Sepultura: A “minha” banda (Por Johnny Z.)

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Sepultura​: A “minha” banda

Texto por Johnny Z.​
Fotos divulgação

Esse texto não trata da história da banda, pois já o fiz quando escrevia para a revista Roadie Crew (ver mais abaixo). Em vez disso, é um depoimento honesto de alguém que cresceu junto com ela.

Era 1987 quando ouvi o recém-lançado álbum “Schizophrenia” pela primeira vez, dado por um velho amigo da rua onde eu morava. Eu mal tinha descoberto o Rock no ano anterior, mas, após alguma insistência desse amigo, acabei ouvindo o disco. Tinha apenas dez anos, mal sabia limpar a bunda direito, e lembro-me bem de estar “morrendo de medo”, pensando que poderia ser algo do “mal” (risos).

Naquela época, esses pensamentos ainda existiam entre os mais jovens, e muitos adultos mais velhos os propagavam como se fossem verdadeiros, mantendo uma mentalidade retrógrada como paradigma inquebrável. Meus pais nunca foram contra, então eu me sentia bem escutando o que gostava. No entanto, a sociedade ao nosso redor discriminava, achando que nos tornaríamos vagabundos, bêbados e delinquentes. Hoje vejo filhos dessas pessoas exatamente ou até piores, e nem gostam de Rock/Metal. Que coisa, não é?

Voltando ao “Schizophrenia”, os riffs de “Escape To The Void” e “To The Wall” grudaram na minha cabeça, deixando-me apaixonado pela banda. Fui atrás de qualquer material que pudesse conseguir.

Antes de “Schizophrenia”, tínhamos os toscos (sim, aceitem que dói menos) “Morbid Visions” (1986) e o “Bestial Devastation (EP)” (1985). Ao conseguir uma cópia mal e porcamente gravada de “Morbid Visions” numa fita cassete tão velha quanto o dono da quitanda da esquina (sim, existia isso naquela época!), achei muito ruim. Era uma verdadeira tosqueira que não me agradou em nada, não apenas pela qualidade da gravação, mas pela sonoridade. Eu só tinha dez anos, e termos como Black Metal, Death Metal e afins eu nem imaginava que existiam. Era tudo “rock pauleira” (risos).

Com todo respeito ao Black Metal e sonoridades mais sujas, esse tipo de som nunca me agradou. Mas ao ouvir “Schizophrenia”, também cópia da cópia numa fita cassete, percebi que estava diferente, não era aquela “tortura” para meus ouvidos logo nos primeiros acordes. Não conseguia acreditar que era a mesma banda, e aquilo saltou aos meus ouvidos.

Aquela cópia mequetrefe foi para o lixo, pois fui atrás do disco original e o encontrei à venda numa loja de discos no meu bairro. Não era barato, óbvio, mas economizei o dinheiro do lanche da escola por semanas para conseguir essa belezinha.

Dali em diante, fui curtindo o “Schizophrenia” cada vez mais. Acho que, se bobear, de tanto que o ouvi, ainda o escuto na cabeça mesmo sem colocar o álbum para tocar (risos). Aquilo realmente mudou minha vida dentro do Rock/Metal para um lado mais “pesado”, juntamente com o “Master Of Puppets” (Metallica) e “Somewhere In Time” (Iron Maiden) no ano anterior, onde tudo começou de verdade para mim.

O tempo passou, cresci, amadureci meu gosto pelo Metal (agora já falava Metal e não mais Rock), e muitas bandas me foram apresentadas. Foi então que, nas lojas, apareceu “Beneath The Remains” (1989). Achar discos de Metal em lojas era quase impossível, mas graças à Woodstock, no Vale do Anhangabaú/SP, consegui.

Aquilo simplesmente mudou ainda mais a minha vida, e para melhor! Era o som que eu estava procurando… era a “MINHA” BANDA!

O salto que deram em relação a tudo que tinham feito antes foi algo elevado a níveis estratosféricos. Que som! Que banda! Que atitude! Que videoclipe… ESCROTO no antigo programa ClipTrip da TV Gazeta (risos). Escroto, mas simplesmente alucinante! Eram “os caras” para mim, e eu tinha certeza que um dia seriam grandes… e foram!

Caçar informações, matérias e revistas era uma tarefa árdua, mas o que eu conseguia valia como ouro.

O nome “SEPULTURA” já começava a pipocar pelos cantos, mas a consagração veio com o Rock In Rio de 1991, que infelizmente não pude conferir pessoalmente. A banda estava prestes a lançar seu novo álbum, “Arise”, e para comemorar a passagem pelo festival acabou soltando uma versão do disco mais crua, sem mixagem e masterização. Para conseguir aquilo foi tão difícil quanto tirar leite de pedra. Um amigo do primo do vizinho do tio do jornaleiro da esquina tinha!!! Várias cópias foram feitas daquele disco, e eu tinha que conseguir uma. E consegui! Hoje, como colecionador ferrenho da banda, tenho esse disco original.

“Arise” foi o “buummm” que faltava, e a banda caiu no gosto popular não só brasileiro como também mundial! O videoclipe para “Orgasmatron”, feito pela MTV Brasil, era um mantra para mim! Eu chegava a gravá-lo várias vezes até conseguir a gravação ideal por conta da qualidade de imagem horrível que tínhamos na época ou algum corte abrupto que o programa fazia. Foi uma loucura!

A “minha” banda era, também, do mundo!

Foram muitos shows assistidos, e me lembro de detalhes de cada um deles, CDs comprados (sim, já estávamos na fase do CD graças a Deus). Participei de muitos programas de TV onde a banda tocou ao vivo, eventos e etc. Ou seja, uma verdadeira peregrinação.

A minha velha e podre fitinha VHS “Live In Barcelona”, gravada da MTV Brasil, graças ao Fúria Metal de Gastão Moreira que chegou a passar na íntegra em sua programação, foi tão assistida que nem ela aguentou, acabou enrolando toda no cabeçote do vídeo cassete. Foi uma tristeza, mas com o tempo consegui versões oficiais e isso foi resolvido.

1991 e 1992 foram anos esplêndidos para a banda, levando-a a lugares nunca antes imaginados para uma banda brasileira, mas ainda tinha muita coisa por vir. Um deles foi o show na Praça Charles Miller, onde teve muito tumulto, briga com skinheads e, infelizmente, mortes. Acabei presenciando cenas dantescas e horrorosas naquele dia lá no meio, que acabei não contando aos meus pais pois senão, provavelmente, me proibiriam de ir a outros eventos. Mesmo com um som bem meia boca, não por culpa deles, foi uma avalanche, como de costume, no palco e fora dele! Nem os caras da banda conseguiam entender o grau de sucesso que tinham alcançado!

“Chaos A.D.” foi lançado em 1993 e, algumas semanas antes, o programa Backstage de Vitão Bonesso apresentou-o na íntegra na rádio e, logicamente, o gravei mesmo com todas as vinhetas atrapalhando.

Ouvia aquela gravação todo o santo dia! Era a “minha” banda no ápice! Detonando tudo!

Saindo o CD foi um estouro! Em termos de comparação, “Refuse/Resist”, era para mim como um Pai Nosso para os religiosos, diariamente a executava muitas e muitas vezes no meu CD player (iPod – ainda bem – ainda não existia).

Qualquer coisa que eu via o nome Sepultura eu comprava, recortava, guardava e colecionava. Qualquer coisa que era lançada eu comprava compulsivamente, como vinis, fitas, cds, singles, promos, CDs japoneses, versões limitadas, picture discs e trocentas quinquilharias com muita dificuldade, pois era tudo dificílimo de se conseguir já que não existia internet, eBay, nem nada. Mas, eu fazia o impossível para conseguir.

Sepultura… a “minha” banda do coração!

Na escola, eu peguei o blusão do uniforme, virei-o do avesso e no meio de uma aula “deliciosa” de história, fiz o “S” (logotipo da banda) idêntico nas costas e pintei com canetinha! Ficou perfeito! Usava-o sempre do avesso, assim se alguma freira idiota (sim, meu colégio era de freira) me chamasse a atenção eu apenas o virava do lado correto e não perdia a minha “obra de arte”.

Ninguém tirava a “minha” banda de mim! Ouvia toda hora “Manifest”, “Refuse/Resist”, “Territory”, “Slave New World”, praticamente o disco todo no repeat, dias e dias a fio e sem pausa!

Junto com o Iron Maiden, Black Sabbath e o Metallica, o Sepultura me fez ser o que sou hoje em termos musicais.

Shows arrasadores como, por exemplo, um feito no antigo Olympia, em São Paulo/SP, que tinha tanta gente que mal dava para se mexer lá dentro, jamais sairá da minha lembrança. Foi um dos shows mais violentos que vi na vida até hoje. Aquilo parecia um abatedouro humano.

Quanta saudade! “Minha” banda tinha se tornado gigante e abriu portas para o mundo entrar no Brasil e vice-versa.

“Minha” banda se tornou ORGULHO NACIONAL!

A expectativa de um novo disco era enorme. Revistas sobre Heavy Metal já eram mais fáceis de se conseguir. Rock Brigade, Top Rock, Metal e outras eram obrigatórias todo mês pra mim. E foram com essas revistas que vi as primeiras notícias sobre o novo disco da banda, “Roots”. Fiquei preocupado e com medo que mudassem o som que eu tanto amava!

Quando enfim comprei “Roots”, nas primeiras audições me assustei, pois eles mudaram! Tive um choque! Não que para pior ou melhor, mas mudaram. Mesmo assim, continuei escutando e fui compreendendo que eu e até a “minha” banda evoluímos, crescemos, amadurecemos. Não precisou de muito tempo para “Roots” se tornar mais um clássico para a minha vida.

Obviamente, não perdi nenhum show em território paulistano e, devido aos acontecimentos futuros com a banda, jamais me esquecerei de cada um deles!

Daí em diante a história todos já sabem e estão carecas de saber o que aconteceu. Mudanças aconteceram, tristezas com saídas de integrantes, mudanças de rumo e som (novamente), mas o nome SEPULTURA sempre vai ecoar nos meus ouvidos.

Muitos anos depois, mais precisamente em setembro de 2009, tive o privilégio de escrever a história da banda na Revista Roadie Crew, na famosa sessão chamada Background, dividida em 6 partes/edições e até hoje falam comigo sobre isso, o que me deixa muito orgulhoso. (Edições #128, #129, #130, #131, #132 e #133)

Max, Igor, Paulo e Andreas, obrigado por tudo que vocês criaram, obrigado por crescerem como banda junto comigo e, o mais importante de tudo, obrigado por terem existido em minha (nossa) vida! Nessa vida podemos perder tudo, menos nossas felizes e saudosas lembranças de momentos grandiosos que vivemos.

A banda ainda existe, como todos sabem, vai muito bem, obrigado, com metade da formação “clássica”. Continuo gostando e respeitando muito a atual fase da banda com Derrick Green (vocal) e Eloy Casagrande (bateria)? Sim, claro, bem como todas as bandas relacionadas e criadas após as separações, mas aquela magia, aquela inocência, aquele sangue nos olhos que a “minha banda” tinha jamais voltarão a brilhar novamente. E isso, quer queiram ou não, é um fato.

Um detalhe interessante: participei do videoclipe de “Mindwar” em 2004. Procurem no YouTube e vejam este que vos escreve, especialmente na parte em que são mostrados os espectadores “apreciando” a luta das meninas no ringue.

Quanto à possibilidade de eles voltarem a tocar juntos, apenas o tempo dirá. Só espero que não demorem para se acertarem, pelo menos como pessoas, pois a vida é curta e amanhã tanto eles quanto nós podemos não estar mais aqui para isso. Nesse ponto, será tarde demais, muito tarde. Longa vida ao Sepultura do Brasil!

Johnny Z.
#Sepultura #OrgulhoNacional #MetalNaLata

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