Sonata Arctica: Discografia Comentada

sonataarctica_00
Compartilhe

DISCOGRAFIA COMENTADA: SONATA ARCTICA

Por Gustavo Maiato

“Eu seria um homem miserável se todas estas músicas fossem sobre mim. Além disso, estaria na cadeia, morto, completamente louco e internado!”. (Tony Kakko)

A Lapônia é famosa por ser a terra do Papai Noel, mas quando Jani Liimatainen, Marko Paasikoski e Tommy Portimo, no altos dos seus quinze anos, fundaram o Tricky Beans, em 1995, a gélida região ao norte da Finlândia passaria a ser conhecida também como lar de uma das bandas mais bem-sucedidas do Power Metal: o Sonata Arctica (sim, ainda bem que eles mudaram de nome).

Assim, ao longo de nove discos, muita sofrência, solos virtuosos, e músicas de 240 bpm – como “Kingdom for a Heart”, o campo semântico ao redor de Tony Kakko e cia foi se formando: traições, amores não correspondidos, uma pitada generosa de desilusões, mortes, e, é claro, lobos e mais lobos.

No aspecto musical, colocando em perspectiva, a discografia é claramente dividida entre A.U e D.U, ou Antes de Unia e Depois de Unia, disco onde a banda abandonou a gaiola conceitual do Power e alçou voo rumo a diferentes experimentações. Agora, vamos descobrir o que fez com que os garotos da pequena cidade de Kemi ganhassem o mundo nesse primeiro um quarto de século de carreira.

“Ecliptica” (1999)
“Bem vindo a minha terra”

A fundação da era Power Metal puro-sangue começou a ser desenhada aqui, em um disco uniforme musicalmente, mas que atira para todos os lados quando o assunto é temática das letras: sensação de perseguição num mundo de tecnologia (“Blank File”, isso em uma era pré-Facebook, Instagram e WhatsApp), metáforas com o Magico de Oz (“Kingdom For a Heart”), frustrações de um veterano de guerra (“Replica”) e, é claro, lobisomens em “Full Moon” e a primeira aparição de Dana, em “Letter to Dana”, essa que foi um ex-namorada de Tony e cuja história é um tanto quanto trágica.

Já “8th Commandment”, ou o oitavo mandamento, é o nome da música que melhor sintetiza essa fase de ouro do Sonata Arctica, com uma melodia inspirada, um riff de guitarra pesado, veloz e chiclete de Jani e a velocidade tradicional de Tomy na bateria, gastando o pedal duplo. A voz de Tony, no geral, ainda é um pouco crua, com agudos estridentes, mas já com a marca do seu excelente timbre. As harmonias com back vocals, traço forte do som dos finlandeses, começa aqui a ser desenhada, com Jani assumindo o protagonismo nessa área. Os teclados, tocados por Tony, dão as caras principalmente na divertida “UnOpened”, na introdução de “Destruction Preventer” e em “My Land”, essa com uma interessante interpretação do conceito de territorialidade.

Assim, “Ecliptica” catapultou o quarteto ao sucesso instantâneo, mostrando uma banda que já sabia o que queria logo de cara. A influência do Stratovarius é latente, mas ao apostar num vocal um tanto quanto grave para o modus operandi do gênero, o Sonata chamou atenção e mostrou ao mundo uma faceta pouco explorada do Power. Essa fórmula mágica perduraria por alguns anos ainda, concretando as fundações e criando um selo de qualidade que, sem dúvidas, marcou uma época. Afinal, quem nunca cantou “Run away! Run away! Run away!” no refrão de “Full Moon”, não ouviu Power Metal direito!

 

“Silence” (2001)
“Oui Oui mon amour! Cést moi!”

Quem inventou aquela história de que “menos é mais” certamente não fez a cabeça do nosso agora quinteto, com a adição do tecladista Mikko Härkin. Assim, “Silence” retoma as características de seu antecessor e amplifica, com mais velocidade, mais solos, letras melhores e mais baladas espetaculares. Baladas, por sinal, que começam a ganhar destaque, com a obscura “Sing in Silence”, a teatral “Last Drop Falls” e a icônica “Tallulah”, seguindo a vocação de músicas com nomes femininos. Do outro lado, “Weballergy” (continuação conceitual de “Blank File”), “False News Travel Fast” (cujo último verso é cantado por Timo Kotipelto), “San Sebastian” (inaugurando o estilo de introduções com leads de teclado + bateria rápida) e “Wolf And Raven” (olha o lobo aí de novo…) encorpam o time das músicas velozes.

“Silence” apresenta, ainda, o começo da saga de Caleb, em “The End of this Chapter”. Na música, ouvimos um diálogo entre um ex-amante desiludido e psicopata e sua ex-amada. Mais tarde, descobrimos que esse é o começo de uma história que envolveria outras músicas em outros discos, mas isso é história para os próximos capítulos. Outra música icônica do disco é “Black Sheep”, com uma letra elaborada e aquela pegada nem balada e nem veloz que funciona muito bem com o Sonata.

Mais do que uma mera continuação de “Ecliptica”, “Silence” transcende pela força de suas próprias músicas. Para uma banda ainda em início de carreira, foi muito fácil perceber o que estava dando certo e apostar nisso. É o famoso “time que está ganhando não se mexe”. Ainda por cima, o Sonata começou a ser reconhecido pelo grande talento e virtuosismo de seus músicos, com o guitar hero Jani, principalmente, voando baixo. No disco seguinte, porém, os teclados começariam a ser tratados de maneira mais especial e o reinado de Jani como único virtuoso seria ameaçado.

 

“Winterheart’s Guild” (2003)
“Are you ready for some underwear music?”

Dessa vez, foi quem inventou aquela história de que “um é pouco, dois é bom e três é demais” que certamente não fez a cabeça do nosso quarteto (sim, Tony voltou aos teclados). O terceiro disco do Sonata Arctica, “Winterheart’s Guild”, seguiu firme no Power Metal, e apresentou ao mundo “Victoria´s Secret”, com um épico duelo de solos entre Jani e o tecladista convidado, ninguém menos que Jens Johansson, do Stratovarius. Outro ponto alto é “The Cage”, um verdadeiro hino à liberdade, além de “The Misery”, talvez a melhor balada da carreira da banda, com o poético refrão: “If you fall, I will catch, if you love, I will love”.

Já “Broken” é mais uma daquelas representantes do meio termo entre balada x velocidade, e acerta no ponto, com uma bela melodia e uma letra bem sofrência de Tony. O disco ainda conta com um cover de “Fade to Black”, do Metallica, que ganhou uma roupagem ainda mais desesperada e dramática aqui. Outras menções honrosas vão para a introdução de “Abandoned, Pleased, Brainwashed, Exploited” com velocidade e um belo timbre de teclado e para a balada “Gravenimage”, mais uma excelente composição lenta tirada da cartola.

Para os fãs, “Winterheart…” foi um prato cheio: teclados vibrantes com Jens fazendo participações especiais (ele também tocou em “Silver Tongue”, “The Cage” – cuja introdução é um solo de teclado de mão cheia, e “Champagne Bath”), Tony cantando com mais maturidade e tudo encaixadinho com muita criatividade, sem querer inventar muita moda. Para o próximo disco, no entanto, as coisas começariam a ser muito diferentes, com a banda dando um passo tímido, porém importante, em direções distintas.

 

“Reckoning Night” (2004)
“Sente, observe e aprenda”

Apenas um ano depois do último trabalho, lá estavam os finlandeses lançando mais um disco, o primeiro com a entidade Henrik “Henkka” Klingenberg nos teclados, dando de vez um rosto para esse instrumento tão importante para a banda. A mudança nesse quesito é evidente, principalmente com a adição de timbres diferentes, como uma espécie de rock organ em “Misplaced” e “Don´t Say a Word”. Essa última, uma das melhores músicas da carreira do Sonata, com um refrão que sempre bota as casas de show abaixo. A propósito, trata-se de mais uma música da saga de Caleb.

Uma grande novidade foi uma maior elaboração dos arranjos, como em “White Pearl, Black Oceans…”, uma narrativa que daria muito bem um filme contando a história de um garoto que vivia em um farol até que sua vida mudou repentinamente abordo de um navio. É claro que as melações ainda estão lá, como “Blinded No More”, e outro grande destaque é “My Selene”, inteiramente composta por Jani, mais uma no hall das canções com nomes femininos. Por fim, a essência Power ainda está lá, mas alguma coisa no âmago das canções apontava para um big bang que expandiria o universo da banda para múltiplas direções, criando novas forças e elementos.

 

“Unia” (2007)
“Um álbum difícil de amar… ou de odiar”

“Unia” (“Sonhos”, em finlandês) é o que acontece quando você repreende dentro de si sua própria musicalidade e de repente você se encontra completamente livre de todos os arcabouços que você mesmo criou que limitavam seu olhar ao redor. É claro que, na prática, isso significa se afastar do Power Metal / zona de conforto e adentrar aos experimentalismos progressivos, sem aquela métrica regular e estrutura de composição reta.

A grande estrela do disco é o single “Paid In Full”, que fala sobre o resgate do amor próprio e de como lidar com o término de um relacionamento, com um arranjo enxuto e letra de deixar o queixo caído. O resto das faixas, entretanto, sofrem um pouco com, talvez, uma certa inexperiência em criar fora do comum. Porém, “In Black And White”, “Fly With the Black Swan” e “Under Your Tree” merecem menção pelo ótimo trabalho de Tony, agora mais interpretativo e brincando com sua própria voz.

Certamente instável, o disco marca a saída de Jani das guitarras e a guinada da banda para o desconhecido. A música “Caleb”, a propósito, continua a saga que leva seu nome, mas é um tanto confusa e acaba passando um tanto quanto despercebida. Desde então, nunca o Sonata Arctica fez dois discos seguidos com a mesma pegada e isso pode ser bom ou ruim, afinal, mesmo o relógio parado mostra a hora certa duas vezes ao dia.

 

“The Days of Grays” (2009)
“Sonata goes Symphonic”

Com a alforria garantida das amarras do gênero que os consagraram, o Sonata Arctica resolveu ver o que aconteceria se resolvesse virar uma banda de Symphonic Metal. A julgar por “The Days of Grays”, único álbum essencialmente sinfônico da banda, os finlandeses sabem e muito compor nessa vibe. O disco, que ganhou uma versão orquestrada sem linhas de voz, bota a banda de novo nos trilhos com hits como “Flag in the Ground” (que havia sido lançada no primeiro demo, sob outro nome), a pesadíssima “The Last Amazing Grays” e a shakespeariana “Juliet” (que encerra a saga Caleb).

O Sonata não costuma chamar convidados para seus álbuns, mas a participação e Johanna Kurkela nos vocais de “Deathaura” certamente marcou o disco. Ela também canta em “No Dream Can Heal a Broken Heart”, mas foi na primeira que sua voz doce mais harmonizou com a proposta da banda. Para não deixar passar em branco o quesito balada, a bônus, “In The Dark” é uma rara letra feliz sobre amor romântico da banda, portanto, deve ser ouvida com carinho, não é sempre que Tony deixa de lado a sofrência, e não que isso seja ruim…

“The Days of Grays” é quase como um álbum a parte da discografia da banda, fortemente influenciado pelas orquestrações de Tuomas Holopainen no Nightwish, grande amigo de Tony Kakko. Assim, o melhor disco da fase D.U (Depois do Unia) é uma verdadeira homenagem ao sinfônico, estilo irmão do Power que costuma proporcionar uma ótima mistura.

 

“Stones Grow Her Name” (2012)
“E se seu paraíso for o inferno de outro?”

Elias Viljanen já havia assumido as guitarras no disco anterior, mas em “Stones Grow Her Name” é onde vemos uma maior alteração no que concerne as seis cordas: isso se traduz principalmente em riffs pesados logo de cara como em “Only The Broken Hearts (Make You Beautiful)” e “Shitload of Money”. Assim, o disco é o mais cru e pesado da banda, se afastando demais do Power Metal, mas sem perder essa atmosfera completamente (a bonita “Alone in Heaven” e a folclórica “Cinderblox” são belos espécimes que se encaixariam na primeira fase da banda).

Com “Stones…”, Tony Kakko continua mostrando boas interpretações, como no refrão de “Somewhere Close To You”, mas no geral, o nível de exigência do disco é baixo, e é como se os músicos operassem com 50% de sua capacidade. Por outro lado, o essencial está lá, mostrando que a banda consegue mesclar melodias chicletes mesmo com o foco quase exclusivo na guitarra. No final, além disso, temos duas continuações da música “Wildfire”, cuja primeira parte havia sido lançada no “Reckoning Night”.

É nítido que o Sonata deixou de simplesmente buscar um direcionamento, ou uma uniformidade para chamar de sua. A ideia passou a ser fazer o disco que desse na telha, e isso foi muito bom para eles, os acertos foram maiores que os erros. O Power do passado, entretanto, é com certeza o que melhor eles sabem fazer, e foi justamente esse entendimento que fez com que eles retomassem essas raízes no próximo disco.

 

“Pariah’s Child” (2014)
“A reconciliação com o passado”

A julgar pelo lobo em destaque na capa, “Pariah’s Child” já foi esperado com o velho bordão da “volta às origens”. Essa volta, porém, veio no contexto de uma evolução que a banda passou ao longo de todos esses anos, e o Power Metal aqui é muito mais sofisticado e menos bate estaca, é um Power Metal com compasso 5 por 4, com música épica de 10 minutos, com camadas muito mais profundas que “Ecliptica” e “Silence” não ousaram cavar (e fizeram muito bem em não o fazer).

De cara, “The Wolves Die Young” vem com uma letra que faz pensar e ótimas melodias, “Running Lights” é a ode à velocidade, e “Take One Breath” traz um trabalho de teclado muito bom de Henkka. Assim, todas as músicas de “Pariah’s…” têm suas próprias personalidades, mas isso não faz com que o disco soe desconexo. Por exemplo, um certo mistério ronda “Blood” e “What Did You Do In The War, Dad?”, mas uma aura de felicidade nos atinge em “Half A Marathon Man” e na divertida “X Marks The Spot”.

Colocando em perspectiva, é justo chamar de volta às raízes, pois a faceta virtuosa deu as caras, bem como o teclado que andou meio esquecido no disco anterior. Um dos grandes destaques do disco é a última música, “Larger Than Life”, uma homenagem ao mundo do teatro, com muitas passagens distintas, solos, riffs, melodias, coros, interpretações e tudo mais que tem direito. A balada “Love” também marcou, como em (quase) todo disco do Sonata.

Dessa forma, a fase Depois do Unia teve seu representante melódico, e calou os críticos de que a alma dos finlandeses estava perdida. Porém, como virou tendência nesses anos, a roda teria que girar de novo e, para infelicidade geral da nação, o caminho que a banda seguiu foi tortuoso, o que resultou no disco mais fraco de toda discografia dos reis nórdicos.

 

“The Ninth Hour” (2016)
“Um pouco de tudo e muito de nada”

Um single com a frase “Life is better alive”, uma continuação para “White Pearl Black Ocean” do estilo “não mexe com minha música favorita”, uma música sobre aquecimento global, a ausência de uma balada digna e tentativas de Power Metal com melodias que não convencem fazem de “The Ninth Hour” um disco, no mínimo, fraco, para não dizer decepcionante. Pegando uma lupa, vemos momentos bons, como “Till Death´s Done Us Part” (uma pegada meio sinfônica agressiva interessante) e, talvez, “We Are What We Are” e “Closer To An Animal”.

Mas o que aconteceu, afinal? Simples, o big bang iniciado em “Unia” uma hora haveria de criar uma força fora da curva, como é natural em todo processo onde o imperativo seja o “atirar para todos os lados”. “The Ninth Hour” é bem produzido, tem ótimos timbres de guitarra e teclado, e tudo mais, mas falta música boa, falta hit, falta tudo, as músicas rápidas não animam, as lentas não emocionam, e assim fica difícil sustentar as 12 faixas.

Olhando pelo lado positivo, músicas como “Fly, Navigate, Comunicate” vão para uma linha de experimentalismo nas linhas vocais que pelo menos soam interessantes e originais, mas o disco perde por não se aprofundar em nenhuma de suas características. Algumas letras são estranhas, como “Fairytale” e seu aquecimento global (tragam meus lobos e desilusões de volta!) e “Life”, uma tentativa de ode à vida, mas um tanto quanto piegas.

Agora, resta saber quais ventos vão soprar e para onde o barco finlandês vai apontar. A esperança é que a roda mude mais uma vez e volte o Power, ou a faceta sinfônica. Não necessariamente é preciso pensar em coesão ou uniformidade, a única constante que deve haver aqui são bons discos, e isso, justiça seja feita, o Sonata Arctica sempre soube fazer.

Compartilhe
Assuntos

Veja também