnt Offerings — um selo independente criado pelo próprio Testament justamente para garantir liberdade criativa — o disco exala independência e autenticidade. Não é uma obra feita para agradar, mas sim para ousar, se reinventar e expressar um estado de espírito, desafiando seu próprio público.

Não é fácil, não é acessível, mas é honesto. Para quem aprecia sonoridades mais extremas dentro do Metal, o álbum representa uma fase realmente ousada, corajosa e brutal de uma das maiores bandas do gênero. Goste ou não, ele prova que o Testament não é refém de fórmula — e isso, por si só, já merece respeito.

Mas agora queremos saber de vocês: Esse ranking do melhor para o “menos favorito” está de acordo? Concordam? Discordam? O que mudariam?

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Somente álbuns de estúdio! Regravações, Eps, singles e coletâneas não foram considerados aqui.

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