Scott Weiland – “Não Estou Morto Nem À Venda” (Livro)
Título original: Not Dead & Not for Sale: A Memoir
Autor: Scott Weiland, com David Ritz
Editora: Scribner (EUA) | Belas Letras (Brasil)
Tradução (edição brasileira): Marcelo Vieira
Ano de publicação original: 2011 (EUA) | 2023 (Brasil)
Número de páginas: 256 páginas
Texto por Johnny Z.
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Ler a autobiografia de Scott Weiland é como encarar um espelho trincado da cena rock dos anos 90. Fragmentado, sincero, direto e por vezes brutal, Não Estou Morto Nem à Venda é uma obra que fala mais sobre o homem por trás da voz inquestionavelmente potente e impactante do que sobre o vocalista icônico de duas das bandas mais marcantes daquela geração: o Stone Temple Pilots e o Velvet Revolver (sem contar sua carreira solo meio apagada).
Weiland não tenta criar um retrato idealizado de si mesmo — pelo contrário. Ele nos guia por sua vida com uma crueza que incomoda, como se não estivesse interessado em ganhar simpatia ou indulgência. Desde os traumas da infância, como o abuso sexual sofrido ainda garoto, até o mergulho fundo no universo da dependência química, o livro é uma catarse em forma de poesia desconexa. Ele despeja suas dores, suas recaídas e contradições sem floreios. E isso, em vez de afastar, aproxima, mesmo que de uma forma muitas vezes perturbadora.
A narrativa é intercalada por fotos pessoais, trechos de letras e uma estrutura que muitas vezes parece mais um diário sincopado do que uma biografia tradicional. Às vezes falta profundidade em alguns períodos da carreira — há momentos que eu gostaria que ele tivesse explorado mais, como a turbulência com os membros do Stone Temple Pilots ou os bastidores da formação do Velvet Revolver —, mas o livro não parece se propor a isso. Ele não quer ser um registro cronológico exato, e talvez aí seja até um pouco confuso. Quer ser uma confissão.
E como confissão, Não Estou Morto Nem à Venda acerta em cheio. É possível sentir a fragilidade de Weiland até mesmo quando ele fala sobre conquistas e momentos de glória. Nada parece glamorizado — nem a fama, nem a música, nem os relacionamentos. A impressão que fica é a de um artista talentoso tentando sobreviver em meio a uma tempestade constante dentro de si mesmo.
Se por um lado o livro peca em cronologia e organização da história, deixando pontas soltas e trechos que carecem de mais contexto, por outro ele compensa com emoção genuína. A escrita tem poesia, tem dor e tem a sensação constante de que estamos lendo as palavras de alguém que já viveu mais do que deveria e que carrega isso no corpo e na alma.
Para quem viveu os anos 90 embalado por “Plush”, “Interstate Love Song” ou “Fall to Pieces”, essa leitura é obrigatória. Não só para conhecer Scott Weiland — mas para entender um pouco mais do preço que se paga quando o talento encontra o caos, e quando a música se torna tanto salvação quanto condenação.
No fim, o livro carrega exatamente o que o título sugere: uma luta contínua entre estar morto por dentro e ainda assim tentar não se vender, não se perder por completo. E mesmo que ele tenha partido cedo demais, o relato que deixou é um lembrete potente de que grandes vozes vêm, muitas vezes, das feridas mais profundas.
Agradecimentos a Editora Belas Letras pelo parceria e respeito com nosso trabalho.





