
Banda principal: Scott Stapp
Local: Circo Voador, Rio de Janeiro/RJ
Data: 16/11/2019
Texto por Marcelo Vieira
Fotos por Daniel Croce
No início dos anos 2000, o mundo ouviu tanto, mas tanto, o Creed que não demorou até que ninguém mais aguentasse ouvir Creed. A rejeição, porém, não reduz a importância ou os méritos da banda que revelou ao mundo o vocalista Scott Stapp, de volta ao Brasil para promover seu novo trabalho, o ótimo “The Space Between the Shadows” (2019), e revisitar os hits do passado, que quase duas décadas mais tarde, seguem na boca e no subconsciente do público que praticamente lotou o Circo Voador na etapa carioca do giro.
O Scott que sobe ao palco não mais ostenta as madeixas nem é escravo dos vícios de outrora. “Limpo” e de cabelo curto, sua entrega é total: a voz permanece a mesma, assim como a importância do seu discurso, sobretudo numa realidade em que a esperança é artigo que “tem, mas acabou”. Acompanhado do mesmo pessoal que gravou “Space” — os guitarristas Ben Flanders e Yiannis Papadopoulos, o baixista Sammy Hudson e o baterista Dango Cellan —, Stapp recebe de braços (bem) abertos a dupla missão de entreter e iluminar. Não que ele tenha por obrigação ser um pastor ou coisa que o valha, mas todo mundo que já comeu o pão que o diabo amassou e sobreviveu para contar é inspirador por excelência.
“What seemed so heavy handed made me the man I am today”, canta em “Name”, uma das seis de “Space” tocadas no repertório cujo cuidado de privilegiar cada um dos quatro discos lançados pelo Creed — até o pouco falado “Full Circle” deu as caras com “Overcome” — não se estendeu aos trabalhos solo anteriores, “The Great Divide” (2005) e “Proof of Life” (2013). Nem o primeiro lugar na Billboard na época garantiu a “Slow Suicide”, de “Proof”, uma vaga. Não que alguém tenha dado pela sua falta de qualquer maneira.
Sendo assim, a largada é dada com a pesada “Bullets”, que data do tempo em que Fred Durst, do Limp Bizkit, esculachava Scott e o Creed publicamente. “At least look at me when you shoot a bullet through my head”, canta, mandando seu recado ao detrator: “Se for falar mal de mim, fale na minha cara”. Os dois nunca chegaram às vias de fato, mas num eventual embate com vinte anos de atraso, eu caso dez pratas em Scott. Mais adiante, a hiper-pessoal “My Own Prison” é introduzida como “aquela que me apresentou ao mundo”, e a furiosa “What If”, que fez parte da trilha sonora de Pânico 3 — todos aí se lembram do infame videoclipe em que os integrantes do Creed são mortos um a um pelo Ghostface? —, consiste num senhor tratado sobre se manter de pé: “The more you hold us down the more we press on”.
E já que o mote é aguentar as porradas que a vida dá no estilo Rocky Balboa, as novas “Survivor” e “Purpose for Pain” — já a campeã de audições de Scott no Spotify — tratam do tema com a perícia de um Stallone. Musicalmente, também, revelam um artista que não se acomodou ao passado que lhe rendeu recorde atrás de recorde; da inquietação tem origem um som atualizado e nem por isso refém das fórmulas do sucesso de hoje em dia. Pasteurizado? No CD, até que sim. Ao vivo, o pau come. Se “Face of the Sun” traz um riff que deixaria Tom Morello orgulhoso, “Gone Too Soon”, tributo àqueles que partiram cedo demais e a surpresa do bis, tem sangue de U2 na veia.
Rob Halford e Corey Taylor ficariam loucos se vissem a quantidade de celulares, muitos com a lanterna ligada, a postos em “With Arms Wide Open”, afinal, toda uma geração no Brasil conheceu o Creed graças a essa música, que embalava o romance de Pedro (Henri Castelli) e Júlia (Juliana Silveira) na 9ª temporada de Malhação. E daí que a letra fala sobre os desafios da paternidade? Tem gente que dança coladinho ao som de “Wind of Change” (Scorpions) e acha “Every Breath You Take” do The Police a canção de amor definitiva… Foi bonito? Foi. Foi intenso? Foi. Ainda na raia da novelinha global, “Inside Us All” comprova que o jabá na época de “Human Clay” (1999) era fortíssimo tanto aqui quanto lá fora.
Após as cores da bandeira do Brasil fornecerem o panorama para “Higher”, penúltima do set regulamentar, banquinhos à meia-luz anunciam o bis, que traz a trinca dos singles mais bem-sucedidos de “Weathered” (2001): “Don’t Stop Dancing” (acústica, mas tá valendo, ainda mais com o público fazendo os backing vocals femininos originalmente gravados pela irmã de Scott, Aimee, colocando um sorriso sem tamanho no rosto do vocalista), “One Last Breath” e “My Sacrifice”; todas cantadas a plenos pulmões num inglês não necessariamente correto. Aos que aplaudiam entusiasmados, uma chuva de palhetas, baquetas e até mesmo toalhinhas suadas. Quem não conseguiu um souvenir gratuito tinha ainda a opção de pagar por cópias autografadas de “Space” no estande do merchandising… ou comprar camisetas que “la garantía soy yo” do lado de fora do Circo.
O Metal Na Lata agradece à assessoria de imprensa do Circo Voador pelo credenciamento e pela parceria.
Setlist Scott Stapp:
Bullets (Creed)
World I Used to Know
My Own Prison (Creed)
Face of the Sun
Overcome (Creed)
Inside Us All (Creed)
What If (Creed)
Name
Survivor
With Arms Wide Open (Creed)
Higher (Creed)
Purpose for Pain
Don’t Stop Dancing (Creed)
Gone Too Soon
One Last Breath (Creed)
My Sacrifice (Creed)






























