Dimmu Borgir – “Death Cult Armageddon” (2003)
(Relançamento 2025)
Nuclear Blast Records | Shinigami Records
#SymphonicBlackMetal
Para fãs de: Cradle of Filth, Graveworm, Opera IX
Texto por Matheus “Mu” Silva
Nota: 9,5
Dando sequência à série de relançamentos, a Shinigami Records traz de volta um clássico absoluto de uma das bandas mais expressivas da cena norueguesa de metal extremo: Death Cult Armageddon, do Dimmu Borgir. Lançado originalmente em 2003, o álbum é daqueles que dividem opiniões — e por isso mesmo se tornou um marco. Ame ou odeie, ele marcou época. Pra mim, revisitar esse disco é um prazer quase nostálgico, afinal, foi o primeiro que realmente me fisgou no universo do Metal. Minha primeira camiseta de banda foi dele, aos 15 anos. Tá certo, tecnicamente a primeira foi uma do Nightwish que ganhei de presente, mas nem conta — nunca usei e quem me deu mal sabia do que se tratava (risos).
Death Cult Armageddon dá continuidade ao monumental Puritanical Euphoric Misanthropia (2001), e consolida a formação considerada por muitos como a melhor da história da banda: Shagrath (vocal), Silenoz e Galder (guitarras), ICS Vortex (baixo e vocais limpos), Mustis (teclados e orquestrações) e o lendário Nicholas Barker (bateria). Essa formação protagonizou o período mais criativo e bem-sucedido do Dimmu, que ainda incluiria a regravação de Stormblåst (2005) e o épico In Sorte Diaboli (2007) — esses dois já com Hellhammer (Mayhem) na bateria. Depois disso, a banda basicamente virou um projeto de Shagrath e Silenoz, e nunca mais foi a mesma. Eu mesmo me recuso a ouvir os álbuns que vieram depois — mas essa é outra conversa.
Antes de apertar o play, é importante entender: o Black Metal como estilo já estava praticamente ausente nesse ponto da carreira do Dimmu. O último lampejo foi no Spiritual Black Dimensions (1999). A partir dali, a banda desenvolveu um som próprio — brutal, acessível, grandioso — e isso afastou os puristas, mas atraiu uma legião ainda maior de fãs.
Logo na abertura com “Allegiance”, somos transportados no tempo: o dedilhado seco, o gutural de Shagrath, o blast beat de Barker — tudo já estabelece a grandiosidade do disco. Cada instrumento tem seu espaço, apesar das orquestrações dominantes de Mustis. O lado sinfônico está ainda mais escancarado, e isso fica ainda mais evidente na sequência com a icônica “Progenies of the Great Apocalypse”. Com um andamento marcante, peso absurdo e a performance vocal inesquecível de ICS Vortex no meio da faixa, ela se tornou um hino. Ganhou, inclusive, o primeiro videoclipe realmente profissional da banda, e foi a escolha perfeita para isso.
“Leper Among Us” é um dos momentos mais brilhantes do álbum. Barker brilha com sua mistura de groove e brutalidade, dialogando perfeitamente com os riffs de Silenoz e Galder. E aquele trecho com a fala feminina “Satan was there. Satan was real to them. Satan called himself a God” ainda arrepia. “Vredesbyrd”, primeira faixa em norueguês em um bom tempo, soa mais crua, com um senso de urgência contagiante e menos dependente da orquestração — outro clássico do disco.
“For the World to Dictate Our Death” mistura discursos autoritários com uma letra carregada de ódio contra a humanidade. E então vem a sombria e épica “Blood Hunger Doctrine”, que desacelera o ritmo, apostando em atmosferas carregadas, coros e peso. A Orquestra Filarmônica de Praga, aliás, faz um trabalho impressionante em todo o disco, elevando a experiência a outro nível.
Na segunda metade, “Allehelgens Død I Helveds Rike” é uma das mais brutais, com mais vocais de Vortex — que aqui não são tão explosivos, mas ainda assim oferecem um contraste essencial. Ah, como essa presença faz falta! “Cataclysm Children” justifica o nome: um verdadeiro cataclisma sonoro com velocidade absurda e um solo belíssimo de teclado. “Eradication Instincts Defined”, uma das mais longas, soa como uma trilha sonora épica de guerra medieval, com introdução cinematográfica. A mesma atmosfera se mantém em “Unorthodox Manifesto”, que com quase nove minutos, oferece um passeio sonoro por territórios de batalha, cheio de variações e dinâmicas — um dos pontos altos do disco.
Encerrando, “Heavenly Perverse” talvez soe como “mais do mesmo” em relação ao que foi apresentado, mas entrega um fechamento confortável, com um ganho de peso em sua segunda metade.
Death Cult Armageddon é uma obra-prima. Vinte e dois anos depois de seu lançamento, continua tão impactante quanto na época. Como mencionei, não é um disco de Black Metal, pelo menos não da forma tradicional. E, sejamos justos, talvez o Dimmu nunca tenha sido exatamente isso. Mas é inegável que a musicalidade e a proposta dessa fase são únicas. Tanto este álbum quanto o anterior formam uma espécie de duologia perfeita, e representam o auge criativo da banda.
Obrigatório para qualquer amante de música extrema — e não apenas para nichos específicos — esse disco vale cada segundo. Só não é perfeito porque ICS Vortex aparece pouco: apenas duas músicas com seus vocais. Em pelo menos quatro outras faixas, alguns trechos com sua voz teriam elevado ainda mais o resultado final.





