Upfront Festival – Carioca Club, São Paulo/SP (11/05/2025)
Produção: Agência Sobcontrole
Assessoria: Tedesco Comunicação e Mídia
Texto por Matheus “Mu” Silva
Fotos por Alessandro Vitiello
Em sua segunda edição, o Upfront Festival — evento voltado para bandas de punk, ska, hardcore e suas vertentes — aconteceu no último domingo (11), em São Paulo. Com produção da Agência Sobcontrole, desta vez o festival realmente fez jus ao título de “Festa Punk”, como canta Os Replicantes, trazendo a derradeira turnê de um dos maiores expoentes da história do punk do Reino Unido: o The Exploited, em sua oitava e última passagem pelo Brasil. Além deles, nomes relevantes para o movimento, como os conterrâneos do The Chisel, e quatro bandas nacionais, agregaram ainda mais energia ao evento. A banda norte-americana Fang estava prevista para tocar, mas, por problemas internos, cancelou sua participação. Em contrapartida, as demais bandas tiveram mais tempo de palco, suprindo bem essa ausência.
Na ativa desde 1979, o The Exploited é um dos nomes mais marcantes da história do punk, influenciando diversas vertentes, até mesmo dentro do metal. Com seu som cru, sujo, rápido e cheio de atitude, a banda atravessou décadas destilando rebeldia e agressividade. Em um momento em que o punk se tornava cada vez mais “acessível” e perdia a atitude das ruas, o Exploited mostrava que o respeito às raízes importava mais do que apenas a música. Isso é sentido especialmente em seus discos mais conhecidos, como o clássico eterno Punk’s Not Dead! (1981) e Let’s Start a War (1983), este último também icônico por sua capa. Capitaneada pelo eterno vocalista Wattie Buchan, a banda ajudou a pavimentar o que ficou conhecido como Oi! e Street Punk, além de colaborar no desenvolvimento do crossover — estilo que mistura thrash, punk e hardcore —, cimentando seu nome na história da música pesada.
O festival começou às 15h, com o público chegando aos poucos. A banda Punho de Mahin trouxe seu afro punk enérgico ao palco. Formada em 2018, é uma banda relativamente nova, mas que vem fazendo barulho com sua mensagem urgente em tempos de racismo e machismo estruturais. Com uma musicalidade pesada e elementos tribais, entregaram um show direto e intenso, com 35 minutos de set. Focaram em seu disco de estreia Embate e Ancestralidade (2022), destacando a potente “Marighella”, e estabeleceram o tom de protesto e politização da noite — um ótimo aperitivo para o que viria a seguir.











Às 15h50, foi a vez do Urutu. Representando o que chamamos aqui no Brasil de metalpunk, a banda paulista, formada em 2011 e com quatro EPs lançados, fez um dos shows mais barulhentos da noite. Abusando do peso e da agressividade, mantiveram o clima de crítica social com uma cena do filme A Grande Cidade (1966), em que o personagem Calunga reflete sobre a falta de tempo para viver. Sem interagir com o público, fizeram uma apresentação curta e direta, com 25 minutos de pura velocidade e propósito — a essência do punk.








Às 16h30, começou o show do Escalpo, banda de d-beat/metapunk de Rio Claro/SP, formada em 2020. Promovendo o disco .I. (2023), apresentaram momentos de brutalidade intensa com faixas como “Eviscerando o Opressor” e “A Dor do Açoite”, além de outras com mais groove e peso, como “Retrocedendo” e “Desumanização”. O som da banda estava bem melhor que o das anteriores, que enfrentaram alguns problemas técnicos (sem maiores prejuízos ao andamento do evento). Com 30 minutos de set, o show marcou as primeiras rodas de mosh do festival, evidenciando a resposta calorosa do público ao som agressivo da banda.












Às 17h15, subiu ao palco o The Chisel, primeira atração internacional da noite. Os ingleses, agraciados com camisas do Palmeiras ao chegarem ao Brasil, estavam em sua primeira passagem pelo país e já haviam feito um show solo no La Iglesia, além de acompanhar o The Exploited em outras datas da turnê. Formado em 2020, o quinteto trouxe um punk agressivo com pegada do final dos anos 80 e foi calorosamente recebido. O destaque foi a energia do vocalista Callum Graham, que não parou um minuto, cumprimentando o público na grade e comandando um set implacável com músicas como “Fuck ‘Em”, “Bloodsucker”, “Nice to Meet You” e “No Gimmicks” — todas do novo disco What a Fucking Nightmare (2024). Como era o último show da turnê, a banda se entregou por completo, abrindo rodas de mosh e promovendo um verdadeiro caos punk. Com 30 minutos de set, saíram ovacionados e certamente motivados a voltar ao Brasil.






Após a troca de palco, às 18h30, a maior lenda do punk nacional, Ratos de Porão, incendiou o Carioca Club. Pode-se criticar o João Gordo fora do palco, mas ao vivo, ele e seus asseclas — Jão (guitarra), Juninho (baixo) e Boka (bateria) — ainda entregam um show arrebatador. Parafraseando a música “Caos”, foi exatamente isso que aconteceu. Com mais de 40 anos de carreira e uma discografia recheada de clássicos, levaram o público ao delírio com hinos como “Amazônia Nunca Mais”, “Beber Até Morrer” e “S.O.S. País Falido”, do eterno Brasil (1989). Surpreenderam com faixas menos comuns no set, como “Exército de Zumbis” (do split com Looking for An Answer, 2010) e “Difícil de Entender” (Carniceria Tropical, 1997). Aliás, “difícil de entender” também pode descrever o vocal de João Gordo nos últimos anos — ele parece mais grunhir que cantar, o que já virou uma característica da banda. Gordo ainda fez uma brincadeira sobre a situação de saúde de Wattie, misturando zoeira e preocupação. Encerraram com “Aids, Pop, Repressão” (Brasil, 1989) e “Eu Não Sei” (Sistemados pelo Crucifa, 2001), no show mais extenso da noite: 55 minutos celebrando a longevidade do RDP.







Finalmente, às 20h, os donos da noite, The Exploited, subiram ao palco — mas incompletos. Havia apreensão quanto à apresentação, pois Wattie Buchan teve problemas sérios de saúde durante a turnê. O show em Belo Horizonte foi cancelado, e em sua apresentação no Rio, na noite anterior, ele chegou a vomitar sangue e saiu do palco após a terceira música. Em São Paulo, a produção informou que Wattie foi diagnosticado com pneumonia e, devido à idade avançada, sofreu bastante com os efeitos da doença.
Mesmo assim, a banda deu um jeito de fazer o show acontecer. Contando com a ajuda de amigos, Callum, do The Chisel, subiu para cantar algumas faixas, como “Chaos in My Life” (Fuck the System, 2003), dizendo que aquilo era um sonho realizado — e ele honrou isso, agitando loucamente. Apesar do esforço, o clima de frustração era perceptível. Quem estava na frente agitou muito, mas do meio para trás, muitos apenas observavam. Isso mudou com dois clássicos: “Beat the Bastards” (Beat the Bastards, 1996) e “Fuck the System” (Fuck the System, 2003), que reacenderam a plateia com mosh intenso e crowd surfing.
Para seguir com o show, convidaram João Gordo para cantar algumas músicas. A banda afirmou que “não tinha como ficar melhor”, demonstrando satisfação com a participação do vocalista. E, dedicando uma faixa ao atual presidente dos EUA, tocaram o hino “Fuck the USA” (Troops of Tomorrow, 1982), encerrando com “Sex & Violence” (Punk’s Not Dead!, 1981). O público invadiu o palco — ao menos 30 pessoas — e o guitarrista chegou a entregar sua guitarra para Jão, do Ratos de Porão, tocar. Foi um momento de anarquia divertida e marcante, mostrando o quanto a banda é querida por aqui.










Em um evento plural, o Upfront Festival acertou ao escalar bandas com personalidade, todas orbitando o universo punk. A única ressalva foi o infeliz episódio com Wattie. Afinal, era o último show do The Exploited no Brasil, e, mesmo com todos os esforços para que a apresentação acontecesse, ficou uma sensação agridoce. Quem já viu a banda antes, talvez tenha sentido menos. Mas para quem, como eu, a viu pela primeira vez, foi inevitável sentir o impacto da situação. Ainda assim, valeu muito a pena. A banda merece todos os créditos por ter se doado 110% para fazer o show acontecer. Que a música do The Exploited continue influenciando gerações, como vem fazendo há 46 anos.





