
Banda principal: Shaman
Banda de abertura: Rec/All
Local: HUB RJ, Rio de Janeiro/RJ
Data: 02/12/2018
Produção: OnStage Agência
Fotos por Gustavo MaiatoA reunião da formação original do Shaman era tão improvável quanto foi repentina. Segundo fontes, o acerto foi feito à revelia dos músicos, que tiveram de deixar as diferenças de anos de lado para honrar os compromissos firmados por aqueles que lidam com a grana. Tamanha foi a empolgação nas redes sociais que o que seria uma única data de caráter comemorativo tornou-se uma pequena turnê, passando por algumas das principais capitais do Brasil.
Cá entre nós, o metal melódico já viu dias melhores; há tempos não surge no país uma banda nesse estilo capaz de arrebatar multidões, e mesmo os nomes mais tradicionais não conseguem ter a penetração de outrora com seus lançamentos mais recentes. No seu auge, até música em trilha sonora de novela da Globo o Shaman teve. Clipe na programação da MTV idem. Turnês tocando em casas com capacidade para até 10 mil pessoas. Nada mal para o que começou como uma dissidência com menos guitarras e mais teclados do Angra, não é mesmo?
No último domingo, 2 de dezembro, foi a vez do Rio de Janeiro, cidade tão importante para a história do Shaman, receber a banda. Na expectativa por Andre Matos (vocal), Ricardo Confessori (bateria) e os irmãos Luis (baixo) e Hugo Mariutti (guitarra), mais de mil pessoas de cerca de 30 anos, que provavelmente tiveram em “Ritual” (2002) e “Reason” (2005) suas portas de entrada para o mundo do metal. E foi essa dupla que compôs o repertório da apresentação que ultrapassou as duas horas de duração.
Começando por “Reason”, o álbum que por si só é um lado b, bastaram as primeiras notas da introdução de “Turn Away” para que hímens se regenerassem, prepúcios crescessem novamente e o headbanger de 14 anos que habita em todos nós viesse à tona como um lembrete da época em que nossas vidas eram pautadas por downloads ilegais usando internet discada e sociais no play do prédio ouvindo Iron Maiden e bebendo gummy. Uma das maravilhas do rock é justamente essa: as letras das músicas que marcam nossas vidas, por mais tempo que fiquemos sem ouvi-las, permanecem conosco feito tatuagem. E isso vale até para as mais obscuras, como “Scarred Forever” e “Rough Stone”.
Obviamente, a preparação às pressas resultou em algumas pisadas de bola, sobretudo de Confessori, cuja mão do contratempo parecia estar num andamento independente e improvisado em relação ao conjunto. Hugo, por sua vez, nunca tocou tão bem, exibindo uma limpeza pouco comum, ausente, inclusive, das versões de estúdio – “Innocence” que o diga! Compensou na munheca o visual crente tradicionalista Amish, total fora de sintonia com os colegas. E o que falar de Andre, aquele que foi o primeiro vocalista preferido de todo mundo? O cara visivelmente sofria para atingir a nota em alguns momentos, mas é aquilo: se soubesse que cantaria “Always” depois dos 50, nunca que Jon Bon Jovi teria gravado os vocais naquela altura toda. O mesmo vale para a nossa Musa Nissei-Sansei. Mas ninguém, nem ele, teria desejado que fizesse diferente.
Terminada “Born to Be”, seguiu-se um vídeo com cenas de bastidores das antigas. Enquanto metade assistia, metade fazia a pausa para a cerveja, para o xixi ou para uma fugidinha no estande do merchandising onde era possível se adquirir tudo que é produto com a marca Shaman e a bênção dessa turnê de reunião.
A resposta do público a “Ancient Winds” tocada em fita deixou claro o seguinte: é de “Ritual” que elas gostam mais. Não houve sistema de amortecimento de impactos capaz de evitar os calcanhares doloridos após “Here I Am”, acompanhada aos pulos pela multidão que vista de cima parecia ondular. E tome uma senhora sequência: “Distant Thunder”, “For Tomorrow”, “Time Will Come”; tudo cantado sílaba por sílaba e festejado como um gol em final de Copa do Mundo. Até que o violinista – e “guru musical” – Marcus Vianna subiu ao palco. “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, disse o cara após seu instrumento falhar em “Over Your Head”, provocando uma parada abrupta no som. Mas bastou dizer isso para que toda sorte de pequenas falhas se acometesse do espetáculo: desde pequenos maus contatos até o que parecia ser uma oscilação de volume bizarra no teclado ocasionalmente tocado por Andre.
O clímax da noite veio na forma de “Fairy Tale”, o metal que chegou ao horário nobre e serviu de trilha para Deborah Secco encarnar a vampira mais voluptuosa da história da teledramaturgia brasileira – desculpe, Cláudia Ohana. Até os seguranças e bartenders conheciam essa. Na sequência final, a rave gótica regada a peyote de “Ritual” preparou o terreno para “Pride”, curtida conforme as ordens de Andre: em meio a intermináveis rodas de pogo; maremotos de gente, suor e sorrisos. Ainda sob o efeito da droga mais pesada que se tem notícia – a música -, cantos de “ooooo, o Shaman voltooooou…” ecoaram pela noite do bairro do Santo Cristo. Felizes os convidados para a ceia do Senhor, que viram Jesus – e Jesus Jr.! – em carne e osso neste local de nome tão apropriado.
A abertura, meio que na correria, ficou a cargo do Rec/All, que privado de Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa, ambos em turnê com o Angra, contou com o guitarrista Diogo Mafra e o baixista Raphael Dafras. No repertório, encurtado devido ao tempo, destaque para “Blind”, que teve Luis Syren dividindo os vocais com o filho bastardo de Bruce Dickinson que é o cantor Rod Rossi, e o cover de “Cemetery Gates” do Pantera, em homenagem ao saudoso Mário Linhares. Ao mestre, toda a nossa eterna lembrança.
Setlist Shaman:
Intro
Turn Away
Reason
More (The Sisters of Mercy)
Innocence
Scarred Forever
In the Night
Rough Stone
Iron Soul
Trail of Tears
Born to Be
Ancient Winds
Here I Am
Distant Thunder
For Tomorrow
Time Will Come
Over Your Head
Fairy Tale
Blind Spell
Ritual
Pride
Outro
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