
Banda principal: The Exploited
Banda de abertura: Ação Direta
Local: Fabrique Club, São Paulo/SP
Data: 15/06/2019
Produção: MP Tour Management
Assessoria de imprensa: LP Metal Press
Texto e fotos por Wallace Magri
No final dos anos 80, comecei a me aventurar em shows de Metal. O primeiro deles foi do Motörhead, em seguida o Metallica viria ao Brasil e foi a primeira vez que fui avisado para tomar cuidado com os carecas do subúrbio. Falavam que os caras, se cruzassem com bangers, trucidavam o infeliz e escalpelavam a cabeleira do sujeito.
Se isso era real ou lenda urbana eu não sei, mas o fato é que, em tempos do filme “Warriors – Selvagens na Noite” passando na televisão, eu ia aos shows com cautela, mas nunca trombei com nenhum deles.
O que aconteceu foi que fiquei interessado pelo estilo punk/hardcore, que até então só conhecia por conta de um “Rocket To Russia” que tinha ficado um tempo lá em casa e também por conta de “Nellie, The Elephant”, do Toy Dolls, que tocava na 89, A Radio Rock.
Fui no Centro da Cidade e lá na Sé mesmo comprei o “Descanse em Paz”, do RDP – olhar para aquela capa foi como amor à primeira vista. Toquei aquele álbum pra caralho e, a partir daí, o Punk Rock foi incorporado às minhas vísceras.
Nunca fui muito de colecionar bandas e álbuns, se achava um que gostava, logo estacionava nele: foi assim que parei um tempo no Ratos, depois Sex Pistols, Ramones, Dead Kennedys, até fazer a curva no Suicidal Tendencies e voltar ao Thrash pelo S.O.D e, enfim, Anthrax – The Clash nunca foi minha praia.
O The Exploited teve uma importância mais simbólica do que em termos de contato musical direto, afinal os caras envergavam os símbolos da anarquia e do antissistema – que, por aqui, eu acompanhava de perto através de Olho Seco, Cólera e o próprio RDP. Afinal, o movimento punk acaba se metendo com ideologia, politica, questões sociais, logo, melhor tratar disso por meio de letras que abordam o país em que se vive: o punk vive na atitude contestadora, transformada tornada música ultra energética e direta, em que o esporro e a urgência tratam de passar o recado.
Então, nada melhor do que conferir o recado ao vivo.
Ação Direta:
Embora eu já tivesse encerrado meu ciclo punk e “batido a porta” para novas bandas, já havia escutado o Ação Direta aqui e lá e sei do trabalho de fôlego que desenvolvem no underground nacional, com 8 álbuns lançados, e atualmente contando, além de Gepeto (vocais), Galo (baixo), Marcão (bateria), atualmente com ST. Denis nas guitarras.
A casa tem capacidade para cerca de 500 pessoas, o palco tem uma dimensão bacana e o som está alto, mas não chega a estourar, e a banda estraçalha desde o começo com “Por Qual Razão?”, “Deuses, Dogmas e Violência” e “Dias de Luta”, anunciando a porradaria que está por vir.
A banda, alicerçada no paredão formado pela bateria e pelo baixo na velocidade da luz, nao perde a batida e o velho Gepeto mantém a adrenalina da apresentação no talo o tempo todo. Em musicas mais hardcore, a mão direita do guitarrista ST. Denis dá um toque Metal para a coisa toda, que fica com jeitão muito legal de crossover das antiga.
Gepeto anuncia que tem álbum novo sendo mixado e nos apresentam diretamente saída dos estúdios, “Na Cruz da Escuridão”, que se encaixa muito bem com o repertório antigo da banda. Rola também “Artificial”, single lançado no Dia do Trabalho, que tem clipe rolando no youtube.
Encerram a apresentação primorosamente com um cover do Dorsal Atlântica, “Caçador da Noite”, preparando o ambiente para o público que vai chegando para o tão aguardado show do The Exploited depois que Wattie Buchan andou dando uns sustos na galera com seus problemas de saúde.
Setlist Ação Direta:
Manifesto
Por Qual Razão?
Deuses, Dogmas e Violência
Dias de Luta
Nunca Mais
No Poder
Conspiração
Na Cruz da Exclusão
Zeitgeist
Fatalidades
Massacre Humano
Artificial
Crueldade
Corpo Fechado
Sinais de Pulsação
Caçador da Noite (Dorsal Atlântica)
Pesadelo
The Exploited:
Nunca me liguei muito em ideologia política, especialmente partidária. Quando era garoto curtia esse lance de anarquia, essa postura contra o sistema, mas nunca vinculei isso a ser de esquerda ou de direita.
Sei de todo enrosco do The Exploited e Jello Biafra, quando os roadies da banda supostamente agitaram um “pega pra capar” contra os caras do Dead Kennedys, em Leicester, Inglaterra, em 1982, e o lance do “Nazipunks Fuck Off” e como isso repercute hoje em dia por conta do governo Bolsonaro e a revolta que isto inspira na galera de esquerda.
Nesta noite, curiosamente, parece que o pessoal do “Lula Livre” impera por aqui, mas, seja como for, vim conferir o show pelo som em si e não creio que caras escoceses, como do The Exploited, deem a mínima sobre o que pensamos sobre eles ou pelo o que passamos aqui no Brasil em termos de política. Por sinal, as poucas vezes em que o público tenta chamar a atenção de Wattie, ele invariavelmente responde “What? Can’t Hear, Mate. Sorry” e, naquela sua atitude que se tornou icônica para o movimento punk, segue com sua postura autêntica, que seria algo forçado e datado caso não fosse incorporado por um dos grandes nomes de todo o movimento punk.
Então, se o negócio é focar no som, a banda sobe ao palco às 20h30, trazendo em seu repertório uma serie de clássicos do punk Rock oitentista, iniciando com “Let’s Start a War”, “Fightback” e “Dogs of War” e a casa bem abaixo, com a galera logo abrindo uma roda de pogo – eu fico fazendo o paredão, pois não quero sair da frente do palco nem a pau.
O clima punk toma conta da casa de vez, especialmente quando a guitarra começa a dar pau e embassa para querer voltar a funcionar e o público começa a gritar “Toca sem guitarra, foda-se”. Concordo plenamente, o bicho tá pegando na pista, quem vai se importar com uma guitarra a essas hora? O que não pode é esfriar os ânimos!
Afinal de contas, quem dita a coisa toda são os velhos irmãos Wattie e Wullie Buchan que, contando também com Irish Rob no baixo, transformam a noite num arregaço só, sendo que a pilha da rapaziada só começa a cair lá por “Fuck The System” – a minha, pelo menos, que saio do paredão e vou assistir ao final do show lá do fundão.
No encore, chamam o pessoal da frente para subir no palco e liberam o microfone na mão da geral para executarem uma animada versão de “Sex and Violence”. O show é frenético, a saúde de Wattie não é mais a mesma e nem a nossa – a maior parte do público já passou pelo menos dos 40 anos – então, é hora de encerrar para que possa haver outras vezes e a noite termina com “Punks Not Dead” e “Was It Me”, com um bando de cabeludo, careca, punk, todos saindo satisfeitos com a que acabaram de presenciar. Todo mundo em paz, como deve ser.
Setlist The Exploited:
Let’s Start a War (Said Maggie One Day)
Fightback
Dogs of War
The Massacre
UK 82
Chaos Is My Life
Dead Cities
Alternative
Why Are You Doing This
Rival Leaders
Troops of Tomorrow (The Vibrators)
Noize Annoys
Never Sell Out
I Believe in Anarchy
Holiday in the Sun
Beat the Bastards
Cop Cars
Porno Slut
Fuck the System
Army Life
Disorder
Fuck The U.S.A.
Encore
Sex & Violence
Punk’s Not Dead
Was It Me




















